Sorte tem quem prefere sortilégios a privilégios.

Em Pedemão, o estatuto pregava que todo e qualquer morador da cidade deveria respeitar tal mandamento. Para a constituição local, viver desse modo era sentir-se beijado pelo alumbramento das descobertas e escapar das garantias que certificavam presente em passado.

A cláusula vital, aplicada apenas aos relacionamentos, fora outorgada pelos governantes baseada em uma simples justificativa. Como a província era dominada pela riqueza e pelo poder de senhores feudais modernos, tornou-se prática comum – e nada criativa – que casamentos fossem tramados exclusivamente pelos dotes financeiros da família dos pretendentes.

Nessa toada, almofadinhas como Alfredo, Maurício, Rubens e Clóvis garanhavam para cima das meninas arrombando os bolsos e se abanando com leques de dinheiro. Elas, tolinhas, com a inteligência de uma porta e o carisma de uma cortina, derretiam-se acreditando serem verdadeiramente amadas. No fundo, privavam-se do encantamento preferindo o favorecimento do privilégio.

Avesso a conchavos oportunistas, Marcelino jogatinava sempre levado pelos sortilégios; enredava a trama de seu peito na magia do desconhecido. Assim, vaticinava: só descobre o amor quem se descaminha no enevoar das brumas da entrega.

Engendrando derreter-se nas águas claras dos olhos de Eunice, Marcelino sabia da missão inglória. Sem um vintém furado no bolso teria de convencer o pai da moça que, por puro merecimento amoroso, deveria ficar com a mão da amada. Partiu para a casa de Eunice e, de longe, confundido com esfarrapado andarilho, foi recebido com uma estonteante saraivada de tiros de sal grosso.

Diante da desmesura daquela reação intempestiva, Marcelino só teve tempo de deixar sobre a calçada a já despetalada flor que levava para Eunice e um pedaço de papel onde havia desenhado as iniciais dos dois dentro de um coração flechado. Não era a primeira vez que ele tentava mudar o nome da província para Roubamão e fugir com quem mais amava.

Depois de infindáveis insucessos, juntou sua muda de roupa, subiu na pequena canoa e arrancou rumo ao mistério das águas do Leito Abaixo. Talvez ali descobrisse, enfim, fascinação de liquidificar a alma. Por enquanto, partia apenas com a certeza de que seu peito era uma porta que ninguém iria atender.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e pede que os leitores vejam o vídeo até o fim para entenderem toda a tristeza de Marcelino

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