Terça


Thiago Kazu (quarta), Lex (sexta) e André Toso (domingo) estão produzindo uma revista de ficção digital. Quem tiver interesse, fique à vontade para mandar seus textos.

 

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AGUARDE O NOVO SETE DOSES… EM BREVE.

“O Lubisômi”, de Nhô Bento.

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Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses

“Neurologia romanceada? Os casos clínicos narrados por Oliver Sacks.”

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Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses

Minarete em Fez

 Perder-se nas medinas das cidades imperiais do Marrocos também significa conhecer um dos principais traços distintivos deste povo: a espiritualidade. A rotina dos marroquinos muçulmanos – mais de 95% da população – consiste em intercalar os afazeres com as visitas às mesquitas. Seis chamadas diárias – por alto-falantes instalados em toda a cidade – conclamam ao compromisso divino.

Infelizmente, quem não segue os preceitos do Corão escuta, como todos os outros, mas não pode entrar para conhecer. Uma das versões para a proibição vigente ali nada tem a ver com uma eventual falta de flexibilidade ou tolerância islâmicas, como alguns podem imaginar. Parece que um estudante francês entrou na mesquita e, ao ver todos de joelhos, desatou a rir. Foi espancado pelos fieis que notaram sua descompostura. O caso ganhou contornos diplomáticos e culminou na restrição de visita a qualquer estrangeiro não-muçulmano.

Mas existe um alento ao turista: as madraças. Muitas dessas escolas corânicas liberam a visita fora dos horários de culto. Algumas delas inclusive compreendem mesquitas dentro de sua estrutura, incluindo minaretes (as torres de onde o almoadem faz os chamadas para a oração) e os pórticos majestosos ricamente adornados e esculpidos. No centro do principal salão desses edifícios, uma fonte jorra incessantemente a água cristalina com que os fieis lavam seus pés, mãos e a cabeça antes de orar.

Madraça Bou Inania, em Mèknes

No andar superior, celas designadas para estudantes não abrigam mais do que cadeiras e mesas para se debruçar sobre o livro sagrado. O chão, formado por pequenos mosaicos com desenhos abstratos, conduzem o olhar aos azulejos instalados nas paredes. Colunas de mármore denotam a mescla da arquitetura romana. Pequenas e grandes inscrições em árabe trazem passagens do Corão. Tudo funciona como uma mimetização idílica do paraíso de Alá.

Fez abriga a mais conhecida madraça de Marrocos. A Médersa Bou Inania foi construída pelo sultão Abu Hassan e seu filho, Abu Inan. Eles esperavam que os estudantes, felizes por poderem habitar aquele pedaço de ceu, fossem fieis à dinastia em um momento de instabilidade política. No auge, a escola corânica recebeu mais de 2 mil estudantes. Com o mesmo nome da madraça de Fez, a Bou Inania de Meknès também é impressionante: construída no século XIV, abriga 40 celas para o estudo do Corão, um salão de oração pequeno e suntuoso adornado com muitas inscrições e formas geométricas talhadas na madeira ou esculpidas no gesso.

Compatível ao número anual de visitantes que recebe, Marrakech tem a maior madraça do País. A Ben Youssef foi construída no século XVI e abrigou 800 estudantes, mas tem tantos pavilhões e salas que lembra mais um palácio. Mas o destaque do roteiro religioso desta que provavelmente é a cidade mais conhecida do Marrocos para os brasileiros, é a mesquita Koutobia. Ainda que tenha a entrada proibida, é possível ver quase todo o seu interior graças aos incontáveis portais que dão acesso à sala central de oração. Seu minarete é, junto à praça Jemaa el Fna, o maior cartão-postal da cidade: são 65 metros de torre, com uma cúpula no topo dotada de três esferas douradas. A lenda diz que o ouro usado nas esferas veio das joias fundidas da esposa do sultão Yacoub el-Mansour. Foi um castigo por ela ter comido uvas durante o período do Ramadã.

Azar o dela, sorte a nossa.

Mesquita Koutoubia e a torre das esferas douradas

Pátio da Madraça Ben Youssef, em Marrakech

 

 

 

  

 

 

 

 

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses 

 

 

“O refrigerante que emagrece, o metabolismo dos alimentos cor de laranja e o beabá do bartender”

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Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses e anda cada vez mais interessado em biotecnologia, biodinâmica, tecnologia de alimentos, gastronomia ortomolecular, pesquisa agropecuária e melhoramento das pastagens

Medinas, encantadores de serpentes, curandeiros, místicos, engolidores de espada, acrobatas. Fez, Mèknes e Marrakech, as cidades imperiais mais conhecidas do Marrocos, têm tudo isso, mas não só. Cafés charmosos, hoteis-palácio com preço de albergue, chás com múltiplas ervas e funções, uma rede de trens bastante eficiente, tajines, kaftas, os sucos de laranja mais doces do mundo e gente fina. Para um ocidental, o Marrocos é muito mais acolhedor do que pitoresco.

Cheguei ali depois um voo de 1 hora da Ryanair entre Sevilha e Fez, ou Fès. Na fila da imigração, extraí algumas expressões úteis em árabe e francês do guia de bolso que levava nas mãos. Pensei como é engraçado que alguns livros do gênero te ensinam a perguntar dúvidas no idioma local, mas não te preparam para as respostas. Carimbado o passaporte, agradeci com um shukran mal pronunciado e ganhei em troco uma olímpica ignorada da agente.

Ignorei a falta de gentileza e parti em busca de um táxi. Rachei um deles com um grupo de americanas que dá aulas em Rabat. Uma delas, descobri depois, era mesmo marroquina, então pôde discutir o preço e o trajeto na mesma língua do motorista. Assim que me sentei no banco da frente, uma delas me advertiu: não devo tocar no cinto de segurança. “Já fiz isso antes. Eles consideram falta de educação.” Deduzi o motivo e respeitei a recomendação, embora continuasse a achar que educação e o risco de lamber o asfalto marroquino depois de varar o pára-brisas em um acidente eram coisas desconexas.

Estava em Fez, a caminho do meu hotel, no primeiro dia do ano. Quando as garotas desceram, senti uma certa apreensão. Não tinha a menor ideia de onde estávamos e o motorista não parecia muito entusiasmado depois de brigar com a local pelo preço. Para piorar, o idioma. Se eu somar o meu francês e o árabe não vou além de um marroquininho de seis meses de idade. Foi aí que eu percebi que tinha de apelar. Ainda que ele não tivesse me perguntado nada, tentei: “Je suis brésilien”. Funcionou. Era a senha para conseguir a simpatia do cara. “Brésil! Ronaldinho, Robinho, Kaká!”, ouvi e vi um grande sorriso. “Oui, oui! Je suis brésilien”, respondi, picareta.

Acho que se o Marrocos entrar em uma convulsão social como a do Egito e resolver pressionar o rei Mohamed VI a sair, na sequência entra o Pelé. Dizer que sou brasileiro já me ajudou muito a fazer amigos em viagens por aí, mas não me lembro de um lugar onde isso funciona tão bem quanto lá. Como já imaginava a possibilidade, levei todas as minhas opções de camisetas do Brasil. Era a deixa para ser abordado constantemente com perguntas sobre o Ronaldo no Corinthians, o “Lula versão feminina” e até sobre uma das plastificadas do programa do Pânico. E todo mundo dizia ter um amigo brasileiro, como eu efetivamente virei depois.

Minha amizade com este país de língua árabe mais a oeste do oriente começou em Fez, que abriga a medina – centro histórico – mais autêntica do país. Dizem que toda sorte de mercadorias é negociada ali há mais de 2000 anos. O cenário é medieval: muralhas de 4 metros de altura que cercam toda a medina, portais majestosos com mosaicos e arcos forrados de inscrições religiosas, pequenos comércios de tapetes e colares em prata, burros de carga, homens vestidos com capas e capuzes, gritaria, multidão, confusão. Tudo deliciosamente confuso, fato de que falsos guias se aproveitam para tentar conseguir alguns dirhams dos turistas (1 dirham = R$ 0,20 ).

No fundo, eles têm razão. É fácil se perder na medina de Fez, mas desde que você queira. Existe uma espécie de rota não-sinalizada que te conduz pelo movimento principal das pessoas e, com um um mapa dotado dos limites do centro, dá para chegar a qualquer lugar com tempo disponível. Mas o sabor está justamente em sair da rota e se perder nos zouks, os mercados. Cada um deles, sem separação física, representa um setor de comércio específico. Existem os zouks de tecelagem, os de roupas modernas, os de temperos e frutas secas, os de arte e antiguidades e muitos outros. A melhor experiência é entrar, conversar com o dono, ouvir as histórias, escolher alguma mercadoria e se preparar para barganhar o preço.

A barganha é uma instituição nacional, muito mais evidente dentro da medina. E é essencial, porque todos os preços já estão supervalorizados. Muitas vezes o vendedor inverte a dinâmica e pergunta o quanto você quer pagar. Aí o negócio é chutar bem baixo, o que no máximo pode render uma cara feia. Funciona também ameaçar ir embora depois de ouvir a oferta, porque aí o vendedor vai fazer de tudo para você levar a mercadoria. Negociar desse jeito pode ser um porre para alguns e um prazer para outros. Para saber em qual grupo se encaixa, pense na diferença entre os amantes e os detratores do pôquer.

Com alimentos não se barganha. Munidos de balanças artesanais, fruteiros pesam as mexericas e laranjas e tiram um valor mirabolante dali. Ninguém contesta, parece ser esta uma das grandes sabedorias milenares desse povo. Pequenos bares vendem doces de massa folhada e sucos de cinco diferentes frutas. No zouk de alimentos, o cheiro das frutas luta com o do cominho que tempera as carnes halal. E quem ganha é o viajante.

Ricardo Torres cria episódios às terças-feiras para o Sete Doses

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