Sexta


“O IMPERADOR VOLTOU.” Nos últimos dias, essa foi a novidade mais comentada no mundo futebolístico. Não li em lugar algum: “até quando vai durar a VOLTA DO IMPERADOR?” Se pesquisarmos seu histórico, talvez até a próxima carência afetiva ou surto. Vai saber. Sinceramente, para mim, não faz diferença alguma ele voltar, jogar para o Campeão dos Campeões, para o Rubro Negro ou para o time de várzea de Piraporinha. Tanto faz. O acontecimento recente é mais adequado para definir o set list: bandas e cantores consagrados que voltaram à mídia.

01 – Arctic Monkeys – Brick By Brick

Primeiro single de Suck It And See, disco que será lançado em junho. As referências são David Bowie, em início de carreira, e Marc Boland, do T.Rex. A banda não fez esforço algum para divulgar a música, apenas disponibilizou o clipe no site oficial e deixou para os fãs a missão de divulgá-lo no facebook, twitter etc etc etc…

02 – Beady Eye – Wind Up Dream

Banda dos quatro ex-Oasis, sem Noel Gallagher. A grande diferença para a atual é que todos participaram no processo criativo. Algumas músicas de Different Gear, Still Speeding lembram o passado mas não chegam a ser cópia. Ele tem sido meu disco de cabeceira.

03 – Foo Fighters – Rope

Wasting Time foi produzido por Butch Vig, responsável pelo clássico Nevermind, do Nirvana. O lançamento em abril também comemora a volta de Pat Smear na guitarra. The Colour and the Shape, de 1997, foi o último com sua participação.

04 – The Strokes – Metabolism

Depois de cinco anos sem inéditas, quatro projetos paralelos envolvendo seus integrantes, e duas datas de lançamento adiadas, The Strokes volta com Angles. Para a felicidade de nós, fãs, o disco vazou para a internet.

05 – REM – Mine Smell Like Honey

Tanto na aparência como em letras, Mike Stipe envelhece com dignidade em Collapse Into Now. A fase rock’ n’ roll resgatada em Accelerate, de 2008 relembra os anos de Bill Berry, baterista que trocou a rotina de shows pela rural após turne de New Adventures in Hi-Fi, em 1996.

06 – PJ Harvey – The Words That Maketh Murder

As letras de Let England Shake abordam as guerras das quais a Inglaterra participou. Quando PJ Harvey participou de The Andrew Marr Show, exibido pela BBC, o ex-primeiro ministro britânico Gordon Brown era um dos entrevistados. A música apresentada foi The Words That Maketh Murder, o que causou “saia justa.”

“I’ve seen and done things I want to forget
I’ve seen soldiers fall like lumps of meat
blown and shot out beyond belief
arms and legs were in the trees

I’ve seen and done things I want to forget
coming from an unearthly place
longing to see a woman’s face
instead of the words that gather pace
the words that maketh murder

these, these, these are the words
the words that maketh murder
murder…”

07 – Radiohead – Little By Little

Sem aviso prévio, a banda escolheu 19 de fevereiro, sábado, para lançar o oitavo disco de estúdio, mas na sexta-feira ele já estava disponível no site oficial. A justificativa foi: “É sexta-feira. É quase final de semana. É lua cheia. Você pode baixar The King Of Limbs agora se quiser. Obrigado a todos por esperar. Tenham um bom final de semana, onde quer que vocês estejam.”

08 – Gorillaz – Revolving Doors

The Fall, lançado em dezembro de 2010 apenas no formato digital, carrega o título de ser o primeiro disco gravado em iPad. No formato físico ele chegará às lojas em abril. As músicas foram registradas durante a turnê americana da banda.

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dunkin dognuts e hellozilla por ZILEX – use sua camiseta ao máximo
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Lex publica seu podcast às sextas-feiras no Sete Doses

 

* Matéria publicada originalmente no dia 24 de fevereiro, no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo

No aparador da sala da casa dele, uma foto curiosa. Um menino de 2 anos escalando uma estante, segurando-se com a boca a fim de deixar as duas mãos livres para, com elas, poder fuçar em uma vitrola. Influenciado principalmente pelo pai – um aficionado por discos, instrumentos e equipamentos sonoros, e com quem ele mantém um estúdio desde 1997 -, aquele garotinho, que hoje atende pelo nome de Daniel Ganjaman e há tempos trabalha com importantes nomes da música nacional, é um dos produtores mais requisitados do País e promete para este ano pelo menos três discos que, como ele mesmo define, “devem fazer barulho”.

Sonhando com o tempo que lhe falta para trabalhar em um disco seu, autoral, Ganjaman também ataca de DJ e organiza há quase seis anos a festa Seleta Coletiva, no Studio SP, onde se apresentou ontem tocando teclado com o Instituto e convidados como Emicida e Kamau.

Considerando-se muito mais produtor do que instrumentista, na praia do rock, ele se debruça atualmente quase que o dia inteiro para terminar de mixar Alegria Compartilhada, o próximo CD da banda carioca Forfun. Na seara do rap, em abril sai o disco de Criolo (também conhecido como Criolo Doido e que, assim como Emicida e Kamau, despontou nas rinhas de MC”s esmerilhando seus concorrentes com rimas de improviso pulverizantes), produzido em parceria com o baixista Marcelo Cabral, e cujas faixas Grajauex e Subirusdoistiozin já foram apresentadas na internet.

Além disso, ainda em 2011, sem data de lançamento, deve sair um disco póstumo de Sabotage, também produzido por Ganjaman. Em 2003, o rapper convidou o produtor para trabalhar em um álbum de inéditas. Exatamente uma semana depois, Sabotage foi assassinado. Passados alguns anos, Ganjaman trabalhou em cima das músicas e coletou mais material gravado pelo compositor, resultando em 14 faixas. “Nós, do Instituto, estamos trabalhando com os principais parceiros dele e com alguns familiares pra que esse disco seja uma representação digna de todo legado que ele deixou. Não temos data prevista para o lançamento. Já adiamos uns três ou quatro anos e estamos fazendo todo esforço para que este ano seja realmente lançado.”

Aos 32 anos, Ganjaman ainda se veste como um skatista, com as roupas largas e os bonés que identificam a tribo. Embora não ande mais sobre a tábua de madeira com quatro rodinhas, ele atribui ao skate e ao convívio com amigos na época de adolescente um dos pontos determinantes em sua vida para expandir horizontes musicais.

Em uma divisão nada maniqueísta, do pai herdou o gosto pelo rock – e por equipamentos de áudio de qualidade – e da mãe, o interesse por música brasileira, como Milton Nascimento, Elis Regina e Jorge Ben. Pequeno, conhecia uma barbaridade de músicas e com apenas 7 anos vibrava em Iron Maiden, julgando-se um “minimetaleiro”.

Depois disso, veio a adolescência, com forte referência dos amigos. “A gente, com o skate, tinha essa coisa do punk, com uma pesquisa grande. Conheci Beastie Boys, que foi uma abertura de leque, e comecei a ir atrás de uma série de outras coisas, como Sly & The Family Stone, Parliament-Funkadelic, conheci Public Enemy por causa do Anthrax… O skate foi um dos grandes responsáveis por eu começar a me interessar por rap, hip-hop e outros gêneros”, diz Daniel Sanches Takara, que ganhou o apelido aos 16 anos, com o vinil de um de seus “papas”, Lee Perry. “A primeira música do lado A chamava-se Daniel e a do lado B, The Ganja Man. Acabou pegando”.

Na mesma esteira, ainda nos anos 1990, as epifanias musicais se apresentaram para o moleque com o primeiro disco dos Racionais MC”s, M.T. Bronks, Thaíde, Pop Will Eat Itself, Depeche Mode, Nine Inch Nails, Ministry e uma série de descobertas que seriam amplificadas com idas de Ganjaman ao exterior.

Pavimentando caminho.
Em 1997, ao lado do pai, Ganjaman abriu o estúdio El Rocha, onde deu os primeiros passos como produtor. Dali não demoraria muito para, a convite do craque Apollo 9, começar a tocar e a fazer a direção musical da banda do cantor, compositor e percussionista Otto, caindo em turnê na divulgação do primeiro disco do pernambucano, Samba pra Burro, em importantes festivais, como o Central Park Summerstage, em Nova York.

No começo de 2000, em contato com o produtor David Corcos, o guitarrista Rafael e o DJ Zé Gonzales, gravou, compôs e ajudou a finalizar o último álbum de estúdio do Planet Hemp, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, saindo em excursão com o grupo. “Quando a gente lançou, já saiu como disco de ouro, 100 mil cópias. Naquela época, já eram os últimos suspiros da indústria fonográfica da forma que se conhecia. Hoje você vê artistas grandes, ícones da música brasileira, vendendo 20 mil cópias. Eu já produzi discos para majors e sei que a forma de se produzir música mudou, alguns se beneficiaram, outros se deram bem mal”, diz Ganjaman.

Dali em diante, ele seguiu colecionando trabalhos importantes, produzindo o disco O Rap É Compromisso, de Sabotage (ao lado de Zé Gonzales), gravando e assinando a produção técnica de Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, dos Racionais, seis faixas do disco homônimo da Nação Zumbi, e Guerreiro e Guerreira, de Helião e Negra Li.

Além de tudo isso, desde os 15 anos organizando eventos na noite paulistana, na época com as mínimas condições de estrutura – o que rendeu muita experiência para que Ganjaman pudesse hoje comemorar quase seis anos como responsável pela festa Seleta Coletiva. Ali, ele se apresenta com o Instituto, criado em 2001 pela parceria com Rica Amabis e Tejo. Foi com eles que o produtor teve também a oportunidade de rodar a Europa em renomados festivais, como Sonar, em Barcelona, e Roskilde, na Dinamarca, e ter acesso a discos que jamais encontraria em sebos brasileiros.

“A primeira vez que fui para a Europa, gastei US$ 1.500 em discos. Antes de ir, pesquisava quais eram as lojas legais e fazia uma via-sacra por elas.”

A soma desses contatos com artistas de diferentes vertentes musicais com essa peregrinação por lojas de discos (hoje Ganjaman tem mais de 3 mil vinis, indo de raridades de Lee Perry, passando por Funkadelic, e chegando a Serge Gainsbourg) fez com que ele abrisse a cabeça e se tornasse uma espécie de camaleão, no melhor sentido da palavra, trabalhando com nomes com os quais mais se identifica na cena independente nacional.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

01 – Pavement – Cut Your Hair

Atenção à cena aos 54 segundos

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depois da CENTÉSIMA edição, lex DESCANSOU. dose_INDIE de volta em março

 

* Matéria publicada originalmente no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo

Quatro anos após Contínua Amizade, o duo formado pelo bandolinista Hamilton de Holanda e o pianista André Mehmari lança um disco em homenagem a dois dos maiores compositores do País: Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. O Estado reuniu a dupla em um bate-papo em que Hamilton e Mehmari falam de respeito e ousadia ao regravar a obra de autores consagrados, da brasilidade dos temas de Egberto e Hermeto e do processo de criação do álbum.

A relação de vocês com a música de Egberto e Hermeto vem de longe. Como fizeram para chegar ao repertório do disco? Não deve ter sido fácil… E algumas obras, como Palhaço, do Egberto, e Bebê, do Hermeto, não poderiam ficar de fora…
 
Mehmari – A gente podia ter feito um disco duplo, triplo, é muita coisa que se pode tocar, mas eu acho que a gente escolheu músicas que seriam inspiradoras pra tocar em duo.
 
Hamilton –
E eu acho que houve um certo desapego também. A gente escolheu 12, 13, 14… escolheu, está escolhido, esquece. Senão a gente ia pirar.

Mehmari –
A gente primou pela fluência da história, se a gente ficasse pensando muito talvez não concretizasse porque é muita responsabilidade. A gente ligou os microfones muitas vezes sem nunca ter tocado uma música. Mas, como você disse, tem alguns clássicos que a gente fez questão de abordar. E abordamos de uma forma que eu acho que ficou com a cara do duo. Ao mesmo tempo em que somos respeitosos com o original, conseguimos colocar uma visão muito particular dessas composições.

Há gravações de outros intérpretes muito respeitosas ou outras em que você quase não identifica vestígios da partitura original. Qual foi o cuidado para que Gismontipascoal tivesse esse equilíbrio?

Hamilton –
Tem uma coisa importante que faz com que isso aconteça: a gente é compositor também. O compositor precisa do intérprete. Se você regrava algo de alguém que já morreu, pode pirar, fazer o que quiser. Mas nesse caso os caras são vivos, mais vivos do que nunca, estão numa atividade incrível. E a gente poder fazer uma música que respeite a essência das composições, mas que também respeite a liberdade que eles mesmos têm como músicos, que eles defendem, eu acho o ideal. De alguma maneira é fácil pra gente andar nessa estrada que já foi pavimentada por eles. A gente não podia se fazer de humilde e só bater continência. A continência batida é porque a gente gosta demais deles, mas a gente também tem coisa pra falar sobre a música.

Mehmari –
E como compositor a gente identifica o que é essencial naquilo e o que não é, o que pode ser trabalhado de uma forma saudável. Sete Anéis, por exemplo, é um caso no qual a gente tem um apego pelo texto original muito grande…

Hamilton –
Frevo também…

Mehmari –
É. E é o som do duo, a gente não está tentando emular o som que você encontra nos discos deles. O que você escuta no nosso disco é nosso som.

E em relação às composições de vocês, elas já existiam ou foram compostas para o disco?

Hamilton
Gismontipascoal a gente fez aqui. Eu fiz a primeira parte no violão e mostrei para o André. Fui ao banheiro e quando voltei ele tinha terminado a música (risos).

Mehmari –
E virou o hino do disco, né? Abre e fecha o disco em dois arranjos diferentes. E tem essa singeleza, é extremamente singela essa composição, que é nosso agradecimento, aí sim, reverente e humilde a esses mestres. O disco é uma assertiva das nossas experiências musicais com personalidade.

Vocês lembram quando foi a primeira vez que ouviram Egberto e Hermeto e o impacto disso?

Hamilton –
Tinha um projeto chamado Tom Brasil, que viajava o Brasil inteiro com um super projeto de
música instrumental. E eu vi o Hermeto na Sala Villa-Lobos, lá em Brasília, eu devia ter uns 16 anos. Na primeira vez em que eu o vi, ele fez uma fantasia sobre Luiz Gonzaga, fiquei chapado, me perguntando como é que podia um cara pensar e tocar? O tempo da cabeça para os dedos não existia, era instantâneo. Aquela imagem ficou marcada. Depois, mais pra frente, comecei a ouvir mais coisas do Hermeto. O primeiro disco talvez tenha sido o Festa dos Deuses. Do Egberto foi Baião Malandro, em 97, 98, um arranjo feito pelo Duo Assad, que mais me impressionou. Teve também Frevo, com um arranjo do Marco Pereira.

Qual a característica da música deles que mais chamou atenção de vocês, logo de cara?

Hamilton –
Eu sempre fui mais ligado ao choro, né… O Egberto e o Hermeto preencheram um lugar na evolução da música que é o seguinte: tem Pixinguinha, Jacob, etc… Aquela turma com que eles também conviveram um pouco, do samba jazz, do Beco das Garrafas… e eles vieram pra fincar bandeira: “Olha, existe o jazz, existe o flamenco, a música instrumental cubana jazzificada, mas existe essa música brasileira na essência, que tem improvisação também, que é nossa…”

Mehmari –
E que é de câmara… A maneira com que o Egberto sintetiza a brasilidade no piano segue uma forma que ele organizou, um código que influenciou toda uma geração de pianistas que vieram depois.

Hamilton –
E a maneira de compor também, né? Você ouve um pouco de choro, um pouco de música do interior…

Mehmari –
E vem a música europeia. Tem a tradição, que ele estudou com a Nadia Boulanger, tem todo aquele hálito de tradição, linda. O piano é um instrumento europeu, é impossível dissociá-lo da tradição europeia. Ao mesmo tempo veio (Ernesto) Nazareth, Chiquinha Gonzaga…

Hamilton –
E é um pouco o que a gente também se propõe a fazer, colocar nos nossos instrumentos e no nosso dia de hoje essa carga de tudo que já fizeram.

Mehmari –
A gente está tocando e essa carga emerge. A gente se posiciona dentro desse legado. É o que o Hamilton fala sempre nos discos dele: moderno é tradição. É uma coisa que a gente faz sem o menor pedantismo, sem o menor esforço, a gente carrega essa tradição porque é nossa religião musical, é nosso credo, a gente carrega com o maior respeito, mas ao mesmo tempo é brinquedo pra gente essa tradição. É uma mistura de reverência e brincadeira.

Hamilton –
Por isso que os europeus, os americanos, os asiáticos ficam doidos. É uma música que tem o refinamento, o rigor que eles gostam, mas tem uma coisa que eles não têm, que é nossa…

Mehmari –
É a espontaneidade, o rigor com alegria.

O show deve ter mais improvisos do que tem o disco?

Mehmari –
A gente deve se soltar mais no show do que no disco porque o CD tem esse aspecto de registro, tem que ter uma limpeza, a gente buscou uma concisão. Na minha previsão o show vai ter muita criação, vai ser um desdobramento do disco. A gente se diverte no palco. Tocar com o Hamilton é assim. Um respeita muito o outro. É como dar um salto mortal sabendo que você nunca vai cair no chão.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

01 – God Lives Underwear – From Your Mouth

Atenção à cena aos 2 minutos e 46 segundos

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depois da CENTÉSIMA edição, lex DESCANSOU. dose_INDIE de volta em março

 

Coração espanta o mosqueado quando um elefante desavisado resolve sobre ele repousar.

E assim ele sentava-se rotineiramente num banco de praça até um dia ser indagado:

– Quer dizer que anda agora a ficar por aí pensando na vida?

Ao que ele respondeu:

– Já que a vida não pensa em mim, resolvi pensar um pouco nela.

Sem exageros, ele que sempre julgara-se demasiadamente leve levantou-se em passos de manada.

Acostumado a permutar as audições de piano erudito de sua amada por uma honesta resenha no botequim com os amigos, sabia que, por mais vergonha que ela tivesse, era, no mínimo, de bom tom que ele comparecesse ao camarim ao fim do concerto com um ramalhete de rosas simbolicamente portentoso para jurar-lhe amores mais que eternos.

Ele até que tentara presenciar glórias em festejos bem sucedidos, mas os rubores acabrunhados dela o impediam. Embora soubesse que a convergência da delicadeza germânica – raramente nascida – com a entrega tipicamente suburbana resultasse em uma combinação felicitosamente fatal, diuturnamente conscientizava-se de sua pequenez. Afinal, o que eram 4 cordas da populeza de um cavaquinho diante da erudição das 88 teclas de um piano?

Até o dia em que um nó no peito e uma senhora enxaqueca o demoveram prematuramente do convívio com os pés-inchados.

Botequim demais é guarida de menos. Sempre sabendo que não há analgésico tampouco safena capaz de dirimir uma dor peitosa.

Sendo assim, lembrou-se que era dia de concerto dela e arrancou direto para o auditório. Não sem antes encomendar a vermelhidão do buquê. Orgulhoso, encarou uma sala lotada e, entre licenças e desculpas, sentou-se na antepenúltima fileira. Surpreendentemente naquela noite ela, desavisadamente, havia resolvido deixar de lado os cravos bem temperados e os noturnos para encarar as galerias, alamedas, meandros, sabiás e passarins de arromba-peitos de um tal de Tom Jobim.

Assim como na música, é em fugas e contrapontos que o amor se esvai.

Ao término da audição, ele costurou a plateia para, com o peito em transbordamentos, invadir o camarim. Lá chegando, abraçou o vazio e, já não sem tempo, constatou a partida derradeira da amada, com o seguinte recado: “O vento que toca nas folhas, contando as histórias que são de ninguém, mas que são minhas e de você também”.

 

Lucas Nobile, metaforicamente autobiográfico, escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

01 – Blur – Sunday Sunday

Atenção à cena aos 2 minutos e 27 segundos

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depois da CENTÉSIMA edição, lex DESCANSOU. dose_INDIE de volta em março

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