Crescer seria fácil se apenas os anos se passassem, as rugas brotassem e os cabelos rareassem. Seria fácil apenas o passar dos dias, marcados friamente em um calendário sobre a mesa. Se o crescer só tivesse relação com o tempo – automático e mecânico – seria fácil se tornar maduro. Mas não é assim. Você acha que está crescendo? Se dói, provavelmente está. Mas duvide mesmo assim.

Anos atrás, acordava com a certeza de que amadurecer era viver experiências ao longo do tempo e tirar o máximo de proveito do conhecimento extraído. Mas não é. A experiência, em si mesmo, nada significa se não for sentida e pensada. Sentir, para depois pensar. Nada adianta sentir sem pensar, muito menos pensar sem sentir. E essa é a grande dificuldade da vida. O racionalista é o mais iludido dos seres. O sonhador é um personagem de si mesmo que termina seus dias cheio de histórias, mas muitas vezes com as mãos vazias.

Um homem se forja com uma mistura indecifrável de sentimento e pensamento. Ele não cresce pela experiência passada, e sim pela maneira como ele a encara. Uma experiência pode ser vazia de sentido quando não enfrentada com verdade e sinceridade emocional e intelectual. Ela passa, o sujeito não a percebe de fato – apenas como uma impressão, um fotograma instantâneo – e o crescimento se estanca no nada. Crescer significa olhar os avessos.

Crescer também é abrir mão. É perceber, por mais doloroso, que a realidade não se ajusta aos seus desejos. Que é necessário entender que uma parte do seu querer é verdadeira, que de fato ela é sua e não do outro (como é difícil perceber conscientemente isso). Quem não cresce, vive para impressionar o outro, para provar ao outro que pode satisfazer seus desejos. Queremos fazer o outro feliz, porque isso nos faz feliz. Mas essa é uma felicidade falsa. Só podemos entender a felicidade a partir de um estado absoluto de solidão interna, percebendo que só a entenderemos quando buscarmos nossos próprios desejos, sem nos adequarmos aos olhos dos outros. E isso é impossível de ser alcançado totalmente. Dependemos do outro.

Estar com o outro é fundamento básico de constituição da felicidade. Mas isso exige, antes, um encontro consigo mesmo. Uma definição do que você sente e pensa e de quais desejos lhe cabem. O nosso desejo não é controlável ou ajustável. Ele é. E só o que podemos fazer para contê-lo ou despertá-lo é despejá-lo em atividades, ações e sentimentos com algum sentido para a vida. Só quando você entende e se responsabiliza pelos seus desejos é que você está preparado para estar com o outro. E isso dói.

Dói pelo fato de você perceber a impossibilidade completa de ajustar perfeitamente seus desejos com o desejo do outro. Dói pela certeza de que você terá que abrir mão de muito mais do que supunha para estar com o outro. E dói ainda mais saber que, muitas vezes, você precisa abrir mão do outro pelos seus desejos e continuar em busca de outros que se ajustem um pouco melhor aos seus quereres.

De madrugada, quando o silêncio se manifesta, é possível ouvir ao fundo a voz de seu verdadeiro desejo. Ela está lá, gritando, e não há como ignorá-la. Estar com o outro é estar o mais inteiro possível consigo mesmo, decifrar os gritos de seus desejos e entender que eles podem estar na contramão da expectativa do outro. Aí, é hora de arrumar as malas e sair. Sair para um lugar chamado nada em que tudo terá que ser reconstruído. Dói. E, sim, isso pode ser um enorme crescimento. Tanto para você quanto para o outro. É preciso conhecer os seus reais desejos primeiro – só depois é possível aprender a somá-los e dividi-los.

André Toso escreve e cresce aos domingos no Sete Doses

Anúncios