Entre uma tragada de charuto e outra, o folclórico Eurico Miranda havia se habituado a protestar contra o centroavante Luizão em 1999. “É um homem da madrugada, sempre disposto a tomar umas”, disse, certa vez, o então presidente do Vasco. O jogador (que torcia pelo Flamengo na infância) deixara o clube carioca para firmar contrato com o Corinthians. Menos de um ano depois, retornou ao Rio de Janeiro. Como adversário.

Luizão se sentia muito cansado naquela noite de 14 de janeiro de 2000, mas fez questão de permanecer em campo durante toda a decisão do Mundial de Clubes contra o Vasco. Das tribunas do Maracanã, Eurico Miranda viu o centroavante acertar o gol na disputa de pênaltis – e Edmundo, seu substituto no clube carioca, errar. Para o “homem da madrugada”, que até já poderia “tomar umas” na comemoração do título, tratava-se de uma vitória pessoal.

Dez anos se passaram. Luizão acordou cedo para nos receber em seu apartamento, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Embora com feição de sono, mas já arrumado para se exercitar, o jogador mostrou entusiasmo ao falar sobre a conquista do Mundial de Clubes. Arregalou os olhos, por exemplo, para dizer que o Vasco teve medo do Corinthians no Maracanã.

A conversa durou quase duas horas. Bastante verdadeiro, Luizão não polemizou apenas com os vascaínos. Contou ainda que o meia Marcelinho Carioca foi agredido pelo colombiano Freddy Rincón depois de forçar uma expulsão contra o San Lorenzo, pela Copa Mercosul de 1999 – apenas uma das diversas brigas que o atacante presenciou no Corinthians. Em outra confusão, quase foi o próprio Luizão o protagonista: quis bater no norte-americano Dick Law em uma reunião com a Hicks Muse, parceira do clube na época.

A sinceridade de Luizão nesta entrevista também não poupou Wanderley Luxemburgo e outros clubes. O jogador chamou o técnico de “duas caras”. Protestou contra o tratamento que recebia no Palmeiras. Classificou o Santos como “um inferno”. E só foi interrompido pelo toque do telefone celular. Do outro lado da linha, estava o prefeito de Rubineia (sua cidade natal): Aparecido Goulart, o Cidão, seu pai e corintiano fanático.

“Rubineia é uma cidade cheia de pescadores. De vez em quando, eu me arrisco com a vara e o anzol. Mas sou bom, mesmo, tomando cerveja”, brincou um dos muitos desafetos de Eurico Miranda, quando entrava no elevador do seu prédio com algumas contas debaixo do braço. “Vou pagar tudo isso hoje. Preciso correr atrás do prejuízo”, sorriu Luizão, que mantinha o condicionamento físico no São Paulo enquanto procurava um clube para defender em 2010.

Aqui, na sua casa, você guarda alguma lembrança do passado no Corinthians?
Quase nada. O meu pai [Aparecido Goulart, o Cidão] leva tudo para Rubineia. Ele tem todas as camisas das finais que disputei e as faixas dos títulos que conquistei. Até as minhas recordações do infantil do Guarani, de 1990, estão lá. Só me sobraram esses quadros da minha passagem pela seleção brasileira, que estão pendurados aí atrás.

Seu pai chegou a pintar o distintivo do Corinthians na casa dele em Rubineia, né?
Pois é! O escudo do Corinthians fica em destaque na caixa d’água do nosso sítio, para todo mundo ver. É um ponto turístico da cidade, bem na beira do rio, e as pessoas gostam bastante.

A família toda é corintiana?
Isso é engraçado. Eu sou flamenguista, meu irmão é vascaíno, meu pai é corintiano e minha mãe é atleticana porque gostava do Paulo Isidoro. Primeiro, fui jogar no Palmeiras, um rival do meu pai. Depois, fui para o Vasco, um rival meu, embora eu já tivesse deixado de ser torcedor. Tive uma trajetória bem curiosa nesse sentido.

O coração do seu pai ficou dividido quando o Palmeiras te contratou?
Acima de tudo, um pai torce pelo sucesso do filho. Ele virou palmeirense naquela época, mas ficou muito mais feliz quando fui para o Corinthians. Chegou a comprar dois pedaços na calçada do Parque São Jorge para gravar o meu nome e o dele. Meu pai é corintiano fanático, mesmo. Meu filho também fala que é.

Como foi a reação do restante da torcida do Corinthians? Você enfrentou alguma desconfiança por ter jogado pelo Palmeiras anteriormente?
Não porque eu já tinha ido para a Europa e feito uma história bonita no Vasco. Logo no primeiro jogo pelo Corinthians, marquei quatro gols. Todo o ressentimento, se é que existia algum, ficou para trás depois disso.

Esse time do Corinthians era superior ao do Palmeiras que você defendeu?
Não. O melhor time que eu joguei foi o Palmeiras de 1996. Nos últimos anos, não apareceu nenhuma equipe igual àquela.

Mas você foi campeão mundial pelo Corinthians.
Todos os títulos são importantes. O Mundial talvez seja ainda mais valioso para mim, por uma série de motivos particulares. Eu tinha acabado de sair do Vasco, depois de oito meses sem receber salário, com o Eurico Miranda me esculachando. E pegamos logo o Vasco na final, no Maracanã, lotado de vascaínos.

Torcedores de outros clubes costumam minimizar a importância do Mundial de 2000. O que você pensa a respeito?
Discordo completamente deles. O Real Madrid, por exemplo, jogou de igual para igual com a gente no Morumbi. Foi um puta jogo, bonito à beça. Todo mundo queria ganhar aquele título. Como os outros não conseguiram, ficam falando esse tipo de coisa. O importante é que a gente venceu e entrou para a história do Corinthians.

O que é mais importante: um título mundial, como esse, ou o da Copa Libertadores da América?
Para mim, tanto faz. Ganhei os dois [risos].

Se só pudesse escolher um…
Pela cultura do povo brasileiro, a Libertadores é mais importante. As pessoas acham que você deve ser campeão continental antes de jogar o Mundial. Mas o nosso título de 2000, como falei, também foi muito marcante.

A partida contra o Real Madrid foi a mais aguardada do Mundial?
Esse jogo foi muito bacana, eletrizante, com o Dida pegando pênalti do Anelka. Dei uma assistência para o Edílson também. E eu tinha acabado de perder um título para o Real Madrid, em 1998. Eu enfrentava o Hierro, o Panucci e todos os outros desde a época em que joguei no La Coruña.

Entrou em campo ‘mordido’ por causa desse vice-campeonato?
Isso é inevitável. Quando você perde uma vez, quer ganhar de qualquer jeito na próxima oportunidade. Eu estava muito puto com o Vasco também, pois venci tudo lá e fiquei sem receber os meus salários. Fui um dos caras que mais jogaram bola naquele time. Todo mundo ganhou o seu dinheiro, menos eu.

Como você se preparou para esse reencontro com o Vasco?
Nosso time estava esgotado na decisão do Mundial, pois tinha disputado o Campeonato Brasileiro até o final de 1999, enquanto o Vasco ficou só se preparando. Passei o Natal no Guarujá e voltei para São Paulo em um teco-teco no dia 2 de janeiro. Treinamos apenas três vezes e já jogamos no dia 6. Foi uma loucura, com um jogo atrás do outro.

O cansaço do Corinthians foi determinante para o 0 a 0?
O Vasco foi covarde. Não partiu para cima, mesmo estando descansado. Chegou uma hora em que eu fiz uma falta no Viola e até disse assim para ele: “Desculpa, Viola, é que eu não tenho mais perna para correr”. Se eles tivessem se imposto de verdade dentro do Maracanã, poderiam ter vencido. Se fosse o contrário, com a gente jogando no Morumbi naquelas condições, iríamos com tudo para cima deles.

Foi o Vasco que perdeu o título mundial, e não o Corinthians que ganhou?
Não estou tirando o nosso mérito, mas o Vasco deixou de ganhar um título importante por ter medo. A verdade é que o Vasco teve medo, sim. Porque o nosso time era bom. Eles sabiam que, se dessem espaços, a gente faria gols.

Você pediu para cobrar pênalti na decisão?
Eu estava morto quando o jogo acabou. O Oswaldo de Oliveira chegou para nós e perguntou: “Quem quer bater pênalti?”. Respondi na mesma hora: “Eu vou cobrar!”. E eu já estava com as meias arriadas, todo acabado.

Por que quis bater, então? Muitos jogadores se esquivaram nesse momento.
É verdade. Mas eu queria participar da hora decisiva. Achei muito legal o Edu e o Fernando Baiano, dois garotos na época, terem a mesma atitude.

Já havia programado o canto onde bateria o pênalti?
Não. Era fogo porque eu havia acabado de sair do Vasco. Na maioria dos pênaltis, chuto no canto direito do goleiro. Mas o Helton [goleiro vascaíno] me conhecia. Pensei assim: “Vou mudar de lado porque esse filho da puta treinava comigo”. E, ainda assim, ele saltou no canto certo. A minha sorte foi ter batido bem.

Você estava nervoso na hora?
Fui muito tranquilo para a cobrança. Talvez porque Deus faça as coisas certas. Eu não podia perder aquele título para o Vasco. De jeito nenhum.

Os outros jogos do Mundial também te marcaram?
Aquele time amarelo que enfrentamos na primeira fase foi complicado. Raja Casablanca, né? Al Nassr, exatamente. Perdi dois gols de cabeça, e a torcida começou a pegar no meu pé. Para piorar, o Daniel foi expulso e precisei jogar como lateral direito durante uns 40 minutos. Mas até que me saí bem nessa improvisação, mesmo com o Oswaldo de Oliveira e os torcedores ao meu lado, pressionando. Dei o passe para o Rincón fazer o gol da vitória.

Como era o relacionamento desse time do Corinthians fora de campo?
Edílson, Marcelinho e Rincón eram brigados. O Vampeta e o Dinei apaziguavam todo mundo, fazendo bagunça para tentar levar a galera no bico.

Quais eram os problemas entre os jogadores?
O Corinthians sempre teve briga de vaidades. Eu até me dava muito bem com o pessoal. O Rincón, por exemplo, jogava comigo desde a época do Palmeiras. O goleiro Maurício foi companheiro do meu irmão no Novo Horizontino. Tinha muita gente bacana no elenco. O Gilmar Fubá era uma figuraça.

Alguma história curiosa te marcou?
Foram tantas. Na minha primeira concentração pelo Corinthians, o Gilmar Fubá deu um soco forte no Mirandinha, que cortou o supercílio. Houve também a briga do Rincón com o Marcelinho, contra o San Lorenzo.

Conta melhor.
Eu estava acabando de chegar nessa briga do Gilmar Fubá. Não posso falar muito. A confusão com o Rincón é mais legal. A gente estava ganhando do San Lorenzo por 1 a 0, jogando bem pra caramba, e o Marcelinho não queria participar da próxima partida. Aí, ele acabou expulso ainda no primeiro tempo. Quando o jogo acabou, o Rincón desceu correndo para o vestiário, puto da vida. O Maurício e o Vampeta voaram para tentar apartar. Mas como a gente conseguiria segurar aquele negão? Chegando lá, o Rincón foi para cima e arremessou o Marcelinho naqueles armários de ferro do estádio do San Lorenzo. Deve ter doído muito. Depois, os mais fortes do elenco finalmente conseguiram conter o Rincón. Eu não tinha condições de fazer isso [risos]. [Após Marcelinho deixar o campo, o San Lorenzo venceu o Corinthians por 2 a 1 no dia 21 de outubro de 1999, repetiu o placar no jogo de volta e avançou às semifinais da Copa Mercosul.]

O Rincón também brigava muito com o Edílson, não é?
Isso acontecia em todos os jogos [risos]. Agora, estou lembrando de outra história bem engraçada. Foi a maior palhaçada. Naquela final do Campeonato Brasileiro de 1999, pouco antes do Mundial, o Rincón e o Edílson não estavam se falando. Aí, na hora da reza, no vestiário, o Edílson pediu a palavra: “Olha, pessoal, eu sei que o Freddy não gosta de mim. Eu também não gosto dele. Mas, nesse momento de união, vamos fazer uma força para ganhar o título. Freddy, você me desculpa. Somos amigos a partir de agora”. Quando acabou a reza, fomos o Vampeta e eu zoar aquela ironia do neguinho: “Tu é um vagabundo, mesmo, hein? Como você é 171, Edílson!”.

Qual foi a reação do Rincón?
O Rincón ficou na dele, quietão. Depois, ele veio falar para a gente [Luizão imposta a voz para imitar o sotaque do colombiano]: “Esse neguinho non é fácil”.

Por que o Edílson e o Rincón brigavam tanto?
O Edílson é muito vaidoso e não gosta de gringo. E acho que ele está certo nisso, viu? Quando um gringo chega ao Brasil, estendemos até tapete vermelho. Lá fora, os caras só faltam matar a gente.

Você fala isso por experiência própria?
É muito complicado jogar fora do nosso País. Principalmente em lugar em que a gente não saiba falar a língua. Existe bastante preconceito em relação ao salário que você ganha, em relação a tudo. Se você vai jogar na posição do amiguinho de alguém, acaba sendo mal tratado. É muito chato. Vivi isso na Espanha, pelo La Coruña.

Qual foi o pior caso de preconceito que você presenciou?
Um dia, o centroavante do La Coruña foi ao cassino e aconteceu algo muito chato. Meus amigos estavam atrás dele. Quando ele começou a jogar, alguém disse assim para os meus companheiros: “Vocês son familiar de Luizón?”. “Somos amigos”, eles responderam. Foi aí que o cara soltou: “Entón, mi amigo mandó salir de pierto porque esta dando mala suerte a ele”. É foda.

Como foi encontrar esse jogador no treinamento seguinte?
Eu queria que ele se… Não jogava porra nenhuma, mesmo.

Quem é essa pessoa?
Uma qualquer. 

Foi por isso que você ficou pouco tempo no La Coruña?
Gosto muito do Brasil. Sinto vontade de morar aqui, de estar perto da minha família. Sou do interior, né? Lá, a gente é muito ligado à família. Sou feliz com o que tenho. Nunca quis ficar trocentos anos na Europa, ganhando muito dinheiro. Ganhei o suficiente para viver bem e criar os meus filhos.

Mas não acha que poderia ter se saído bem se tivesse insistido no futebol europeu?
Tive a chance de jogar no Real Madrid, mas o Palmeiras não me vendeu na época. Cheguei a almoçar com o Lorenzo Sanz, que era presidente do Real. Ele queria que eu assinasse um pré-contrato para poder brigar por mim na Fifa. Pagariam US$ 6 ou 8 milhões. Não deu certo. Quando cheguei ao La Coruña, o Rivaldo foi vendido no último dia de inscrições. Aí, fiquei jogando sozinho na frente. Depois, no momento em que era para eu ir para o Borussia Dortmund, campeão alemão, machuquei o joelho. Acabei no Hertha Berlin, onde o treinador pegava no meu pé. E, em time fraco, meu amigo, a bola não chega nem por um caramba.

E no Japão?
Joguei seis jogos pelo Nagoya Grampus e marquei quatro gols. Voltei porque, dois dias antes de viajar, eles falaram que eu não poderia levar a babá. Um absurdo [Luizão lamenta com os olhos marejados]. Meus filhos tinham 10 meses e 2 anos na época. Minha mulher, que tem empregada, babá, tudo, não conseguiria ficar sozinha lá. Fui só para honrar meu contrato. Aí, veio o Santos e pagou a minha multa.

Você não foi bem no Santos.
Fui apagar incêndio no Santos. Queriam que eu resolvesse a merda que eles tinham feito. Depois, não me deixaram jogar. Não fiz dois jogos seguidos. Ficava em campo sempre por 30 minutos, 40 no máximo.

Por quê?
O problema é o seguinte: quem foi ídolo no Corinthians não consegue jogar no Santos. Chegaram a falar que eu ganhava R$ 1,5 milhão lá, o que é um absurdo. Isso cria inveja. Santos é uma cidade pequena, com todo mundo querendo puxar o saco do presidente, levando fofoca para ele.

Os outros jogadores do Santos tinham ciúmes de você?
Tenho amigos no Santos. As coisas poderiam ter acontecido de outra maneira. Mas eu era campeão de tudo e iria esquentar o banco para aqueles jogadores que estavam lá? Isso é falta de respeito. Saí de clubes que eram um verdadeiro paraíso e fui para um inferno.

De quem você guarda mágoa?
Fiquei muito triste com o Wanderley Luxemburgo. Quando eu estava para sair do Santos, ele perguntou: “Você quer ficar comigo por dois anos?”. Eu não queria. Sabe por quê? Em dezembro, quando fui receber salário no guichê do Santos, só o meu não tinha sido pago. O cara virou para mim e disse: “Pagamos o de todo mundo, mas o seu não está autorizado”. Qual era o preconceito comigo?

Qual era?
Não me explicaram. Eu já estava com duas parcelas das minhas luvas atrasadas. Treinei nos dias 26, 27, 29 e 30 de dezembro. Eles me liberaram, e eu me reapresentei no dia 3 de janeiro. Joguei no dia 12 sem condição física nenhuma. E eu sou um cara que precisa de uma estrutura boa para me condicionar, como é a do São Paulo. O Santos tinha muitos equipamentos, mas os profissionais não sabiam fazer a fisioterapia direito, para te deixar pronto para entrar em campo. Depois desse jogo, o Wanderley me disse: “Olha, meu filho, o pessoal não te quer, mas eu quero. Vê o que é melhor para você”. Eu respondi: “Wanderley, por você, só quero que me paguem o que está atrasado”. Eu tinha um ano de contrato ainda. Ganhava R$ 150 mil e deveria receber R$ 1,8 milhão, mas aceitei ficar só com 50%. Até aí, tudo bem. Mas o Wanderley foi a uma palestra e falou o seguinte: “O presidente não tinha dinheiro. Por isso, mandei o Luizão, o Giovanni e o Pitbull embora”. Como assim? Ele é um cara de duas palavras. É um duas caras, entendeu? Fiquei puto com ele. Mas a gente ainda se fala.

Como era o seu relacionamento com o Luxemburgo no Corinthians?
A gente era ódio e amor. Brigávamos à beça, mas nos dávamos bem. Os entreveros aconteciam porque ele falava alguma coisa para mim, mas queria mudar depois. E eu era capitão. Ele me fazia dizer para o grupo que, depois de uma semana de concentração, a seguinte seria livre. Mas, quando acabava o jogo, ele mudava de ideia: “Vamos para a concentração de novo!”. Com que cara eu iria aparecer diante dos meus jogadores, na condição de capitão, depois de ele fazer isso?

Antes daquela confusão no Santos, a sua saída do Corinthians já havia sido conturbada.
Não tenho nada contra o Corinthians. Falo com o Dualib até hoje. Ligo para ele, e conversamos bastante. O Corinthians sempre foi honesto comigo. Eu só briguei com quem não me pagou, que foi a Hicks Muse [antiga parceira do clube]. Foi a própria Hicks que me mandou entrar na Justiça. O Dualib e o Andrés Sanchez presenciaram isso.

Por que a Hicks te “mandou” mover o processo contra o Corinthians?
Eu tinha um contrato de gaveta de quatro anos, mas o que valia era o federativo, de dois anos. Na época, o Borussia Dortmund me procurou para acertar uma transferência. Eu falei que queria receber tanto de luvas e tanto de salário, mas mandei acertarem o restante com o Corinthians. O clube me vendeu, e o Borussia tinha até 21 de abril para pagar a primeira parcela. Depois do negócio fechado, eu não queria mais jogar pelo Corinthians. Mas o Wanderley Luxemburgo me fez jogar. Entrei em campo e estourei o joelho. O seguro que eles tinham feito para mim, caso acontecesse alguma coisa, era de invalidez. Você acredita nisso?

Como o problema foi resolvido?
Quando fui renovar o meu contrato, avisei: “Eu queria ir embora, e vocês não deixaram. Agora, exijo tanto de luvas e tanto de salário”. O Antonio Roque Citadini, então, queria me dar um dinheiro que era para eu devolver caso fosse embora. Recusei, lógico. Mas o Wanderley ficou com peso na consciência e me ajudou a renovar o contrato da maneira que propus. Renovei bem pra caramba. Ninguém ganhava igual a mim no Brasil. A cada gol que eu fazia, meus vencimentos subiam em US$ 1 milhão. Fiz 15 gols em 15 jogos. Eles resolveram parar de me pagar. Comecei a ter que tirar dinheiro do bolso para quitar as notas referentes aos meus direitos de imagem.

Foi então que você decidiu acionar a Justiça?
Na reunião decisiva, estavam presentes Alberto Dualib, Edvar Simões, Antonio Roque Citadini e o Dick Law, da Hicks Muse. Os caras me deviam uma grana alta. O Dick Law disse assim: “Olha, Luizão, você tem duas opções: faz um acordo com a gente ou entra na Justiça e demora quatro ou cinco anos para receber o seu dinheiro. Se receber”. Quando ele falou isso, eu me levantei para bater nele. O seu Edvar me segurou. Eles me fizeram aceitar negociar o acordo para não ficar sem dinheiro. Mas a conversa não evoluía nunca. Na terça-feira, nada. Na quinta, nada. Na sexta, nada. Foi aí que eu telefonei: “Pô, Dick, estou te esperando para fazer o acerto”. Ele deu a desculpa de que não queria me incomodar porque eu iria jogar. Mas todo mundo sabia que eu estava machucado na época. Entrei na Justiça na segunda-feira.

Esses conflitos prejudicavam o seu desempenho?
Quando entra em campo, você se esquece de tudo e joga para ganhar. Mas tem um detalhe que só o Dualib sabe. Cerca de dez dias antes do julgamento, liguei para o seu Alberto e disse: “Estou arrependido. Vamos tentar chegar a um acerto, pois quero voltar para o Corinthians”. Ele me retornou o telefonema: “A empresa não quer a sua volta. Eles preferem que você vá até o fim na Justiça”. Eles queriam que eu continuasse com a ação, pois achavam que eu pagaria alguma multa. Essa é a historia. Agora, graças a Deus, esse processo já está resolvido. Fiz um acordo com o Corinthians.

A briga judicial não foi suficiente para abalar a sua ligação com o Corinthians, não é? Você ainda frequenta bastante os jogos do clube.
Gosto muito de ir ao Parque São Jorge também. Vou às partidas do Corinthians e do São Paulo. O presidente Andrés Sanchez é meu amigo há 12 anos, desde a época em que nem era diretor do clube. Um dia, até brinquei com ele: “Pô, o maior goleador da Libertadores é do Corinthians e você não o colocou no seu museu!”. Alguns jogadores ganharam só um Brasileiro e tem a foto estampada naquele Memorial. Isso é muito injusto. Possuo a melhor média de gols do Corinthians nos últimos anos e não estou lá. [Pouco depois desta entrevista, Luizão foi homenageado no Memorial do Corinthians.]

Você é mais identificado com o Corinthians, mesmo tendo se destacado no Palmeiras e no São Paulo?
Acho que sim. Muita gente se lembra de mim como jogador do Corinthians. Dia desses, fui ao Palmeiras e encontrei o Panza [José Panzarini, roupeiro do clube], que reclamou: “Por que você fala que gosta mais do São Paulo e do Corinthians?”. Mas eu não podia nem entrar no Palmeiras antigamente. Agora, depois de 12 anos, enfim estou sendo bem recebido pelo Toninho Cecílio e pelo Muricy Ramalho [gerente de futebol e treinador palmeirenses]. Eu sentia medo de ir ao Palmeiras em outros tempos. Ficava pensando: “Será que vão me aceitar bem lá?”.

Essa preocupação era só um pressentimento ou tinha motivo?
Se eu fosse ao Palmeiras antes, seria barrado na portaria. Tinha que ficar pedindo pelo amor de Deus para entrar. Poxa, não preciso disso. Mas essa coisa chata mudou. Sou bem recebido em todos os lugares: no Palmeiras, no Corinthians, no São Paulo… Estou até fazendo uma preparaçãozinha no São Paulo, dando uma tratada no corpo no Reffis. O verão chegou e quero trabalhar, né?

Está se sentindo à vontade nesse “retorno” ao São Paulo?
Veja só: joguei no Palmeiras e no Corinthians e, depois de muito tempo, fiz história no São Paulo. Hoje, os são-paulinos me adoram. É algo impressionante.

Por que você deu certo no São Paulo?
Por causa do treinador. Vários técnicos me ajudaram muito: Flamarion Nunes, Carlos Alberto Silva, o próprio Wanderley Luxemburgo e o Felipão, que comprou uma bronca por acreditar em mim na seleção brasileira. Mas o cara que mais me marcou foi o Paulo Autuori. Ele me deu muita moral no São Paulo. Na minha idade, o atleta precisa olhar para o seu comandante e pensar: “Esse cara confia em mim”. Eu tinha esse respaldo com o Autuori.

E o Luiz Felipe Scolari, que te convocou para a Copa do Mundo?
Conversei sobre isso recentemente, com o Luiz Alberto Rosan, fisioterapeuta do São Paulo. Ninguém acreditava na minha convocação. Fui operado no dia 18 de abril e já tinha voltado a jogar em 14 de novembro, para classificar o Brasil a uma Copa do Mundo. Isso é uma coisa de Deus. Fui iluminado. O pior é que muita gente da CBF, que estava por trás do Felipão, fazia força para eu ser cortado. Eles queriam que o Romário fosse convocado. Mas o Felipão e o Rosan me bancaram. Fiquei me tratando durante 14 horas com o Rosan antes da partida decisiva das Eliminatórias, contra a Venezuela. Joguei com um edema. Se você for rever o jogo, perceberá que eu não estou apoiando a perna esquerda nos dois gols que marquei.

Não foi somente nas Eliminatórias que você se destacou. Contra a Turquia, no primeiro jogo da Copa do Mundo, houve aquele pênalti polêmico.
O Arnaldo Cezar Coelho tinha dado uma palestra para a gente pouco antes da estreia na Copa, sobre a malandragem do jogador brasileiro. Quando caí, não pensei duas vezes. Abracei a bola e fui levando ela para dentro da área. Isso deve ter induzido o árbitro. Aquele jogo deu moral ao Brasil na caminhada até o título.

Sua família te acompanhou na Copa do Mundo?
O meu pai sempre está ao meu lado. No Corinthians, então, ele ia a todos os jogos. Na Copa do Mundo, ele e o meu irmão assistiram à final. O meu pai só chorava na Alemanha. Era muita emoção. Agora, que eu tenho um filho, fico imaginando como ele se sentia me vendo ser campeão pelo Brasil. Saí de Rubineia, uma cidade com 4.000 habitantes, localizada no cu do mundo, e cheguei ao auge.

A infância no interior de São Paulo foi complicada?
Eu ficava sozinho em casa quando era criança, esquentando comida e fazendo tudo. Meu pai trabalhava como coveiro, e a minha mãe de merendeira. Depois, eu e o meu irmão nos empregamos em um posto de gasolina. Ele era o frentista que abria o estabelecimento às 6 horas e que só ia embora às 18 horas.

Como você foi parar no Guarani?
Eu jogava em um time chamado Chicacá, de Santa Fé do Sul, e já era artilheiro com 13 anos. Em um amistoso contra uma equipe de Ilha Solteira, fui convidado para fazer um teste no Guarani. Mas, nesse mesmo período, um olheiro do Flamengo me procurou e combinou com a minha mãe de me levar para o Rio de Janeiro em julho, nas férias escolares. Era o meu time de coração, né? Avisei ao Guarani que eu não poderia mais esperar, por causa da proposta do Flamengo. Foi aí que pediram para eu me apresentar já na próxima semana em Campinas. E lá fui eu.

Deve ter sido difícil morar longe dos pais com apenas 14 anos.
Muito. O Guarani servia a última refeição do dia às 17h30, e eu não tinha dinheiro para comprar lanche à noite. Quando eu ia para a casa da minha mãe, trazia umas bolachas e conseguia segurar a forme durante uma semana. Mas chegava a ficar um mês sem jantar depois. Para piorar, a categoria infantil jogava aos sábados pela manhã e só voltava a treinar na terça-feira à tarde. Os meninos que moravam ali perto eram liberados. Eu e mais sete ou oitos ficávamos sozinhos em um alojamento enorme, para 48 jogadores, todo aberto. Dava medo. Nesse meio tempo, eu não tinha condições de chupar um sorvete, de usar a piscina do Guarani, de nada.

Você não se virava para conseguir dinheiro em Campinas?
Ah, sim. Como a gente ganhava uma passagem de ônibus por mês, eu pegava o bilhete em branco e colocava uma data qualquer para provar que estava no Guarani e receber um dinheirinho. O lanche que eu comia no Patropi, um bar em frente ao estádio Brinco de Ouro, ainda é o mais barato até hoje! É o número 8, com salsicha, ovo e salada [risos]! Foi um período bom da minha vida. Não me arrependo de nada.

Naquela época, não ficou com a sensação de que deveria ter escolhido o Flamengo ao invés do Guarani?
Não existia nenhuma categoria de base igual à do Guarani no início da década de 1990. Joguei ao lado de companheiros fantásticos, como Edílson e Amoroso. E, depois, acabei sendo ídolo no Rio de Janeiro. Atuei no Flamengo no final da minha carreira e foi bom. Ou melhor, não era o final da minha carreira porque ainda quero atuar em 2010.

Até agora, não apareceu nenhuma proposta que te agradasse?
Primeiro, eu me preocupei em manter o condicionamento físico no Reffis do São Paulo. Recebi um monte de ofertas de times pequenos, mas não quis ir. Pretendo jogar em uma equipe com estrutura. Sei que, se for assim, consigo fazer muitos gols.

Foi por isso que não deu certo o seu acerto com o Rio Branco, no final de 2009?
Achei que aquilo fosse coisa de amigo. Só que, no contrato, havia mais cláusulas do que nos meus acertos com o Palmeiras. Fizeram uma cena no Rio Branco, comigo fingindo que estava assinando contrato. Ridículo. Elaboraram um projeto de marketing para mim, com cartaz na cidade e tudo. Mas como os caras me dão um contrato de oito páginas para assinar? Nesse caso, eu precisaria de um advogado para ler tudo. Nunca tive empresário antes, mas sempre coloquei um advogado para analisar os meus acordos com os grandes clubes. Tanto é que quem fez o meu contrato com o Corinthians foi o Gilberto Cipullo [atual vice-presidente do Palmeiras]. Fiz um palmeirense entrar no Corinthians.

Você vai ficar frustrado se não conseguir reforçar nenhum grande clube e precisar encerrar a carreira agora?
Estou deixando a vida me levar. Sinto vontade de jogar. Se não der, tudo bem. Já tenho os meus negócios. Fiz loteamento do meu sítio na beira do rio e possuo uma escolinha de futebol com quatro campos [batizados de Parque Antártica, Brinco de Ouro da Princesa, Parque São Jorge e São Januário] e uma porcentagem sobre uma área de um shopping em São José do Rio Preto. E, aqui em São Paulo, minha mulher é dona de uma clínica de estética e eu estou investindo em estacionamentos de carro. Um deles ficará pronto em junho e o outro, no final de 2011.

Seu pai virou prefeito de Rubineia. Você não pensa em se engajar na política também?
Isso não é para mim. Quando ele se candidatou, fui contra. Eu morava na Alemanha e chiei: “Pai, você não vai poder vir me visitar depois disso. Tem os seus netos também!”. Mas era questão de honra. As administrações anteriores haviam acabado com a minha cidade, roubado muito a população. Os funcionários estavam sem receber. Era uma causa pessoal. O povo estava pedindo para ele ser prefeito.

Qual é o partido dele?
Nem sei. No interior, não existe esse negócio de partido. O que conta é o seu nome. O único ruim foi que ele começou a fazer campanha um ano e meio antes da eleição. Eu tive que bancar tudo [risos]. [Cidão é filiado ao PSDB.]

Você ainda vai muito a Rubineia?
Minha vida hoje é em São Paulo, Maresias e Rubineia. Vou todos os finais de semana para o litoral, faça chuva ou faça sol. Tenho uma casa legal, onde fico com os meus amigos. Frequento Rubineia na época de Natal, passando uns 10, 15 dias. Talvez eu seja o mais famoso cidadão da região, pois ninguém daquele lugar conquistou o que conquistei na vida. Mas todo mundo de lá está acostumado comigo. Ando descalço nas ruas, vou pescar, fico com os meus amigos no posto, no barzinho… Nunca mudei o meu jeito de ser. Nem vou mudar.

*Entrevista publicada na Gazeta Esportiva em janeiro de 2010 e reproduzida com poucas adaptações. Luizão hoje trabalha como empresário.

Helder Júnior aguarda o novo Sete Doses, às quintas-feiras

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