O amanhã é o ontem dos que não têm o hoje.

Lenita lavava a louça como bem de costume lhe cabia. Não era machismo, mas ela o fazia com tamanho esmero e profissionalismo que o mundo inteiro jurava de botas juntas que ela parecia ter nascido para aquilo. Em suas mãos, pratos, copos e talheres brilhavam mais que noite de lua cheia.

Lemos, seu marido, que nada entendia das letras escritas, mas compreendia cada uma delas aglutinadas e faladas, chegou em casa, pomposo, depositando o violão sobre o sofá, e dirigiu-se direto para a cozinha. Lá chegando, rotineiramente aprochegou-se à pia para repousar seu cheiro e sua bitoca no cangote de Lenita.

– Boa noite, minha leveza.

– Noite. Amanhã mesmo eu parto em viagem.

– E para onde vai, mulher?

– Para onde nunca houve.

A resposta de recepção foi tão inesperada que soou como uma rasteira em Lemos. Tão forte de lhe fazer perder uma das pernas.

– Isso deve ser maldição daquele pretinho retinto. Eu é que não vou acabar que nem ele, pitando cachimbo de bambu. Carapuça nenhuma há de servir no meu pixaim; cabeçou Lemos em pensamento.

– Termina essa louça e volta pra cama pra ver a novela, meu bem, já vai começar..; escoteirou ele em tom de monitorar acampamento.

Tão dito quanto feito, Lenita – com a trouxa já empacotada sob a cama – dirigiu-se ao leito desmatrimonial. Enquanto grudeava o olhar no folhetim televisivo, orelhou o leve ranger da porta da sala. Sabia que, em descompasso, Lemos, descortinado pela notícia, saíra para derramar lágrimas etílicas com os amigos. Para que chorar em iglu de botequim se os bons costumes mandam que se derrame o sal das vistas na cama, esse, sim, um lugar quente?

O desatinar de uns é o destinar de outros.

E assim correu naquela pacata casa da cidade de Cinzaurora. Enquanto Lemos ruía capengando em um pé inchado só o ébrio atravessar da rua em frente ao costumeiro lar, Lenita, cansada da cartela descolorida de seu dia-dia, rumava simplória em busca de um mero sorriso.

O desbotar da vista é um cavar de terra-palmos despercebido.

Já no baixo portão, ele tentou impedir:

– Pra onde ocê vai, Lenita? Não me prometeu que só deixaria essa casa depois de três anos? Esse era o prazo…

– Lhe dei até demais. A ausência é a presença do não. Ontem fez três anos que ocê não aparecia. Como não deu as caras, lhe dou as costas em busca de outra assombração, outra lenda que, quem sabe um dia, faça meu peito relampejar e redemoinhar como da primeira vez que lhe vi.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e roga a todos que ouçam a trilha de Lemos e Lenita

 

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