Quando Corrêa lançou Muriqui e o atacante passou para Diego Tardelli empurrar a bola para as redes, a expectativa de festa pelo 40º título do Campeonato Mineiro do Atlético se tornou efetivamente em comemoração. Mas ainda havia um personagem muito discreto no Mineirão.

Ídolo desde o final da década de 90, Marques quase abandonou a carreira no final de 2009. Afinal, havia sofrido na temporada sem marcar gols, ficou boa parte do ano parado por conta de uma cirurgia e sofreu com a indiferença das comissões técnicas com um atacante veterano.

Marques, porém, não parou. Renovou o contrato até maio de 2010, sem saber se iria aguentar jogar o ano inteiro. Se tornou frequentador assíduo do banco de reservas, teve bom desempenho quando foi acionado, mas tudo isso era muito pouco para o ídolo. Por isso, o torcedor atleticano também queria ver a participação de Marques na final e na festa pela conquista do título estadual.

Luxemburgo colocou Marques em campo e o clichê também resolveu passar pelo Mineirão. Ídolo no ano da aposentadoria entra em campo no final do jogo e faz o gol do título. Tudo isso aconteceu e o clichê que era um sonho virou uma realidade perfeita no Mineirão.

Mas Marques não poderia se ater a apenas isso e não escondeu a sua emoção, como um verdadeiro ídolo costuma fazer. E se o gol do título não bastava, ele tratou de fazer uma comemoração especial ao tirar a camisa de jogo, coloca-la na bandeirinha de escanteio e agita-la, como uma bandeira, como todo torcedor que carregou o sonho de jogar pelo Atlético sempre quis fazer.

Comemoração feita e cartão amarelo recebido, num exemplo claro de uma das razões de nenhuma criança acalentar o sonho de ser juiz de futebol, Marques colocou mais um título no seu currículo. Mas também já pode dizer que foi o principal responsável por desencadear uma festa inesquecível, que coroou a carreira de um atacante que se entregou ao clube, que sempre lutou, que sempre teve caráter, e merecia essa mínima retribuição.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

O ano de 2009 foi mágico para Diego Tardelli. Ele foi artilheiro do Campeonato Mineiro, artilheiro do Campeonato Brasileiro, Chuteira de Ouro da revista Placar, eleito para todas as seleções do Brasileirão e convocado por Dunga para alguns jogos da seleção brasileira. Mas se Tardelli brilhou intensamente na última temporada, começou os primeiros meses de 2010 um pouco apagado em comparação com o melhor ano de sua carreira.

O atacante sofreu com algumas lesões, a chegada do carismático Obina, que conquistou imediatamente o apoio do torcedor atleticano, e uma certa apatia em campo, fruto também da sua mudança de posicionamento, que provocou imediatamente a diminuição do número de gols marcados. E, principalmente, com a necessidade de repetir o sucesso do ano anterior.

Por isso, quando o primeiro jogo entre Atlético e Santos pelas quartas de final da Copa do Brasil se aproximou, muito se falou em Vanderlei Luxemburgo e nos Meninos da Vila. E o foco ficou afastado de Diego Tardelli. Mas quando a bola rolou, o principal atacante do elenco atleticano assumiu as rédeas do jogo.

Foram dele os três gols do Atlético na vitória por 3 a 2 no melhor jogo do futebol brasileiro nos quatro primeiros meses de 2010. No primeiro gol, completou finalização completamente errada do voluntarioso e desengonçado Carlos Alberto. Em seguida, antes do intervalo, aproveitou assistência soberba de Júnior para fazer 2 a 0 para o Atlético. E fechou a sua noite perfeita recebendo passe de Muriqui, dominando a bola com habilidade e velocidade impressionante, e finalizando com a precisão. Três gols com a assinatura de um artilheiro.

A noite de quarta-feira também teve outros destaques individuais, além dos mais de 47 mil atleticanos que transformaram o Mineirão em um inferno para os jovens santistas. Pelo lado do Santos, Robinho, que enfim assumiu a condição de astro da equipe e a liderou para que o revés fosse o menor possível, e Paulo Henrique Ganso, responsável pela jogada que manteve sua equipe com boas chances de avançar às semifinais da Copa do Brasil.

Já o Atlético contou com o veterano Júnior, que não erra passes e faz jogadas brilhantes e simples, Muriqui, com uma velocidade que inferniza qualquer defesa, e Vanderlei Luxemburgo, o primeiro técnico a escalar um time sem medo de atacar o poderoso Santos. Mas, apesar de todos tentarem, o jogo foi de Diego Tardelli, que com mais esses três gols vai se enraizando na história do Atlético como um de seus ídolos. E mostrou para sempre ser lembrado que o craque não pode ser esquecido porque sempre aparece nos momentos decisivos.

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Não existe no País torneio mais democrático e perigoso para os times grandes do que a Copa do Brasil. Os confrontos se decidem em 180 minutos e esse tempo pode ser suficiente para uma enorme zebra aparecer. Só isso explica o título do Criciúma sobre o Grêmio, o Maracanazo botafoguense em final contra o Juventude ou a chegada do Brasiliense em uma final, após eliminar Fluminense e Atlético.

Não foi à toa que a torcida do Galo foi em massa ao Mineirão ver o segundo confronto com a Chapecoense pela segunda fase da Copa do Brasil de 2010, após a surpreendente derrota por 1 a 0 em Santa Catarina. Todos pareciam saber que precisavam fazer a sua parte para manter o time na competição nacional. A entrada criminosa em Obina com menos de 15 segundos de jogo causou preocupação – o Anjo Negro ficará três meses afastado do futebol – e revolta porque o algoz do centroavante nem foi advertido pela arbitragem.

A fúria logo foi aplacada pela alegria pelo gol de Fabiano, o genro de Luxemburgo, após jogada de Muriqui, o substituto de Obina. Mas o restante do primeiro tempo foi tenso para os 35 mil torcedores presentes ao Mineirão, que assistiram o Atlético com dificuldades para superar a retranca adversária.

A etapa final trouxe paz diante do óbvio massacre de uma equipe grande sobre uma pequena. Criatividade, jogadas em velocidade, marcação sob pressão somadas ao talento, a vontade dos jogadores e o apoio incondicional da Massa fizeram com que cinco gols saíssem com extrema facilidade em 45 minutos. Dois de Diego Tardelli, mais um de Fabiano, um de Renan Oliveira e um gol de placa de Júnior aniquilaram a zebra catarinense.

Um jogo em que brilhou a dupla Tardelli e Muriqui, cada um com seu estilo para manter o Atlético com o sonho do título nacional. Muriqui, com a dedicação de quem pretende se firmar em um time grande, deu três assistências e sofreu um pênalti. Já Tardelli fez mais do que os dois gols. No seu segundo, o sexto do triunfo por 6 a 0, homenageou Reinaldo, maior ídolo da história do Atlético, ao repetir a comemoração eternizada, com o braço levantado e o punho cerrado (um gesto, na época, de protesto contra a ditadura e de referência ao grupo político Panteras Negras, dos Estados Unidos). Assim, mostrou saber que todo rei tem seus súditos.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

A ideia genial de André Toso é de que cada um dos 14 colaboradores, ele incluso, emita suas opiniões e seus juízos de valores aqui no Sete Doses. Dessa vez, porém, quebrarei a regra (pela total falta de tempo) e colocarei no ar, junto ao vídeo abaixo, um texto do genial Roberto Drummond.

Sim, é mais um vídeo/texto sobre o Atlético. Isso já até me causou broncas, mas mais uma vez recorro ao Galo, até porque eu não estaria escrevendo e publicando vídeos sobre esportes no Sete Doses. Dessa vez, a razão são os 102 anos completados no dia 25 de março.

“Atleticano é diferente de qualquer outro torcedor

É diferente, pois não se restringe a ser

Somente torcedor

Ser Atleticano é como casamento

Na saúde e na doença

Nas alegrias e nas tristezas

Mesmo quando a doença parece não ir

E as Tristezas teimam em permanecer

O Atleticano é capaz de

Após uma derrota humilhante

Pegar a camisa no armário

E sair às ruas

Mesmo sendo alvo de piadas

Isso por que o Atleticano não torce por um time

Torce por uma nação

E tal qual em uma guerra

Um cidadão não renega um país

Mesmo que a derrota seja grande

O Atleticano apóia seu time na derrota

Pois os obstáculos engrandecem

Seu sentimento de nacionalismo

E que me perdoem os que têm apenas títulos

Claro que são importantes

Mas o Atleticano tem algo que os outros nunca terão

Tem paixão

Tem o Clube Atlético Mineiro.” (Roberto Drummond)

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes ao sábados no Sete Doses e voltará a escrever na próxima semana.

Machuca o coração assistir os vídeos acima. Conquistar o título do Campeonato Brasileiro de 1999 pareceu ser um sonho distante no início do torneio para o torcedor atleticano. Mas a Massa abraçou o time, lotou estádios (seja o Independência ou o Mineirão) e o time engrenou durante a competição.

Em campo, a proposta atleticana era simples, até pela falta de tarimba do técnico Dario Pereyra, apostando em um meio-de-campo de muita marcação. De resto, bastava contar com a qualidade da dupla de ataque formada por Marques e Guilherme, que assombrou o futebol brasileiro em 1999.  Na defesa, Velloso, e, principalmente, Cláudio Caçapa faziam a diferença.

A vaga nas quartas de final parecia consolidada, mas uma derrota por 4 a 0 para o Guarani na penúltima rodada pareceu ruir o sonho atleticano. Dario Pereyra foi demitido e Humberto Ramos assumiu o time no último jogo da fase de classificação. A vitória sobre o Grêmio aconteceu e a combinação de resultados necessária também. Depois disso, a equipe eliminou o rival Cruzeiro e o Vitória para chegar na final do Brasileirão.

O desafio era gigante. O atual campeão Corinthians tinha um time ainda melhor que o de 1998, com astros como Dida, Rincón, Vampeta, Marcelinho Carioca, Ricardinho, Edílson e Luizão. O saldo da primeira final foi positivo, com uma vitória por 3 a 2. Mas a grave lesão sofrida por Marques estragou um pouco a festa e tornou o sonho mais complicado. E, para piorar, o Galo perdeu a segunda decisão por 2 a 0.

O time precisa vencer a final em um Morumbi lotado por corintianos. Mas nem o clima adverso e a qualidade corintiana intimidaram o Atlético. O time foi valente, jogou com garra e lutou muito. Dida, porém, fez de tudo para impedir a conquista do Galo, enquanto Marcelinho Carioca misturava talento com cotoveladas. E o gol do título não saiu.

A etapa final foi ainda mais nervosa. Belletti quase fez um golaço e poderia ter saído como vilão ao ser expulso. Poderia, porque ninguém esqueceria o seu bom desempenho na competição. E muito menos a cena emblemática do choro sincero e incontido sozinho, no vestiário.

Sim, ao atleticano machuca relembrar aquela 0 a 0  e a perda de um título que escorreu pelos dedos, por erros e pequenos detalhes. A sensação é de impotência por não poder alterar um passado que merecia ter tido um final mais justo e bonito.

Ficou também, porém, a certeza de que derrotas não apagam o valor de um grupo comprometido, que soube se impor diante de um adversário de mais qualidade técnica. E como diz o hino, “honrou o nome de Minas no cenário esportivo mundial” porque lutou até o final, jogando “com muita raça e amor”. Por isso, não é necessário um troféu para se orgulhar do elenco do Atlético que disputou o Brasileirão de 1999. Às vezes, a valentia pode até valer mais do que um título (que o diga o Oswaldo de Oliveira…).

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A partida entre Atlético e Vitória pela 31ª rodada do Campeonato Brasileiro era de vital importância para o time mineiro seguir forte na luta pelo título da competição. Afinal, naquele momento, a equipe dependia apenas de suas forças para ser campeão. Ou seja, oito finais até os primeiros dias de dezembro.

O torcedor atleticano, dono da maior média de público do Brasileirão, cumpriu com o seu tradicional papel e lotou o Mineirão, com quase 58 mil pagantes. Mas seria tolo acreditar que apenas a boa fase da equipe e a paixão da torcida levaram tanta gente ao Mineirão. Havia um motivo especial: a presença de Marques no banco de reservas. Sim, porque a paixão e a gratidão precisam de muito pouco para dizer “presente”.

Antes de a bola rolar, o torcedor já demonstrou seu espírito ao saudar o ídolo. E, claro, foi saudado por ele. O carinho permanecia o mesmo de 12 anos atrás, quando acontecera a conquista. Em campo, não faltaram momentos marcantes. O que se viu foi um Atlético tranquilo, inteligente, que soube tocar a bola até envolver o rival e abrir o placar com uma finalização precisa de Diego Tardelli, artilheiro do Brasileirão e jogador que vai escrevendo seu nome na galeria do clube. No primeiro tempo, ainda houve uma bela trama entre Ricardinho e Serginho, que parou no goleiro colombiano Viáfara.

Na etapa final, o jogo mudou depois que Tardelli desperdiçou a chance de marcar um golaço. O Vitória passou a ser atrevido, dominou o meio-de-campo e teve duas oportunidades para empatar a partida. O gol não saiu graças ao uruguaio Carini. E o torcedor atleticano, com a visão dividida entre o aquecimento dos reservas e a partida renhida, voltou a se lembrar de 1997,1998, 1999, 2000, 2001, 2002, 2006 e 2008 e clamou pelo seu salvador de inúmeras outras vezes: “Olêêêêêêêêêêêêêêêêêêê Marques”.

Aos 22 minutos, uma explosão de alegria no Mineirão. Celso Roth atende o apelo (não teria graça nenhuma estragar a festa), chama Marques e o manda substituir o até então inoperante Rentería. Foi o suficiente para desconhecidos se abraçarem, telefones tocarem e os torcedores vibrarem como em um gol. O ídolo estava de volta após superar dez meses de inatividade e uma cirurgia problemática para um veterano.

Bastou a entrada do Xodó da Massa para o Atlético retomar as rédeas do jogo. Ele soube trabalhar com Tardelli, que, porém, perdeu pênalti aos 30 minutos. A bola insistia em não entrar. Aos 47 minutos, Marques gingou, driblou Viáfara e cruzou com perfeição para Evandro. O meia, porém, conseguiu finalizar para fora. Nem tudo pode ser perfeito. Mas a vitória estava garantida. E Marques brindou os atleticanos com a garra e a técnica apurada de sempre em mais um reencontro comum, mas sempre especial.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes no Sete Doses aos sábados

Ricardinho é paranaense, começou a sua carreira no Paraná Clube e logo se transferiu para a França. Mas foi no futebol paulista que o meio-campista de cabelos grisalhos se destacou. Repatriado por Vanderlei Luxemburgo, formou com Freddy Rincón, Vampeta e Marcelinho Carioca no Corinthians um dos cinco melhores meios-de-campo da história do futebol brasileiro.

No Corinthians, Ricardinho brilhou. Foi bicampeão brasileiro, campeão estadual, da Copa do Brasil, do Mundial de Clubes. Mas também colecionou acusações de ser dedo duro e venceu um conflito contra Marcelinho Carioca, um dos seus principais desafetos. Mas uma polêmica transferência para o São Paulo fez seus feitos serem esquecidos pelos corintianos. Sobrou rancor, que culminou em desprezo depois de uma segunda passagem desastrosa pelo clube.

Contratado em 2002, Ricardinho chegou ao São Paulo com status de melhor jogador do futebol brasileiro e com o objetivo de encerrar o jejum de títulos nacionais, que já era de 11 anos. Com um salário de R$ 400 mil passou a ser mal visto pelos companheiros e fracassou nas quartas-de-final do Brasileirão diante do Santos de Robinho. Para piorar, no ano seguinte, perdeu a final do Estadual para o rival Corinthians. Saiu no final de 2003, após classificar o São Paulo para a Libertadores. Mesmo assim, deixou o clube pela porta dos fundos e sem aplausos.

Não foi à toa, portanto, que Ricardinho teve seu nome vaiado quando sua escalação para o jogo entre São Paulo e Atlético foi anunciada no Morumbi. Contratado pelo time mineiro em setembro, o meia chegou ao clube com a função de ser o comandante do Galo na reta final do Brasileirão.

Apesar da expectativa, Ricardinho não chegou com condição de titular absoluto. Ficou no banco de reservas em suas quatro primeiras partidas (Santos, Barueri, Botafogo e Cruzeiro). Foi quando uma daquelas coincidências que são sempre chamadas de destino aconteceu.

A atuação apagada de Evandro no clássico mineiro, a pressão por dois tropeços seguidos e a semana completa de treinamentos fez com que Celso Roth decidisse escalar Ricardinho desde o início pela primeira vez. E a responsabilidade do camisa número 80 era grande. Fazer o Atlético voltar a vencer fora de casa, o que reacenderia o sonho do título brasileiro.

Experiente, Ricardinho não se abateu com as vaias, mais do que esperadas, dos são-paulinos. E mostrou a sua precisão logo no primeiro minuto. Diego Tardelli foi atropelado por Miranda. O meia atleticano sabia que a chance era boa demais para ser desperdiçada em uma partida fora de casa.

Cobrou a falta na segunda trave. Tardelli (outro ex-são-paulino, também vaiado antes do jogo) completou: 1 a 0. Depois disso, foi preciso apenas apresentar o seu domínio de um meio-de-campo, com passes inteligentes. Também ditou o ritmo do confronto, ignorando a propalada força do São Paulo em casa, evitando que o time mineiro fosse sufocado, e, mostrando já conhecer a sina de vingador do Galo.

Enquanto isso, jogadores do São Paulo até trombavam na tentativa de desarmar Ricardinho. Extenuado, foi substituído aos 36 minutos do segundo tempo, já que o triunfo estava garantido. E saiu aplaudido pela Massa Atleticana. Era assim que ele queria que fosse seu retorno ao Morumbi. Os são-paulinos, claro, vaiaram. Mas devem ter reconhecido a falta que faz um camisa 10 (ou 80, no caso), que sabe se posicionar, joga com tranqüilidade e sabe controlar o jogo.

Leandro Augusto publica vídeos esportivos históricos aos sábados no Sete Doses.