“Rodriguinho barra limpa, primeiro realista mágico de Niterói, avisa ao tio Lee que a ordem do dia é fralda larga e leite morno.” O que era para ser apenas um telegrama de Sergio Mendes para o amigo e pintor Wesley Duke Lee festejando o nascimento de seu primeiro filho, Rodrigo, no dia 6 de abril de 1964, transformou-se em adeus para o pianista e compositor.

O golpe acabara de eclodir no Brasil e, no dia seguinte à correspondência, em mais um atestado de ignorância completa, empunhando suas metralhadoras os militares invadiram o apartamento de Mendes na Rua Belisário Augusto, em Niterói, para prendê-lo por julgarem o conteúdo da carta subversivo. Sete meses depois, correndo atrás da liberdade improvável no Brasil daqueles tempos, com a ajuda de um amigo do Itamaraty, ele armou a fuga para os Estados Unidos, onde vive até hoje, na Califórnia.

Com as mãos aparentemente frágeis e trêmulas, Sergio Mendes levanta uma xícara grande de cappuccino para molhar as palavras que contam tantas histórias de hoje e de tempos atrás. As do presente dizem respeito a seu 43.º disco, Bom Tempo, lançado no mundo inteiro neste ano e ao show que ele faria no palco principal do North Sea Jazz Festival, em Curaçau. As do passado remetem às lembranças artísticas, como seu primeiro álbum, Dance Moderno, que em 2011 completa 50 anos, e às recordações afetivas como a vida nos Estados Unidos, onde mora há quase cinco décadas, e a distância de Niterói, sua cidade natal.

A saudade do berço fluminense é tamanha que até a placa do carro de Mendes, na Califórnia, traz escrito “Niterói”. “Carrego com muito orgulho e carinho. Ninguém lá sabe o que significa. Tem cara que vem me dizer que é ‘nite roi’, o rei da noite. Foram tempos incríveis em Niterói e no Rio, o convívio e as jam sessions no Beco das Garrafas. Você nunca perde o lugar onde nasceu. Isso nunca mais sai da sua alma”, diz o compositor.

Em fevereiro, Mendes faz 70 anos com vitalidade e memória surpreendentes. As apresentações pelo mundo inteiro não cessam e as histórias são relembradas em ordem cronológica, com data, local e detalhes definidos.

A ida para os Estados Unidos com um grupo recém-formado, integrado por ele, Jorge Ben, Chico Batera, Tião Neto, Wanda Sá e Rosinha Valença, as diferentes formações do Bossa Rio – com o qual gravou discos antológicos, entre eles o revolucionário Você Ainda Não Ouviu Nada, de 1963, com arranjos de Tom Jobim e seu professor Moacir Santos para big band na época em que imperava o violão intimista da bossa nova -, do conjunto Brasil 66, e as amizades, as gravações e os shows com uma lista enorme de lendas como Frank Sinatra, Cannonball Adderley, Herb Alpert até as gerações mais recentes, como Black Eyed Peas, Erykah Badu, John Legend, Justin Timberlake, Seu Jorge e Carlinhos Brown.

Renovação. Em meados dos anos 1960, a emigração para os Estados Unidos representava para Mendes um deslumbramento de bandeirante em mapear o desconhecido. De muitos anos para cá, até hoje, seu papel é de traduzir a música brasileira de maneira inteligível para os estrangeiros. E é o envolvimento com músicos bem mais jovens, naturalmente não sendo uma unanimidade em termos de gosto para o público, que revitaliza Mendes, ao contrário de tantos outros de sua geração ancorados no passado.

“Tem cara que me diz ‘esse seu disco novo, eu não sei, não… Mas o meu filho adorou’. Eu respondo: mas, pô, eu não fiz pra você, fiz pro seu filho. (risos). Tem o pai que comprou o disco lá de trás e tem o filho que comprou o novo, é interessante isso, me dá prazer. E não estou falando de vaidade, mas é legal ver como a música transcende essa coisa toda, é atemporal”, diz.

O chute no preconceito e a cabeça aberta de Sergio Mendes permeiam sua carreira há tempos. Em 1992, por exemplo, ele contou com a produção de Carlinhos Brown no disco Brasileiro, e levou um Grammy. Em 2006, seu cartão de visitas, Mas Que Nada (composição dada de presente por Jorge Ben na década de 1960, no Beco), estourou novamente no mundo inteiro em gravação com o Black Eyed Peas, no álbum Timeless. ” É a arte do encontro. Eu fiquei sem gravar uns oito anos. Simplesmente porque eu não estava mais com vontade de gravar. Lembro quando o Will.i.am. (Black Eyed Peas) chegou na porta da minha casa com uma caixa com todos os meus long plays. Era meu fã de carteirinha, conhecia minha obra inteira, não tinha porque não gravar com eles. Mas Que Nada é seguramente a música brasileira, gravada em português, mais conhecida no mundo. Garota de Ipanema, por exemplo, foi gravada em inglês pelo Sinatra”, comenta.

Em Bom Tempo, lançado neste ano, ele voltou a se envolver com Carlinhos Brown e Seu Jorge, gravando temas como Maracatu Atômico (Jorge Mautner e Nelson Jacobina), Orfeu e Maracatu, Nação do Amor, de Moacir Santos, Emoriô, de João Donato e Gilberto Gil. Além de trabalhar pela primeira vez com Milton Nascimento, que canta e toca violão em Caxangá. “Ano que vem eu completo 70 anos de vida e 50 do meu primeiro disco. Seria bacana fazer um show com todos eles na praia de Niterói”, completa Mendes, empolgado com o lançamento previsto para este ano, pela Universal, de uma caixa com todos os discos de sua carreira.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e, na falta de tempo, publica aqui a matéria feita para o Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo, com Sergio Mendes em setembro deste ano, no North Sea Jazz Festival, em Curaçau, no Caribe

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