Com capricho, Renato preparou a mesa. Um candelabro com duas velas, toalha de veludo e guardanapos de pano fino. Os pratos, arredondados e dourados, brilhavam na mesma intensidade que os talheres de prata. Mesa posta, só aguardava a chegada de Joana. Era a primeira vez que preparava uma surpresa galante como aquela para uma mulher. O motivo de tamanho estardalhaço: comemorava os meses iniciais de seu primeiro namoro.

Além de toda a preparação, dirigiu-se à cozinha e iniciou seus trabalhos em uma receita francesa. Tratava-se de um Brochette de Frango com Ervas. Renato não sabia bem o que era um Brochette, mas imaginava que agradaria o paladar de Joana e a impressionaria com tamanha sofisticação e pompa. No balde com gelo, um vinho Chardonnay, também francês, que ele pagou mais caro que a mensalidade da faculdade. Tudo estava pronto, perfeito. Seria uma noite inesquecível.

Joana, ao adentrar e observar a mesa posta, quase perdeu o fôlego. Seus olhos brilhavam vivamente diante do espetáculo montado: sua paixão cresceu instantaneamente. Quase sem voz, a menina não controlava os lábios, que se contraiam em um sorriso espontâneo e satisfeito. Com um guardanapo pendurado no antebraço, Renato parecia um maître preparado para atender todos os desejos de sua cliente.

Fartaram-se abundantemente com a comida e a bebida. Entreolhavam-se durante todo o jantar. Brindavam a cada dois minutos o amor perfeito que nutriam um pelo outro. O clima de romantismo explodia no ar, como bolhas de sabão sopradas por um infante. Foi então que Renato regurgitou todo o Brochette de Frango com Ervas, misturado liquidamente ao branco alcoólico do vinho. O vômito se quedou no prato e respingou pelas vestes impecáveis de Joana. O brilho no olhar da pequena desvaneceu-se imediatamente, suas feições de nojo e de incredulidade a levaram a se levantar rapidamente e correr até o banheiro. Renato, ainda sem entender o que acontecia, correu para acudi-la. Tarde demais. Ali sepultara o namoro. Nenhuma paixão recente resiste aos nojos dos dejetos orgânicos do companheiro.

– Foram as ervas, certeza… Não estou acostumado a esses pratos chiques – disse Renato ao seu amigo Beto no dia seguinte.

Meses depois, Renato conheceu Maria Paula, uma loira fogosa e inescrupulosa que só gostava de farrear. Os dois viviam bêbados pelas festas e tinham uma relação que mais parecia amizade. O romantismo não tinha vez. Até o dia em que Renato teve a infeliz ideia de fazer uma surpresa pelos seis meses de namoro. Comprou uma rosa e a despedaçou no quarto, preparou uma porção de ostras e comprou um bom vinho. Sua intenção: fazer daquele momento único. E conseguiu. Maria Paula achou tudo muito lindo e entrou na fantasia de Renato. O clima romântico aumentou, aumentou, até que o rapaz percebeu as reviravoltas que a vida e que o estômago podem dar. Vomitou escandalosamente.

– Foi a ostra, certeza! Não pode ter sido outra coisa – disse Renato ao amigo Beto, horas depois do ocorrido.

– Você tem alergia à ostra?

– Acho que deve ser isso…

Com o fim de sua aventura sem eira nem beira com Maria Paula, Renato decidiu que se tornaria um homem de várias mulheres. Passou a visitar prostíbulos e lugares de má fama e percebeu que se sentia gastricamente muito bem na vida bandida. O trauma com as últimas namoradas lhe deixava receoso de começar qualquer relação séria. Até conhecer Valéria, uma morena alta e bem intencionada que tinha na profissão sua única felicidade. Chef de cozinha, seu maior prazer era cozinhar para as pessoas de quem gostava.

Renato comia feito porco todas as vezes que visitava a nova amada. Ainda longe de estar apaixonado, foi sendo pouco a pouco conquistado pelo estômago. O amor brotou e se fortaleceu depois de Valéria cozinhar um belo robalo ao vinho branco. Enquanto os jantares eram descontraídos e naturais, tudo corria bem. Até o dia em que, ao chegar à casa de Valéria, Renato tremeu de corpo inteiro ao ver velas e trilha sonora para o jantar de sábado. Sentou-se, intimidado, como quem sabe que algo ruim vai acontecer. No seu prato, um salmão maravilhosamente grelhado acompanhado por um risoto de alho poro. Um deslumbre.

Saboreou o prato devagar, mastigando cada pedaço dezenas e dezenas de vezes. Quase não tomou o vinho, com medo de perder-se no furacão que era seu estômago. Valéria, com a ponta da colher de sobremesa, bateu duas vezes no cristal da taça e disse que queria falar. De sua boca, palavras açucaradas e apaixonadas escorriam como mel. Os ouvidos do pobre coitado eram embebidos com todo aquele doce, seu olhar foi se tornando mais brilhante, o ar romântico sufocava. Renato vomitou como se não houvesse amanhã. Um jato de tamanha potência e rigidez que borrou as paredes brancas como em um rastro de horror.

– Meu Deus, coitadinho de você. Será que algo não caiu bem? – disse Valéria, sem cerimônias.

– Acho que tenho alergia de salmão…

– Por que não disse?

– Tive vergonha, quis mostrar pra você que sou refinado, que posso comer qualquer coisa. Mas acho que não… Sempre que como algo muito chique acontece isso.

– Tá tudo bem, vamos limpar isso e vou fazer um chá para você.

Renato encontrava ali sua alma gêmea. A mulher que não se importava com seu vômito. Que, ao contrário, o apoiava diante de seus conflitos estomacais.

Nos anos seguintes de namoro, apesar de riscar da dieta comidas extravagantes, Renato vomitou em todas as ocasiões românticas. O casal não podia ir a bons motéis, restaurantes ou se hospedar em hotéis de luxo. Tudo tinha que ser simples e longe das regras rígidas do amor de novela. Jantar? Só em PF. Motel? Só de beira de estrada. Hotéis? Só albergues mequetrefes. Caso contrário, era vômito para todos os lados.

Valéria acostumou-se com aquilo. Amava Renato e não deixaria nada atrapalhar. Só se preocupava com a cerimônia de casamento, um grande sonho do qual ela jamais abriria mão. Na data fatal, Renato tremia dos pés à cabeça.

Enquanto a noiva levava um buquê, o noivo segurava um saco de vômito para as emergências. A cada música açucarada tocada (“Eu sei que vou te amar”, “O Fantasma da Ópera” e “A Primavera de Vivaldi”) o saquinho enchia-se mais e mais. Na entrada das daminhas de honra, uma colossal quantidade de dejetos saiu das estranhas de Renato. Os convidados, enojados, tapavam os narizes e fechavam os olhos para não ver tamanho descalabro. O padre, impressionadíssimo, orava aos céus e pedia para que aquela celebração logo se findasse.

No momento de dizer “sim”, Renato quase engasgou. Era de dar pena o esforço e o contorcionismo daquele homem para manter-se em pé após esvair-se em vômito. Pálido feito cera, equilibrava-se nas pernas torcendo para que aquele tormento terminasse. Renato preferiu não beijar a noiva. Quando saia da igreja, já feliz pelo eminente fim, lembrou-se da lua de mel. Como aguentar dez dias nas Ilhas Gregas? Largou o saquinho e vomitou deliciosamente na noiva, nos convidados e em si mesmo… Valéria que se acostumasse.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e, às vezes, se identifica bastante com seus personagens

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