Notou que seu problema era sério apenas ao fitar o rosto do médico – desde a infância, cultivara o talento de decifrar expressões. Aquela lhe indicava uma sentença de morte. O doutor repousava os pequenos olhos pretos e sem vida, embora destacados, sobre uma pele pálida e murcha. Sua careca reluzia abaixo da larga luminária branca do consultório. Mexia apenas os dedos dos pés, para girar a poltrona de um lado a outro, em um claro sinal de impaciência.

Quando o médico finalmente se pronunciou, as palavras soaram como pigarros.

– Restam trinta e três horas – disse, em meio a tossidos secos.

– Trinta e três? – perguntou o paciente, como se realizasse um exame de fonoaudiologia.

O médico não respondeu.

Resquícios dos exames resistiam sobre a mesa que os separavam: ossos esparsos uns dos outros em imagens de raios X, incontáveis amostras de sangue, frascos com coletas de urina e fezes cuidadosamente lacrados com esparadrapos e o que mais a imaginação de um médico hipocondríaco permitisse analisar.

– Restam trinta e três horas – reforçou o médico – Vá.

O paciente se levantou ofegante, trêmulo e com outros sintomas ainda mais aparentes do que quando chegara ao consultório. Tinha 32 horas e 58 minutos para viver, contados a partir daquele instante. Para onde iria? A pergunta era objetiva e subjetiva, pensou: não sabia onde gastar o restante do seu tempo disponível nem qual seria o seu destino final quando tudo se esgotasse. Caminhou assim, cabisbaixo, até perceber que alcançara a calçada. Só então abriu os olhos.

Passava por aquela rua todos os dias. Mas as sensações pareciam distintas – ao menos aos primeiros cheiros e vistas. Aos segundos e aos terceiros também. Podia pintar mentalmente um quadro com cada cor que se exibia para ele – o vermelho das auras dos pedestres, o cinza metalizado dos veículos, o verde esperançoso das plantas e muitas novas cores brilhavam em um desfile de beleza. Tratava-se de um encanto grosseiro, porém nem por isso menos arrebatador. Assim também eram os perfumes – os doces, os salgados e os azedos – da paisagem. Enfim, sentia-se um turista em sua própria cidade, dotado daquela estranha capacidade de atração pelos detalhes mais desprezados do cotidiano. Uma passeata de protesto, por exemplo, deixava de ser um horrendo empecilho para a ordem e o trânsito para se transformar em uma prova categórica do civismo da população.

A sensibilidade aguçada o inebriava, mas não lhe fornecia respostas para as suas dúvidas. Tinha inicialmente a opção de retornar ao escritório – afinal, seu horário de almoço se esgotaria quando lhe restassem 31 horas e 27 minutos – ou de seguir adiante. Precisou de cinco (preciosos) segundos para decidir. Desabotoou o colarinho, desfez o nó da gravata e, por fim, deixou alguns pelos do peito à mostra. Cogitou se vestir outra vez, para que o vento não prejudicasse ainda mais os seus pulmões adoecidos, no entanto resolveu que já perdera tempo de mais com meras formalidades.

Deveria viajar, evidentemente. O que mais alguém desejaria antes de perecer? Mas a sua audição também estava renovada: escutou os ponteiros do relógio de pulso avançarem e logo se deu conta de que não valeria a pena doar aquelas 32 horas e 27 minutos para algum entediante percurso de ida, que não teria volta. Choramingou. Por que despendera tantos dias em trabalhos, amores e amizades infrutíferos? Quais momentos ele levaria para a posteridade: aqueles dos últimos 33 anos ou os das 32 horas e 25 minutos sobressalentes?

Não tinha escolha. Ficou com as 32 horas e 24 minutos. Desafivelou o relógio do pulso e livrou-se do objeto. Decidiu viajar, mas como um turista em sua própria cidade, como a doença lhe ensinara.

(…)

Acordou com uma incômoda dor de cabeça. Com a impressão da morte. Ou da ressaca.

Estava escuro. Voltara àquela mesma rua do consultório, não sabia como, depois de algumas horas memoráveis: preencha o que ocorreu no lapso de tempo da maneira como a sua imaginação preferir – ou melhor, do modo como você viveria as suas derradeiras 33 horas.

– Trinta e três horas? – perguntou o paciente, novamente como se realizasse um exame de fonoaudiologia.

Não sabia quanto tempo se passara. Consultou um relógio daquela rua imaginária e percebeu que já era para estar morto havia no mínimo duas horas. Esperou mais um pouco. Beliscou-se. E a morte não veio.

Aquilo não ficaria assim. Correu sem dar atenção às sensações ao seu redor. Entrou no consultório do médico esbaforido, sem apresentar os sintomas de outrora. Ignorou os pedidos da enfermeira para não irromper a sala de diagnóstico.

A poltrona do médico estava virada para a parede. O paciente pisou com os dedos dos pés para girá-la para o seu lado, com um rangido.

Tão logo avistou o médico, o talento nato para decifrar expressões apontou que o problema era sério. Aquela face lhe indicava uma sentença de morte. Pequenos olhos pretos e sem vida, embora destacados, sobre uma pele pálida e murcha. A careca não mais reluzia. A gravata havia sido afrouxada, para deixar alguns pelos do peito à mostra.

– Ele não resistiu. Aconteceu há pouco mais de duas horas. Farão a autópsia aqui mesmo, em instantes – informou a enfermeira, taciturnamente.

O médico falecera 33 horas depois de sua última consulta.

E o paciente estava curado.


Helder Júnior dedica este texto a um amigo que percorreu, sorrindo, a rua da vida. Às quintas-feiras, para o Sete Doses.

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