Todos os dias, às 18h37, Norma ingeria uma cápsula. Seguia um verdadeiro ritual de cura. Tirava os óculos, piscava cinco vezes, erguia a cabeça e pigarreava antes de caminhar em direção à geladeira. Servia-se de um copo de água fria. Bebia um gole e gargarejava, deixando um pouco de saliva na boca. Em seguida, engolia o comprimido.

O tratamento começara há 17 anos, por indicação do marido – falecido há 12 anos. Naquela época, partilhava das mesmas dores e anseios dele. Dividiam náuseas, estomatites, devaneios e até mesmo alguns sonhos e pesadelos. Passaram a comungar também de um punhado de cápsulas e outro de fé.

Quando ele era vivo, ensinou a ela a tirar os óculos, a piscar, a erguer a cabeça e a pigarrear antes de iniciar o tratamento. Norma se encarregou de aprender sozinha o gargarejo. Ele também não a acompanhava no ato seguinte ao comprimido, quando a esposa se ajoelhava à beira da cama, unia as palmas das mãos abertas e choramingava uma novena de palavras para o nada.

Para Norma, o marido não resistiu ao tratamento justamente por não conseguir completar uma oração. Ela costumava se benzer quando o ouvia assoprar frases inconclusas e desprovidas de sentido para os estranhos – a esposa, como bem o conhecia, entendia plenamente o que ele pretendia dizer. Os demais, ao contrário, reprovavam aquele balbuciar. Como fazem com tudo aquilo que foge à racionalidade.

O marido morreu às 18h36, com as mãos entrelaçadas às dela. Norma respeitou um minuto de silêncio e, de cabeça erguida, sem os seus óculos, gargarejou e ingeriu duas cápsulas na cozinha logo em sequência. Uma por quem permanecia e outra por quem ia embora.

O ritual parecia se perpetuar. Até o dia em que Norma foi à geladeira e cambaleou. Sentiu-se tonta e sem forças. Seus óculos já não lhe bastavam para enxergar. Piscou dez vezes, e nada. Ergueu a cabeça, porém se engasgou ao pigarrear. Suas mãos suavam. A ponto de o copo de água fria escorregar e partir-se em pedaços, no chão, durante o gargarejo.

Norma também ruiu. Sem encontrar seus comprimidos, uniu as palmas das mãos abertas e tentou choramingar as suas palavras para o céu, longe do pé da cama. Pronunciou somente o nome do marido e, assim como ele pecava, não conseguiu completar a oração. Por mais contraditório que fosse, naquele instante Norma se julgou curada. Às 18h38.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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