Buenos Aires, 23 de setembro de 2010 (00h58min)

Uma das tantas avenidas largas de Buenos Aires

No terceiro dia de viagem já me sinto sozinho. Morei tanto tempo só, mas depois de me acostumar com a sua companhia fica difícil acordar com a cama vazia e sair por uma cidade desconhecida com pessoas pouco afeitas à conversa. O argentino, apesar de quase sempre simpático, não é muito de bater papo.

Acordei de novo mais cedo do que devia, o que ressaltou um cansaço que me deixou prostrado ao longo do dia. Tomei o café e sai correndo para conhecer a Recoleta, bairro tradicional aqui em Buenos Aires. Andei a pé até o metrô e desci em uma estação mais ou menos perto do bairro. Na verdade, andei muito como todos os dias. Minhas pernas começam a doer de verdade. Preciso descansar um pouco. Essa mania de engolir o mundo acaba comigo.

Muitas coisas interessantes na Recoleta, mas hoje acordei azedo e com vontade de reclamar. Tem tanto brasileiro por aqui que me dá raiva. Quando se sai do País, a ideia é dar um tempo na rotina e fugir. Aqui não: brasileiros por todos os cantos, a maioria deles chatos de carteirinha, reclamando sem razão e fazendo poses artificiais para as fotos. É aquela galera sem grana para ir à Europa, mas que quer aparecer nas fotos de cachecol. Um porre.

A simpática Recoleta esbarrou no meu humor azedo

Mal sabem eles que aqui na Argentina muitos mendigos são mais estilosos e tem gosto mais apurado do que boa parte da elite brasileira. Na Recoleta fui mal atendido, as coisas são exageradamente caras e não existe nada de fantástico. É um bairro tradicional, com história, mas que se rendeu ao artificialismo dos pontos turísticos. O cemitério, tão comentado, é horroroso. As tumbas estão em péssimo estado e cheiram mal. Sobra a fama e a arquitetura dos jazigos. Mas, por mim, demoliria tudo e faria um parque ou uma praça. Sou cada vez mais adepto da cremação e do uso das cinzas como adubo para a agricultura. Seria uma forma de termos alguma utilidade depois da morte.

O cemitério de estátuas bonitas que cheiram cádaver

A melhor parte do meu dia foi na livraria El Grand Ateneo. A mais bela loja de livros que já vi e que provavelmente verei na vida. Parece um teatro, com paredes arredondadas cheias de livros. Existem algumas salas próprias para a leitura e uma infinidade de obras. É incrível como a parte de psicanálise, em todas as livrarias argentinas, é enorme. Percebem-se aí os motivos do país ser o segundo grande reduto psicanalítico contemporâneo, perdendo apenas para Paris. Bateu uma vontade de um dia, quem sabe, fazer um curso breve por aqui. Só que o preço do café e da água é absurdo: 23 pesos pelos dois.

O ponto alto do dia: a livraria que parece um teatro

Com pressa para não perder a hora do trabalho, almocei em um café de esquina da Avenida El Libertador, uma rua larga, com as calçadas cobertas da mesma forma que Bolonha. Pedi um fetutine e uma Quilmes e gastei pouco para comer muito bem. Andei horrores de novo, passando pelo Museu Nacional, pela Praça das Nações Unidas e pela Faculdade de Direito e Ciências Sociais. Parei em uma loja, comprei alguns presentes e voltei para o hotel. Não deu tempo de cochilar, já corri para a feira.

Calçada coberta como em Bolonha

A noite, depois de falar com você no telefone, sai andando por Palermo atrás de algum lugar para comer. No meio do caminho, decidi que iria para Puerto Madeira. Peguei o metrô até a Nove de Julho e de lá um táxi. Quando cheguei, fazia um frio enorme desenhado por ventos cortantes, deparei-me com uma bela paisagem vazia. Não tinha ninguém. A solidão aumentou ainda mais: ando perdido por essa cidade, sem ninguém para conversar e sem muito rumo. Fui andando pela beira do Rio da Prata, restaurantes fechados, tudo quieto. Mais para frente, deparo-me com um único lugar aberto, lotado, um burburinho enorme. Chego à porta. A única língua falada ali era o português. Centenas de brasileiros, conversando sobre assuntos batidos, aquela nova classe média chata que faz sua primeira viagem internacional, é assinante da Veja e vota no PSDB mesmo tendo subido na vida depois dos oito anos do governo Lula. O restaurante é do dono do Porto Rubayat, não parece muito bonito e o preço é revoltante. Vou até um taxista, parado na rua ao lado, e pergunto sobre o estabelecimento. Ele diz que é artificial, uma tentativa de imitar os clássicos argentinos e que a comida está abaixo da média de Buenos Aires, apesar do preço. Percebo ressentimento na voz dele. Os argentinos não aceitam essa invasão absurda de brasileiros. Irrita mesmo. Concordo com ele e me recuso a pagar 200 pesos em um prato argentino feito por brasileiros.

Puerto Madero: vazio e triste como eu me senti essa noite

Pego o táxi de volta a Palermo, paro em uma rua que promete ser uma espécie de Augusta argentina. Muito bacana mesmo: vários bares e baladas alternativas, pessoas interessantes e lugares legais. Entro em um bar e me sinto ainda mais sozinho. A cidade, as turmas conversando e a minha tristeza que não sei de onde surge alimentam uma melancolia que começa a me incomodar. A saudade aperta. Queria até, por incrível que pareça, estar fazendo faxina com você. Tomo dois uísques e duas cervejas. Bêbado, saio andando perdido pela cidade em busca de um táxi que não aparece. Vou a pé para o hotel, quase meia hora de caminhada. Quem disse que um dia em Buenos Aires não pode ser ruim? Espero acordar mais feliz amanhã. A solidão me engoliu completamente nesta quinta-feira gelada. Acho que faz parte de uma viagem solitária de dez dias.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

 

 

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