A Casa Rosada no cair da tarde

Buenos Aires, 21 de setembro de 2010 (02:15)

O vôo foi mais conturbado que o normal. O céu estava limpo, azul forte, quase sem nuvens. Mesmo assim o avião passou por turbulências durante as quase três horas em que eu fiquei com os pés fora do chão. É incrível como toda viagem é igual: sanduíche de plástico, a voz padronizada da aeromoça e todas as pessoas com um medo secreto que se percebe pelo olhar. Esse temor, aliás, é a única coisa autenticamente humana de uma viagem de avião.

Quando cheguei ao aeroporto já percebi de cara que Buenos Aires, de certa forma, é uma cidade mais desenvolvida que São Paulo. Mas o processo parece se inverter: a primeira pessoa que me atendeu – comprei dois potes de doce de leite pensando em você e também em trocar cem pesos – era uma brasileira, a primeira de muitas que encontraria nesse primeiro dia. Somos uma praga em Buenos Aires, estamos em todos os lugares. Às vezes parece que tem mais brasileiro aqui do que argentino. Temos dinheiro para gastar, como eles tinham no começo dos anos 1990 para visitar as praias de Santa Catarina.

Do lado de fora do aeroporto, pensei em pegar um táxi ou um ônibus fretado. Os dois, porém, eram mais caros do que o justo e decidi enfrentar o coletivo. Com um peso e vinte centavos fui para um local completamente desconhecido. No caminho, em uma viagem que durou quase duas horas em um ônibus incrivelmente velho, percebi que as bandeiras argentinas tremulam por todas as partes e que a recente crise assolou os bairros de periferia. Pobreza como a brasileira. Normal: como em qualquer país subdesenvolvido a maioria das pessoas se ferra. Cartazes do filme do Lula e propagandas da Brahma me chamaram atenção para a influência que o Brasil começa a exercer. Somos os futuros imperialistas da América do Sul; as histórias sempre se repetem.

Claro que me perdi, não fazia ideia de onde estava e uma velhinha me ajudou, desceu comigo e me levou até o ponto para pegar o ônibus certo. Mas sério, era tão velha que nem sei se chegou viva em casa. Consegui, depois de duas horas, chegar ao hotel. Bem modesto, sem nada para se destacar, a não ser o tamanho enorme, com sala, quarto, banheiro e uma cozinha dispensável. Tão pequena, aliás, que nem conseguiríamos cozinhar muita coisa. Lembra um pouco a cozinha do 1818, mas menor. O chuveiro faz um barulho sibilante ensurdecedor, o boxe inunda e as toalhas fedem.

Cheguei ao quarto, guardei tudo e sai em direção ao Obelisco. Para não ser um turista da CVC, peguei o metrô – podre, velho, mas eficiente – e cheguei na Avenida 9 de Julho. Tive um choque tão grande que não consigo me expressar. O lugar mexeu comigo de um jeito esquisito, parecido com a primeira vez que vi São Paulo. A avenida é larga. Todo mundo sabe. Mas só vendo ao vivo para se ter noção. Essa região de Buenos Aires é muito mais bonita e charmosa que Milão, por exemplo.

Andei muito pelo centro, horas e horas. Por todos os cafés que passava me lembrava de você: em todas as esquinas um novo café. Lugares tão charmosos que a vontade é ter uma overdose de cafeína, nem dá tanta vontade de tomar cerveja. O café, o cigarro e o flanar são as três peças fundamentais dessa cidade que transpira cultura como eu nunca vi. Em Buenos Aires basta caminhar para ser um visitante feliz. Quem mora aqui, percebe-se pelas expressões, nutre um misto de amor e ódio parecido com os paulistanos. A capital argentina tem todos os problemas de São Paulo, com uma diferença: é uma cidade construída para proporcionar beleza. Pelo menos nesta área a arquitetura foi pensada como manifestação cultural e poética. Não se buscou apenas a eficiência ou a resolução de problemas: a cidade foi erguida por pessoas com bagagem cultural, que com certeza se interessavam por literatura, por música, por moda, por cinema. Que se interessavam pela beleza.

O Café Tortoni: fila para entrar, mas vale a pena

Essa é a grande diferença de Buenos Aires para São Paulo. A formação cultural já está solidificada, o que faz com que eles ressurjam de uma crise arrasadora com a mesma elegância de outros tempos. A cidade, intacta de beleza, é culturalmente inatingível. É um museu a céu aberto que resiste bravamente ao conservadorismo e aos desajustes mentais dos homens de poder. Na Casa Rosada, enquanto por lá eu passeava, de repente, centenas de jovens argentinos invadiram as ruas cantando e empunhando faixas de protestos. Não eram vagabundos, eram trabalhadores que depois de seus trabalhos, em plena terça-feira, foram reclamar por seus direitos. Arrepiei-me com a cena, até filmei. Aquilo era tão sincero. No cair da tarde, na cidade mais fantástica que já tive a oportunidade de conhecer – arrisco dizer mais do que Bolonha – tomei mais um café, pensei um pouco mais em você e voltei acabado para o hotel com a intenção de te ligar e você me atender.

Em Buenos Aires, todo dia é dia de protestar

Termino escrevendo essa primeira carta, que espero continue. É uma forma de você também estar aqui comigo e compartilharmos essa experiência maravilhosa de descobrir um lugar, de andar pelas ruas com olhar puro e até meio bobo e idealizado. Viajar é voltar a ter aquele olhar da criança, em que tudo parece extraordinário, tudo parece meio mágico. É como quando te conheci e as coisas ganharam uma nova cor. Quando conheci Buenos Aires senti algo bem semelhante. Sinal claro de que estou apaixonado pela cidade como descubro que continuo apaixonado por você.

Algumas dicas de visita:

Obelisco e outros monumentos do entorno – Avenida Nove de Julho

Casa Rosada – Praça de Maio

Café Tortoni – Avenida de Maio, 825

Casa da Cultura – Avenida de Maio, 575

Palácio Barolo – Avenida de Maio, 1300

Teatro Colón – Cerrito, 618

Teatro Municipal San Martin – Avenida Corrientes, 1530

Paseo La Plaza – Avenida Corrientes, 1660

Obs: para chegar ao centro de Buenos Aires você pode descer nas Estações Tribunales, Nove de Julho ou Catedral, todas da linha verde do metrô. Na estação Nove de Julho e Catedral rola uma baldeação com outras linhas. Para ir do aeroporto para o centro sem gastar quase nada é só pegar o ônibus número oito. O único problema é que precisa pagar a condução com moedas. Outra alternativa é comprar em qualquer lojinha do aeroporto um cartão que você carrega, tipo um Bilhete Único.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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