Domingo


 

As ruas de Palermo. De acordo com as minhas contas, andei 10 km por dia em Buenos Aires

Buenos Aires, 27 de setembro de 2010 (23h30min)

Voltei a acordar muito cedo hoje para aproveitar a manhã.  A abertura do Congresso foi de tarde e ainda tive umas horas extras para dar mais uma chance para a Recoleta. Confesso que no dia em que havia visitado esse bairro estava tão melancólico e deprimido que ele me pareceu horrível. Não é assim. É um lugar que tem seu charme, coisas interessantes e tal. Peguei o metrô, parei em uma estação próxima e no caminho tomei o melhor café da viagem até aqui. Veio com uma espuma na consistência certa, daqueles bem tirados. Você não ia gostar, pois ele era forte. Acho que mesmo aqui você ia querer tomar café no Starbucks. Realmente seu gosto para café é uma lástima. Mas aceito essa diferença, até porque acho mais fácil fazer café aguado e sem açúcar, as chances de erro diminuem muito.

Andei até a Recoleta, parei em uma pracinha e fiquei olhando os casais deitados na grama, lembrando de Parques do Ibirapuera, Villa-Lobos e outros em que fizemos a mesma coisa. Cadê você aqui, porra? Enfim, como não tinha você, peguei meu livro do Cortázar e li dois capítulos. O argentino filho de uma mãe escreve muito. Aí andei, andei, andei e comprei uma blusa pra você que eu achava que era de Cashmere, como você havia pedido. Quando, no telefone, você me pediu para olhar o selo constatei que era pêlo de coelho. Porra!!! Mataram um coelho para fazer a blusa, os pêlos ficam saindo na mão e a qualidade ainda é ruim. A vontade é jogar fora essa porcaria.

Só consigo comprar coisas da Mafalda, sei lá os motivos. Mas achei em um sebo uma compilação de tirinhas dela por ridículos 30 pesos. É um livro de 200 páginas sensacional. Melhor compra cultural até aqui. Mesmo assim, fico assustado com os preços daqui pensando nos argentinos. Um lanche do Mcdonald´s, daqueles de preço barato, custa 10 pesos. No Brasil é R$ 5. Os caras pagam tudo em dobro por causa da desvalorização do peso. É impossível comer em um restaurante médio sem gastar pelo menos 40 pesos. Para nós é barato, para eles é uma fortuna. Imagine gastar todos os dias R$ 40 no almoço?

Minha obssessão pela Mafalda cresceu ao longo da viagem

Para conhecer um lugar novo, fui ao bairro onde fizeram uma estátua para o Carlos Gardel. Pela primeira vez deixei de sacar a câmera em um lugar por medo de ser assaltado. No pé da estátua, dois caras bem suspeitos ficavam só aguardando os turistas. Recuei e entrei em um shopping de esquina bonito de brilhar os olhos. Os preços equivaliam à beleza, impossível comprar algo. Buenos Aires continua sendo uma cidade muito cara.

Com os pés já doendo, resolvi andar mais. Peguei a Avenida Corrientes, conhecida pelos teatros, e fui indo embora em direção ao Obelisco. É muito fácil se localizar em Buenos Aires, as ruas são planejadas, a sinalização é boa. Quando cheguei a São Paulo em 2002, sem experiência nenhuma, tive muito mais dificuldade do que estou tendo aqui. Já me sinto um pouco morador, seria capaz de dar informações para turistas. Da linha verde do metrô, de Palermo e do centro conheci praticamente tudo. Quando não se anda de táxi em uma cidade é que verdadeiramente se anda. E andei muito a pé, contabilizo quase 10 km por dia, o que daria 100 km percorridos ao final da viagem. Não tenho noção, devo estar exagerando muito.

Exagero. Percebi que é isso que me faz ter empatia pelos argentinos. Para eles, uma boa experiência é a melhor de todos os tempos e uma má é uma tragédia de proporções homéricas. Tudo aqui é superlativo, é muito, é tudo. Quando falava para um taxista ontem sobre a maravilha que eram os cantos das torcidas argentinas, ao invés dele concordar, defendeu minha tese com ainda mais paixão. Em português, era um diálogo assim:

– Nossa a torcida cantando no ônibus, fiquei arrepiado. É maravilhoso!

– É fantástico, apaixonante. E quando sai gol? Meu deus, é sensacional!

Ficam dois exagerados reforçando um a tese do outro, como se fossem muito sortudos por poderem viver aquilo. O argentino, e isso que gosto neles, está sempre um pouco fora da realidade. Como eu e você.

Nesta hora, em que o estomago já estava nas costas, foi a que mais andei. A Avenida Corrientes é gigantesca e andei mais ou menos 3 km para chegar ao Obeslico. O que me deixou espantado foi o número de teatros e as filas enormes para compra de ingressos em plena segunda-feira. A galera sai do trabalho na hora do almoço para comprar ingresso. Aí almocei, peguei o metro e cheguei ao hotel em cima da pinta. Ducha rápida, vesti a fantasia e fui trabalhar.

A noite não há muito que comentar. Exausto, restou ligar para você, tomar um banho demorado e deitar no computador para apagar e-mails e preparar algumas perguntas para os caras que quero entrevistar amanhã. Ainda deu tempo de ler o livro da Mafalda, tomar uma coca e comer um salgadinho. Ah, quase esqueci, sofri um acidente doméstico. Estava tomando banho, levei um escorregão e cai. Como aqui as torneiras são na altura da bunda, bati o começo das costas, quase nas nádegas mesmo, contra elas. Sangue, dor e desespero. Nem tanto, mas ficou feio o machucado. Com a poupança dolorida vou dormir cedo porque amanhã começa uma maratona de palestras, das oito da manhã às seis da tarde. Uma delícia. Tenho saudades dos nossos finais de semana. Só faltam três dias.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Anúncios

A revolta popular no Egito ocorre diante de nossos olhos envidraçados. Explico: hoje, conseguimos enxergar tudo através do monitor do computador e das telas da televisão. Assim, temos sempre uma visão parcial e, de certa forma, romanceada dos fatores que ocorrem longe de nossos domínios físicos. Estar confortavelmente sentado na poltrona do trabalho, observando fotos e lendo notícias em tempo real sobre o que ocorre no mundo árabe é uma coisa, outra é estar lá, conhecer a realidade daquele povo e os motivos que levaram à explosão de uma revolução.

A instalação da democracia ainda parece a melhor maneira de ser governado, mas ela apresenta tantas falhas e tantas injustiças que está longe de ser o modelo ideal. A população egípcia tem toda a razão e todo o direito de sair às ruas e derrubar um ditador que só se preocupa com suas próprias vaidades. Retirar do poder uma pessoa com sérios distúrbios psicológicos e desvios de caráter é sempre um bom negócio (por que ainda não fizemos isso com Sarney e Ricardo Teixeira, por exemplo?). Mas enxergar essa revolução e o povo que dela participa como mártires e guardiões da justiça e da bondade  é estar míope para o que ocorre naquela região do planeta.

De acordo com uma coluna de Márvio dos Anjos, editor do Destak,  o Centro de Pesquisas Pew, uma instituição norte-americana, realizou uma pesquisa que detectou que 95% dos populares do Egito apóiam um Estado fundamentalista, com maior participação do ideário islâmico na política. Ou seja, eles querem derrubar uma ditadura autocêntrica para instalar outra teocêntrica. O que é pior? Ser governado por um homem que tem a ilusão de ser Deus ou ser guiado pela ilusão de um Deus? Para piorar, assustadoramente, 82% dos egípcios defendem o apedrejamento de mulheres adúlteras. Essa prática bárbara não existe no governo atual. E, por fim, um a cada dois entrevistados considera justificável um atentado terrorista.

Como sabemos, a democracia é feita pelo voto popular. A opinião levantada pela pesquisa mostra mais ou menos qual será a escolha nas urnas durante as eleições no Egito. Revolução é muito legal, muito cool e todo mundo gosta de apoiar para se sentir menos culpado com o caos do mundo, mas devemos sempre ficar atentos às complicações que podem ocorrer após a derrubada desse governo ditatorial. Não se iludam com uma revolução que melhorará muito a vida dos egípcios. Não são governos, não são poderes, não são ideologias que fazem as coisas melhorarem. O que faz são as pessoas. Elas é que são importantes.

Portanto, instalar a democracia no Egito é um passo maravilhoso e que deve ser dado – apóio a revolta popular não por achar bacana, mas por acreditar que é uma etapa de amadurecimento comunitário a ser atingida. A etapa seguinte poderá ser até mais terrível e odiosa do que o atual governo. E é isso que temos que ter em mente: não acreditar cegamente que uma revolução popular é a solução de todos os problemas. É só uma fase odiosa do homem sendo vencida, para a chegada de outra fase difícil que precisará, provavelmente, de outra revolução tardia. Mubarak não é o diabo. O diabo, como metáfora, está dentro de cada um de nós. Domá-lo é o grande desafio para melhorarmos a vida de qualquer comunidade.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

O ser humano possui uma clara resistência ao fato biológico de ser um animal. Talvez isso tenha sido ocasionado pela falsa razão da consciência e pela consequente construção de uma moral social rígida e protecionista. Isso leva o homem, progressivamente, a renegar seus instintos e criar um mundo fantasioso e ficcional. Ele se transforma, assim, em algo virtual. Desprende-se totalmente da lógica biológica e natural para construir uma lógica artificial, construída por si mesmo, pelas palavras que encobrem seus verdadeiros fins pulsionais. É aí que o homem se sente despregado de si próprio, perde sua identidade real, ligada ao natural e ambiental, e transforma tudo em criação irreal, em que ele próprio é o criador. O homem objetifica e coisifica as coisas e a si mesmo. Substitui a terra pelo cimento, as plantas pelo aço, o meio ambiente pela internet. Substitui a figura mítica de Deus pela sua própria figura narcisista, renegando qualquer abertura para o sagrado. Tudo deve ser cientificamente objetivo. Por isso, o homem contemporâneo não passa de uma ficção de si mesmo. Tenta encontrar sentido em suas próprias criações artificiais e metodológicas, sem perceber que o sentido real é indizível, incomunicável e, acima de tudo, misterioso. O homem moderno não passa de um escravo de sua própria consciência, que, por sua vez, é regida por um inconsciente que ele desconhece. O homem é mistério e instabilidade, mas quer, e de fato lhe é vitalmente necessário, ordenar o mundo para reencontrar uma estabilidade que só é possível antes do nascimento e após a morte. O tempo, o espaço, e a invenção da religião e da ciência são suas principais armas na tentativa de organizar o caos. O que não percebe é que ele mesmo é o caos incontrolável, pois o homem é a própria natureza em ação: atemporal, incomunicável e imprevisível. Sua consciência é um véu tão fino que se rasga com um leve sopro.

André Toso escreve no ônibus aos domingos para o Sete Doses

 

Ilustração: Felipe Ribeiro (www.coroflot.com/somarfr)

“Dias iguais, avareza de Deus”, Chico Buarque

Henrique espalmou as mãos no ar, esticando os dedos ao máximo para sentir toda a intensidade das gotas de chuva. Os fatos pareciam se repetir, exatamente como nos últimos dias.  Chovia novamente, no mesmo horário, com a mesma intensidade. Sua memória, apesar de seletiva e desatenta, apontava para momentos idênticos nos últimos dias. A vida tornara-se um déjà vu.  Optou por prestar atenção em detalhes, desde a água que caia dos céus até as placas dos carros que passavam. Atento, observava com olhos vivos as letras e números que formavam a identificação dos veículos. Para sua surpresa e espanto, todas eram idênticas às do dia anterior. O mundo havia se tornado um eterno videotape, uma sinfonia de uma nota só repetindo-se ao infinito. Tudo o que ocorria em um dia se repetia em todos os seus detalhes no outro. Henrique demorou dias para perceber a monotonia que se tornara sua vida.

Ainda perdido e alucinado, continuou andando a caminho de seu trabalho. Atravessou a Rua da Consolação com passos tímidos e lentos, de quem caminha sem seguir. Era incrível, apesar de perceber que os dias agora se repetiam continuamente, prosseguia preocupado com o horário do trabalho e com as obrigações no escritório. Seu andar só foi interrompido ao ouvir uma voz.

– Ei, ei… Onde está indo?

A fala, serena e macia, era de um homem de cabelos fartos e vestido elegantemente em um terno preto sob medida. Os sapatos lustrosos sofriam com as poças de água que invadiam as calçadas da Consolação.

– Eu te conheço? Estou indo trabalhar, oras.

– Por quê?

– O que você quer, afinal?

– Você já percebeu…  Não precisa mais ir trabalhar.

– Percebi… Percebi o que?

– Você sabe do que eu estou falando. Sua vida se repetindo, se repetindo, como um disco de vinil enroscado na vitrola.

Apesar do absurdo das afirmações daquele homem misterioso, tudo aquilo fazia muito sentido para Henrique.

– Olhe para os lados – advertiu novamente o homem – O mundo está se repetindo e a maioria ainda nem percebeu. Você é um dos poucos que se deu conta.

– Como você notou?

– Eu estava acompanhando você desde lá perto do Mackenzie, quando você tomou o ônibus. Eu sabia que você tinha percebido, eu vi nos seus olhos.

– E você, quando você percebeu?

– Eu… Faz dez anos já.

– O que?! Como assim dez anos?

– Eu estou preso nesta situação há dez anos!

– Como você aguenta isso?

– Tomei caminhos diferentes, é simples. Após perceber, uns três dias depois que começou a acontecer, decidi não ir mais trabalhar, mudar a rotina. Larguei minha esposa e meus filhos, larguei tudo. Não aguentava mais aquele eterno repetir.

– Isso é loucura! Você é louco. Eu vou embora!

Com os passos mais apertados, quase correndo, Henrique entrou em seu escritório. As reuniões eram as mesmas, as pessoas vestiam as mesmas roupas cinza ou pretas e as mesmas burocracias tinham de ser cumpridas. No final da tarde, ao chegar em casa, deparou-se com a mesma situação. Os filhos correram em direção ao seu colo, falaram as mesmas palavras do dia anterior, como robôs programados. O sexo com a mulher, mecanizado, foi idêntico. Até a programação da TV era a mesma. A vida tornara-se mais óbvia que o correr dos ponteiros do relógio.

No dia seguinte, o despertador tocou no mesmo horário. A rádio tocava as mesmas músicas e a chuva se formava para cair justamente no mesmo horário de ontem. Henrique colocou a mesma roupa do dia anterior, cumpriu todos os rituais – da escovação do dentes ao pentear de cabelos com gel. Saiu, decidido a esquecer aquela repetição e prosseguir com a vida que se acostumou.

Quando desceu na Consolação, sob a mesma chuva, deparou-se com um homem de cabelos raspados, vestido de bermuda e camiseta.

– Ei, rapaz, vamos para o Rio de Janeiro comigo? Vou alugar um carro e dar o fora.

– Peraí… é você? Cadê seu cabelo? E o terno?

– Então, bicho, ontem eu estava trabalhando. Fazia tempo que não trampava, só fiz para mudar um pouco a rotina. Já tô livre do eterno repetir, vou pro Rio! Vamô?!

– Não, não… Preciso trabalhar, tenho família, tenho minhas responsabilidades.

– Que família, rapaz… É todo mundo robô e você também. Mas você percebeu, não precisa mais disso. Arranca esse terno apertado, bota uma sunga e vamô curtir o Rio. Vai ficar nessa chuva?

– Por que esta acontecendo isso? Por que as coisas estão se repetindo?

– Estão se repetindo porque você quer. Só depende de você mudar a sua rotina, mas você parece que não enxerga.

– Mudar como?

– Cara, as escolhas são suas. Se você, ao invés de descer na Consolação, descer lá no Ipiranga a vida vai mudar de algum jeito. Ao invés de vestir esse terno preto medonho, bota uma bermuda. Ao invés de achar que sua vida se repete, invente-a, mude o tema. A porta da prisão está aberta, é só você empurrar…

– Mas minha vida sempre foi assim. Faz dez anos que faço esse mesmo caminho, que visto as mesmas roupas, que tenho minha rotina. Eu sou feliz assim…

– Feliz nada. Você se acostumou. A vida, pra você, é insossa como um biscoito de polvilho vencido. Não tem paixão, nada é sagrado, tudo é mecanizado. Seja criativo. Só você pode inventar sua própria realidade.

– Mas como eu faço?

– Você é livre, você pode fazer o que bem entender. Pra que ir trabalhar, se tudo vai ser igual ao dia de ontem?

– Eu preciso do dinheiro para pagar as contas. Aliás, estou atrasado…

– Que contas? Os dias se repetem e hoje não é dia de vencimentos. Vai ao banco, tira mil reais. Amanhã, como num passe de mágica, o dinheiro estará lá de novo, como se nunca tivesse sido sacado. Isso não é maravilhoso?

– Você é maluco, tenho família, rapaz.

– Venha comigo!

O homem, agora enraivecido, puxou Henrique pelos braços até o ponto de ônibus. Lá, pegaram uma condução e pararam nos arredores da Vila Mariana. O homem tirou uma chave do bolso e abriu a porta de uma pequena casa de esquina. Escondidos, os dois observavam uma mulher que fazia o café e duas crianças se trocando para ir à escola.

– Essa é minha esposa e meus filhos – disse o homem, com a voz embargada.

– Eles devem sentir muito sua falta.

– Não, você não entende… A vida deles continua a mesma, para sempre. Minha mulher nunca percebeu nada. Ela vive em replay eterno.

– Mas ela não percebeu que você sumiu?

– Não… Eu não estava em casa no dia em que as coisas começaram a se repetir. Eu estava trabalhando, como sempre.

– E como ela não percebe?

– É assim, acorda todos os dias, faz o café, leva as crianças na escola e depois fica pregada a tarde toda na frente da televisão. Aí vai buscar as crianças, volta, faz o jantar e vai dormir. Todos os dias, todos os dias.

– E você não foi falar com ela? Por quê?

– Essa é a vida que ela quer pra ela, sempre foi. Eu não falo com ela, pois seria pior. Ela está acostumada com a vida assim, deixa ela viver a vida que escolheu.

– E por que você quer que eu viva uma vida diferente da minha? Eu também gosto da minha rotina.

– Mas você percebeu o que está acontecendo, ela não.

– Como sabe que ela não percebeu? Como sabe se ela não está fazendo como eu, vivendo uma vida repetida para não precisar reinventar tudo? Faz dez anos e ela não percebe? Isso é impossível!

O homem, com a cabeça baixa, começou a chorar copiosamente. Como negar: sua mulher com certeza percebera o que acontecia, mas preferia aquela vida repetida, preferia assistir aos mesmos programas na televisão a se responsabilizar por uma mudança brusca em sua vida. E o pior: não sentia sua falta.

– Na verdade, você é feliz com essa nova vida, sem raízes – continuou Henrique – Vocês eram infelizes, ela preferiu ficar com as crianças e a TV, vivendo em looping, e você preferiu sair de casa e só voltar para observar de fora, sem precisar fazer nada, sem se responsabilizar, sem reinventar uma vida com ela. Você também é um covarde, como eu e como sua mulher!

O homem, já totalmente abalado, saiu às pressas portão afora. Henrique, sozinho, olhou para o relógio e saiu apressadamente rumo ao seu trabalho.

 

Foto: Guilherme Borducchi (www.flickr.com/photos/gbaguiar)

Seis anos depois, Henrique descia na Consolação como sempre fizera. A chuva caia com a mesma intensidade de sempre, os carros, as pessoas, os sons, tudo era da forma que sempre fora. Com o mesmo terno preto, Henrique andava lentamente rumo ao seu trabalho quando deu de frente com um homem de cabelos fartos e terno elegante.

– Você por aqui?

– É, faz uns cinco anos que voltei para o meu trabalho.

– Como vai a vida?

– Igual a sempre…

– Não tem vontade de mudar de novo?

– Não mais, sinto-me menos sozinho indo trabalhar, vendo todos os dias as mesmas pessoas, tendo a vida que sempre tive. E você, tem vontade de mudar tudo?

– Todos os dias.

– E por que não muda? Pelo menos por um dia, só para saber como é.

– Se eu não tinha mudado antes de acontecer esse eterno repetir, por que mudaria agora que a vida ficou exatamente do jeito que era pra ser? Em minha opinião, todo mundo já percebeu, mas ninguém tem força ou vontade de fazer qualquer coisa para mudar. A minha vida, pelo menos, não mudou tanto desde que o viver se tornou um piano de uma tecla só. Antes, eu tinha o piano completo, com suas 88 teclas, mas eu só tocava com uma delas mesmo. Qual é a diferença?

– É… A vida de hoje é exatamente aquilo que buscamos no ontem.

– Já estou atrasado, bom trabalho pra você.

– Pra você também.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e agradece Felipe Ribeiro pela ilustração e Guilherme  Borducchi por ceder a foto

O sexo era frio e violento. O suor gotejante dos pêlos e peles, a saliva nos lambuzando o rosto, enquanto seus fios de cabelos cumpridos enrolavam-se pelo meu pescoço. Eu utilizava força para lhe dominar e você, entregue, deixava-se levar pela minha autoridade. O sexo terminava, mal nos olhávamos e já estávamos de pé novamente, prontos para viver nossas vidas medíocres longe daquele quarto abafado. Eu voltaria para minha esposa e meus dois filhos, você retornaria para o seu emprego de secretária burra e incompetente. A vida era boa. Nós só queríamos trepar, como todo o resto do mundo.

Chegar em casa sempre foi um ato de coragem. Eu era um cara de pau que escondia por todos os poros a culpa e o ressentimento. Um beijo na testa de minha esposa, um abraço apertado nos meus filhos e a certeza de que aquele casamento não seria feliz e completo sem as escapadas sexuais na sua casa. A vida é muito curta, os meus instintos masculinos não poderiam ser refreados por uma simples convenção moral criada por uma sociedade hipócrita e reprimida. As necessidades vitais, a busca pelo orgasmo definitivo, a vontade de me unir a todas as mulheres do mundo, tudo isso não poderia passar em branco. O que é melhor, afinal? Conviver com a culpa de ser um canalha ou com a culpa de não me sentir livre para obedecer meus desejos? Escolhi conviver com a calhordice. Sou um devasso. Não posso não ser o que sou.

Achei engraçado aquele dia em que você me perguntou sobre traição. Quase engasguei com a fumaça do cigarro, mas respondi firmemente que não estava preocupado, que era totalmente a favor da relação extraconjugal. Depois de um tempo, acostuma-se, a culpa se dilui e só repousa inerte nas cinzas dos pensamentos. Mas o que me inconformou mesmo foi sua pergunta sobre o que eu acharia se a minha mulher me traísse. Inaceitável. Não consigo nem imaginar tal cena, tal degradação. O homem, complexo, um bicho, um animal, tem na territorialidade um de seus artífices. O que é meu é meu, ninguém pode invadir. E aí você indagou se eu não me colocava no lugar dela e o que eu faria se fosse o contrário. Nunca tinha pensado nisso. Calei-me. Apaguei meu cigarro e coloquei você de quatro na minha frente. Preferia você nesta posição, de preferência com a boca calada.

Maldita pergunta. Você jamais a deveria ter feito. Quando cheguei em casa, o s cabelos ainda molhados e com cheiro do xampu vagabundo daquela espelunca de motel, não conseguia olhar para os olhos de minha mulher e de meus filhos. Justamente as pessoas mais importantes de minha vida, não trastes imprestáveis como você. Não um simples pedaço de carne, em que me deleito pelo prazer e pelo fulgor de meus instintos de homem das cavernas. A culpa ressurgiu como uma fênix em meus pensamentos, a comida se tornou amarga, os dias se arrastavam e eu não conseguia sequer tocar em minha esposa.

Foi por isso que parei de te encontrar, não conseguia sequer pensar em lhe comer. Julguei, e não me arrependo, que a culpa de tudo aquilo era sua. Minha esposa me deixou, percebeu meu comportamento estranho, sentiu falta do sexo e não queria um homem zumbi ao seu lado. Eu, destruído pela culpa de ter estragado quinze anos de um casamento perfeito, pensei em como poderia me vingar de você. Trai minha mulher durante quinze anos, com você, com putas, com mulheres que não valiam nada, até com mulheres que pareciam bacanas, mas que nunca tive vontade de conhecer. Sempre fui feliz assim.  E, você, que eu tinha encontrado há dois meses, me lançou a pergunta que jogou o mundo nas minhas costas. Por isso mesmo vou lhe matar, para tentar matar em mim essa culpa devastadora que não serve para nada. Para que ter culpa? Para que se preocupar?  A vida era tão boa antes. Eu só queria trepar. Como todo mundo.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Após quase um ano de trabalho, o novo Sete Doses está praticamente finalizado, só restam alguns detalhes. O objetivo aqui é explicar como a coisa vai funcionar a partir do dia 01 de março. A data não foi escolhida por um acaso. Exatamente neste dia o blog completa dois anos de vida. Desde então, são cerca de 1400 posts, quase 200 mil acessos, diversos e-mails de todas as regiões do Brasil nos elogiando e incentivando, incontáveis reuniões memoráveis, duas festas, uma exposição e um livro lançado.

Com certeza, é muito mais do que qualquer um dos catorze esperava de um projeto despretensioso e quase irresponsável. Bom, depois disso tudo a renovação é inevitável e necessária. É como um relacionamento, um emprego, ou como tudo na vida: passa-se o tempo, a paixão começa a desaparecer e o que se vê debaixo das cinzas que sobram pode ser algo bonito ou triste. Chegamos no ponto crucial, em que definiremos se o Sete Doses ainda tem sentido de existir ou se chegou a hora de encerrá-lo e ficar com as boas lembranças.

Duas coisas, na verdade, me fazem persistir e acreditar que o site ainda tem vida longa. Primeiro, o tesão dos envolvidos: a maioria continua com o pavio aceso, gosta de criar e não espera resultados disso, faz por uma necessidade quase vital. Tenho que citar o Lex, que faz todas as sextas o podcast dose_INDIE. É impossível não considerá-lo o funcionário do mês todos os meses. O capricho, a dedicação e o conhecimento desse rapaz me arrepiam a espinha e fazem o próprio criador do site sentir vergonha por alguns de seus posts. E a segunda coisa: os leitores, pois continuamos com os acessos estáveis. Provavelmente, temos um público fiel que nos acompanha desde o começo.

Para que o Sete Doses prossiga preparamos uma reformulação completa. Contratamos um web designer, que fez um layout completamente novo e moderno e, o mais importante, convidamos mais 14 malucos para o projeto. Isso mesmo, ao invés de acabar com o site, optamos por dobrar a quantidade de colunistas. No começo, a ideia era ter quatro posts diários. Mas isso soou megalomaníaco demais e repensei junto com outros colegas de site (agradecimento ao toque do Mineiro, do Yuri, do Nicolas e do Lucas).

O novo formato tem como objetivo desafogar os colunistas, dar-lhes mais tempo para a criação de algo de mais qualidade e profundidade. Continuaremos com dois posts diários, mas com um revezamento de colunistas. Serão quatro colunistas para escrever, por exemplo, no domingo. Mas apenas dois deles escreverão em uma semana e os outros dois criam na próxima e assim por diante. Neste novo formato, cada colunista terá duas semanas para pensar e elaborar seu texto, sua tirinha, seu podcast, ilustração ou foto.

Penso, assim, que a qualidade do site irá melhorar significativamente. Com tantos dias para produzir, faltas e textos ruins serão mais raros e só quem estiver realmente sem tesão vai falhar constantemente. Só faltam alguns detalhes. Nosso cronograma é bem claro e dessa vez será seguido. Em fevereiro, deveremos organizar a terceira festa do site para comemorarmos os dois anos, apresentar o novo projeto e lançar a segunda edição de nosso livro. No dia 01 de março o site começa de novo, como num renascimento. Tudo novo, pessoas novas, ideias novas, mas com o mesmo propósito: criar com liberdade completa tudo aquilo que nos move. Espero que tenham paciência e acompanhem essa transição. Tenham certeza que o trabalho foi duro e continuará sendo. Mas no final vale a pena. E como vale.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Buenos Aires, 26 de setembro de 2010 (01h28min)

Definitivamente enjoei do café da manhã do hotel. É sempre igual, a mesma coisa: ovos mexidos, medialunas, suco de laranja e salada de fruta. Chega a dar desânimo descer para comer, durante dez dias, as mesmas coisas. Nossos cafés de fim de semana são muito melhores e diversificados. E tem você. Aqui, ao contrário, um sujeito com cara de boliviano, sentou-se na mesma mesa que eu porque o hotel não está comportando tantos hóspedes. Muitos tiveram que esperar para tomar o café.

Hoje fez o dia mais bonito de todos em Buenos Aires, com temperatura agradável e um céu tão azul que ardia os olhos. A poluição daqui nem se compara a de São Paulo, o céu não tem aquela tarja cinza no horizonte e nem o ar fica pesado quando não chove. Ainda não caiu uma gota de água aqui e o ar continua ótimo.

Sai de casa em direção a Belgrado para comprar ingressos para o jogo do River Plate. Peguei o ônibus e dessa vez me enrolei, deixei o ponto passar e me perdi completamente. Fui parar em um bairro chamado Oleros, de classe alta, mas cortado por estações de trem bem populares. Tipo CPTM mesmo. Para voltar, tive que encarar o trem. Ninguém na bilheteria, uma parte da catraca aberta. Peguei e fui achando que por ser domingo era de graça. Mas não era nada disso, tinha que colocar moedas em uma máquina lá e fiquei com o cu na mão quando passou um fiscal olhando para os lados. Depois de três estação, cheguei ao estádio. Me lembrou bastante o Morumbi. Entrada comprada, fui dar uma voltinha pelo bairro, bem charmoso, e segui para a feirinha de San Telmo.

Ônibus aqui é realmente uma beleza, eles não têm nome, apenas número, o que facilita muito. Pelo número da linha se sabe todo o itinerário que aquele coletivo vai fazer, basta ler as plaquinhas do ponto. Depois, para voltar, é o mesmo número, sem trocar nomes. A secretaria de transporte de São Paulo deveria fazer estágio aqui. Os ônibus passam um atrás do outro. O único problema mesmo são as moedinhas, ter que ficar trocando notas toda hora é um saco. Quando o bilhete único for implantado em Buenos Aires teremos um exemplo de eficiência. Tá, outro problema é que os ônibus estão caindo aos pedaços, tem umas carroças dos anos 1970 que dá pena.

A ferinha é de antiguidades e afins, muito grande e lotada de gente do mundo inteiro. Mas o mais legal, pelo menos para mim, foram os artistas de rua. Uma orquestra de tango com cantor, muito boa, e um homem invisível. O cara ficava com a cabeça por baixo da blusa e pôs um chapéu e um óculos sustentados por um arame, ficou perfeito. A impressão é de que é um cara sem cabeça, como ele está todo vestido, com luvas, parece mesmo um homem invisível. Aí tinha um cara que era a estátua do Carlos Gardel e uns tiozinhos iniciantes dançando tango.

Não sou um modelo de consumismo, por isso só consegui comprar uma miniatura da Mafalda para colocar na geladeira. Eu amo a Mafalda. Comprei também uma camiseta, falsa também, da seleção argentina. Fora isso, almocei em um restaurante foda na Rua Defensa, chamado El Desnivel. É um botequinho meio zuado, com toalhas de plástico e talheres meio sujos, mas o bife é de cair o queixo. Comprei uma garrafa de um Merlot por 30 pesos, muito bom. Sai meio bêbado e fui andando até a Praça de Maio. Foi bom ter ido lá, pois com o céu azul e o sol fica ainda mais bonito o centro de Buenos Aires.

Voltei para o hotel de metrô e dei uma bela descansada para me preparar para o jogo. Passou três coletivos, todos abarrotados de torcedores, o motorista nem parava. Fiquei preocupado, mas  o quarto ônibus estava menos cheio e foi lotando no caminho. Quando percebi, estava no meio da torcida do River, o ônibus se transformou em uma arquibancada. Eles cantavam e batiam no teto, chorei de emoção. Nunca passei por nada parecido. O torcedor argentino tem cantos belíssimos, com letras muito interessantes. A paixão com que eles cantam é fantástica. Não dá para comparar, nós brasileiros sabemos jogar, não sabemos torcer. Chega a ser ridículo comparar torcidas como a do São Paulo e do Corinthians com a de Boca e River: as duas estão a anos luz de distância.

Chegando no estádio, um lugar muito bom, com vista perfeita e as arquibancadas quase lotadas. A torcida não para nunca, jamais. É uma festa que arrepia. Quando o River fez um a zero então. Mas perdeu muitas chances e que não faz toma. O número nove, sei lá o nome do cidadão, perdeu três gols feitos. Era um altão. Pensei no meu pai. Se ele estivesse assistindo diria: “Esses grandões não dá. Sabe por quê? O cérebro é muito longe dos pés, demora para chegar a informação. Jogador bom é jogador baixinho”.

O Quilmes, o time adversário, fez o gol no último minuto. A bola entrou, o juiz apitou. A torcida do River continuou cantando mesmo com esse golpe duríssimo (tomar gol no ultimo lance é trágico desde os meus tempos de Paulista de Jundiaí). Depois que o time saiu de campo, aplaudido, ai sim a torcida fez um silencio absoluto. Eu nunca vi isso. Para a torcida do River sair é preciso esperar a do Quilmes, por isso ficamos lá aguardando. Eu nunca vi uma multidão tão grande em silencio. Os caras estavam sofrendo de verdade pela derrota. Aqui acabou com a esperança deles de começar os dias (in)utéis com alguma alegria.

Bom, hora de voltar, ônibus abarrotados, eu sem moedas, nada de taxis. Comecei a andar, andar, andar e fiquei preocupado. Nada de táxi, na verdade ainda tinha outras pessoas com o mesmo intuito que eu. De repente, depois de meia hora de caminhada, um táxi livre. Mas aí, bonzinho, cedi meu lugar para um pai com uma criança bem pequena. Andei mais quarenta minutos até encontrar o taxista. Não deu nem 10 pesos, já estava quase chegando. Minhas pernas viraram pó.

Comi aqui no hotel mesmo, um salgadinho que eu comprei e uma Quilmes. Agora, estou pronto para dormir e amanhã a coisa recomeça com mais intensidade. Depois desse tempo, sinto-me um pouco como um morador que amanhã vai trabalhar. Foram apenas seis dias, mas parece que faz tanto tempo. As horas se arrastam quando se está longe de casa. O tempo, inventado, é mesmo relativo. Parece que faz meses que não te vejo. Se cada dia equivale a um mês, ainda faltam quatro meses para nos reencontramos. Fico aqui só desejando que você tenha um bom começo de semana em São Paulo enquanto eu continuou lhe escrevendo de Buenos Aires. Estou quase pegando no sono. Tchau.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Próxima Página »