O corpo caiu às 8h34min, bem no meio do canteiro de obra. Quem primeiro ouviu o baque foi o Hélio, engenheiro responsável pela construção. Correu para o lugar de onde veio o som e viu que o desgraçado estava sem nenhum equipamento de segurança. Não reconheceu o falecido. Precisava falar urgentemente com o técnico responsável.

– João, fudeu. Você soube do cara que caiu agora aqui na obra, né? Tava sem proteção nenhuma, sem nada! Tem que colocar pelo menos o cinto de segurança nesse cara.

– Ah Hélio, eu não vou mexer em morto não!

– Olha, o negócio é o seguinte: ou você dá um jeito nisso ou a gente vai é preso! Eu te dou 10 minutos antes de chamar a polícia pra comunicar o acidente.

João deu seu jeito e vestiu o falecido. Em 20 minutos a polícia chegou e começou a analisar a cena, trabalho que foi interrompido pelos gritos de uma senhora, vindos de bem alto.

– Meu deus do céu! Meu marido! Meu marido!

O morto era esposo da mulher que gritava descontroladamente na janela. Tinha se suicidado pulando do prédio localizado ao lado da construção.

João empalideceu. Hélio também, sem conseguir imaginar como explicar para a polícia o motivo do cidadão ter tido o cuidado de vestir um cinto de segurança de propriedade da obra para se atirar do sexto andar do prédio vizinho.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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