É em noite de lua vistosa que se acendem os folguedos da alma.

Costa era pleno sabedor de tal prólogo. Geólogo de mão cheia, encilhava seu jegue e trotava longos caminhos e acidentados terrenos sertão adentro. Em estrada longa, reza é perder os passos e derramar-se no horizonte.

Fazia mais de oito horas que o homem e o bicho trotavam chicoteados pelos impiedosos raios de sol. Para Costa, aqueles meros rodeios dos ponteiros do relógio eram irrisórios. O que era aquele punhado de minutos para quem esperava havia anos pelo encontro com a mulher de sua vida?

Há quase três décadas Costa não tinha notícias de Dialma. Até receber pistas indiciosas de que ela tinha enlaçado pés e coração na terra de Venhamar. Por isso o pernar infindo do rapaz. A barba já quase beijava o chão e denunciava um profetear de Costa em busca do “coraçãomente, pensamento, pensamor”, do velho Rosa. É por descaminhos que se caminha o caminho do amar.

Assim, Costa teleguiou-se até o destino, chegando a Venhamar debaixo da lua mais radiante que já existira. Lá, Dialma trabalhava de cabeça baixa e atendia mecanicamente a clientela do vilarejo. Queimada de sol, jambeada, ela ganhava o pão-nosso-de-dia-sim-dia-não laboreando. Dialma era escrivã. E não notara a sombra de Costa na fila.

Na vez dele, ela que nunca mirava os pedintes iletrados nos olhos, manteve o agir de sempre. O rufar do coração cessou, enfim, quando Costa começou a ditar a carta e ela reconheceu aquela antiga mansidão de voz.

“Eu queria aquela guerra com você. Sabe aquela batalha que nós dois vencemos? É… O meu escudo que mais parece um coração espera há tempos pelo estopim. E, quando o dia do embate chegar, não haverá cessar-fogo que me faça parar de pensar em você, ou melhor, que lhe deixe escapar. Nossos braços serão o campo de batalha. Nossas entranhas, só pólvora. E nosso exército, um só: o entre-olhar do amor.”

Ao que Dialma, aos prantos, suplicou:

– Endereço, remetente e destinatário, por favor.

– Manda direto pro seu peito, onde, de vão em vão, eu vou fazer minha morada.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e recomenda “Samba Jambo”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, na voz de Nina Becker

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