Buenos Aires, 25 de setembro de 2010 (02h46min)

Começo a entender bem a localização dos bairros aqui em Buenos Aires. Hoje passei por diferentes bairros sem gastar nem um tostão de táxi. É muito estratégico estar em Palermo, poucas quadras distante da Avenida Santa Fé. Além da linha verde do metrô, passa tanto ônibus aqui que dificilmente você fica mais de três minutos esperando. Acordei cedo e fui para o bairro de La Boca com apenas um ônibus. O único problema é que os coletivos daqui só aceitam moedas, então é preciso primeiro trocar o dinheiro. A passagem custa 1,25 pesos para a maioria dos trajetos, mas alguns são mais baratos. Quando se embarca é necessário dizer ao motorista para onde você vai e assim ele te cobra o preço correspondente.

Não sabia bem onde descer, por isso, quando avistei o estádio La Bombonera dei sinal. Parei quase na porta e já fui para a bilheteria comprar ingresso para o museu. Gostei bastante de conhecer o estádio, ver como as arquibancadas são coladas ao gramado e imaginar a pressão absurda da torcida, mas é um programa turístico e apresenta o problema duplo de sempre: preços exorbitantes e brasileiros chatos. Puta merda, como somos chatos quando estamos em grupo. Sei lá se é inveja minha por estar sozinho, mas turmas tupiniquins são sempre as mais fanfarronas, querem aparecer de qualquer jeito. Fiquei impressionado como tinha gente de outros países, como Estados Unidos, Japão, França e Alemanha. Todo mundo gosta um pouco do Boca Juniors. Ia até comprar uma camisa do time, mas ela custava absurdos 300 pesos. Preferia mil vezes, é claro, assistir um jogo por minha conta.

Estou percebendo que a conversão aqui não vale muito nestes programas. Uma Quilmes custa 10 pesos, um uísque não sai por menos de 30 pesos e um café chega a custar 11 pesos. Outra coisa que notei hoje é que o segredo é se parecer com um argentino, não parecer turista. Dessa forma, as chances de se divertir sem ser explorado aumentam muito. Por isso, comprei um abrigo da seleção argentina – falso, claro – e resolvi me tornar mais um morador da cidade.

Terminada a visita, que é bacana, mas nada de fantástico como dizem, fui ao Caminito. Aqui sim se sente a Argentina em todo seu espírito. Na verdade, não passa de uma favela estilosa, com os barracos pintados de cores diversas. Até favela na Argentina é charmosa, pois as obras de arte estão por toda parte. Conclui também que um dos segredos desse ar europeu portenho se deve ao L antes dos artigos. Falar que vai a “la Boca” é muito mais chique do que falar que se vai “à Boca”. “La mujer” e não apenas “a mulher”. Las chicas, la Plaza. Tudo fica mais bonito quando se coloca um L antes do a ou do o. Claro que isso é uma babaquice minha.

Andei muito como sempre, vi o Maradona cover, as dançarinas de tango e os gaúchos de botas engraçadas. Em cada esquina um grupo de tango. Resolvi almoçar em um restaurante bem charmoso, com mesas de toalhas de seda na rua e um garçom que era parecido com os do filme do Campanella. A comida era um bosta, pela primeira vez. Mas no palco montado em frente às mesas, um trio de tango mandava ver e o casal, meio desajeitado é verdade, dançava os passos libidinosos do tango. Trata-se do sexo na vertical. O casal se atrai e se retrai, desenhando com os pés todas as insinuações de uma boa preliminar. Foi aqui que senti mais a sua falta nestes cinco dias.

Depois do almoço fraco, que paguei uma fortuna, que ainda foi somada a foto que tirei atracado com a dançarina, fui caminhando pelo lugar e gostei bastante do que vi: é um bairro que expressa bastante o povo argentino, apesar do excesso inacreditável de brasileiros. Para se ter uma idéia, todas as mesas do restaurante eram compostas por mineiros, pernambucanos, paulistas e goianos. Apenas um casal era chileno. Só vendo para crer no tanto de brasileiro que tem aqui.

Quando a tarde já caia, peguei um ônibus para ir até San Telmo. Achei que ia visitar a tradicional feira do bairro, mas ela só acontece de domingo. Mas a viagem não foi perdida: um puta lugar charmoso, com pracinhas e cafés dos mais bacanas. Em uma das praças, uma estátua da Mafalda sentada num dos banquinhos me fez rir sozinho, ainda mais porque uma criança brasileira estava sentada ao lado dela e a mãe, culta como uma parede, dizia: “abraça a menininha, abraça”. Óbvio que ela nem sonhava que aquela era uma das personagens argentinas mais brilhantes já criadas.

Voltei para o hotel com mais um ônibus, fechando a minha conta em 3,75 pesos. Se tivesse feito o caminho todo de táxi não sairia menos que 100 pesos. E, outra, percebi que o lugar mais perigoso para um turista em Buenos Aires é dentro do táxi. Quando cheguei, pregado, deitei-me e esperei sua ligação. Depois que nos falamos, tomei um banho rápido, fui para o metrô e de lá para o bar Thelonius Monk. De acordo com minha pesquisa, o melhor trio de jazz argentino iria tocar por lá. Mal sabia, em minha inocência, que veria um dos melhores shows do gênero de minha vida.

Pela foto na Internet, a casa era bem grande e espaçosa, quando cheguei era mais ou menos do tamanho do Reserva Cultural e não tinha nem uma mesa vaga. Sentei-me no balcão, que atravessa todo o bar. O ambiente é delicioso, com meia luz e um som de primeira. A banda, uns tais de Steban Sehinkman 3, faz um jazz tão moderno que acho que inventaram um novo estilo. É uma mistura dos improvisos dos clássicos do jazz norte-americano com Kraftwerk e, pasme, eletro, daqueles de balada mesmo. O baterista, um débil mental que entra na lista dos três melhores que já vi, debulha os bumbos enquanto uma batida quase de rave invade os acordes suaves do piano. É uma viagem tão grande que dá um nó no cérebro. Os músicos impecáveis e todos bem novos.

No intervalo, uma das coisas mais inusitadas que já tive a chance de presenciar. Primeiro, tenho que explicar que o silêncio durante a apresentação da banda era sepulcral. Em determinado momento, juro, ouvi o chef, lá na cozinha, abrindo a torneira. Isso porque é um bar, como o Teta e outros de São Paulo. A platéia portenha é de uma educação modelar. Aí, quando os músicos pararam para descansar, anunciam uma experimentação. Uma pintora iria apresentar os quadros dela, colocando-os no palco e transformando, por alguns minutos, o bar em museu. Todas as luzes se apagaram, apenas uma luz se acendeu sobre o quadro e a platéia, muda e estática, passou mais de quinze minutos olhando para o quadro. Nem um pio, nem um riso, nem uma tosse. É como se o mundo tivesse parado ali. No começo, tudo bem, depois o silêncio começa a incomodar e, por fim, acostuma-se com aquilo.

Quando terminou a performance da tal pintora, desci para fumar e fiz minha primeira amizade em Buenos Aires. Uma senhora de 70 anos me pediu um cigarro, percebeu que eu era brasileiro e desandou a falar de música, sabia muito, falou de Tom Jobim, de Guinga e de Villa-Lobos. Ela falava tão rápido que, em muitos momentos, não entendia bulhufas. Mas ela era simpática e bastante inteligente e eu devolvia aquelas palavras misturadas com sorrisos e com o sempre útil “si”. Ela era uma boa vovó.

Show encerrado, resolvi ir embora a pé. Buenos Aires te convida a andar. De sábado, as ruas estão cheias, os ônibus continuam passando em grandes quantidades e o clima é maravilhoso. Uma cidade realmente apaixonante que é obrigatório conhecer. Por isso, até o fim de nossas vidas, anote na agenda porque temos um compromisso em terras portenhas. A saudade, hoje, já se transformou em algo mais pacífico. Tenho certeza de que você está me esperando. E você tenha certeza de que logo estou indo. Te amo mesmo.

André Toso escreve aos domingos no Sete Doses

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