Buenos Aires, 24 de setembro de 2010 (00h39min)

Quatro cafés e meio maço de cigarros pela manhã: malefícios à saúde que só Buenos Aires lhe proporciona

Hoje, pela primeira vez, deixei o despertador de lado e acordei na hora que os meus olhos abriram. Era quase nove, levantei bem mais disposto do que ontem e decidi que seria a manhã das compras. Aqui pertinho tem uma avenida chamada Santa Fé com várias lojinhas e cafés. Entrei em várias, experimentei algumas roupas, mas achei vestuário aqui muito caro. Fiquei pensando no morador de Buenos Aires, que ganha em peso, e paga 250 paus em um All-Star. Puta merda: está realmente difícil viver aqui com uma moeda tão desvalorizada. Passei no Shopping Palermo e quase enfartei ao ver que uma jaqueta de couro custa 1700 pesos e uma calça jeans normal 400 pesos. Não dá para comprar roupa aqui, não. Deve ser barato, na verdade, mas eu sou chato.

Mas para nós, brasileiros, comprar livros e DVD’s é uma maravilha. Fiz a festa em várias livrarias e lojinhas da Florida, uma espécie de 25 de março um pouco mais legal. Legal porque tem uma porrada de bandas tocando a cada cem metros. Hoje tinha um quarteto de jazz maravilhoso, uma banda de tango sensacional, um grupo de rock alternativo e um trio tocando reggae misturado com milongas, uma coisa bem estranha.

Uma das bandas tocando na Florida

Descobri em uma dessas lojas que fui roubado pelo taxista. Ontem, na volta de Puerto Madero, peguei o taxista mais simpático de todos até agora. Carente, conversei horrores com ele, contando sobre o Brasil e os times de futebol, elogiando a Argentina e tal. Na hora de pagar, só tinha cem pesos, dei e ele, que me devolveu um monte de notas: todas falsas. Aprendi a lição: nunca confiar em um argentino muito simpático e extrovertido. Argentino bom é argentino triste, esse nunca vai lhe roubar nada. Quando o cara vai contra sua natureza, veste uma máscara para tentar agradar, com certeza tem coisa por trás. Naturalmente, argentinos são mais calados e sombrios, quando falam, quase gritam, com uma paixão dolorosa, parecido com um grande tango. O tango nada mais é do que o retrato do que é a natureza do argentino: trágica, apaixonante e triste. Quem samba, é feliz e é simpático são os brasileiros.

Só de manhã, tomei quatro cafés. Sério, é impossível não entrar nas cafeterias daqui, uma mais charmosa que a outra. Na verdade, a coisa mais legal para fazer aqui é tomar café e fumar. Queria entender porque raios o café é servido acompanhado de suco de laranja e porque a garrafa de água é tão grande, com quase um litro de líquido que deixa sua barriga estufada. Enfim…

Tem dúvida que a carne argentina é a melhor do mundo?

Parei para almoçar em um restaurante de esquina com mesinhas na calçada. É muito bom poder fumar enquanto se espera o pedido, tomando um sol gostoso na cabeça e um ventinho frio e agradável da primavera portenha. O atendimento aqui foi um desastre total. Mas como a carne argentina é boa e como o vinho é barato tudo foi recompensado. Tomei uma garrafa pequena de um Merlot fantástico por irrisórios 15 pesos. Levemente embriagado, fui dar uma volta no Paseo de La Plaza, uma espécie de alameda arborizada com teatros, cafés e cinemas. Com certeza, o lugar mais agradável em que tomei um café com medialunas aqui em Buenos Aires. Os passarinhos voavam em cima da minha cabeça e o silêncio só era quebrado pela música de Caetano Veloso, que tocava mansamente em uma loja de discos brasileiros.

Paseo de La Plaza: lugar mais agradável para tomar café por aqui

Fiquei um bom tempo sentado nesse lugar, lendo Julio Cortazar, que me deu um alento para os dias solitários. Até anotei um trecho:

“E nós pensávamos nessa coisa incrível que havíamos lido. Que um peixe sozinho no seu aquário se entristece e, então, basta colocar um espelho em frente do vidro e o peixe volta a ficar contente…”

Capítulo 7 do Jogo da Amarelinha: Cortazar-gênio-filho-de-uma-puta

Mas, sinceramente, Buenos Aires é uma cidade boa para se estar sozinho, mas seria ainda melhor acompanhado por você. Nos cafés, quando observo a cadeira em minha frente vazia, chego a imaginar seus trejeitos, o movimento de suas mãos procurando pelas minhas, suas colocações confiantes que muitas vezes são besteiras que eu adoro ouvir e seu olhar crítico para garçons mal treinados e cozinheiros despreparados. Chego a ouvir sua voz reclamando pela conta que não vem ou pela carne exageradamente salgada. E, para mim, é impossível sentir o cheiro do café e não me lembrar das nossas manhãs. A vida tende ao tédio, mas o tédio ao seu lado é muito melhor do que tudo que eu imaginava para a minha vida. Sempre reinventar até que o tédio se instale novamente, em um processo contínuo e cíclico: essa é a missão de todos nós. E, com certeza, acho que nós dois somos bons para retomarmos de um ponto diferente quando tudo vai se tornando igual.

Quando estava voltando para o hotel, correndo para não perder a hora do trabalho, comprei óculos para mim e para você. Sei lá se é do seu gosto, mas consegui perceber que o desenho dele era adequado ao contorno do seu rosto. Espero que a minha percepção não esteja completamente equivocada (quando cheguei ao Brasil constatei que me equivoquei redondamente). Nessa loja fui descaradamente xavecado pela vendedora, uma boliviana de uns sessenta anos que com certeza não vê um pinto há um bom tempo. Tarada.

Weeds: uma série que trata a maconha como se fossem biscoitinhos só pode ser legal

Depois que voltei do trabalho e nos falamos, fiquei esperando a fome chegar, mas nada. Foi ficando tarde, o frio aumentou muito e eu desanimei de sair hoje. Acho melhor descansar e acordar cedo amanhã para aproveitar bem o dia, com mais disposição. Se eu saísse hoje iria ficar podre o fim de semana inteiro. A idade chega sem pedir licença mesmo. E outra: a noite de Buenos Aires é para casais, não tem tanto o que fazer sozinho. Se saísse, repetiria o que aconteceu ontem: ficaria bêbado, gastaria dinheiro e voltaria para casa ainda mais sozinho. Fiquei aqui, assistindo Weeds – que ficou bom demais do meio para o fim da temporada – e pensando no que farei amanhã.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Anúncios