As ruas de Palermo. De acordo com as minhas contas, andei 10 km por dia em Buenos Aires

Buenos Aires, 27 de setembro de 2010 (23h30min)

Voltei a acordar muito cedo hoje para aproveitar a manhã.  A abertura do Congresso foi de tarde e ainda tive umas horas extras para dar mais uma chance para a Recoleta. Confesso que no dia em que havia visitado esse bairro estava tão melancólico e deprimido que ele me pareceu horrível. Não é assim. É um lugar que tem seu charme, coisas interessantes e tal. Peguei o metrô, parei em uma estação próxima e no caminho tomei o melhor café da viagem até aqui. Veio com uma espuma na consistência certa, daqueles bem tirados. Você não ia gostar, pois ele era forte. Acho que mesmo aqui você ia querer tomar café no Starbucks. Realmente seu gosto para café é uma lástima. Mas aceito essa diferença, até porque acho mais fácil fazer café aguado e sem açúcar, as chances de erro diminuem muito.

Andei até a Recoleta, parei em uma pracinha e fiquei olhando os casais deitados na grama, lembrando de Parques do Ibirapuera, Villa-Lobos e outros em que fizemos a mesma coisa. Cadê você aqui, porra? Enfim, como não tinha você, peguei meu livro do Cortázar e li dois capítulos. O argentino filho de uma mãe escreve muito. Aí andei, andei, andei e comprei uma blusa pra você que eu achava que era de Cashmere, como você havia pedido. Quando, no telefone, você me pediu para olhar o selo constatei que era pêlo de coelho. Porra!!! Mataram um coelho para fazer a blusa, os pêlos ficam saindo na mão e a qualidade ainda é ruim. A vontade é jogar fora essa porcaria.

Só consigo comprar coisas da Mafalda, sei lá os motivos. Mas achei em um sebo uma compilação de tirinhas dela por ridículos 30 pesos. É um livro de 200 páginas sensacional. Melhor compra cultural até aqui. Mesmo assim, fico assustado com os preços daqui pensando nos argentinos. Um lanche do Mcdonald´s, daqueles de preço barato, custa 10 pesos. No Brasil é R$ 5. Os caras pagam tudo em dobro por causa da desvalorização do peso. É impossível comer em um restaurante médio sem gastar pelo menos 40 pesos. Para nós é barato, para eles é uma fortuna. Imagine gastar todos os dias R$ 40 no almoço?

Minha obssessão pela Mafalda cresceu ao longo da viagem

Para conhecer um lugar novo, fui ao bairro onde fizeram uma estátua para o Carlos Gardel. Pela primeira vez deixei de sacar a câmera em um lugar por medo de ser assaltado. No pé da estátua, dois caras bem suspeitos ficavam só aguardando os turistas. Recuei e entrei em um shopping de esquina bonito de brilhar os olhos. Os preços equivaliam à beleza, impossível comprar algo. Buenos Aires continua sendo uma cidade muito cara.

Com os pés já doendo, resolvi andar mais. Peguei a Avenida Corrientes, conhecida pelos teatros, e fui indo embora em direção ao Obelisco. É muito fácil se localizar em Buenos Aires, as ruas são planejadas, a sinalização é boa. Quando cheguei a São Paulo em 2002, sem experiência nenhuma, tive muito mais dificuldade do que estou tendo aqui. Já me sinto um pouco morador, seria capaz de dar informações para turistas. Da linha verde do metrô, de Palermo e do centro conheci praticamente tudo. Quando não se anda de táxi em uma cidade é que verdadeiramente se anda. E andei muito a pé, contabilizo quase 10 km por dia, o que daria 100 km percorridos ao final da viagem. Não tenho noção, devo estar exagerando muito.

Exagero. Percebi que é isso que me faz ter empatia pelos argentinos. Para eles, uma boa experiência é a melhor de todos os tempos e uma má é uma tragédia de proporções homéricas. Tudo aqui é superlativo, é muito, é tudo. Quando falava para um taxista ontem sobre a maravilha que eram os cantos das torcidas argentinas, ao invés dele concordar, defendeu minha tese com ainda mais paixão. Em português, era um diálogo assim:

– Nossa a torcida cantando no ônibus, fiquei arrepiado. É maravilhoso!

– É fantástico, apaixonante. E quando sai gol? Meu deus, é sensacional!

Ficam dois exagerados reforçando um a tese do outro, como se fossem muito sortudos por poderem viver aquilo. O argentino, e isso que gosto neles, está sempre um pouco fora da realidade. Como eu e você.

Nesta hora, em que o estomago já estava nas costas, foi a que mais andei. A Avenida Corrientes é gigantesca e andei mais ou menos 3 km para chegar ao Obeslico. O que me deixou espantado foi o número de teatros e as filas enormes para compra de ingressos em plena segunda-feira. A galera sai do trabalho na hora do almoço para comprar ingresso. Aí almocei, peguei o metro e cheguei ao hotel em cima da pinta. Ducha rápida, vesti a fantasia e fui trabalhar.

A noite não há muito que comentar. Exausto, restou ligar para você, tomar um banho demorado e deitar no computador para apagar e-mails e preparar algumas perguntas para os caras que quero entrevistar amanhã. Ainda deu tempo de ler o livro da Mafalda, tomar uma coca e comer um salgadinho. Ah, quase esqueci, sofri um acidente doméstico. Estava tomando banho, levei um escorregão e cai. Como aqui as torneiras são na altura da bunda, bati o começo das costas, quase nas nádegas mesmo, contra elas. Sangue, dor e desespero. Nem tanto, mas ficou feio o machucado. Com a poupança dolorida vou dormir cedo porque amanhã começa uma maratona de palestras, das oito da manhã às seis da tarde. Uma delícia. Tenho saudades dos nossos finais de semana. Só faltam três dias.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Quando as seleções de Brasil e Argentina se encontram em campo, um dos maiores clássicos do futebol mundial acontece. Não importam as qualidades e defeitos das equipes e jogadores envolvidos ou a indiscutível supremacia da seleção brasileira em termo de conquistas. Afinal, a rivalidade supera os números frios e amplifica os indiscutíveis estilos dessas escolas de futebol.

Mas, claro, é melhor quando a essência das características de casa seleção está dentro de campo. Foi assim em 1982, quando Brasil e Argentina duelaram na segunda fase da Copa do Mundo da Espanha.

Os argentinos reuniram o melhor de duas gerações: campeões da Copa de 1978, como Fillol, Passarela, Ardiles e Kempes, com os campeões do Mundial Sub-20 de 1979, como Maradona e Ramón Diaz. O Brasil não fez por menos, com um meio-de-campo brilhante, formado por Falcão, Toninho Cerezo, Sócrates e Zico, além de outros craques, como Éder Aleixo e Júnior.

Na cidade de Barcelona, no Estádio Sarriá, o Brasil impôs seu estilo de jogo. Acelerou o ritmo da partida, trocou passes em velocidade, foi preciso, incisivo e ousado. Apostou tudo na qualidade dos seus meio-campistas e construiu a sua melhor atuação na Copa do Mundo de 1982.

Fez três gols com a força e precisão de Éder Aleixo, a criatividade de Zico, a maestria de Falcão e a explosão de Júnior. E escreveu um capítulo do histórico clássico sul-americano em que a Argentina ficou, infelizmente, marcada pela violência de Passarela e Maradona. Fato é que nem todos conseguem perder um jogo desse naipe. E vencer como o Brasil fez na Copa de 1982 é para poucos.

 

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

Buenos Aires, 26 de setembro de 2010 (01h28min)

Definitivamente enjoei do café da manhã do hotel. É sempre igual, a mesma coisa: ovos mexidos, medialunas, suco de laranja e salada de fruta. Chega a dar desânimo descer para comer, durante dez dias, as mesmas coisas. Nossos cafés de fim de semana são muito melhores e diversificados. E tem você. Aqui, ao contrário, um sujeito com cara de boliviano, sentou-se na mesma mesa que eu porque o hotel não está comportando tantos hóspedes. Muitos tiveram que esperar para tomar o café.

Hoje fez o dia mais bonito de todos em Buenos Aires, com temperatura agradável e um céu tão azul que ardia os olhos. A poluição daqui nem se compara a de São Paulo, o céu não tem aquela tarja cinza no horizonte e nem o ar fica pesado quando não chove. Ainda não caiu uma gota de água aqui e o ar continua ótimo.

Sai de casa em direção a Belgrado para comprar ingressos para o jogo do River Plate. Peguei o ônibus e dessa vez me enrolei, deixei o ponto passar e me perdi completamente. Fui parar em um bairro chamado Oleros, de classe alta, mas cortado por estações de trem bem populares. Tipo CPTM mesmo. Para voltar, tive que encarar o trem. Ninguém na bilheteria, uma parte da catraca aberta. Peguei e fui achando que por ser domingo era de graça. Mas não era nada disso, tinha que colocar moedas em uma máquina lá e fiquei com o cu na mão quando passou um fiscal olhando para os lados. Depois de três estação, cheguei ao estádio. Me lembrou bastante o Morumbi. Entrada comprada, fui dar uma voltinha pelo bairro, bem charmoso, e segui para a feirinha de San Telmo.

Ônibus aqui é realmente uma beleza, eles não têm nome, apenas número, o que facilita muito. Pelo número da linha se sabe todo o itinerário que aquele coletivo vai fazer, basta ler as plaquinhas do ponto. Depois, para voltar, é o mesmo número, sem trocar nomes. A secretaria de transporte de São Paulo deveria fazer estágio aqui. Os ônibus passam um atrás do outro. O único problema mesmo são as moedinhas, ter que ficar trocando notas toda hora é um saco. Quando o bilhete único for implantado em Buenos Aires teremos um exemplo de eficiência. Tá, outro problema é que os ônibus estão caindo aos pedaços, tem umas carroças dos anos 1970 que dá pena.

A ferinha é de antiguidades e afins, muito grande e lotada de gente do mundo inteiro. Mas o mais legal, pelo menos para mim, foram os artistas de rua. Uma orquestra de tango com cantor, muito boa, e um homem invisível. O cara ficava com a cabeça por baixo da blusa e pôs um chapéu e um óculos sustentados por um arame, ficou perfeito. A impressão é de que é um cara sem cabeça, como ele está todo vestido, com luvas, parece mesmo um homem invisível. Aí tinha um cara que era a estátua do Carlos Gardel e uns tiozinhos iniciantes dançando tango.

Não sou um modelo de consumismo, por isso só consegui comprar uma miniatura da Mafalda para colocar na geladeira. Eu amo a Mafalda. Comprei também uma camiseta, falsa também, da seleção argentina. Fora isso, almocei em um restaurante foda na Rua Defensa, chamado El Desnivel. É um botequinho meio zuado, com toalhas de plástico e talheres meio sujos, mas o bife é de cair o queixo. Comprei uma garrafa de um Merlot por 30 pesos, muito bom. Sai meio bêbado e fui andando até a Praça de Maio. Foi bom ter ido lá, pois com o céu azul e o sol fica ainda mais bonito o centro de Buenos Aires.

Voltei para o hotel de metrô e dei uma bela descansada para me preparar para o jogo. Passou três coletivos, todos abarrotados de torcedores, o motorista nem parava. Fiquei preocupado, mas  o quarto ônibus estava menos cheio e foi lotando no caminho. Quando percebi, estava no meio da torcida do River, o ônibus se transformou em uma arquibancada. Eles cantavam e batiam no teto, chorei de emoção. Nunca passei por nada parecido. O torcedor argentino tem cantos belíssimos, com letras muito interessantes. A paixão com que eles cantam é fantástica. Não dá para comparar, nós brasileiros sabemos jogar, não sabemos torcer. Chega a ser ridículo comparar torcidas como a do São Paulo e do Corinthians com a de Boca e River: as duas estão a anos luz de distância.

Chegando no estádio, um lugar muito bom, com vista perfeita e as arquibancadas quase lotadas. A torcida não para nunca, jamais. É uma festa que arrepia. Quando o River fez um a zero então. Mas perdeu muitas chances e que não faz toma. O número nove, sei lá o nome do cidadão, perdeu três gols feitos. Era um altão. Pensei no meu pai. Se ele estivesse assistindo diria: “Esses grandões não dá. Sabe por quê? O cérebro é muito longe dos pés, demora para chegar a informação. Jogador bom é jogador baixinho”.

O Quilmes, o time adversário, fez o gol no último minuto. A bola entrou, o juiz apitou. A torcida do River continuou cantando mesmo com esse golpe duríssimo (tomar gol no ultimo lance é trágico desde os meus tempos de Paulista de Jundiaí). Depois que o time saiu de campo, aplaudido, ai sim a torcida fez um silencio absoluto. Eu nunca vi isso. Para a torcida do River sair é preciso esperar a do Quilmes, por isso ficamos lá aguardando. Eu nunca vi uma multidão tão grande em silencio. Os caras estavam sofrendo de verdade pela derrota. Aqui acabou com a esperança deles de começar os dias (in)utéis com alguma alegria.

Bom, hora de voltar, ônibus abarrotados, eu sem moedas, nada de taxis. Comecei a andar, andar, andar e fiquei preocupado. Nada de táxi, na verdade ainda tinha outras pessoas com o mesmo intuito que eu. De repente, depois de meia hora de caminhada, um táxi livre. Mas aí, bonzinho, cedi meu lugar para um pai com uma criança bem pequena. Andei mais quarenta minutos até encontrar o taxista. Não deu nem 10 pesos, já estava quase chegando. Minhas pernas viraram pó.

Comi aqui no hotel mesmo, um salgadinho que eu comprei e uma Quilmes. Agora, estou pronto para dormir e amanhã a coisa recomeça com mais intensidade. Depois desse tempo, sinto-me um pouco como um morador que amanhã vai trabalhar. Foram apenas seis dias, mas parece que faz tanto tempo. As horas se arrastam quando se está longe de casa. O tempo, inventado, é mesmo relativo. Parece que faz meses que não te vejo. Se cada dia equivale a um mês, ainda faltam quatro meses para nos reencontramos. Fico aqui só desejando que você tenha um bom começo de semana em São Paulo enquanto eu continuou lhe escrevendo de Buenos Aires. Estou quase pegando no sono. Tchau.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Carisma e oportunismo explicam bem a carreira de sucesso de Túlio Maravilha. Foi assim que o atacante se consagrou como um dos atacantes mais perigosos do futebol brasileiro na década de 1990. E se tornou ídolo das torcidas de Botafogo e Goiás, além da consagração como artilheiro em quase todos os mais de 20 clubes que defendeu.

Túlio, porém, teve poucas oportunidades de vestir a camisa da seleção brasileira, diante da concorrência com atacantes consagrados mundialmente, como Bebeto, Romário e Ronaldo. Nem por isso, ele deixou de marcar o seu nome com a camisa mais famosa do futebol mundial.

Não perdeu nenhum dos 15 jogos que disputou e marcou 13 gols. E se consagrou de vez no principal clássico sul-americano. Na Copa América de 1995, marcou o gol que levou o eletrizante confronto entre Brasil e Argentina, pelas quartas de final, para a disputa de pênaltis. E de modo inusitado e ilegal.

Nos minutos finais do confronto, recebeu lançamento na grande área, dominou a bola com o braço esquerdo e finalizou com precisão. Apenas o árbitro não percebeu a ilegalidade da jogada. Túlio abusou das ironias ao compará-lo com o gol de mão feito por Diego Maradona contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986 ao classificar o seu como o “gol de Nossa Senhora”.

Túlio aproveitou sua rara noite de herói da seleção brasileira e ainda conseguiu evitar que Taffarel fosse o vilão da vez, já que falhou nos dois gols da Argentina. O goleiro repetiu a sua rotina de ser decisivo em uma disputa de pênaltis em mais um registro da sua consagrada história na seleção brasileira. Dessa vez, com o raro auxílio de um dos maiores artilheiros da história do futebol no Brasil.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

Buenos Aires, 23 de setembro de 2010 (00h58min)

Uma das tantas avenidas largas de Buenos Aires

No terceiro dia de viagem já me sinto sozinho. Morei tanto tempo só, mas depois de me acostumar com a sua companhia fica difícil acordar com a cama vazia e sair por uma cidade desconhecida com pessoas pouco afeitas à conversa. O argentino, apesar de quase sempre simpático, não é muito de bater papo.

Acordei de novo mais cedo do que devia, o que ressaltou um cansaço que me deixou prostrado ao longo do dia. Tomei o café e sai correndo para conhecer a Recoleta, bairro tradicional aqui em Buenos Aires. Andei a pé até o metrô e desci em uma estação mais ou menos perto do bairro. Na verdade, andei muito como todos os dias. Minhas pernas começam a doer de verdade. Preciso descansar um pouco. Essa mania de engolir o mundo acaba comigo.

Muitas coisas interessantes na Recoleta, mas hoje acordei azedo e com vontade de reclamar. Tem tanto brasileiro por aqui que me dá raiva. Quando se sai do País, a ideia é dar um tempo na rotina e fugir. Aqui não: brasileiros por todos os cantos, a maioria deles chatos de carteirinha, reclamando sem razão e fazendo poses artificiais para as fotos. É aquela galera sem grana para ir à Europa, mas que quer aparecer nas fotos de cachecol. Um porre.

A simpática Recoleta esbarrou no meu humor azedo

Mal sabem eles que aqui na Argentina muitos mendigos são mais estilosos e tem gosto mais apurado do que boa parte da elite brasileira. Na Recoleta fui mal atendido, as coisas são exageradamente caras e não existe nada de fantástico. É um bairro tradicional, com história, mas que se rendeu ao artificialismo dos pontos turísticos. O cemitério, tão comentado, é horroroso. As tumbas estão em péssimo estado e cheiram mal. Sobra a fama e a arquitetura dos jazigos. Mas, por mim, demoliria tudo e faria um parque ou uma praça. Sou cada vez mais adepto da cremação e do uso das cinzas como adubo para a agricultura. Seria uma forma de termos alguma utilidade depois da morte.

O cemitério de estátuas bonitas que cheiram cádaver

A melhor parte do meu dia foi na livraria El Grand Ateneo. A mais bela loja de livros que já vi e que provavelmente verei na vida. Parece um teatro, com paredes arredondadas cheias de livros. Existem algumas salas próprias para a leitura e uma infinidade de obras. É incrível como a parte de psicanálise, em todas as livrarias argentinas, é enorme. Percebem-se aí os motivos do país ser o segundo grande reduto psicanalítico contemporâneo, perdendo apenas para Paris. Bateu uma vontade de um dia, quem sabe, fazer um curso breve por aqui. Só que o preço do café e da água é absurdo: 23 pesos pelos dois.

O ponto alto do dia: a livraria que parece um teatro

Com pressa para não perder a hora do trabalho, almocei em um café de esquina da Avenida El Libertador, uma rua larga, com as calçadas cobertas da mesma forma que Bolonha. Pedi um fetutine e uma Quilmes e gastei pouco para comer muito bem. Andei horrores de novo, passando pelo Museu Nacional, pela Praça das Nações Unidas e pela Faculdade de Direito e Ciências Sociais. Parei em uma loja, comprei alguns presentes e voltei para o hotel. Não deu tempo de cochilar, já corri para a feira.

Calçada coberta como em Bolonha

A noite, depois de falar com você no telefone, sai andando por Palermo atrás de algum lugar para comer. No meio do caminho, decidi que iria para Puerto Madeira. Peguei o metrô até a Nove de Julho e de lá um táxi. Quando cheguei, fazia um frio enorme desenhado por ventos cortantes, deparei-me com uma bela paisagem vazia. Não tinha ninguém. A solidão aumentou ainda mais: ando perdido por essa cidade, sem ninguém para conversar e sem muito rumo. Fui andando pela beira do Rio da Prata, restaurantes fechados, tudo quieto. Mais para frente, deparo-me com um único lugar aberto, lotado, um burburinho enorme. Chego à porta. A única língua falada ali era o português. Centenas de brasileiros, conversando sobre assuntos batidos, aquela nova classe média chata que faz sua primeira viagem internacional, é assinante da Veja e vota no PSDB mesmo tendo subido na vida depois dos oito anos do governo Lula. O restaurante é do dono do Porto Rubayat, não parece muito bonito e o preço é revoltante. Vou até um taxista, parado na rua ao lado, e pergunto sobre o estabelecimento. Ele diz que é artificial, uma tentativa de imitar os clássicos argentinos e que a comida está abaixo da média de Buenos Aires, apesar do preço. Percebo ressentimento na voz dele. Os argentinos não aceitam essa invasão absurda de brasileiros. Irrita mesmo. Concordo com ele e me recuso a pagar 200 pesos em um prato argentino feito por brasileiros.

Puerto Madero: vazio e triste como eu me senti essa noite

Pego o táxi de volta a Palermo, paro em uma rua que promete ser uma espécie de Augusta argentina. Muito bacana mesmo: vários bares e baladas alternativas, pessoas interessantes e lugares legais. Entro em um bar e me sinto ainda mais sozinho. A cidade, as turmas conversando e a minha tristeza que não sei de onde surge alimentam uma melancolia que começa a me incomodar. A saudade aperta. Queria até, por incrível que pareça, estar fazendo faxina com você. Tomo dois uísques e duas cervejas. Bêbado, saio andando perdido pela cidade em busca de um táxi que não aparece. Vou a pé para o hotel, quase meia hora de caminhada. Quem disse que um dia em Buenos Aires não pode ser ruim? Espero acordar mais feliz amanhã. A solidão me engoliu completamente nesta quinta-feira gelada. Acho que faz parte de uma viagem solitária de dez dias.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

 

 

Buenos Aires, 22 de setembro de 2010 (01h29min da manhã)

Café e medialunas o dia inteiro

Hoje acordei mais cansado do que quando dormi. Desci para tomar o café e comi basicamente croissants, que aqui eles chamam poeticamente de medialunas, e ovos mexidos, que, como você bem sabe, é meu prato matinal predileto. Consegui um mapa muito bom do bairro de Palermo, mostrando todas as ruas e divisões. Descobri que estou em Palermo Viejo, mas bem próximo de Palermo Soho e de Palermo Hollywood. É uma região de classe alta, meio que um Jardins argentino, com mais charme e bom gosto. É incrível como a elite daqui é mais refinada: fizeram estágio na Europa.

Nada de táxi. Decidi que vou explorar a cidade como um morador sem carro. E funciona. Pela manhã, resolvi visitar os chamados Bosques de Palermo. Extraordinário. Circundando toda a larga Avenida Sarmiento, bosques, parques, jardins botânicos e o Zoológico. É muito verde, por todos os lados. Só nesta parte da cidade existem mais lugares para fazermos piquenique do que em toda a cidade de São Paulo. Na calçada, uma ciclovia e árvores e mais árvores. Nas ruas, monumentos gigantescos e belíssimos brotam do asfalto nos lembrando que não estamos em uma cidade e sim em um museu. Andei horas por essa parte até chegar ao jardim japonês.

A estátua que brota do asfalto

Nem preciso dizer que fui visitar esse jardim por sua influência indireta. Devo a você a descoberta da cultura oriental e dos prazeres do contemplar sem muito falar. Paguei oito pesos e deveria ser mais caro. Enquanto caminhava, me peguei tateando o nada em busca de suas mãos: era mesmo para você estar aqui. Vi carpas rasgando a água parada dos rios e pontes arredondadas, flores de todas as cores e tipos, além de crianças. Aliás, elas estão me perseguindo. No Jardim Botânico, poucas horas antes, uma enxurrada de crianças parou em frente ao banco em que eu estava sentado lendo um livro. Resolvi que leria “O Jogo da Amarelinha”, do Julio Cortazar, a cada parada em Buenos Aires. Mas é um livro difícil e as crianças não me deixaram ir além do terceiro capítulo.

A ponte japonesa do Jardim Japonês

Na volta, comprei alguns presentes para você e parei em um restaurante típico argentino chamado Gardelitos, com tango de trilha sonora e flâmulas do Boca Juniors em todas as paredes. Aqui tive a primeira experiência gastronômica inesquecível da viagem. Comecei com uma salada simples de entrada, pedi uma taça de vinho e depois fui para uma carne com batatas ao molho de mostarda. Foi a melhor carne bovina que comi em toda a minha vida. Depois do café, sai do lugar pisando em ovos, levemente alterado pelo álcool. Em poucos minutos de caminhada, conclui que Buenos Aires é uma cidade para se andar com um cigarro entre os dedos. Quem não fuma, ao chegar aqui, deveria pensar seriamente em aderir ao vício. Lembrei-me, também, que havia esquecido de pedir a nota para depois ser reembolsado.

Cheguei ao hotel e decidi que deveria fazer uma sesta para ir trabalhar com mais fôlego. Após as experiências pelas ruas de Buenos Aires, uma cidade que sufoca de tão apaixonante, enfurnar-se em palestras e feiras é ainda mais difícil. Dormi quarenta minutos e percebi o bem que a liberdade pode proporcionar. Dormi porque quis e foi a melhor decisão: minha produtividade aumentou consideravelmente.

Depois do trabalho, cheguei ao hotel, tomei um banho e já sai para jantar. Fui a um restaurante chamado Casa Cruz, em Palermo Soho. Carpete de oncinha, sofás de camurça e Beatles como trilha sonora. Garçons vestidos como frequentadores do Studio SP e decoração cult. A porta do restaurante é dourada e gigantesca, a impressão é de estar entrando em uma balada. Não fiz reserva, por isso esperei uma hora enquanto tomava um vinho. O lugar é chique, mas não é fresco. Um pouco parecido com o Spot, mas pelo menos dez vezes melhor.

O tapete de oncinha e meu pé

Tudo muito demorado. Reclamei, assim como você faria. O garçom, gentil, me disse que eram pratos complicados e de difícil execução, por isso a demora. Quando chegou a entrada entendi o que ele quis dizer. Pasta de lombo com mascarpone e mais alguns ingredientes que não consegui identificar. Quase caí de joelhos. Estava diante de uma obra de arte efêmera, que iria se tornar cocô pouco tempo depois. E, antes que me esqueça, preciso falar do vinho. Pedi um Chardonnay chamado Lindaflor. Sério, o cheiro era inacreditável. É o melhor vinho que já tomei na vida. A vontade era passar um pouco atrás das orelhas, como perfume. Depois, comi cordeiro e pedi um Merlot, que parecia xixi se comparado ao primeiro vinho. Tomei um café e quase cai para trás quando veio a conta. No momento em que, nos meus pensamentos, transferi para reais percebi que havia sido muito suave diante da qualidade da comida. Buenos Aires, para os brasileiros, é um eterno Restaurant Week.

Queria elogiar mais o restaurante para o garçom, mas não conseguia me pronunciar muito bem. É incrível como uma língua que você não domina lhe deixa fragilizado. Em português, com os maneirismos e gírias, é possível criar uma barreira de proteção para o que realmente somos e, dessa forma, parecer alguém interessante e confiante. Quando falta vocabulário você se desnuda e ficam escancaradas sua timidez e incapacidade. Cai a máscara.

Li uma entrevista do Roberto da Matta na Trip em que ele dizia que andar de carro sozinho em São Paulo é parecido com aqueles reis que eram carregados pelos seus escravos. Comer em um restaurante como esse é um pouco parecido: parecia que eu era um rei entronado servido por meus súditos. Como todos nós somos um pouco sádicos, gostei bastante da experiência. Dá para se entender bastante o ser humano daí. Como é bom ser o centro das atenções e ter pessoas para lhe servir com presteza.

Fiquei três horas no restaurante. Depois de mais um café, sai fumando pela rua, meio perdido. Lembrei-me que havia esquecido, de novo, de pedir o recibo. Dessa vez deu tempo de voltar. Aí fui andando para o hotel, uns vinte minutos. A cidade vazia, a lua cheia e a melodia que cantamos nessa ocasião quando estamos juntos na minha cabeça. Cansado e sozinho, como ficarei todos esses dez dias sem ter você aqui. Eu e Buenos Aires.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Em junho de 2004, Paris teve dias de Argentina. Reduto de uma das lendas do tênis – Guillermo Villas –, o país sul-americano dominou o torneio de Roland Garros com uma geração promissora de tenistas que tinham raro controle da bolinha amarela nas quadras de saibro.

Com David Nalbandian e Guillermo Coria em fase extraordinária não era difícil prever que algum tenista argentino se destacaria em Roland Garros. Mas, mesmo assim, a surpresa ocorreu. Três tenistas da Argentina avançaram às semifinais: Nalbandian, Coria e a zebra Gastón Gaudio.

A final argentina se concretizou, como seus torcedores desejavam, mas não como imaginavam. Gaudio atropelou Nalbandian em uma das semifinais e se encontrou com Coria na decisão de Roland Garros de 2004.

A final parecia ser um cenário perfeito para a consagração de Coria, já que, em caso de título, assumiria o posto de líder do ranking da ATP. E a partida parecia ser apenas protocolar. Em um massacre, Coria fechou o primeiro set em 6/0. Depois, com mais dificuldade, triunfou por 6/3.

O mundo do tênis já via Coria como campeão, exceto Gaudio, que reagiu e venceu o terceiro set por 6/4. O quarto set pouco pareceu uma final de Grand Slam. Coria passou a sofrer com cãibras e foi facilmente vencido por 6/1. A final de 2004 de Roland Garros foi ao tie-break.

O set decisivo teve ares de drama (argentino). Coria queria vencer, mas não tinha condições físicas para isso. Gaudio tinha condições de vencer, mas seu nervosismo diante de um triunfo improvável, o impedia de concretizar a sua conquista.

O nível técnico era baixíssimo, mas Gaudio, quando conseguiu se controlar, venceu por 8/6, depois de salvar dois match points. E, mesmo sem saber como, faturou o título de Roland Garros. Campeão com a maior virada da história do Grand Slam francês. Mesmo sem brilhantismo e inferior tecnicamente. Mas sabendo que um verdadeiro vencedor precisa saber aproveitar as chances que aparecem. Gaudio quase não soube, mas a final foi tão estranha, que as oportunidades apareceram para ele duas vezes e ele conseguiu o feito mais importante da sua carreira.

 

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.