Muhammad XII, o último sultão da dinastia nazari não resistiu à cisão de seu império e ao avanço das forças espanholas; viu-se obrigado a entregar Granada de mão beijada aos chamados Reis Católicos. Parecia que se encerrava ali o legado de sete séculos de ocupação árabe da Península Ibérica – o império al-Andaluz. Era 1492. Granada cheirava a azeite de oliva, a laranjas e a 700 anos de contato estreito da Europa cristã com as tradições orientais.

No começo da tarde do último dia 29 de dezembro, Granada ainda tinha o mesmo cheiro; o mesmo Palácio Alhambra, uma joia forjada em arabescos, com seus pórticos em arcos de ferradura, os jardins e fontes de água perene. Uma interpretação precisa dos sete céus islâmicos, hoje restaurada e consagrada como Patrimônio Cultural da Humanidade. A cidade ainda tinha o bairro de Albaycín, com suas ruas estreitas e a fusão de elementos judeus, cristãos e muçulmanos. Foi ali que os marginalizados de todas as origens – ciganos, mouros e outros – deram forma ao flamenco dentro de cavernas escavadas nas montanhas.

Foi também ali na província de Granada que nasceu meu avô, Juan Torres Leiva. Um dos sete filhos de Domingos Torres Jimenez e Concepción Leiva Fernandez nascidos em Piñar. Esse povoado, a 45 km da capital, não tem hoje, em 2011, mais do que 1,5 mil pessoas. Não deveria ter nem a metade em 1900, quando nasceu Juan, ou em 1907, quando a família toda deixou para trás aquelas vastas plantações de oliveiras, laranjeiras e outras culturas implementadas pelos árabes no fértil e acidentado relevo da região. Isso faz com que os Torres, Leiva, Jimenez e mais duas ou três famílias que habitavam Piñar sejam o principal tronco de todas as demais famílias que se constituíram ali ao longo de um século. Foi em busca deles que tracei a segunda parte da minha rota às origens, que começou justamente na tarde daquele 29 de dezembro.

Cheguo à estação no limite do horário para o ônibus, que sairia às 13h45. Alcanço a plataforma palpitando e me deparo com o carro estacionado, sem motorista. Encaro os passageiros, que me devolvem olhares enigmáticos, confusos. Olho para os lados, nem sinal do condutor. Um funcionário da mesma empresa vem em direção ao veículo, mas responde com uma negativa. Fico apreensivo, imagino que o verdadeiro motorista esteja ali dentro, mas sei que pelo menos assim tenho mais chance de interceptá-lo. Passam-se cinco minutos e vejo um senhor ajeitando a camisa dentro das calças, como quem acaba de se aliviar. Ele sorri, eu devolvo a gentileza e pergunto se o destino é mesmo Piñar.

Era. Da janela, vejo a muralha natural da Sierra Nevada, com seus brancos picos que emolduram Granada. Na estrada, surgem as plantações de oliveiras. Algumas fileiras. Três, cinco, dez. Subitamente incontáveis, verdejantes, perfumadas. Avisto um povoado minúsculo encravado em uma montanha, descubro que é o município vizinho, Iznalloz. O ônibus contorna o vale e uma rotatória, quando vejo a placa apontando para o meu destino. Alguns minutos depois, eu desço, acompanhado de um idoso simpático que me aponta o caminho da praça principal.

De repente, noto que tenho uma ideia muito vaga de onde começar a procurar. Minha família não tem nenhum tipo de contato com qualquer suposto remanescente espanhol dos Torres ou Leiva. Um outro idoso no caminho pinta a grade da janela de sua casa. Faço uma saudação reverente, mas ele não me escuta. Descubro que é praticamente surdo quando consigo estabelecer contato depois de chamá-lo pela quarta vez. Ele abre um franco sorriso enquanto ouve a razão da minha visita e me indica a prefeitura. Um quarteirão depois, a encontro fechada. É hora da siesta. Interrompo um casal de idosos em troca de confidências para saber se haveria alguém mais tarde. A resposta é desanimadora: só no dia seguinte. Pela primeira vez passou pela minha cabeça que talvez eu não encontrasse nada ou alguém que me pudesse dar um alento sobre a minha família.

Engano meu. Questiono sobre os Torres e os Leiva e a senhora do casal diz que há muitos na cidade. Nenhum leva os dois sobrenomes, mas ela resolve me acompanhar à casa de um Torres que conhece, para depois me apresentar aos Leiva. Me surpreendo ao fazer o mesmo caminho até a casa do senhor surdo, que ainda pintava a grade da janela. Outro sorriso, nem sei bem o que lhe perguntar. Ele confirma o sobrenome, mas não conhece nenhum Leiva e sua deficiência impede que tenhamos uma conversa muito clara. Sua esposa nota a conversa e resolve me levar a uma vizinha, uma Leiva. Ela bate na porta, que não tarda muito em abrir. Surge uma outra senhora que se mostra inicialmente desconfiada, mas logo se anima com aquele jovem que veio de tão longe para conhecer suas raízes. Enquanto conversamos, ela avista um homem montado em uma bicicleta, que a cumprimenta como um parente conhecido. De fato, trata-se de outro Leiva.

A novidade refresca minha memória e me lembro de que Irene, a funcionária do cartório que ajudou a minha família a obter os documentos para a nacionalidade, tambem é, por sua vez, uma Leiva. Inclusive comentou em carta com um primo meu – quem começou toda essa busca – sobre um possível grau de parentesco entre as duas famílias. Mas como encontrá-la, se as repartições públicas estão todas fechadas nesta quase véspera de réveillon? Caminho ligeiramente aflito e sem rumo pelo entorno da praça de Piñar quando sou interpelado pela senhora que eu havia interrompido antes. Ela quer saber se eu descobri algo sobre os Leiva e o Torres com quem falei. Eu digo com bom humor que talvez a cidade toda seja aparentada minha. Sorrimos os dois e eu me lembro de perguntar sobre a funcionária pública.

– A Irene, querido? Mora atrás da igreja, eu te levo lá.

Uma fagulha de entusiasmo. É a primeira conexão verdadeiramente palpável. Bato na porta e espero outra senhora aparecer. Para minha surpresa, ouço uma voz jovem me dizendo para esperar. Irene surge despenteada e sonolenta; descansava, com seus filhos. Mostro a ela a carta do meu primo, da qual se lembra, animada. Me pergunta se eu ficarei ali até o dia seguinte. Piñar não tem hoteis, não tenho onde ficar. Seus olhos me fitam por alguns segundos, buscam compreender minhas motivações. Noto a sua sensibilidade quando ela pega o telefone e chama seu chefe, Nicolás. Ela desliga, me encara com ternura e lamenta não poder me acompanhar ao cartório, mas assegura que em poucos minutos ele estará me esperando em frente à repartição. 

Me despeço com a maior gratidão que consigo demonstrar e, logo depois, imbuído do mesmo espírito, aperto a mão de Nicolás. É um homem de meia idade, bem vestido, mais sisudo que simpático. Percebo alguma contrariedade, perfeitamente compreensível, já que era uma condição completamente excepcional. O escritório estava fechado, mas Nicolás se compadeceu e abriu as portas para satisfazer a minha curiosidade. Subimos as escadas e entramos em uma sala apertada, com uma estante de cinco prateleiras, em que estão todos os livros com os registros de nascimento de Piñar. Pergunto pelo de 1900 e sou prontamente atendido. Nicolás parece desenvolver um interesse súbito pelo tema e começa a folhear as páginas. O livro termina e nenhum sinal do nome do meu avô. Há outro livro do mesmo ano. Folheamos, ele com os dedos, eu com os olhos e o peso da história nas costas.

Meu pai é o caçula de 14 irmãos, filhos de Juan Torres Leiva e Maria Anzanelli. Meus avós se conheceram e se casaram nas lavouras do interior de São Paulo. Ele, espanhol de nascimento, ela, filha de imigrantes italianos. Desde 1907 até a tarde daquele 29 de dezembro de 2010, ninguém dessa família tão numerosa havia pisado a terra do meu avô. Coube a mim. As folhas viravam, os nomes se sucediam e meu avô não aparecia. Olho para Nicolás, que não desiste. Na última página, uma folha parcialmente rasgada e o nome dele. Festejamos a nossa pequena vitória.

Ouço a porta da repartição se fechar com um estrondo. É Irene, que resolveu checar pessoalmente se tudo havia dado certo. Mostro o livro. É um gancho para retomarmos a conversa sobre os Leiva. Ela diz que uma das poucas lembranças que tem do avô é que ele dizia que esse nicho da família veio de Israel, na metade do século 19, para se estabelecer finalmente em Piñar, depois de passar por Sevilha. Eu acho graça da coincidência de escolher ter vivido em Sevilha, de ter me acostumado a ouvir perguntas sobre se eu era judeu, de gostar tanto do cheiro de azeite de oliva, de ter tantos parentes quanto habitantes naquela cidade. E sorrio de outra casualidade: a mãe de Nicolás tinha sobrenome Jimenez, certamente não por acaso o mesmo do meu bisavô.

Infelizmente, não tenho mais tempo para estudar toda a árvore genealógica da família. Meu ônibus de volta sai em dez minutos. Me despeço apressadamente de Irene e Nicolás, não sem antes dar um abraço apertado nos dois. Enquanto espero no ponto, resolvo perguntar a um outro senhor de cabelos brancos – Piñar é um lugar de gente idosa – sobre se ele conheceu algum Leiva Torres que morou ali.

– Lembro de um, sim. Inclusive veio gente de Tucumán, na Argentina, procurar por ele aqui. Mas ele morreu há mais de um ano, em uma cidade a 10 km daqui. Não tinha filhos, não deixou ninguém.

Tucumán, Argentina? Inspirei mais uma vez aquele ar impregnado de azeitona e senti como poucas vezes na vida como tudo fazia tanto sentido. E soube que a missão havia apenas começado.

 

Ricardo Neves Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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