Minarete em Fez

 Perder-se nas medinas das cidades imperiais do Marrocos também significa conhecer um dos principais traços distintivos deste povo: a espiritualidade. A rotina dos marroquinos muçulmanos – mais de 95% da população – consiste em intercalar os afazeres com as visitas às mesquitas. Seis chamadas diárias – por alto-falantes instalados em toda a cidade – conclamam ao compromisso divino.

Infelizmente, quem não segue os preceitos do Corão escuta, como todos os outros, mas não pode entrar para conhecer. Uma das versões para a proibição vigente ali nada tem a ver com uma eventual falta de flexibilidade ou tolerância islâmicas, como alguns podem imaginar. Parece que um estudante francês entrou na mesquita e, ao ver todos de joelhos, desatou a rir. Foi espancado pelos fieis que notaram sua descompostura. O caso ganhou contornos diplomáticos e culminou na restrição de visita a qualquer estrangeiro não-muçulmano.

Mas existe um alento ao turista: as madraças. Muitas dessas escolas corânicas liberam a visita fora dos horários de culto. Algumas delas inclusive compreendem mesquitas dentro de sua estrutura, incluindo minaretes (as torres de onde o almoadem faz os chamadas para a oração) e os pórticos majestosos ricamente adornados e esculpidos. No centro do principal salão desses edifícios, uma fonte jorra incessantemente a água cristalina com que os fieis lavam seus pés, mãos e a cabeça antes de orar.

Madraça Bou Inania, em Mèknes

No andar superior, celas designadas para estudantes não abrigam mais do que cadeiras e mesas para se debruçar sobre o livro sagrado. O chão, formado por pequenos mosaicos com desenhos abstratos, conduzem o olhar aos azulejos instalados nas paredes. Colunas de mármore denotam a mescla da arquitetura romana. Pequenas e grandes inscrições em árabe trazem passagens do Corão. Tudo funciona como uma mimetização idílica do paraíso de Alá.

Fez abriga a mais conhecida madraça de Marrocos. A Médersa Bou Inania foi construída pelo sultão Abu Hassan e seu filho, Abu Inan. Eles esperavam que os estudantes, felizes por poderem habitar aquele pedaço de ceu, fossem fieis à dinastia em um momento de instabilidade política. No auge, a escola corânica recebeu mais de 2 mil estudantes. Com o mesmo nome da madraça de Fez, a Bou Inania de Meknès também é impressionante: construída no século XIV, abriga 40 celas para o estudo do Corão, um salão de oração pequeno e suntuoso adornado com muitas inscrições e formas geométricas talhadas na madeira ou esculpidas no gesso.

Compatível ao número anual de visitantes que recebe, Marrakech tem a maior madraça do País. A Ben Youssef foi construída no século XVI e abrigou 800 estudantes, mas tem tantos pavilhões e salas que lembra mais um palácio. Mas o destaque do roteiro religioso desta que provavelmente é a cidade mais conhecida do Marrocos para os brasileiros, é a mesquita Koutobia. Ainda que tenha a entrada proibida, é possível ver quase todo o seu interior graças aos incontáveis portais que dão acesso à sala central de oração. Seu minarete é, junto à praça Jemaa el Fna, o maior cartão-postal da cidade: são 65 metros de torre, com uma cúpula no topo dotada de três esferas douradas. A lenda diz que o ouro usado nas esferas veio das joias fundidas da esposa do sultão Yacoub el-Mansour. Foi um castigo por ela ter comido uvas durante o período do Ramadã.

Azar o dela, sorte a nossa.

Mesquita Koutoubia e a torre das esferas douradas

Pátio da Madraça Ben Youssef, em Marrakech

 

 

 

  

 

 

 

 

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses 

 

 

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