Gays agredidos na Avenida Paulista, nordestinos ofendidos no Twitter e a presença maciça do debate religioso e conservador nas eleições presidências. Estes três fatores resumem bem um ano em que as ideias mais retrogradas e criminosas da cabeça humana tiveram expressão em veículos de comunicação modernos, que se configuram como armas importantes a favor da liberdade e da quebra da hipocrisia da realidade.

No fechar do ano, o Wikileaks se tornou famoso, escancarando o que qualquer pessoa bem informada já sabia: as instituições políticas e religiosas são embustes construídos na mentira com o objetivo de manter quem manda no poder e fazer quem obedece pensar menos. É assim desde os tempos das cavernas, mas agora temos pessoas obcecadas pela verdade e pela liberdade para tentar desnudar essa farsa em que nossos bisavós, nossos avós e nossos pais viveram. A máscara antiga do mundo começa a cair. Basta saber por qual ela será substituída. Esperemos que pela mais iconoclasta possível.

2010 foi o ano que condensou rapidamente toda a revolução que a Internet prometia, deixando claro que muitas coisas ainda estão por vir. Ao mesmo tempo, com essas mudanças bruscas, as cabeças mais conservadoras e burras do planeta começaram a se eriçar. Apesar de toda a impressão de que o mundo de hoje é moderno, o pensamento humano apresenta características que se alteram muito lentamente. O medo do novo, o medo do diferente e o medo de não se enquadrar assombram velhos conservadores e jovens inseguros e com baixa auto-estima.

O preconceito contra gays e nordestinos, bizarramente presente em 2010, mostra bem o ódio interno projetado em figuras da sociedade historicamente perseguidas. Os jovens responsáveis por esses ataques não conseguem se enquadrar em uma realidade diluída, em que todos possuem singularidades, mas ninguém é melhor do que ninguém. Como um rapaz que nasceu em Higienópolis, estudou nos colégios mais caros e foi criado por pais ricos e prepotentes pode se equiparar a um jovem de origem pobre que possui uma bolsa do governo para fazer faculdade? Como um menino-macho, levado pelo tio milionário ao puteiro mais caro da cidade para perder a virgindade, pode aceitar que existam homens que se relacionam com outros homens?

Jovens como esses, ao olharem para um gay ou um nordestino, sentem ódio. Por quê? Pelo fato de enxergarem nessas pessoas aspectos reais que eles não aceitam neles mesmos. Todo mundo tem um lado feminino e masculino. Todo mundo tem alguma ligação transgeracional com nordestinos. Mas devido a uma educação fechada, de regras rígidas e verdades absolutas, esses jovens não suportam olhar para um homem afeminado e se identificarem com ele. É tão insuportável que eles optam pela violência. Na verdade, estão atacando uma identificação deles mesmos. O playboy que bate em um homossexual está batendo nele mesmo. Está dando uma surra na própria parte afeminada de sua personalidade. Ele não aguenta enxergar no outro um aspecto que ele julga inaceitável em si mesmo. É um superego monstruoso, que o ensinou a repelir qualquer identificação com “esse tipo de gente”.

O discurso que gera essa espécie de animal é sempre do “outro” e se configura na infância. Primeiro, o exemplo sempre vem de casa: o discurso dos pais gruda na cabeça da criança. É aí que o superego começa a se formar, reforçado pela educação ultrapassada da escola e pela visão preconceituosa e  arcaica dos grandes meios de comunicação. O superego se transforma, assim, em um monstro pronto para atacar qualquer desejo ou identificação que se choque com o discurso do “outro”.

O cérebro humano se desenvolve a passos bem mais lentos que a tecnologia e a Internet. Por ser uma praça virtual em que tudo é aceito, a web começa a desnudar o ser humano e deve acelerar o desenvolvimento do pensamento. Quanto mais absurda parece a realidade, mais próximos de fato estamos dela. As pessoas começam a perceber, com a ajuda deste mundo virtual, que a fantasia tem um poder muito maior sobre o homem do que a realidade. O ser humano vive fora da realidade, sempre viveu. Tudo sempre foi postiço, sempre foi pose. Todos nós sempre carregamos uma série de máscaras, que começam a cair uma por uma.

O riquinho de Higienópolis começa a perceber que seu status e sua pose são fantasiosos e que o bolsista com roupas surradas sentado ao seu lado na faculdade é igual a ele, de carne e osso, e pode sim ter as mesmas chances. Mas esse jovem, que a vida toda foi valorizado por esses aspectos fantasiosos de riqueza e privilégio, não suporta a realidade. Não suporta a sua condição humana. Seu superego entra  em parafuso, sedento por manter as aparências fantasiosas de que dinheiro, um bairro chique e uma pele branca constituem a personalidade e a identidade de seu ego. Ao se perceber humano, mortal, sem nada de especial, o homem se perde em si mesmo, seu ego fica em pedaços. Toda a fantasia que servia para dar sentido a sua vida cai por terra e ele logo tem uma sensação de morte. Construir uma personalidade falsa, calcada no discurso do “outro”, é quase que um instinto de sobrevivência. Aprender a viver sem ser escravo dela é a missão mais difícil que se pode ter.

Em 2010, apesar dos absurdos, elegemos uma mulher presidente, a Internet ganhou espaço e importância e passamos a conhecer oficialmente os segredos podres por trás das instituições que regem o mundo. É uma chance de que a política e a religião como as conhecemos caíam por terra e dêem lugar para outras preocupações, como a colaboração, o compartilhamento e a espiritualidade – aspectos bem diferentes da proposta controladora da Igreja e do Estado. Vivemos na melhor época da história da humanidade. Parece que estamos em meio ao caos, mas na verdade estamos no meio de uma revolução sem armas. Nesta revolução, descobrimos todas as nossas fraquezas, derrubamos todas as máscaras. Tudo o que conhecemos até então é posto abaixo e uma nova realidade, um pouco menos fantasiosa, pode ser construída. Não sei desde quando sou otimista, mas a Internet sempre me pareceu a melhor coisa que já nos aconteceu. Ela dilui a realidade, a torna mais absurda. Faz com que nos sintamos perdidos, sem identificação, sem identidade. Mas é por uma boa causa. É um processo de amadurecimento que nunca aconteceu tão rápido. É como se a humanidade estivesse passando pela adolescência rumo a uma vida adulta. É preciso se perder para se encontrar e talvez seja este o processo em andamento. Claro que esta é a visão otimista, portanto a mais difícil de ser concretizada. Mesmo assim, prefiro acreditar nela.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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