Era o intervalo de não lembro mais o que… Um sono das pálpebras embriagadas e a boca seeecasecaseca. Conectadas todas aquelas lamentações e citações, algumas até em inglês… Pequenas distrações com imagens cibernéticas e sorrisos cobrindo jornais de falsas esperanças. Blábléblí mamãe debutei coca-cola quero disneylandiar agora. Allok minha filha-anyway com emoções espanholas. Garotada esperta. Copia e cola e copia e…

O quê? Não tô lembrando!?… Ah, sim, domingo.

O domingo das facas sujas apontadas na minha direção. A cozinha exalava champanhe de aluguel para salvação. Em algum cômodo a televisão mudamente sintonizada no leilão de cavalos marchadores. Se tivesse grana até comprava algum. Vitória no troféu felicidade posto de gasolina mais barata do momento. O despertador com pilha fraca falha nas onze. O abajur Anda luz ia e o cobertor francês fabricado na China. O rádio no delta blues cego das montanhas.

Cochilei…

 

Mulheres-robôs tomavam pílulas em formato de morango. Nietzsche viajou num trem de chumbo para pedir um sobretudo emprestado no frio da Sibéria. O maquinista (demasiado-     lento) perdeu o controle e não viu o psicólogo que já estava longe penteando sua barba das noites brancas e conversando com a criançada sobre a fundação de Tróia. O vinho delirava suas canções por entre lápides e dicionários – Marcus James, James Joyce, Jingle Bells ou A Princesa Xuxa e os Trapalhões na reprise? -, cerveja um quarto e um tararatimbloom! Joey o ReidasRuas decorando casas com coroas de barro enquanto o soldado latim repete frases dos desenhos animados metido a Newton Cruz rezando no drive thru das orações do final da avenida Paulista. O cão bravo ladra alto na vizinhança (lui, c’est moi!), ele pensa que é um pianista cego/virtuoso sem que nenhuma placa de portão diga o contrário. O banqueiro em pé no pontocoletivo lotado de ligações perdidas e cadeados de bicicleta. Apostando. O livro de bolso não cabe no bolso. Claro que o livro de bolso cabe no bolso. Quer apostar? O que? Um livro de bolso. De quem? Do escritor pensando nos leitores que ainda não nasceram, daquele livro que ainda não escreveu. Nossa sorte entregue a tudo que cabe dentro desse nosso processador cérebroestomacal. Isso não tem nada a ver com a nossa aposta. Pode ser. E o Tradutor? Que se vire. Então fodão-se todos nós. Com a-o-~? Isso, conjugado no futuro perfeito. Existe algum futuro perfeito? Conjugado? Singular. Lá? Lar. F. no futuro perfeito e nada mais. E o vencedor é…

O cabelo da mocinha estava em chamas e a plateia estava curtindo… O galã escalava uma teia de aranha dentro da garrafa do pirata maquiado… Eles se encontram no final e alguém vence o jogo de vídeo game das pesquisas de opinião. A sirene ensurdecia as velhinhas que agitavam bandeiras na porta do palácio do governo. A autoridade calibrava suas máximas voando num helicóptero desfigurado: “Auto Max, menos atos, manda atas, idade mínima, incinera essa praça!” Max, seu assessor pessoal, um lacaio à moda antiga vestindo tendências atuais (artesanato-político-pornográfico-publicitário-latrinário-estudantil-esferográfico). O helicóptero perdeu força e caiu no ártico consciente do fim do mundo. Os vagabundos tomaram o poder num gole só e decretaram uma semana de festa na pátria dos aminoácidos, com direito a mensagens de Van Gogh, Filonóv e Picasso na tela dos celulares e promoções das operadoras operantes do pensamento! Totalmente bêbados eles naufragavam iates na baía de relógios dourados enquanto as madames escondiam suas bolsas sapo-jacaré-da-amazônia-importadas na entrada do cinema. O bilheteiro foi namorar com a garçonete da sorveteria a quilo na escada de emergência do shopping e as nobres senhoras patrocinadoras não conseguiram assistir a sessão… Mas o filme foi um sucesso mesmo assim!

 Acordei.

 

Levantei. Meio vacilante. A boca ainda muito seca. O som do cachorro chato se misturava aos risos altos que vinham da festinha do vizinho chato de cima. No caminho da cozinha, as lembranças daquele sonho estranho e cheio de fumaça. Desliguei o rádio.  As duas taças vazias na pia indicavam o fim do lapso temporário de memória. “Traz um pouco pra mim também…”, foi a confirmação. Não estava sozinho. Mas quem seria mesmo? As botas jogadas na sala. Ela ainda estava no lugar onde deveria estar. Voltei pro quarto. “Vem deitar vem… tava tendo um sonho tão bom…”

Uma senhorita meio mística meio virgem, olhos de mel e cheiro de veneno, traços indígenas e cabelos desgrenhados. Afrodite em pessoa ou uma parente muito próxima: não está nem ai pro lugar da moda e nunca passou pela liquidação para usar a própria pele sob (e sobre) o lençol. A voz doce, cheia de sotaque, me fez recordar de algumas vidas anteriores onde nós já havíamos passado muitos momentos juntos. Os melhores: na Cama. Beatriz.

“Acho que estou naquele sonho doido ainda”, eu não poderia esquecer de uma deusa das florestas milenares, indefinível pelo meu pequeno vocabulário poético,  deitada na minha cama, embora eu sempre esqueça muitas coisas ao acordar com essas crises de déficit de atenção e lapsos de sonho profundo. Talvez seja apenas a Comédia na minha cabeceira.  Desliguei o abajur. “Acho que nem fui a cozinha beber água…”

 A areia da praia foi tragada por carteiras escolares, as balas perdidas pulavam na grama como lentes de conta-to e o m ar co-m e-ç ou  …

 “Já voltou a dormir? Perdi o sono… fica um pouquinho comigo? Tá muito frio… deixa eu te cobrir…”

“Estava quase dormindo de novo… acho que agora perdi o sono também. Pode cobrir…”

 Lembrei do que se tratava o intervalo…

Thiago Cicarino colabora (e muito) para esta segunda-feira do Sete Doses.

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