Libertadores, Rogério Ceni e São Paulo foram termos praticamente inseparáveis nos últimos dez anos. Tanto que o goleiro causou polêmica em 2008 ao declarar, durante um momento de crise do clube do Morumbi no Campeonato Brasileiro, que não se via jogando em Macapá, pela Copa do Brasil, mas em Maracaibo, pela competição continental.

Em 2010, em uma mera coincidência (talvez causa pelo destino, para quem acredita), Rogério Ceni alcançou mais uma das suas expressivas marcas históricas pelo São Paulo logo em uma partida da Libertadores. E em uma daquelas decisivas, em que mais de 40 mil torcedores encheram o Estádio do Morumbi.

Após empate modorrento no Peru por 0 a 0, o São Paulo voltou ao seu estádio para tentar avançar às quartas de final da Libertadores contra o Universitário precisando apenas de uma vitória simples. O encontro, sempre especial para o são-paulino por envolver a competição continental, era ainda mais importante para Rogério Ceni, que completou naquela noite de terça-feira 900 jogos pelo clube.

O roteiro óbvio indicava classificação fácil com festa para o goleiro, mas saiu do controle. Duas bolas pararam na trave, outras no peruano Llontop e algumas na fase ruim do São Paulo, que se somaram aos erros do técnico Ricardo Gomes. E um novo 0 a 0 levou a disputa para os pênaltis.

O São Paulo ficou sob enorme risco de eliminação quando Rogério Ceni desperdiçou a sua cobrança. Mas o goleiro se reabilitou. Defendeu dois pênaltis, classificou seu time para as quartas de final da Libertadores e mostrou, mais uma vez, que o ídolo são-paulino não tem perfil de vilão no Morumbi.

 

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

 

* Matéria publicada originalmente no dia 24 de fevereiro, no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo

No aparador da sala da casa dele, uma foto curiosa. Um menino de 2 anos escalando uma estante, segurando-se com a boca a fim de deixar as duas mãos livres para, com elas, poder fuçar em uma vitrola. Influenciado principalmente pelo pai – um aficionado por discos, instrumentos e equipamentos sonoros, e com quem ele mantém um estúdio desde 1997 -, aquele garotinho, que hoje atende pelo nome de Daniel Ganjaman e há tempos trabalha com importantes nomes da música nacional, é um dos produtores mais requisitados do País e promete para este ano pelo menos três discos que, como ele mesmo define, “devem fazer barulho”.

Sonhando com o tempo que lhe falta para trabalhar em um disco seu, autoral, Ganjaman também ataca de DJ e organiza há quase seis anos a festa Seleta Coletiva, no Studio SP, onde se apresentou ontem tocando teclado com o Instituto e convidados como Emicida e Kamau.

Considerando-se muito mais produtor do que instrumentista, na praia do rock, ele se debruça atualmente quase que o dia inteiro para terminar de mixar Alegria Compartilhada, o próximo CD da banda carioca Forfun. Na seara do rap, em abril sai o disco de Criolo (também conhecido como Criolo Doido e que, assim como Emicida e Kamau, despontou nas rinhas de MC”s esmerilhando seus concorrentes com rimas de improviso pulverizantes), produzido em parceria com o baixista Marcelo Cabral, e cujas faixas Grajauex e Subirusdoistiozin já foram apresentadas na internet.

Além disso, ainda em 2011, sem data de lançamento, deve sair um disco póstumo de Sabotage, também produzido por Ganjaman. Em 2003, o rapper convidou o produtor para trabalhar em um álbum de inéditas. Exatamente uma semana depois, Sabotage foi assassinado. Passados alguns anos, Ganjaman trabalhou em cima das músicas e coletou mais material gravado pelo compositor, resultando em 14 faixas. “Nós, do Instituto, estamos trabalhando com os principais parceiros dele e com alguns familiares pra que esse disco seja uma representação digna de todo legado que ele deixou. Não temos data prevista para o lançamento. Já adiamos uns três ou quatro anos e estamos fazendo todo esforço para que este ano seja realmente lançado.”

Aos 32 anos, Ganjaman ainda se veste como um skatista, com as roupas largas e os bonés que identificam a tribo. Embora não ande mais sobre a tábua de madeira com quatro rodinhas, ele atribui ao skate e ao convívio com amigos na época de adolescente um dos pontos determinantes em sua vida para expandir horizontes musicais.

Em uma divisão nada maniqueísta, do pai herdou o gosto pelo rock – e por equipamentos de áudio de qualidade – e da mãe, o interesse por música brasileira, como Milton Nascimento, Elis Regina e Jorge Ben. Pequeno, conhecia uma barbaridade de músicas e com apenas 7 anos vibrava em Iron Maiden, julgando-se um “minimetaleiro”.

Depois disso, veio a adolescência, com forte referência dos amigos. “A gente, com o skate, tinha essa coisa do punk, com uma pesquisa grande. Conheci Beastie Boys, que foi uma abertura de leque, e comecei a ir atrás de uma série de outras coisas, como Sly & The Family Stone, Parliament-Funkadelic, conheci Public Enemy por causa do Anthrax… O skate foi um dos grandes responsáveis por eu começar a me interessar por rap, hip-hop e outros gêneros”, diz Daniel Sanches Takara, que ganhou o apelido aos 16 anos, com o vinil de um de seus “papas”, Lee Perry. “A primeira música do lado A chamava-se Daniel e a do lado B, The Ganja Man. Acabou pegando”.

Na mesma esteira, ainda nos anos 1990, as epifanias musicais se apresentaram para o moleque com o primeiro disco dos Racionais MC”s, M.T. Bronks, Thaíde, Pop Will Eat Itself, Depeche Mode, Nine Inch Nails, Ministry e uma série de descobertas que seriam amplificadas com idas de Ganjaman ao exterior.

Pavimentando caminho.
Em 1997, ao lado do pai, Ganjaman abriu o estúdio El Rocha, onde deu os primeiros passos como produtor. Dali não demoraria muito para, a convite do craque Apollo 9, começar a tocar e a fazer a direção musical da banda do cantor, compositor e percussionista Otto, caindo em turnê na divulgação do primeiro disco do pernambucano, Samba pra Burro, em importantes festivais, como o Central Park Summerstage, em Nova York.

No começo de 2000, em contato com o produtor David Corcos, o guitarrista Rafael e o DJ Zé Gonzales, gravou, compôs e ajudou a finalizar o último álbum de estúdio do Planet Hemp, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, saindo em excursão com o grupo. “Quando a gente lançou, já saiu como disco de ouro, 100 mil cópias. Naquela época, já eram os últimos suspiros da indústria fonográfica da forma que se conhecia. Hoje você vê artistas grandes, ícones da música brasileira, vendendo 20 mil cópias. Eu já produzi discos para majors e sei que a forma de se produzir música mudou, alguns se beneficiaram, outros se deram bem mal”, diz Ganjaman.

Dali em diante, ele seguiu colecionando trabalhos importantes, produzindo o disco O Rap É Compromisso, de Sabotage (ao lado de Zé Gonzales), gravando e assinando a produção técnica de Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, dos Racionais, seis faixas do disco homônimo da Nação Zumbi, e Guerreiro e Guerreira, de Helião e Negra Li.

Além de tudo isso, desde os 15 anos organizando eventos na noite paulistana, na época com as mínimas condições de estrutura – o que rendeu muita experiência para que Ganjaman pudesse hoje comemorar quase seis anos como responsável pela festa Seleta Coletiva. Ali, ele se apresenta com o Instituto, criado em 2001 pela parceria com Rica Amabis e Tejo. Foi com eles que o produtor teve também a oportunidade de rodar a Europa em renomados festivais, como Sonar, em Barcelona, e Roskilde, na Dinamarca, e ter acesso a discos que jamais encontraria em sebos brasileiros.

“A primeira vez que fui para a Europa, gastei US$ 1.500 em discos. Antes de ir, pesquisava quais eram as lojas legais e fazia uma via-sacra por elas.”

A soma desses contatos com artistas de diferentes vertentes musicais com essa peregrinação por lojas de discos (hoje Ganjaman tem mais de 3 mil vinis, indo de raridades de Lee Perry, passando por Funkadelic, e chegando a Serge Gainsbourg) fez com que ele abrisse a cabeça e se tornasse uma espécie de camaleão, no melhor sentido da palavra, trabalhando com nomes com os quais mais se identifica na cena independente nacional.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

01 – Pavement – Cut Your Hair

Atenção à cena aos 54 segundos

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depois da CENTÉSIMA edição, lex DESCANSOU. dose_INDIE de volta em março

A ilustração da semana deixa de existir! E antes que pensem, que digam qualquer coisa … o Ziegler não está saindo. Melhor, estou buscando novos caminhos (leiam-se soluções) para resolver problemas com criatividade, identidade e prazo. E também porque as publicações agora serão quinzenais, logo ficaria feio batizar de ilustração desta semana … rs …

Durante quase dois anos, não segui nenhuma linha racional e muito menos gráfica do que eu iria expor nos meus posts. Foram ilustrações sobre os mais distintos assuntos e acontecimentos. Pessoais ou não. Preelaboradas, devidamente “brifadas” na minha cabeça ou simplesmente feitas “nas coxas” no último cigarro da madrugada.

E nesse caos todo, descobri que havia perdido a linha da coisa. Fazendo uma retrospectiva do último ano e até na seleção da obra para o livro SeteDoses, percebi que coisas com pesos totalmente distintos acabaram recebendo por mim o mesmo tratamento sem qualquer critério . Ora eu ilustrava uma canção, e tantas outras mais significativas ficaram de fora. Ora me via desenhando sobre uma “merdinha” qualquer que havia explodido.

Fiz críticas à sociedade, ao governo, a mim mesmo. E tive “inúuuumeras” outras chances de repetir o feito.  E não foi feito!

Para direcionar melhor o meu trabalho no blog, optei por seguir uma linha de inspiração. Escolhi o cinema para isso. Uma grande paixão, febre… e, por incrível que pareça, não me lembro de ter feito nada ainda sobre. Então, a ilustração da semana dá lugar ao Cine Z ilustra!

Filme escolhido, daqueles naturalmente tortos e normalmente estranhos a olhos pouco treinados, farei meus embustes gráficos. Pode ser uma cena, um novo cartaz, um ator ou um diretor. O que a película permitir!

Creio que assim vou atender às minhas necessidades criativas e de organização. E ainda indico humildemente alguns filmes que possam interessar aos nossos seguidores.

Pois bem, vida longa ao Cine Z ilustra!

E para a primeira edição que acontece no próximo dia 3 de março, já com o novo site no ar, escolhi o francês J’ai toujours rêvé d’êntre um gangster de Samuel Benchetrit. Até lá!!

 

 

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses

 



Todos os dias, às 18h37, Norma ingeria uma cápsula. Seguia um verdadeiro ritual de cura. Tirava os óculos, piscava cinco vezes, erguia a cabeça e pigarreava antes de caminhar em direção à geladeira. Servia-se de um copo de água fria. Bebia um gole e gargarejava, deixando um pouco de saliva na boca. Em seguida, engolia o comprimido.

O tratamento começara há 17 anos, por indicação do marido – falecido há 12 anos. Naquela época, partilhava das mesmas dores e anseios dele. Dividiam náuseas, estomatites, devaneios e até mesmo alguns sonhos e pesadelos. Passaram a comungar também de um punhado de cápsulas e outro de fé.

Quando ele era vivo, ensinou a ela a tirar os óculos, a piscar, a erguer a cabeça e a pigarrear antes de iniciar o tratamento. Norma se encarregou de aprender sozinha o gargarejo. Ele também não a acompanhava no ato seguinte ao comprimido, quando a esposa se ajoelhava à beira da cama, unia as palmas das mãos abertas e choramingava uma novena de palavras para o nada.

Para Norma, o marido não resistiu ao tratamento justamente por não conseguir completar uma oração. Ela costumava se benzer quando o ouvia assoprar frases inconclusas e desprovidas de sentido para os estranhos – a esposa, como bem o conhecia, entendia plenamente o que ele pretendia dizer. Os demais, ao contrário, reprovavam aquele balbuciar. Como fazem com tudo aquilo que foge à racionalidade.

O marido morreu às 18h36, com as mãos entrelaçadas às dela. Norma respeitou um minuto de silêncio e, de cabeça erguida, sem os seus óculos, gargarejou e ingeriu duas cápsulas na cozinha logo em sequência. Uma por quem permanecia e outra por quem ia embora.

O ritual parecia se perpetuar. Até o dia em que Norma foi à geladeira e cambaleou. Sentiu-se tonta e sem forças. Seus óculos já não lhe bastavam para enxergar. Piscou dez vezes, e nada. Ergueu a cabeça, porém se engasgou ao pigarrear. Suas mãos suavam. A ponto de o copo de água fria escorregar e partir-se em pedaços, no chão, durante o gargarejo.

Norma também ruiu. Sem encontrar seus comprimidos, uniu as palmas das mãos abertas e tentou choramingar as suas palavras para o céu, longe do pé da cama. Pronunciou somente o nome do marido e, assim como ele pecava, não conseguiu completar a oração. Por mais contraditório que fosse, naquele instante Norma se julgou curada. Às 18h38.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

O pescador

Pescador – Ilha de Bororé – SP

Renato Rocha publica suas fotos às quartas-feiras no Sete Doses

Com o volume desumano de informação que circula pela internet diariamente, fica cada vez mais difícil selecionar o que realmente interessa. E é comum, no meio do trabalho, dar de cara com uma entrevista em 4 partes que você adoraria ler, mas que acaba deixando de lado.

Um aplicativo que tenho usado muito ultimamente é o Instapaper. O funcionamento dele é muito simples, quase minimalista. Ao marcar uma página para ler depois, ela entra em uma lista que pode ser acessada em seu perfil no site, no celular, no iPad, no Kindle, entre outros dispositivos.

O que o Instapaper faz é “limpar” o site, deixando apenas texto e imagens. Sem menus, sem propagandas. Só o que realmente interessa: o conteúdo que você quer ler.

Ideal para momentos no trânsito, onde você lê no celular os links que foi coletando ao longo do dia.

 

Mas esta não é a única opção. Existem vários destes agregadores de conteúdo, que facilitam a vida e não fazem com que você tenha que entrar de site em site toda vez.

O Paper.li agrega os conteúdos do Twitter e do Facebook em uma espécie de revista virtual. Ideal para quem não fica o dia todo conectado nas redes e quer fazer um apanhadão de tempos em tempos.

Essa é pra quem tem iPad. O Flipboard dá um trato na organização das suas matérias favoritas e as transforma em uma revista interativa muito legal de ver com o tablet.

O Pulse é disponível para iPod Touch, iPhone, iPad e aparelhos com Android e funciona como o Flipboard. Testei no meu celular e a navegação é meio apertada por conta da tela. Mas num tablet um pouco maior deve ser uma delícia de usar.

 

Thiago Kaczuroski, o Kazu, escreve às quartas-feiras no Sete Doses