Aquela nao era mais ela, era uma versao do que gostaria de ser. Deitava a noite com um homem que mal sabia se conhecia, tomava o cafe com adocante, apesar de preferir acucar. Usava um teclado sem acento, porque queria quebrar as regras, nao sabia mais quem admirava, sabia que queria ficar la, olhando para o mundo pelos olhos de outra pessoa.

Os dias passavam batidos, nao sentia mais vontade de existir. Doia pensar na existencia, muitas vezes ela imaginava que a existencia se resumia em conseguir chegar ate as 18h de cada dia. Ate a hora que o relogio permitisse ela ser livre. Mas ela nao sabia mais ser livre. Vivia por viver, sem prestar atencao nas grandes ou pequenas artes, nos amores e desamores, na tristeza diaria de cada pessoa.

As vezes fechava os olhos e imaginava que vivia em um filme de Antonioni, pegava uma maquina fotografica e saia  documentando a vida das outras pessoas. Era uma boa forma de esquecer da solidao que a digeria. Achava que fotografar tirava a alma das pessoas e isso fazia com que ela tivesse uma alma. Todo dia depois da sessao de fotos chorava copiosamente apos revelavar as fotos. Todo dia via aquele filme, e tentava entender porque ele significava tanto para ela. 

Ana Luiza Ponciano escreve aos sabados no Sete Doses (e esta num computador sem acento)

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