“Os planejadores militares tinham um destino especial e propagandista em mente para os cuidadores do zoo e seus elefantes. O marechal de campo entendeu que os elefantes, estando entre os animais mais inteligentes, desenvolviam fortes laços com seus treinadores e cuidadores. Os soldados tinham observado, ao vivo, que os laços eram mútuos e profundos.

Aos trabalhadores do zoológico não foram permitidas armas e espadas ou qualquer outro meio de sacrificar seus elefantes. Em seguida, receberam ordens de viver no zoo com seus animais e vê-los morrer de fome.(…)

Os treinadores ouviram que seu sacrifício era pequeno em comparação ao que os soldados nas ilhas mais distantes tinham sofrido recentemente: “Porque isso significa ser um verdadeiro filho do imperador” (…)

Quanto chegaram à terceira semana, as orelhas de Tonky e Wanly pareciam grandes demais para seus corpos – e, como um dos trabalhadores descreveria mais tarde, sempre que ele se aproximava da jaula sem água seus dois amigos se ergueriam nas patas traseiras com a tromba levantada, os olhos ainda amorosos parecendo implorar: “Por favor, dê-nos algo para comer”.

Àquela altura, os próprios cuidadores já estavam sucumbindo à fome. Ainda assim, quando acreditavam que os soldados não estavam observando, davam a ração que tinham, até que suas costelas começaram a aparecer e as roupas se tornaram muito grandes para seus corpos.

O treinador principal dos elefantes, diziam, amava-os como se fossem seus próprios filhos. Mais de duas semanas depois que John morreu, o treinador encontrou Tonky e Wanly mortos em sua jaula, com suas trombas esticadas para o alto contra uma barra transversal, parecendo ter morrido ao tentar executar o famoso truque de banzai, que agradava as plateias. “Fiéis por toda a eternidade”. Como contaram os oficiais do Kaiten: “Fieis ao amigo que poderia recompensá-los novamente com comida, como fazia todos os dias, antes que o inimigo invadisse Iwo Jima e Okinawa”.

O treinador se sentou no chão e acariciou as trombas e as patas dos elefantes mortos. Ele já não tinha lágrimas, mas uma geração posterior entenderia que isso não importava, porque se acreditava que até as pedras tinham chorado no zoo de Ueno aquele dia.

A moral da história, como foi contada a Hajime, era que ele deveria estar pronto a sacrificar qualquer coisas para ajudar a levar a guerra ao fim. Uma geração mais tarde, ele e outras crianças das bombas teriam uma história bem diferente para contar – de como eles confiavam sem sem questionar no que os adultos diziam, e no que o governo dizia, e no que os homens em uniformes lhes diziam que os altos escalões queriam dizer.

“Mas o que é mais importante”, Hajime e seus colegas se esforçavam em ensinar, “é que devemos questionar além de confiar”.”

(trecho extraído de “O último trem de Hiroshima”, Charles Pellegrino, ed. Leya)

André Esposito Roston transcreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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