Palmeiras (três vezes), Goiás, Santos, Paraná e Cruzeiro (duas vezes) mostraram desde 2005 que a fase preliminar da Libertadores era um mero protocolo para o futebol brasileiro. O fiasco corintiano no dia 2 de fevereiro na Colômbia ressuscitou o modorrento discurso de que “não tem mais bobo no futebol” (que já havia aparecido, verdade seja dita, desde o Mazembe) e pode ter rasgado a folhinha de 2011 no calendário do Parque São Jorge.

O Corinthians é um gigante, como tal, temido e respeitado pelos seus rivais. É impossível negar o quanto é difícil enfrentá-lo em um mata-mata. Ou mesmo encará-lo em boa fase, no Pacaembu lotado. Nem por isso o time deixa de ter suas deficiências e pesadelos, mesmo que transitórios.

Já houve o impressionante jejum de 23 anos sem títulos que Basílio tratou de acabar em uma jogada que durou eternos sete segundos. E a briga perdida dos últimos anos se chama Libertadores.

O especialista em psicologia (ao menos daquela que ultrapassa as vãs divagações de butecos) do Sete Doses se chama André Toso. Mas entro perigosamente na seara para diagnosticar o óbvio: o Corinthians sente a pressão e a responsabilidade de ter que vencer a Libertadores e se apequena quando participa do torneio. Como aconteceu diversas vezes nos 23 anos de jejum.

Os elencos nas nove participações da Libertadores foram, evidentemente, diferentes. Mas quando a equipe entra em campo para jogar, principalmente em casa, o clima é tenso, quase sempre de apreensão. Há festa nas arquibancadas, claro, mas misturado ao temor, e este cenário influencia negativamente no desempenho dos jogadores.

Não à toa muitas eliminações recentes aconteceram com resultados decepcionantes e/ou expressivos dentro de casa, onde o Corinthians é sempre muito forte – derrotas para Grêmio, em 1996, River Plate, em 2003 e 2006, e um empate insosso com o Deportes Tolima, em 2011.

O que impressionou neste ano, porém, foi a precocidade da eliminação. E ainda para um adversário sem expressão, ao contrário de todas as outras vezes. Mas o fato é que a direção se esforçou para que mais uma queda na Libertadores se tornasse em um vexame histórico.

O Corinthians lutou pelo título nacional até a última rodada em 2010, mas se arrastou no segundo turno do último Campeonato Brasileiro. O elenco parecia saturado. E conseguiu piorar para 2011. William, capitão e líder, e Elias, o melhor jogador do time, saíram. E os reforços que foram contratados foram pífios (Fábio Santos e Luis “Cachito” Ramírez saíram da Colômbia com cara de vilões).

Para piorar, a soberba parece ter atrapalhado o Corinthians. (“Não será problema”, disse Ronaldo. “Vamos atropelar o Tolima no Pacaembu”, afirmou Roberto Carlos). O risco cresceu e se tornou realidade com a disputa do primeiro jogo, em São Paulo, marcado pela postura medrosa da equipe, simbolizada por um treinador preocupado apenas em não perder, e o excesso de confiança depositada em jogadores ainda sem personalidade para serem decisivos em momentos importantes, como Jucilei e Dentinho.

Restou desprezar o retrospecto do Tolima como mandante – apenas uma derrota em 2010 – para conquistar a classificação na Colômbia. Mas foi preciso pouco tempo para ter certeza que a missão não seria cumprida.

O Corinthians se apresentou sem um meia de criação e sem padrão de jogo. Ainda tinha um lateral-esquerdo, Fábio Santos, que tropeçava na bola e fazia em campo a função de avenida. Na frente, Dentinho aparecia apenas com firulas e Ronaldo misturava problemas físicos com displicência.

Em casa, o Tolima fez o simples. Se impôs, explorou o lado esquerdo da defesa do Corinthians e apostou na velocidade de Diego Chara e nos passes precisos de Elkin Murillo. Avançou para a fase de grupos da Libertadores e entrou para história do futebol brasileiro, para alegria de quase todos torcedores, afinal o Corinthians é, hoje, o time mais odiado do País (o que comprova a força do time do Parque São Jorge).

Ao Corinthians resta a necessidade de se reformular, superar o turbilhão da queda precoce e acreditar, mesmo que seja improvável nesse momento, que 1999, quando foi eliminado dramaticamente da Libertadores, mas foi campeão brasileiro, pode se repetir. Mas o principal é saber que precisa se preparar muito bem para a sua próxima participação na competição continental porque o time terá que superar os adversários e os próprios fantasmas, que aumentam a cada eliminação, para ser campeão. Há cada ano ficará mais difícil. Mas o Corinthians ainda será campeão da Libertadores.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

 

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