* Matéria publicada originalmente no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo

Quatro anos após Contínua Amizade, o duo formado pelo bandolinista Hamilton de Holanda e o pianista André Mehmari lança um disco em homenagem a dois dos maiores compositores do País: Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. O Estado reuniu a dupla em um bate-papo em que Hamilton e Mehmari falam de respeito e ousadia ao regravar a obra de autores consagrados, da brasilidade dos temas de Egberto e Hermeto e do processo de criação do álbum.

A relação de vocês com a música de Egberto e Hermeto vem de longe. Como fizeram para chegar ao repertório do disco? Não deve ter sido fácil… E algumas obras, como Palhaço, do Egberto, e Bebê, do Hermeto, não poderiam ficar de fora…
 
Mehmari – A gente podia ter feito um disco duplo, triplo, é muita coisa que se pode tocar, mas eu acho que a gente escolheu músicas que seriam inspiradoras pra tocar em duo.
 
Hamilton –
E eu acho que houve um certo desapego também. A gente escolheu 12, 13, 14… escolheu, está escolhido, esquece. Senão a gente ia pirar.

Mehmari –
A gente primou pela fluência da história, se a gente ficasse pensando muito talvez não concretizasse porque é muita responsabilidade. A gente ligou os microfones muitas vezes sem nunca ter tocado uma música. Mas, como você disse, tem alguns clássicos que a gente fez questão de abordar. E abordamos de uma forma que eu acho que ficou com a cara do duo. Ao mesmo tempo em que somos respeitosos com o original, conseguimos colocar uma visão muito particular dessas composições.

Há gravações de outros intérpretes muito respeitosas ou outras em que você quase não identifica vestígios da partitura original. Qual foi o cuidado para que Gismontipascoal tivesse esse equilíbrio?

Hamilton –
Tem uma coisa importante que faz com que isso aconteça: a gente é compositor também. O compositor precisa do intérprete. Se você regrava algo de alguém que já morreu, pode pirar, fazer o que quiser. Mas nesse caso os caras são vivos, mais vivos do que nunca, estão numa atividade incrível. E a gente poder fazer uma música que respeite a essência das composições, mas que também respeite a liberdade que eles mesmos têm como músicos, que eles defendem, eu acho o ideal. De alguma maneira é fácil pra gente andar nessa estrada que já foi pavimentada por eles. A gente não podia se fazer de humilde e só bater continência. A continência batida é porque a gente gosta demais deles, mas a gente também tem coisa pra falar sobre a música.

Mehmari –
E como compositor a gente identifica o que é essencial naquilo e o que não é, o que pode ser trabalhado de uma forma saudável. Sete Anéis, por exemplo, é um caso no qual a gente tem um apego pelo texto original muito grande…

Hamilton –
Frevo também…

Mehmari –
É. E é o som do duo, a gente não está tentando emular o som que você encontra nos discos deles. O que você escuta no nosso disco é nosso som.

E em relação às composições de vocês, elas já existiam ou foram compostas para o disco?

Hamilton
Gismontipascoal a gente fez aqui. Eu fiz a primeira parte no violão e mostrei para o André. Fui ao banheiro e quando voltei ele tinha terminado a música (risos).

Mehmari –
E virou o hino do disco, né? Abre e fecha o disco em dois arranjos diferentes. E tem essa singeleza, é extremamente singela essa composição, que é nosso agradecimento, aí sim, reverente e humilde a esses mestres. O disco é uma assertiva das nossas experiências musicais com personalidade.

Vocês lembram quando foi a primeira vez que ouviram Egberto e Hermeto e o impacto disso?

Hamilton –
Tinha um projeto chamado Tom Brasil, que viajava o Brasil inteiro com um super projeto de
música instrumental. E eu vi o Hermeto na Sala Villa-Lobos, lá em Brasília, eu devia ter uns 16 anos. Na primeira vez em que eu o vi, ele fez uma fantasia sobre Luiz Gonzaga, fiquei chapado, me perguntando como é que podia um cara pensar e tocar? O tempo da cabeça para os dedos não existia, era instantâneo. Aquela imagem ficou marcada. Depois, mais pra frente, comecei a ouvir mais coisas do Hermeto. O primeiro disco talvez tenha sido o Festa dos Deuses. Do Egberto foi Baião Malandro, em 97, 98, um arranjo feito pelo Duo Assad, que mais me impressionou. Teve também Frevo, com um arranjo do Marco Pereira.

Qual a característica da música deles que mais chamou atenção de vocês, logo de cara?

Hamilton –
Eu sempre fui mais ligado ao choro, né… O Egberto e o Hermeto preencheram um lugar na evolução da música que é o seguinte: tem Pixinguinha, Jacob, etc… Aquela turma com que eles também conviveram um pouco, do samba jazz, do Beco das Garrafas… e eles vieram pra fincar bandeira: “Olha, existe o jazz, existe o flamenco, a música instrumental cubana jazzificada, mas existe essa música brasileira na essência, que tem improvisação também, que é nossa…”

Mehmari –
E que é de câmara… A maneira com que o Egberto sintetiza a brasilidade no piano segue uma forma que ele organizou, um código que influenciou toda uma geração de pianistas que vieram depois.

Hamilton –
E a maneira de compor também, né? Você ouve um pouco de choro, um pouco de música do interior…

Mehmari –
E vem a música europeia. Tem a tradição, que ele estudou com a Nadia Boulanger, tem todo aquele hálito de tradição, linda. O piano é um instrumento europeu, é impossível dissociá-lo da tradição europeia. Ao mesmo tempo veio (Ernesto) Nazareth, Chiquinha Gonzaga…

Hamilton –
E é um pouco o que a gente também se propõe a fazer, colocar nos nossos instrumentos e no nosso dia de hoje essa carga de tudo que já fizeram.

Mehmari –
A gente está tocando e essa carga emerge. A gente se posiciona dentro desse legado. É o que o Hamilton fala sempre nos discos dele: moderno é tradição. É uma coisa que a gente faz sem o menor pedantismo, sem o menor esforço, a gente carrega essa tradição porque é nossa religião musical, é nosso credo, a gente carrega com o maior respeito, mas ao mesmo tempo é brinquedo pra gente essa tradição. É uma mistura de reverência e brincadeira.

Hamilton –
Por isso que os europeus, os americanos, os asiáticos ficam doidos. É uma música que tem o refinamento, o rigor que eles gostam, mas tem uma coisa que eles não têm, que é nossa…

Mehmari –
É a espontaneidade, o rigor com alegria.

O show deve ter mais improvisos do que tem o disco?

Mehmari –
A gente deve se soltar mais no show do que no disco porque o CD tem esse aspecto de registro, tem que ter uma limpeza, a gente buscou uma concisão. Na minha previsão o show vai ter muita criação, vai ser um desdobramento do disco. A gente se diverte no palco. Tocar com o Hamilton é assim. Um respeita muito o outro. É como dar um salto mortal sabendo que você nunca vai cair no chão.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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