Domingo


 

O psicanalista Hélio Pellegrino (1924-1988)

Hélio Pellegrino, talvez o brasileiro mais libertário do século XX, foi múltiplo, genial e com uma coragem inacreditável. Neste último post antes do lançamento do novo Sete Doses, homenageio o homem que me inspirou a criar o site e me inspira todos os dias a continuar.

Poeta, político, meio anarquista, meio comunista, católico da teologia da libertação, escritor, batalhador, psiquiatra e, acima de tudo, psicanalista, Hélio Pellegrino lutou contra a ditadura e o conservadorismo, foi preso, torturado e criou as Clínicas Sociais na Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro. A ideia dele: que todo psicanalista reservasse duas horas de sua semana para atender de graça ao povo pobre. Pouco depois, ao denunciar o conservadorismo de psicanalistas brasileiros envolvidos com o regime militar, foi expulso da Sociedade. A Clínica Social que ele criara acabou exatamente no dia em que ele morreu de infarto. Mesmo dia também em que Sarney, a quem ele nutria uma oposição absoluta, foi nomeado presidente do País. Foi demais para o coração brigador dele.

Para quem acha que ele saiu derrotado, engana-se. Mais de duas décadas depois, a partir de agosto de 2011, devo começar a atender na Clínica Social da Sociedade Paulista de Psicanálise. Pouca gente sabe, mas ela existe  muito graças a esse mineiro fantástico, amigo íntimo e parceiro de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. Ele plantou essa semente tão importante, sofreu as conseqüências, mas ela cresceu e se espalhou. Hoje, porém, muitas das sociedades de psicanálise brasileiras possuem clínicas sociais que atendem por preços simbólicos. Abrir o consultório da psicanálise ao povo era o objetivo de Hélio e deve ser o objetivo de qualquer psicanalista, inclusive o meu.

A importância de Hélio para a redemocratização do Brasil e para a psicanálise é inestimável. Essa homenagem – meio sem conteúdo, puramente sincera – busca relembrar  a figura de um homem esquecido por muitos, mas imortal para a recente história do Brasil. É de pessoas corajosas como ele que o mundo precisa para amadurecer. Coloco, primeiro, um pequeno poema dele  (lindo, lindo) e, em seguida, uma breve entrevista comandada por Clarice Lispector.

VALSA DO ADEUS

Tudo é partida de navio, velas
ao vento, coisas desancoradas
que se desgarram. Este copo, esta pedra
que pronuncio não são palavras, nem
versos de amor, nem o sopro
vivificante do espírito. São barcos
arrastados pelo tempo, cascas
de fruta na enxurrada, lenços
de adeus, enquanto o vapor se afasta,
e de longe ilumina essa ausência que somos.

Um homem chamado Hélio Pellegrino

(Entrevista com Clarice Lispector)

Clarice – Diga qual é a sua fórmula de vida. Eu queria imitar.

Hélio – Há, no Diário íntimo de Kafka, um pequeno trecho ao qual gostaria de permanecer para sempre fiel, fazendo dele a minha fórmula de vida: “Há dois pecados humanos capitais dos quais todos os outros decorrem: a impaciência e a preguiça. Por causa de sua impaciência, foi o homem expulso do paraíso. Por causa de sua preguiça, não retornou a ele. Talvez não exista senão um pecado capital, a impaciência. Por causa da impaciência, foi o homem expulso, por causa dela não consegue voltar. Tenhamos paciência – uma longa, interminável paciência – e tudo nos será dado por acréscimo”

Clarice – Por que você escreve esporadicamente e não assume de uma vez por todas o seu papel de escritor e criador?

Hélio – Poderia driblar essa pergunta, respondendo com uma meia-verdade – escrevo menos esporadicamente do que publico. Mas esta seria uma saída falsa, e não quero ser falso. Escrever e criar constituem, para mim, uma experiência radical de nascimento. A gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer é saber-se vivo e – como tal – exposto à morte. Escrevo mais do devo para – quem sabe? – manter a ilusão de que tenho um tempo longo pela frente. A meu favor, posso dizer a você que, com frequência, agarro-me pelas orelhas e me ponho ao trabalho. Há umas coisas valiosas nas quais acredito, com muita força. Preciso dizê-las e vou dizê-las.

Clarice – Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?

Hélio – A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma e intensa mutalidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele. Na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para a mim a graça de existir. É esta fonte da verdadeira generosidade e do entusiasmo – Deus comigo. O amor genuíno ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.

Clarice – Que é amor?

Hélio – Amor é surpresa, susto esplêndido – descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado.

Clarice – Helio, você é analista e me conhece. Diga-me sem elogios – quem sou eu, já que você me disse quem é você…

Hélio – Você, Clarice, é uma pessoa com uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self… e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, sol e lua…

*Fragmentos transcritos do livro “De corpo inteiro” , Clarice Lispector, Ed.Rocco, 1999, págs 54, 55.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses graças à pessoas como Hélio Pellegrino

 

 

Crescer seria fácil se apenas os anos se passassem, as rugas brotassem e os cabelos rareassem. Seria fácil apenas o passar dos dias, marcados friamente em um calendário sobre a mesa. Se o crescer só tivesse relação com o tempo – automático e mecânico – seria fácil se tornar maduro. Mas não é assim. Você acha que está crescendo? Se dói, provavelmente está. Mas duvide mesmo assim.

Anos atrás, acordava com a certeza de que amadurecer era viver experiências ao longo do tempo e tirar o máximo de proveito do conhecimento extraído. Mas não é. A experiência, em si mesmo, nada significa se não for sentida e pensada. Sentir, para depois pensar. Nada adianta sentir sem pensar, muito menos pensar sem sentir. E essa é a grande dificuldade da vida. O racionalista é o mais iludido dos seres. O sonhador é um personagem de si mesmo que termina seus dias cheio de histórias, mas muitas vezes com as mãos vazias.

Um homem se forja com uma mistura indecifrável de sentimento e pensamento. Ele não cresce pela experiência passada, e sim pela maneira como ele a encara. Uma experiência pode ser vazia de sentido quando não enfrentada com verdade e sinceridade emocional e intelectual. Ela passa, o sujeito não a percebe de fato – apenas como uma impressão, um fotograma instantâneo – e o crescimento se estanca no nada. Crescer significa olhar os avessos.

Crescer também é abrir mão. É perceber, por mais doloroso, que a realidade não se ajusta aos seus desejos. Que é necessário entender que uma parte do seu querer é verdadeira, que de fato ela é sua e não do outro (como é difícil perceber conscientemente isso). Quem não cresce, vive para impressionar o outro, para provar ao outro que pode satisfazer seus desejos. Queremos fazer o outro feliz, porque isso nos faz feliz. Mas essa é uma felicidade falsa. Só podemos entender a felicidade a partir de um estado absoluto de solidão interna, percebendo que só a entenderemos quando buscarmos nossos próprios desejos, sem nos adequarmos aos olhos dos outros. E isso é impossível de ser alcançado totalmente. Dependemos do outro.

Estar com o outro é fundamento básico de constituição da felicidade. Mas isso exige, antes, um encontro consigo mesmo. Uma definição do que você sente e pensa e de quais desejos lhe cabem. O nosso desejo não é controlável ou ajustável. Ele é. E só o que podemos fazer para contê-lo ou despertá-lo é despejá-lo em atividades, ações e sentimentos com algum sentido para a vida. Só quando você entende e se responsabiliza pelos seus desejos é que você está preparado para estar com o outro. E isso dói.

Dói pelo fato de você perceber a impossibilidade completa de ajustar perfeitamente seus desejos com o desejo do outro. Dói pela certeza de que você terá que abrir mão de muito mais do que supunha para estar com o outro. E dói ainda mais saber que, muitas vezes, você precisa abrir mão do outro pelos seus desejos e continuar em busca de outros que se ajustem um pouco melhor aos seus quereres.

De madrugada, quando o silêncio se manifesta, é possível ouvir ao fundo a voz de seu verdadeiro desejo. Ela está lá, gritando, e não há como ignorá-la. Estar com o outro é estar o mais inteiro possível consigo mesmo, decifrar os gritos de seus desejos e entender que eles podem estar na contramão da expectativa do outro. Aí, é hora de arrumar as malas e sair. Sair para um lugar chamado nada em que tudo terá que ser reconstruído. Dói. E, sim, isso pode ser um enorme crescimento. Tanto para você quanto para o outro. É preciso conhecer os seus reais desejos primeiro – só depois é possível aprender a somá-los e dividi-los.

André Toso escreve e cresce aos domingos no Sete Doses

 

As ruas de Palermo. De acordo com as minhas contas, andei 10 km por dia em Buenos Aires

Buenos Aires, 27 de setembro de 2010 (23h30min)

Voltei a acordar muito cedo hoje para aproveitar a manhã.  A abertura do Congresso foi de tarde e ainda tive umas horas extras para dar mais uma chance para a Recoleta. Confesso que no dia em que havia visitado esse bairro estava tão melancólico e deprimido que ele me pareceu horrível. Não é assim. É um lugar que tem seu charme, coisas interessantes e tal. Peguei o metrô, parei em uma estação próxima e no caminho tomei o melhor café da viagem até aqui. Veio com uma espuma na consistência certa, daqueles bem tirados. Você não ia gostar, pois ele era forte. Acho que mesmo aqui você ia querer tomar café no Starbucks. Realmente seu gosto para café é uma lástima. Mas aceito essa diferença, até porque acho mais fácil fazer café aguado e sem açúcar, as chances de erro diminuem muito.

Andei até a Recoleta, parei em uma pracinha e fiquei olhando os casais deitados na grama, lembrando de Parques do Ibirapuera, Villa-Lobos e outros em que fizemos a mesma coisa. Cadê você aqui, porra? Enfim, como não tinha você, peguei meu livro do Cortázar e li dois capítulos. O argentino filho de uma mãe escreve muito. Aí andei, andei, andei e comprei uma blusa pra você que eu achava que era de Cashmere, como você havia pedido. Quando, no telefone, você me pediu para olhar o selo constatei que era pêlo de coelho. Porra!!! Mataram um coelho para fazer a blusa, os pêlos ficam saindo na mão e a qualidade ainda é ruim. A vontade é jogar fora essa porcaria.

Só consigo comprar coisas da Mafalda, sei lá os motivos. Mas achei em um sebo uma compilação de tirinhas dela por ridículos 30 pesos. É um livro de 200 páginas sensacional. Melhor compra cultural até aqui. Mesmo assim, fico assustado com os preços daqui pensando nos argentinos. Um lanche do Mcdonald´s, daqueles de preço barato, custa 10 pesos. No Brasil é R$ 5. Os caras pagam tudo em dobro por causa da desvalorização do peso. É impossível comer em um restaurante médio sem gastar pelo menos 40 pesos. Para nós é barato, para eles é uma fortuna. Imagine gastar todos os dias R$ 40 no almoço?

Minha obssessão pela Mafalda cresceu ao longo da viagem

Para conhecer um lugar novo, fui ao bairro onde fizeram uma estátua para o Carlos Gardel. Pela primeira vez deixei de sacar a câmera em um lugar por medo de ser assaltado. No pé da estátua, dois caras bem suspeitos ficavam só aguardando os turistas. Recuei e entrei em um shopping de esquina bonito de brilhar os olhos. Os preços equivaliam à beleza, impossível comprar algo. Buenos Aires continua sendo uma cidade muito cara.

Com os pés já doendo, resolvi andar mais. Peguei a Avenida Corrientes, conhecida pelos teatros, e fui indo embora em direção ao Obelisco. É muito fácil se localizar em Buenos Aires, as ruas são planejadas, a sinalização é boa. Quando cheguei a São Paulo em 2002, sem experiência nenhuma, tive muito mais dificuldade do que estou tendo aqui. Já me sinto um pouco morador, seria capaz de dar informações para turistas. Da linha verde do metrô, de Palermo e do centro conheci praticamente tudo. Quando não se anda de táxi em uma cidade é que verdadeiramente se anda. E andei muito a pé, contabilizo quase 10 km por dia, o que daria 100 km percorridos ao final da viagem. Não tenho noção, devo estar exagerando muito.

Exagero. Percebi que é isso que me faz ter empatia pelos argentinos. Para eles, uma boa experiência é a melhor de todos os tempos e uma má é uma tragédia de proporções homéricas. Tudo aqui é superlativo, é muito, é tudo. Quando falava para um taxista ontem sobre a maravilha que eram os cantos das torcidas argentinas, ao invés dele concordar, defendeu minha tese com ainda mais paixão. Em português, era um diálogo assim:

– Nossa a torcida cantando no ônibus, fiquei arrepiado. É maravilhoso!

– É fantástico, apaixonante. E quando sai gol? Meu deus, é sensacional!

Ficam dois exagerados reforçando um a tese do outro, como se fossem muito sortudos por poderem viver aquilo. O argentino, e isso que gosto neles, está sempre um pouco fora da realidade. Como eu e você.

Nesta hora, em que o estomago já estava nas costas, foi a que mais andei. A Avenida Corrientes é gigantesca e andei mais ou menos 3 km para chegar ao Obeslico. O que me deixou espantado foi o número de teatros e as filas enormes para compra de ingressos em plena segunda-feira. A galera sai do trabalho na hora do almoço para comprar ingresso. Aí almocei, peguei o metro e cheguei ao hotel em cima da pinta. Ducha rápida, vesti a fantasia e fui trabalhar.

A noite não há muito que comentar. Exausto, restou ligar para você, tomar um banho demorado e deitar no computador para apagar e-mails e preparar algumas perguntas para os caras que quero entrevistar amanhã. Ainda deu tempo de ler o livro da Mafalda, tomar uma coca e comer um salgadinho. Ah, quase esqueci, sofri um acidente doméstico. Estava tomando banho, levei um escorregão e cai. Como aqui as torneiras são na altura da bunda, bati o começo das costas, quase nas nádegas mesmo, contra elas. Sangue, dor e desespero. Nem tanto, mas ficou feio o machucado. Com a poupança dolorida vou dormir cedo porque amanhã começa uma maratona de palestras, das oito da manhã às seis da tarde. Uma delícia. Tenho saudades dos nossos finais de semana. Só faltam três dias.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

A revolta popular no Egito ocorre diante de nossos olhos envidraçados. Explico: hoje, conseguimos enxergar tudo através do monitor do computador e das telas da televisão. Assim, temos sempre uma visão parcial e, de certa forma, romanceada dos fatores que ocorrem longe de nossos domínios físicos. Estar confortavelmente sentado na poltrona do trabalho, observando fotos e lendo notícias em tempo real sobre o que ocorre no mundo árabe é uma coisa, outra é estar lá, conhecer a realidade daquele povo e os motivos que levaram à explosão de uma revolução.

A instalação da democracia ainda parece a melhor maneira de ser governado, mas ela apresenta tantas falhas e tantas injustiças que está longe de ser o modelo ideal. A população egípcia tem toda a razão e todo o direito de sair às ruas e derrubar um ditador que só se preocupa com suas próprias vaidades. Retirar do poder uma pessoa com sérios distúrbios psicológicos e desvios de caráter é sempre um bom negócio (por que ainda não fizemos isso com Sarney e Ricardo Teixeira, por exemplo?). Mas enxergar essa revolução e o povo que dela participa como mártires e guardiões da justiça e da bondade  é estar míope para o que ocorre naquela região do planeta.

De acordo com uma coluna de Márvio dos Anjos, editor do Destak,  o Centro de Pesquisas Pew, uma instituição norte-americana, realizou uma pesquisa que detectou que 95% dos populares do Egito apóiam um Estado fundamentalista, com maior participação do ideário islâmico na política. Ou seja, eles querem derrubar uma ditadura autocêntrica para instalar outra teocêntrica. O que é pior? Ser governado por um homem que tem a ilusão de ser Deus ou ser guiado pela ilusão de um Deus? Para piorar, assustadoramente, 82% dos egípcios defendem o apedrejamento de mulheres adúlteras. Essa prática bárbara não existe no governo atual. E, por fim, um a cada dois entrevistados considera justificável um atentado terrorista.

Como sabemos, a democracia é feita pelo voto popular. A opinião levantada pela pesquisa mostra mais ou menos qual será a escolha nas urnas durante as eleições no Egito. Revolução é muito legal, muito cool e todo mundo gosta de apoiar para se sentir menos culpado com o caos do mundo, mas devemos sempre ficar atentos às complicações que podem ocorrer após a derrubada desse governo ditatorial. Não se iludam com uma revolução que melhorará muito a vida dos egípcios. Não são governos, não são poderes, não são ideologias que fazem as coisas melhorarem. O que faz são as pessoas. Elas é que são importantes.

Portanto, instalar a democracia no Egito é um passo maravilhoso e que deve ser dado – apóio a revolta popular não por achar bacana, mas por acreditar que é uma etapa de amadurecimento comunitário a ser atingida. A etapa seguinte poderá ser até mais terrível e odiosa do que o atual governo. E é isso que temos que ter em mente: não acreditar cegamente que uma revolução popular é a solução de todos os problemas. É só uma fase odiosa do homem sendo vencida, para a chegada de outra fase difícil que precisará, provavelmente, de outra revolução tardia. Mubarak não é o diabo. O diabo, como metáfora, está dentro de cada um de nós. Domá-lo é o grande desafio para melhorarmos a vida de qualquer comunidade.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

O ser humano possui uma clara resistência ao fato biológico de ser um animal. Talvez isso tenha sido ocasionado pela falsa razão da consciência e pela consequente construção de uma moral social rígida e protecionista. Isso leva o homem, progressivamente, a renegar seus instintos e criar um mundo fantasioso e ficcional. Ele se transforma, assim, em algo virtual. Desprende-se totalmente da lógica biológica e natural para construir uma lógica artificial, construída por si mesmo, pelas palavras que encobrem seus verdadeiros fins pulsionais. É aí que o homem se sente despregado de si próprio, perde sua identidade real, ligada ao natural e ambiental, e transforma tudo em criação irreal, em que ele próprio é o criador. O homem objetifica e coisifica as coisas e a si mesmo. Substitui a terra pelo cimento, as plantas pelo aço, o meio ambiente pela internet. Substitui a figura mítica de Deus pela sua própria figura narcisista, renegando qualquer abertura para o sagrado. Tudo deve ser cientificamente objetivo. Por isso, o homem contemporâneo não passa de uma ficção de si mesmo. Tenta encontrar sentido em suas próprias criações artificiais e metodológicas, sem perceber que o sentido real é indizível, incomunicável e, acima de tudo, misterioso. O homem moderno não passa de um escravo de sua própria consciência, que, por sua vez, é regida por um inconsciente que ele desconhece. O homem é mistério e instabilidade, mas quer, e de fato lhe é vitalmente necessário, ordenar o mundo para reencontrar uma estabilidade que só é possível antes do nascimento e após a morte. O tempo, o espaço, e a invenção da religião e da ciência são suas principais armas na tentativa de organizar o caos. O que não percebe é que ele mesmo é o caos incontrolável, pois o homem é a própria natureza em ação: atemporal, incomunicável e imprevisível. Sua consciência é um véu tão fino que se rasga com um leve sopro.

André Toso escreve no ônibus aos domingos para o Sete Doses

 

Ilustração: Felipe Ribeiro (www.coroflot.com/somarfr)

“Dias iguais, avareza de Deus”, Chico Buarque

Henrique espalmou as mãos no ar, esticando os dedos ao máximo para sentir toda a intensidade das gotas de chuva. Os fatos pareciam se repetir, exatamente como nos últimos dias.  Chovia novamente, no mesmo horário, com a mesma intensidade. Sua memória, apesar de seletiva e desatenta, apontava para momentos idênticos nos últimos dias. A vida tornara-se um déjà vu.  Optou por prestar atenção em detalhes, desde a água que caia dos céus até as placas dos carros que passavam. Atento, observava com olhos vivos as letras e números que formavam a identificação dos veículos. Para sua surpresa e espanto, todas eram idênticas às do dia anterior. O mundo havia se tornado um eterno videotape, uma sinfonia de uma nota só repetindo-se ao infinito. Tudo o que ocorria em um dia se repetia em todos os seus detalhes no outro. Henrique demorou dias para perceber a monotonia que se tornara sua vida.

Ainda perdido e alucinado, continuou andando a caminho de seu trabalho. Atravessou a Rua da Consolação com passos tímidos e lentos, de quem caminha sem seguir. Era incrível, apesar de perceber que os dias agora se repetiam continuamente, prosseguia preocupado com o horário do trabalho e com as obrigações no escritório. Seu andar só foi interrompido ao ouvir uma voz.

– Ei, ei… Onde está indo?

A fala, serena e macia, era de um homem de cabelos fartos e vestido elegantemente em um terno preto sob medida. Os sapatos lustrosos sofriam com as poças de água que invadiam as calçadas da Consolação.

– Eu te conheço? Estou indo trabalhar, oras.

– Por quê?

– O que você quer, afinal?

– Você já percebeu…  Não precisa mais ir trabalhar.

– Percebi… Percebi o que?

– Você sabe do que eu estou falando. Sua vida se repetindo, se repetindo, como um disco de vinil enroscado na vitrola.

Apesar do absurdo das afirmações daquele homem misterioso, tudo aquilo fazia muito sentido para Henrique.

– Olhe para os lados – advertiu novamente o homem – O mundo está se repetindo e a maioria ainda nem percebeu. Você é um dos poucos que se deu conta.

– Como você notou?

– Eu estava acompanhando você desde lá perto do Mackenzie, quando você tomou o ônibus. Eu sabia que você tinha percebido, eu vi nos seus olhos.

– E você, quando você percebeu?

– Eu… Faz dez anos já.

– O que?! Como assim dez anos?

– Eu estou preso nesta situação há dez anos!

– Como você aguenta isso?

– Tomei caminhos diferentes, é simples. Após perceber, uns três dias depois que começou a acontecer, decidi não ir mais trabalhar, mudar a rotina. Larguei minha esposa e meus filhos, larguei tudo. Não aguentava mais aquele eterno repetir.

– Isso é loucura! Você é louco. Eu vou embora!

Com os passos mais apertados, quase correndo, Henrique entrou em seu escritório. As reuniões eram as mesmas, as pessoas vestiam as mesmas roupas cinza ou pretas e as mesmas burocracias tinham de ser cumpridas. No final da tarde, ao chegar em casa, deparou-se com a mesma situação. Os filhos correram em direção ao seu colo, falaram as mesmas palavras do dia anterior, como robôs programados. O sexo com a mulher, mecanizado, foi idêntico. Até a programação da TV era a mesma. A vida tornara-se mais óbvia que o correr dos ponteiros do relógio.

No dia seguinte, o despertador tocou no mesmo horário. A rádio tocava as mesmas músicas e a chuva se formava para cair justamente no mesmo horário de ontem. Henrique colocou a mesma roupa do dia anterior, cumpriu todos os rituais – da escovação do dentes ao pentear de cabelos com gel. Saiu, decidido a esquecer aquela repetição e prosseguir com a vida que se acostumou.

Quando desceu na Consolação, sob a mesma chuva, deparou-se com um homem de cabelos raspados, vestido de bermuda e camiseta.

– Ei, rapaz, vamos para o Rio de Janeiro comigo? Vou alugar um carro e dar o fora.

– Peraí… é você? Cadê seu cabelo? E o terno?

– Então, bicho, ontem eu estava trabalhando. Fazia tempo que não trampava, só fiz para mudar um pouco a rotina. Já tô livre do eterno repetir, vou pro Rio! Vamô?!

– Não, não… Preciso trabalhar, tenho família, tenho minhas responsabilidades.

– Que família, rapaz… É todo mundo robô e você também. Mas você percebeu, não precisa mais disso. Arranca esse terno apertado, bota uma sunga e vamô curtir o Rio. Vai ficar nessa chuva?

– Por que esta acontecendo isso? Por que as coisas estão se repetindo?

– Estão se repetindo porque você quer. Só depende de você mudar a sua rotina, mas você parece que não enxerga.

– Mudar como?

– Cara, as escolhas são suas. Se você, ao invés de descer na Consolação, descer lá no Ipiranga a vida vai mudar de algum jeito. Ao invés de vestir esse terno preto medonho, bota uma bermuda. Ao invés de achar que sua vida se repete, invente-a, mude o tema. A porta da prisão está aberta, é só você empurrar…

– Mas minha vida sempre foi assim. Faz dez anos que faço esse mesmo caminho, que visto as mesmas roupas, que tenho minha rotina. Eu sou feliz assim…

– Feliz nada. Você se acostumou. A vida, pra você, é insossa como um biscoito de polvilho vencido. Não tem paixão, nada é sagrado, tudo é mecanizado. Seja criativo. Só você pode inventar sua própria realidade.

– Mas como eu faço?

– Você é livre, você pode fazer o que bem entender. Pra que ir trabalhar, se tudo vai ser igual ao dia de ontem?

– Eu preciso do dinheiro para pagar as contas. Aliás, estou atrasado…

– Que contas? Os dias se repetem e hoje não é dia de vencimentos. Vai ao banco, tira mil reais. Amanhã, como num passe de mágica, o dinheiro estará lá de novo, como se nunca tivesse sido sacado. Isso não é maravilhoso?

– Você é maluco, tenho família, rapaz.

– Venha comigo!

O homem, agora enraivecido, puxou Henrique pelos braços até o ponto de ônibus. Lá, pegaram uma condução e pararam nos arredores da Vila Mariana. O homem tirou uma chave do bolso e abriu a porta de uma pequena casa de esquina. Escondidos, os dois observavam uma mulher que fazia o café e duas crianças se trocando para ir à escola.

– Essa é minha esposa e meus filhos – disse o homem, com a voz embargada.

– Eles devem sentir muito sua falta.

– Não, você não entende… A vida deles continua a mesma, para sempre. Minha mulher nunca percebeu nada. Ela vive em replay eterno.

– Mas ela não percebeu que você sumiu?

– Não… Eu não estava em casa no dia em que as coisas começaram a se repetir. Eu estava trabalhando, como sempre.

– E como ela não percebe?

– É assim, acorda todos os dias, faz o café, leva as crianças na escola e depois fica pregada a tarde toda na frente da televisão. Aí vai buscar as crianças, volta, faz o jantar e vai dormir. Todos os dias, todos os dias.

– E você não foi falar com ela? Por quê?

– Essa é a vida que ela quer pra ela, sempre foi. Eu não falo com ela, pois seria pior. Ela está acostumada com a vida assim, deixa ela viver a vida que escolheu.

– E por que você quer que eu viva uma vida diferente da minha? Eu também gosto da minha rotina.

– Mas você percebeu o que está acontecendo, ela não.

– Como sabe que ela não percebeu? Como sabe se ela não está fazendo como eu, vivendo uma vida repetida para não precisar reinventar tudo? Faz dez anos e ela não percebe? Isso é impossível!

O homem, com a cabeça baixa, começou a chorar copiosamente. Como negar: sua mulher com certeza percebera o que acontecia, mas preferia aquela vida repetida, preferia assistir aos mesmos programas na televisão a se responsabilizar por uma mudança brusca em sua vida. E o pior: não sentia sua falta.

– Na verdade, você é feliz com essa nova vida, sem raízes – continuou Henrique – Vocês eram infelizes, ela preferiu ficar com as crianças e a TV, vivendo em looping, e você preferiu sair de casa e só voltar para observar de fora, sem precisar fazer nada, sem se responsabilizar, sem reinventar uma vida com ela. Você também é um covarde, como eu e como sua mulher!

O homem, já totalmente abalado, saiu às pressas portão afora. Henrique, sozinho, olhou para o relógio e saiu apressadamente rumo ao seu trabalho.

 

Foto: Guilherme Borducchi (www.flickr.com/photos/gbaguiar)

Seis anos depois, Henrique descia na Consolação como sempre fizera. A chuva caia com a mesma intensidade de sempre, os carros, as pessoas, os sons, tudo era da forma que sempre fora. Com o mesmo terno preto, Henrique andava lentamente rumo ao seu trabalho quando deu de frente com um homem de cabelos fartos e terno elegante.

– Você por aqui?

– É, faz uns cinco anos que voltei para o meu trabalho.

– Como vai a vida?

– Igual a sempre…

– Não tem vontade de mudar de novo?

– Não mais, sinto-me menos sozinho indo trabalhar, vendo todos os dias as mesmas pessoas, tendo a vida que sempre tive. E você, tem vontade de mudar tudo?

– Todos os dias.

– E por que não muda? Pelo menos por um dia, só para saber como é.

– Se eu não tinha mudado antes de acontecer esse eterno repetir, por que mudaria agora que a vida ficou exatamente do jeito que era pra ser? Em minha opinião, todo mundo já percebeu, mas ninguém tem força ou vontade de fazer qualquer coisa para mudar. A minha vida, pelo menos, não mudou tanto desde que o viver se tornou um piano de uma tecla só. Antes, eu tinha o piano completo, com suas 88 teclas, mas eu só tocava com uma delas mesmo. Qual é a diferença?

– É… A vida de hoje é exatamente aquilo que buscamos no ontem.

– Já estou atrasado, bom trabalho pra você.

– Pra você também.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e agradece Felipe Ribeiro pela ilustração e Guilherme  Borducchi por ceder a foto

O sexo era frio e violento. O suor gotejante dos pêlos e peles, a saliva nos lambuzando o rosto, enquanto seus fios de cabelos cumpridos enrolavam-se pelo meu pescoço. Eu utilizava força para lhe dominar e você, entregue, deixava-se levar pela minha autoridade. O sexo terminava, mal nos olhávamos e já estávamos de pé novamente, prontos para viver nossas vidas medíocres longe daquele quarto abafado. Eu voltaria para minha esposa e meus dois filhos, você retornaria para o seu emprego de secretária burra e incompetente. A vida era boa. Nós só queríamos trepar, como todo o resto do mundo.

Chegar em casa sempre foi um ato de coragem. Eu era um cara de pau que escondia por todos os poros a culpa e o ressentimento. Um beijo na testa de minha esposa, um abraço apertado nos meus filhos e a certeza de que aquele casamento não seria feliz e completo sem as escapadas sexuais na sua casa. A vida é muito curta, os meus instintos masculinos não poderiam ser refreados por uma simples convenção moral criada por uma sociedade hipócrita e reprimida. As necessidades vitais, a busca pelo orgasmo definitivo, a vontade de me unir a todas as mulheres do mundo, tudo isso não poderia passar em branco. O que é melhor, afinal? Conviver com a culpa de ser um canalha ou com a culpa de não me sentir livre para obedecer meus desejos? Escolhi conviver com a calhordice. Sou um devasso. Não posso não ser o que sou.

Achei engraçado aquele dia em que você me perguntou sobre traição. Quase engasguei com a fumaça do cigarro, mas respondi firmemente que não estava preocupado, que era totalmente a favor da relação extraconjugal. Depois de um tempo, acostuma-se, a culpa se dilui e só repousa inerte nas cinzas dos pensamentos. Mas o que me inconformou mesmo foi sua pergunta sobre o que eu acharia se a minha mulher me traísse. Inaceitável. Não consigo nem imaginar tal cena, tal degradação. O homem, complexo, um bicho, um animal, tem na territorialidade um de seus artífices. O que é meu é meu, ninguém pode invadir. E aí você indagou se eu não me colocava no lugar dela e o que eu faria se fosse o contrário. Nunca tinha pensado nisso. Calei-me. Apaguei meu cigarro e coloquei você de quatro na minha frente. Preferia você nesta posição, de preferência com a boca calada.

Maldita pergunta. Você jamais a deveria ter feito. Quando cheguei em casa, o s cabelos ainda molhados e com cheiro do xampu vagabundo daquela espelunca de motel, não conseguia olhar para os olhos de minha mulher e de meus filhos. Justamente as pessoas mais importantes de minha vida, não trastes imprestáveis como você. Não um simples pedaço de carne, em que me deleito pelo prazer e pelo fulgor de meus instintos de homem das cavernas. A culpa ressurgiu como uma fênix em meus pensamentos, a comida se tornou amarga, os dias se arrastavam e eu não conseguia sequer tocar em minha esposa.

Foi por isso que parei de te encontrar, não conseguia sequer pensar em lhe comer. Julguei, e não me arrependo, que a culpa de tudo aquilo era sua. Minha esposa me deixou, percebeu meu comportamento estranho, sentiu falta do sexo e não queria um homem zumbi ao seu lado. Eu, destruído pela culpa de ter estragado quinze anos de um casamento perfeito, pensei em como poderia me vingar de você. Trai minha mulher durante quinze anos, com você, com putas, com mulheres que não valiam nada, até com mulheres que pareciam bacanas, mas que nunca tive vontade de conhecer. Sempre fui feliz assim.  E, você, que eu tinha encontrado há dois meses, me lançou a pergunta que jogou o mundo nas minhas costas. Por isso mesmo vou lhe matar, para tentar matar em mim essa culpa devastadora que não serve para nada. Para que ter culpa? Para que se preocupar?  A vida era tão boa antes. Eu só queria trepar. Como todo mundo.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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