Uncategorized


– Com a minha mãe eu gosto de mexer também. Nós somos 5 irmãos, né? Aí às vezes eu pergunto pra ela – de sacanagem, né? – na frente de todo mundo: mamãe, você não tem vontade de ir pra um asilo? A senhora deve tá de saco cheio da gente. Eu conheço um lugar muito bom, a senhora fica tranqüila, pode descansar em paz, com um monte de gente pra olhar por você o tempo todo.

– Coitadinha, ela sempre diz que, por ela, não tem problema, que tudo bem. Rapaz, os meus irmãos brigam muito comigo. Imagina, seu desalmado! Fazer isso com a mamãe! Mesmo velhinha do jeito que tá, não dá trabalho pra ninguém! Tá lúcida, boazinha, com 83 anos!

– E eu sou o mais velho, né? O único que já tem mais de 60. Eu respondo sempre: olha! Fala com respeito comigo, que eu já sou idoso! Ué, daqui a pouco eu vou estar velhinho também. Eu mesmo acho uma boa idéia me colocarem num asilo.

– Claro que é só brincadeira. Fui eu que criei a divisão pra todo mundo cuidar da mamãe, depois que ela começou a precisar de mais atenção. Uma irmã nossa tava desempregada, né? Então eu reuni a família e a gente combinou de os outros irmãos pagarem um salário mínimo pra ela ficar com a mamãe durante a semana. E, nos finais de semana, os outros revezam. Cada vez a mamãe fica na casa de um. Dá certinho um mês pra ver todo mundo.

– Assim que a gente terminou de acertar essa divisão eu disse que as visitas de fim de semana iam ser muito boas para a mamãe. Assim ela podia limpar a casa, cozinhar, lavar roupa, passar. Eu disse que trabalho não ia faltar, e ela se sentia bem fazendo alguma coisa. Ah, meus irmãos foram logo ralhando comigo de novo! Imagina, botar a mamãe, com 83 anos, pra bater roupa no tanque, servir de faxineira! Lógico que é brincadeira. Em casa às vezes ela cozinha alguma coisa, varre o chão, mas é só porque ela pede, pra se sentir útil mesmo. Eu não deixo ela fazer nada pesado.

– Lá em casa eu também conto historinha pra ela. Sempre história com mãe ou avó. Ela fica brava que só. Eu começo logo assim, todo com jeitinho, falando que nem criança mesmo: mamãe, vou começar a historinha de hoje, tá? A vovó foi levar o netinho Joãozinho no zoológico. Eles foram ver o casal de macaquinhos, o casal de girafas, um monte de bichos. Até chegarem no casal de tigres. E o tigre tava lá, né, em cima da tigresa. A vovó, quando percebeu, tapou logo os olhos do menino e saiu de lá. Mas claro que o Joãozinho perguntou o que é que os dois tavam fazendo. A vovó explicou que a tigresa colocou o tigre em cima das costas pra ajudar ele, que ele tinha machucado a pata. Aí o menino respondeu: ah vovó, bem que o papai tava reclamando outro dia que quem tenta ajudar os outros só toma no cú!

– Ah, aí a mamãe fica doida! Ah, seu safado, boca suja! Não tem vergonha de ficar falando essas coisas pra sua mãe, seu desgraçado? Você vai é pro inferno!

– E o mais legal é que a mamãe sempre presta atenção, fica toda séria quando eu começo a contar as minhas historinhas. Ah, porque umas eu conto a sério também, né?

– Com ela em casa eu fico todo dengozinho. Falo com voz de criança: mamãezinha, você qué um suquinho, um lanchinho, qué? Ela fica uma arara! Eu to velha, mas não sou retardada! Para de falar assim comigo!

– Eu falo que é jeito de mostrar carinho, e que quando eu ficar bem velhinho eu quero ser bem paparicado. Mas não tem jeito, ela não gosta. Ela responde brava: você é você! Deixa é os teus filhos te tratarem que nem retardado!

– Uma coisa que ela gosta é quando eu levo ela pra fora, no quintal, que eu tive uma idéia muito boa. Ela é toda corcundinha, porque a espinha dela secou, né? Não consegue mais olhar nem pra frente quase. E fazia um tempão que a mamãe não podia ver o céu. Então eu dei um espelhinho, desses de barbeiro, pra refletir as coisas que tem por cima.  Assim ela fica sentadinha no banco do quintal, vendo o céu todinho. Ah, com isso ela fica feliz demais comigo!

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

É preciso não esquecer nada:

nem a torneira aberta nem o fogo aceso,

nem o sorriso para os infelizes

nem a oração de cada instante.

 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta

nem o céu de sempre.

 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,

o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,

a idéia de recompensa e de glória.

 

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,

vigiados pelos próprios olhos severos conosco,

pois o resto não nos pertence.

André Esposito Roston publica Cecília Meireles para o Sete Doses às segundas-feiras. Com a reformulação do site voltará a escrever alguma coisa que preste por aqui.

A acuidade descritiva do meu acervo é muito limitada. Pensando nisso, decidi ilustrar os últimos textos sobre os Marrocos com mais fotos. É um jeito mais digno e preciso de clarear a intrincada beleza secular dessa joia norte-africana.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

Na fazenda morava uma menininha de três anos, uma graça, linda, mas que não falava com nenhuma das pessoas que chegaram de fora. Bichinho do mato, achou o pessoal estranho, logo ficou desconfiada. Um dos estranhos, em vez de falar direto com a mãe da garota, como todos os outros, dirigiu-se a ela perguntando se podia entrar na casa, e qual era o seu nome. A menina, feliz, desembestou a falar com o novo estranho recém conhecido, e a brincar com ele. Mostrou sua bicicletinha e seu cavalinho. A moradia era bem simples, mas até que muito bem arrumadinha pela mamãe e pelo papai, que era trabalhador da fazenda.

Num certo ponto ela disse: “Mãe, mãe, vou mostrar pra ele onde é o nosso banheiro!” – e a mãe logo tampou a boca da menina, meio nervosa e constrangida. O estranho pediu, com todo o jeito, para a mãe deixa-la falar. A menininha levou-o para os fundos da casa e mostrou um gatinho no meio do mato, ao ar livre, em uma área que beirava o igarapé próximo da casa. “O banheiro da gente é lá onde tá o gato!”.

Era o córrego que era também utilizado para que as pessoas da fazenda tomassem banho, lavassem as roupas e coletassem água para beber. Água que vinha do pasto, onde era criado o gado da fazenda, que se servia do curso também para beber, defecar e, eventualmente, morrer.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

Furtado, sem domicílio fixo, sem trabalho definido, sem mulher, sem pai nem mãe. Fudido. Solidão é ser condenado, de um modo bem exclusivo, à prisão perpétua dentro do próprio corpo.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras. Está aquecendo os motores para se endireitar em algumas poucas semanas.

“A penny for the Old Guy”

(Um pêni para o Velho Guy)

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,

São quietas e inexpressas

Como o vento na relva seca

Ou pés de ratos sobre cacos

Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor

Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram

De olhos retos, para o outro reino da morte

Nos recordam – se o fazem – não como violentas

Almas danadas, mas apenas

Como os homens ocos

Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos

No reino de sonho da morte

Estes não aparecem:

Lá, os olhos são como a lâmina

Do sol nos ossos de uma coluna

Lá, uma árvore brande os ramos

E as vozes estão no frêmito

Do vento que está cantando

Mais distantes e solenes

Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime

Do reino de sonho da morte

Que eu possa trajar ainda

Esses tácitos disfarces

Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas

E comportar-me num campo

Como o vento se comporta

Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro

No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta

Esta é a terra do cacto

Aqui as imagens de pedra

Estão eretas, aqui recebem elas

A súplica da mão de um morto

Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste

O outro reino da morte:

Despertando sozinhos

À hora em que estamos

Trêmulos de ternura

Os lábios que beijariam

Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui

Aqui os olhos não brilham

Neste vale de estrelas tíbias

Neste vale desvalido

Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros

Juntos tateamos

Todos à fala esquivos

Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser

Que os olhos reapareçam

Como a estrela perpétua

Rosa multifoliada

Do reino em sombras da morte

A única esperança

De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava

Figueira-brava figueira-brava

Aqui rondamos a figueira-brava

Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia

E a realidade

Entre o movimento

E a ação

Tomba a Sombra

Porque Teu é o Reino

Entre a concepção

E a criação

Entre a emoção

E a reação

Tomba a Sombra

A vida é muito longa

Entre o desejo

E o espasmo

Entre a potência

E a existência

Entre a essência

E a descendência

Tomba a Sombra

Porque Teu é o Reino

Porque Teu é

A vida é

Porque Teu é o

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Não com uma explosão, mas com um suspiro.

André Esposito Roston, Sete Doses, segundas-feiras: T. S. Eliot.

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.

André Esposito Roston escreve Drummond de Andrade para o Sete Doses às segundas-feiras.

Próxima Página »