Transitoriamente amar é despavimentar as alamedas do peito.

Em Findalma, desde que se conheceu a presença humana no local, os animais instauraram uma lei velada entre eles: como os repugnantes homens já davam sinais de que extinguiriam espécies e aniquilariam aquele ecossistema, os bichos deveriam viver ao ponto máximo da entrega. Inadimplência sentimental passaria a ser encarada como crime.

A partir de tal acordo, os gostares bumerangueavam. Em via de mão dupla os quereres eram dos mais sinceros ao abraçarem a plenitude. Diante dos espelhos, os meio afetos se irreconheciam.

Damião, o jabuti, nunca precisara que lhe recomendassem o escancarar de si. Justamente por isso, havia uma discrepância gritante entre sua lerdeza física e a amorosa. Era casco duro por fora e peito macio por dentro. Sabia que benquerência não se mede por trenas. Transborda feito barragem arrebentada de hidrelétrica. Não há dique que segure a volúpia da corredeira das águas.

O respeito à nova lei em Findalma seguia em ponto morto e nunca ninguém havia sido condenado por avareza afetiva. Até o dia em que Miguelinda, a centopeia, foi autuada por mesquinhez sentimental. A alegação da justiça era que mesmo não sendo das mais velozes, ela se aproveitava de seus infindáveis pés para colocar o coração de Damião em rodeios e tangenciar à francesa a entrega do amoroso jabuti.

Desde a prisão de Miguelinda não houve um dia em que Damião não tivesse ido visitá-la com flores na cela. Ela até reconhecia boniteza no gesto daquele “homem” perdido em labirintos por ela, mas não tinha nada para oferecer em troca. Foi então que depois de um mês de prisão da centopeia, o jabuti chamou os guardas e convocou a Justiça para propor um acordo:

– Senhores, façamos o seguinte: Miguelinda não merece penitência. Proponho que a soltem e me prendam em seu lugar. Como o sentimento não necesariamente precisa ser compartilhado e retribuído, vou encarcerar o meu aqui no peito. Carregarei isso comigo, só quero que ela seja livre e caminhe com pés de pluma guiada pela alma em leveza.

A ordem foi absolutamente subvertida e – não que se configurasse um movimento de compaixão – Miguelinda passara a visitar Damião todos os dias em sua própria prisão. No primeiro dia, chegou e partiu calada, entregando apenas uma flor ao jabuti. O gesto ia se repetindo na segunda visita quando Damião vaticinou:

– Não me traga mais flores. Quero ficar com essa entre o nariz e o peito. Quando acabar o cheiro e o sentimento que há nela você me traz outra. Eu sigo bem aqui. São as pétalas a bradar que ninguém tem nada de bom sem sofrer.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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