Transitoriamente amar é despavimentar as alamedas do peito.

Em Findalma, desde que se conheceu a presença humana no local, os animais instauraram uma lei velada entre eles: como os repugnantes homens já davam sinais de que extinguiriam espécies e aniquilariam aquele ecossistema, os bichos deveriam viver ao ponto máximo da entrega. Inadimplência sentimental passaria a ser encarada como crime.

A partir de tal acordo, os gostares bumerangueavam. Em via de mão dupla os quereres eram dos mais sinceros ao abraçarem a plenitude. Diante dos espelhos, os meio afetos se irreconheciam.

Damião, o jabuti, nunca precisara que lhe recomendassem o escancarar de si. Justamente por isso, havia uma discrepância gritante entre sua lerdeza física e a amorosa. Era casco duro por fora e peito macio por dentro. Sabia que benquerência não se mede por trenas. Transborda feito barragem arrebentada de hidrelétrica. Não há dique que segure a volúpia da corredeira das águas.

O respeito à nova lei em Findalma seguia em ponto morto e nunca ninguém havia sido condenado por avareza afetiva. Até o dia em que Miguelinda, a centopeia, foi autuada por mesquinhez sentimental. A alegação da justiça era que mesmo não sendo das mais velozes, ela se aproveitava de seus infindáveis pés para colocar o coração de Damião em rodeios e tangenciar à francesa a entrega do amoroso jabuti.

Desde a prisão de Miguelinda não houve um dia em que Damião não tivesse ido visitá-la com flores na cela. Ela até reconhecia boniteza no gesto daquele “homem” perdido em labirintos por ela, mas não tinha nada para oferecer em troca. Foi então que depois de um mês de prisão da centopeia, o jabuti chamou os guardas e convocou a Justiça para propor um acordo:

– Senhores, façamos o seguinte: Miguelinda não merece penitência. Proponho que a soltem e me prendam em seu lugar. Como o sentimento não necesariamente precisa ser compartilhado e retribuído, vou encarcerar o meu aqui no peito. Carregarei isso comigo, só quero que ela seja livre e caminhe com pés de pluma guiada pela alma em leveza.

A ordem foi absolutamente subvertida e – não que se configurasse um movimento de compaixão – Miguelinda passara a visitar Damião todos os dias em sua própria prisão. No primeiro dia, chegou e partiu calada, entregando apenas uma flor ao jabuti. O gesto ia se repetindo na segunda visita quando Damião vaticinou:

– Não me traga mais flores. Quero ficar com essa entre o nariz e o peito. Quando acabar o cheiro e o sentimento que há nela você me traz outra. Eu sigo bem aqui. São as pétalas a bradar que ninguém tem nada de bom sem sofrer.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

 

O pecado entorta os pés. Por isso peregrinos, pecadores natos, tanto caminham. Para endireitá-los. Na vida de Querente, apontaram-se desapontamentos tantos que ele decidiu abreviar os sofreres e palmilhar a vida com as mãos.

Dicotômico que parecesse, por mais sujismundo que estivesse fisicamente, aquele era o momento de sua vida em que ele almamente estava completamente limpo. Encolhido em estilhaços naquele cubículo odorento, sentado sobre o chão frio e emporcalhado, foi quando quase ensurdeceu ao ouvir o estampido provocado pelas batidas do cacetete contra a pesada porta de ferro.

– Querente, você está livre. Não me pergunte por que, apenas passe no “purgatório”, pegue suas coisas e volte pra rua.

A determinação do carcereiro soava como um desatino dos mais absurdos. Que diabos de “coisas” materiais Querente teria para pegar se tudo o que tinha na vida lhe fora tomado? Além do mais, aquela era a primeira vez na história em que um preso que estava havia 26 anos na solitária saía direto para a rua.

A verdade é que, pouco mais de duas décadas e meia depois, Querente descobrira que o autoencontro não passa de um autoengano. E a única exigência que fez antes de deixar a cela e a penitenciária foi que lhe dessem uma faixa para vendar os olhos.

Não de despediu de ninguém. Ao cruzar o portão principal da cadeia e alcançar a calçada, sucederam-se mulheres em ofertas para guiá-lo. Vinham todas cordialmente lhe pedindo licença, ao que Querente prontamente as solapava tirando as mãos delas de si. Propalavam chuvas de insultos e impropérios contra aquele recém-voltado ao caos das relações humanas.

Em rota de fuga dos contatos, ele cambaleou mais alguns metros pela calçada, sem ir muito longe. Até que, sem explicação qualquer, Querente surpreendeu-se tomado pela aproximação daquela moça de nome Benta.

– Para onde quer ir comigo?

– Me leve para a estação. Vamos embarcar no primeiro trem. Não me faça perguntas, apenas quando estivermos perto do fim do último túnel do caminho, você me avise.

Diretrizes seguidas, ambos chegaram à plataforma e subiram no vagão. Ao longo do caminho, por diversas vezes Benta desobedeceu um dos pedidos de Querente, que não desgrudava a cabeça da janela.

– E então, o que você tanto vê lá fora?

– Você.

Para Benta, aquela resposta era como se sua alma fosse sentada em uma cadeira de balanço e o sentir, por mais que jogado de um lado para o outro, respousasse nos braços da leveza.

À chegança do fim do túnel, o lembrete solicitado.

– Estamos chegando onde você pediu.

Querente tirou a venda sem esboçar reações efusivas diante do clarão que se via no horizonte.

– E agora, o que tanto vê?

– Você.

Era, enfim, com o peito nos trilhos, que Querente atestava que a cegueira não se deflagra na penumbra tampouco na luz. É pelas mãos do amar que se abrem e se fecham as cortinas dos olhos em alumbramentos.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e agradece a foto tirada por seu tio Divaldo Rodrigues Jr. e “Flor da Vida”, de Hamilton de Holanda, para acender o rastilho não só deste texto, mas da benquerência em seu viver

 

A vida nada mais é do que o desenrolar de um novelo de benquerências morado no peito.

O que acontece é que desvelos e faltas de diligências com as coisas aparentemente mais banais e corriqueiras do viver cotidiano resultam em desapegos e desilusões. Timoneiro da inércia, Valdinho ergueu com dificuldade a pesada porta de ferro para abrir seu botequim em mais uma manhã. O sol mal havia pulado da cama, mas todo dia ele entrava no bar, desvirava as cadeiras dorminhocas sobre as mesas e aguardava os costumeiros clientes “pé-inchado”.

Aposentado de suas antigas obrigações no funcionalismo público, Valdinho não abria mão de abandonar seu estabelecimento comercial para ficar em casa. Ninguém conseguia descobrir de qual manancial de vitalidade um senhor de 96 anos, como ele, se embriagava para manter-se, literalmente, funcionando como uma infalível engrenagem.

Não devia satisfação a ninguém e, como tinha condições de levar a vida em puro modo de mamata, após ter mamado durante tantas décadas nas tetas estatais, era um verdadeiro fiador da pinguçada de plantão. A chave era não bater de frente com ninguém. Sendo assim, Valdinho repetia para si mesmo todo santo dia: “Não engrisalha nem encasqueta quem abraça a desconfusão”.

Liberava o mel e o refresco à granel a quem chegasse a seu botequim. Levava a vida em temperança plena. Ou melhor, quase. Há um certo tempo, sumira-lhe a ardência passional do amor. Depois do rompimento com Aretha, com quem vivera por seis anos, Valdinho bandeava pelo bairro com dedo solto. Todo dia, mesmo sabendo do fuzuê que causaria, fazia questão de pousar a mão esquerda sobre o balcão para ostentar a mão desaliançada.

Ateu convicto, mesmo desesperançoso, passara a clamar a alguma entidade superior para que lhe guiasse aos braços tórridos da paixão. Macaco-mais-do-que-velho, também não saía desesperado à cata do mulherio. Sabia que com o amor não se busca, topa-se. Descrente, lamentava: “deve ser que eu rezo baixo, pois meu Deus não ouve, não”.

Àquela altura, mesmo nutrindo sentimentos benevolentes para o mundo como um todo, até o peito de Valdinho estava árido. Até a noite em que decidiu fechar o botequim antes do horário habitual, passar em casa para se banhar e depois arrancar para a gafieira, que não frequentava havia décadas. Lá, mesmo diante de um dos sons mais incendiários que já ouvira não estava dos mais animados. Era nessas horas que Valdinho se lembrava do conselho de Villa-Lobos: “Valdinho, meu filho, o ouvido interno nada tem a ver com o externo”.

Foi então que a locomotiva de sua alma decarrilhou. A banda enchia o salão com labaredas sonoras, mas Valdinho não escutava mais nada. A visão, embaraçada, mirava em congelamento tamanha esguiez e delgadeza em clarão de olho e cabelo. Já que amor não se fala, sente-se, Valdinho exacerbou o gesto. Em sequestro repentino, apanhou a mulher pela mão e partiu em busca do além-amar. Depois de tanto golpe da vida, chegara o momento da plenitude do gostar.

Quando o caminho da entrega é sem volta, a terra firma em secura para encerrar os atoleiros de desilusões.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

Era quarta. Não, não era quarta, era quinta. Em pé, estancado na calçada, aguardava o ônibus com a impaciência de quem não tem tempo a perder. No asfalto quente, caminhões e carros rasgavam o silêncio. Distante, pensava em nada. Só aguardava. No momento em que o tédio ameaçou me abraçar, acendi um cigarro e passei a andar de um lado para o outro, observando meio sem atenção as pessoas que compartilhavam minha angústia de espera. Foi então que vi um casal.

Talvez tenha perdido o ônibus, pois me fixei de maneira obcecada na imagem daqueles dois, oferecendo as costas ao tráfego e me ensurdecendo diante daquela bonita cena. Tinham, sei lá, entre quinze e dezoito anos, jovens, com aquele brilho nos olhos que se apaga lentamente conforme são ultrapassados os obstáculos da vida. Beijavam-se com um gosto que me parecia desconhecido, abraçavam-se firmemente, uniam-se empolgadamente. Entre beijos, risos e abraços, pulavam, gargalhavam alto e chamavam a atenção. Eram únicos, eram belos, eram felizes como se ninguém mais tivesse o direito de sê-lo.

No dia seguinte, diante da mesma espera, do mesmo cigarro e do mesmo barulho de buzinas e motores, me vi diante da cena novamente. Ainda mais empolgados, ainda mais felizes, ainda mais fortes. O casal era incontrolavelmente feliz, perfeito, irretocável. Era um escândalo de alegria, daquelas que lhe fazem sentir inveja, que lhe fazem repensar nas cores que compõe sua vida. O momento mais alegre do meu dia era me deixar contagiar pela felicidade daquelas duas crianças que nem imaginavam o que de fato era o amor – melhor mesmo que não soubessem. E foi assim por meses, por quase um ano. Vivia cego e surdo pela felicidade dos dois. Vivia com mais intensidade aquela cena a qual nunca participaria do que o próprio transcorrer de meus dias.

Até que uma vez o casal demonstrou mais reserva e menos intimidade. Percebi que ela estava triste. Ele, com os braços envoltos no pescoço dela, a consolava com carinho tímido e com pequenos beijos na testa que não queriam dizer nada. Ela chorava, quase imperceptível, com vergonha de não estar feliz. Como todos os dias, despediram-se, dessa vez com muito menos entusiasmo. Ela subiu no ônibus e ele foi embora. Diferente de outros dias, ele não acompanhou os primeiros metros do veículo para vê-la mais uma vez, para abanar a mão e mandar beijos como num ensaio de adeus. Ela, sentada e amuada, continuava com as lágrimas. Ele, incomodado, saiu de cabeça baixa.

No outro dia, surpreendi-me ao ver apenas ela no ponto. Sozinha, totalmente murcha, esperando tediosamente, como eu, o ônibus que nunca chegava. Esperei, imaginei que o menino atrasara, mas nada aconteceu. Ela estava só, como eu, perdida a esperar por qualquer coisa. Com os olhos baixos, sem saber o que fazer com as mãos e sem condições de sequer ensaiar um sorriso. Naquela tarde, quente como o inferno, os carros voltaram a ter som, as buzinas e os motores voltaram a incomodar, a poluição voltou a invadir sem licença meus pulmões e os tons cinza da Marginal voltaram a me sufocar. Acendi um cigarro, pronto para esperar. A menina, com voz quase sumida, postou-se ao meu lado e pediu educadamente por um cigarro.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Reveses para Ismael eram tulipas, rosas, margaridas, violetas e hortênsias. O que para as massas representavam flores, para ele resumiam-se a nomes de mulheres. Era história com um ar de masoquismo. A cada abortar de arroubos, pilhérias e rompantes com perfumados pares femininos o jardineiro corria para o quintal. Ali, engodava o solo e, como terra levada pela correnteza, regava as plantas com a salina dos olhos. E lembrava como era possível um plantar verde de esperança verter-se no entardecer da desilusão.

Sendo assim, toda vez que a estrada do amalgamar-se com mulheres deparava-se com um trevo, uma encruzilhada, obrigando Ismael e a madame do momento a seguirem por caminhos distintos, ele agia em moto-contínuo e piloto-automático. Corria para sua plantação, colhia a planta homônima à ex-amada e enchia o peito com o perfume do adeus. Fora assim com Tulipa, com Rosa, com Margarida, com Violeta e com Hortência. No fundo, tudo era um emaranhado de sinceridade. Os mal-me-queres com as mulheres eram um reconciliar de Ismael consigo mesmo.

Com o ponta-cabecear da areia na ampulheta, o jardineiro aprendera que todo sofrer em berros era falso. A dor repousa no silêncio. Valendo-se disso, a cada romper de aliança afetiva, Ismael calava para abrir os ouvidos. Em vez de bradar impropérios e lamentos, serenava com o rodopiar do vinil, sabedor de que o amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses. Hoje, revenerando João Gilberto, e com um texto mais curto, sabe que mesmo com menos palavras o peito ainda dá o seu recado

 

Não matutava muito. Com o facão abria clarões no matagal para chegar nem sabia onde. A cada passada de lâmina nos caules, a cada seiva jorrada, era como se aproximasse a chegança a um lugar desconhecido e desejado. Era descoração danado. Era peito a vácuo de tão oco. Era Judião.

Tinha dia que cruzava tanto o rio de lá pra cá que o azul do céu virava preto. Por mais que vez ou outra passasse por sua cabeça a vontade de dormir embaixo da terra, refugava. Nos dias de banha-lágrima, era tanta enchente nos olhos, que Judião buscava a beleza das pequenas coisas para alimentar a alma. Era o que restava, pois o corpo já tinha desencarnado havia tempos.

Furta-cor de asa de borboleta, pêlo eriçado de filhote indefeso, salto de peixe enxerido que mete cabeça pra fora do ribeirão, peregrinação de folhas em formigas, e uivos noturnos de fazer arrepiar careca. Era disso que Judião subsistia. Era caboclo de viver com pouco e encher o peito com leveza de ar-de-pluma.

Só sabia daquele labirinto de bicho e planta. Vivia naquela prisão por puro consentimento. Ir dali por quê? Talvez fosse hora mesmo. Era a primeira vez em um infindar de décadas que Judião deparava com pegadas que não as suas ou dos animais. Seguiu os passos como carta de navegação em primeiríssima viagem.

Quando chegou ao fim da rota, a cena e o som de deixar camareira no chinelo e arrumar a cama perfeita além de sete palmos. Aos contrapontos de “muito prazer” para A Lenda do Caboclo, de Heitor Villa-Lobos, Judião congelou a vista de nunca mais piscar. Era clarão de olho monumental. Foi um embaralhar de palavras de aprendiz de francês. É um enevoar de morrer de amor.

 

Lucas Nobile escreve todas às sextas para o Sete Doses com a convicção de que se Heitor Villa-Lobos tivesse composto apenas “A Lenda do Caboclo” já seria um gênio completo

Os passos lentos de Jairo atestavam o pesar que a gravidade adquire com o avançar da idade. Como fazia todas as tardes, flanava, cambaleante, pelas ruas arborizadas e movimentadas do Jardim Europa. Foram trinta anos de sua vida trabalhando naquela região e, depois de aposentado, andar por ali era como viver o passado, nublar o futuro e matar o presente. Observava as mansões imponentes e o entrar e sair dos carros importados das garagens. Prostrava-se, principalmente, em frente a uma casa na Rua Atlântica e ali deixava seus pensamentos nostálgicos desenrolarem-se.

Os altos portões brancos do casarão, sempre cerrados com cadeados e correntes grossas, emolduravam um jardim impecável, ornado por bromélias, lírios, cravos, margaridas e flores do campo: todas simetricamente espalhadas por uma área de mais ou menos 60 metros quadrados. Olhava para aquele jardim tão bem aparado e lembrava-se da época em que era ele quem cuidava daquele pequeno paraíso. Ao olhar com mais atenção para aquele mar de flores, observou, maravilhado, um único e solitário botão de rosa vermelha. Em destaque, balançava com o sabor do vento e anunciava a tempestade que se aproximava. Jairo abriu o guarda-chuva, olhou por mais alguns segundos e se dirigiu ao ponto de ônibus. Em pouco tempo, pingos grossos de água começaram a tingir o asfalto.

De volta à sua realidade – uma casa de um quarto na Zona Leste da cidade –, beijou a testa da mulher e ligou a televisão. A vida ociosa desmanchava-lhe o prazer pelas coisas, e o meio da tarde era o horário que mais lhe incomodava. Enquanto todos estavam ocupados com seus compromissos, ele e sua mulher se preocupavam apenas com o horário e o cardápio do jantar. A existência, desde que os filhos debandaram de casa, tornou-se enfadonha e chata. A morte, cada vez mais próxima, parecia o único objetivo concreto. Mas um simples comentário de sua mulher lhe despertou uma ideia:

– No mês que vem fazemos 45 anos de casados. Sabia?

Fingindo não prestar muita atenção para o que a mulher dizia, meneou com a cabeça em sinal de positivo e fingiu estar entretido com a televisão. Mas seus pensamentos iam longe. De súbito, lhe veio a ideia de presentear a mulher com a flor que ele vira aquela tarde na mansão da Rua Atlântica. Era o presente perfeito para fazer sua amada sorrir novamente. Uma flor como aquela iluminaria novamente seu lar e daria novo fôlego para os próximos últimos anos de matrimônio. A esperança encheu-lhe o peito de coragem.

No dia seguinte, ao conversar com o motorista de táxi que trabalhava em frente à sua casa – um velho conhecido que lhe prestava uma amizade quase terapêutica -, Jairo contou dos planos de roubar a “Flor dos Jardins”, como a apelidou carinhosamente.

– Que é isso, rapaz, virou moleque de novo? Vai roubar flor pra dar pra namorada? Bate na porta e pede a flor pro seus antigos patrões. Você mesmo diz que eles sempre foram gente boa.

– Você não entende – disse Jairo, saindo sem nem se despedir do amigo.

Os planos de Jairo eram bem claros. Na calada da noite, pularia o portão da mansão, arrancaria a rosa que se destacava no meio do jardim e iria embora. Entregaria a flor para a mulher no dia do aniversário de casamento com uma fita branca enrolada no cabo. Ele tinha um mês para arquitetar toda a operação, que apesar de simples era considerada por ele de alto risco. Comprou um caderno na papelaria e escreveu com letras vacilantes na capa vermelha: “PROJETO FLOR DOS JARDINS”. Descreveu ali os propósitos de sua missão, os motivos de se arriscar em tal empreitada e aproveitou para declarar seu amor pela esposa com um pequeno poema:

A Missão:

Romanticamente, como os bons e velhos amantes faziam, irei usurpar a rosa vermelha mais linda que já vi para presentear minha esposa. Farei isso um dia antes de nosso aniversário de matrimônio. Após Sofia dormir, sairei de casa portando dinheiro para o táxi, este caderninho e meu documento de identidade. Pularei o portão, arrancarei a flor e retornarei para minha casa. Acordarei Sofia, pois presumo que já terá passado de meia-noite, e entregarei a flor para ela com uma fita branca enrolada na base da copa com a seguinte montagem do texto “Para Uma Menina com uma Flor”, do poeta brasileiro Vinicius de Moraes:

“Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”

Os Motivos

Provarei meu amor por Sofia invadindo humildemente uma mansão de ricos para demonstrar a ela que o amor pode tudo. Vou provar a ela que o amor resiste ao tempo e a todos os descaminhos da vida. Não é pelo fato de viver apenas com uma aposentadoria tão pequena que não tenho o direito de entrar na mansão que um dia trabalhei e dar à minha esposa a flor mais linda da cidade. Não quero pedir mais nada a meus antigos patrões, não dependo deles, sou um homem livre que pode conseguir as coisas pelos próprios esforços. E vou conseguir aquela rosa. Sou um homem pobre, mas conheço de flores e sei que aquela é especial. Darei a rosa à minha menina e nossa relação voltará a ter fulgor como outrora. Creio nisso como creio no bom Deus.

Pequeno poema à Sofia

“Encontra-me no Paraíso, Oh Sofia

Seus cabelos me inebriam

Sua pele me fascina

Todos os dias eu insisto, Oh Sofia

Sua beleza é um desatino

E essa rosa eu lhe dedico”

Obs: Só entregarei o poema à Sofia se tiver coragem. Ainda não decidi.

Os escritos no caderninho passaram a ser rotina na vida de Jairo. Passava horas construindo frases e poemas de amor para Sofia, embrenhando-se em parques da cidade para ganhar inspiração da natureza. Visitava todos os dias a mansão do Jardim Europa, observando a rosa de longe, fascinado. Escrevia no caderninho tudo que sentia durante aqueles encontros.

Na noite do roubo, Jairo estava apreensivo. Após a mulher pegar no sono, vestiu um sobretudo negro da época de juventude, colocou um chapéu na cabeça e um cachecol pendurado no pescoço. Foi na ponta dos pés até o armário do quarto, pegou as poucas economias para pagar o táxi, colocou o caderninho de capa vermelha debaixo do braço e saiu.

Nervoso, pediu para o taxista lhe deixar na esquina da Rua Groelândia com a Colômbia, uma quadra antes da Atlântica. Com passos lentos e decididos, dobrou a esquina e chegou à porta da mansão. Tranquilamente, colocou o caderninho no bolso, observou a escuridão silenciosa do jardim e sem pensar muito pulou o portão com toda a dificuldade que sua idade avançada requeria. Devagar, com pés de algodão, caminhou pelo trilho de concreto que circundava as flores. Só ouvia o som do vento frio e forte que soprava. Observou a flor, que, solitária, pendia de um lado para o outro ao sabor do vento. Estava derramada em escuridão. Com cuidado, embrenhou-se no meio das flores e arrancou o cabo da rosa com um puxão seco e certeiro. Parou por um instante, hipnotizado por sua beleza. A olhava, enternecido, como um jovem que observa pela primeira vez a nudez muda de uma mulher. Minutos se passaram e Jairo prosseguia estancado feito uma estátua no centro do jardim, olhos úmidos e vidrados. Vozes surgiram de dentro da casa e se somaram a latidos de cães. Apesar das luzes que se acenderam no interior da mansão, o breu ainda dificultava a visão e o olfato se tornava o sentido mais aguçado, atingido em cheio pelo perfume das flores. Passos apressados chocavam-se contra a grama úmida pelo orvalho da noite. Dois estampidos, sobrepondo-se um sobre o outro, ressoaram no ar. O segurança, ofegante, observou um vulto se inclinando em direção ao colchão de flores que os cercavam. O vento, furioso, folheava enlouquecidamente as páginas de um caderninho vermelho caído ao lado do suposto ladrão. No ar, pétalas de rosa levantavam vôo e bailavam desesperadas pelos arredores do jardim. A lua cheia – romântica e melancólica – iluminava tudo.

Título em homenagem à canção “O Velho e a Flor”, de Vinicius de Moraes, Toquinho e Bacalov. A música e a letra:


Por céus e mares eu andei

Vi um poeta e vi um rei

Na esperança de saber o que é o amor

Ninguém sabia me dizer

E eu já queria até morrer

Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho

É o espinho que não se vê em cada flor

É a vida quando

Chega sangrando

Aberta em pétalas de amor

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos