Quando as seleções de Brasil e Argentina se encontram em campo, um dos maiores clássicos do futebol mundial acontece. Não importam as qualidades e defeitos das equipes e jogadores envolvidos ou a indiscutível supremacia da seleção brasileira em termo de conquistas. Afinal, a rivalidade supera os números frios e amplifica os indiscutíveis estilos dessas escolas de futebol.

Mas, claro, é melhor quando a essência das características de casa seleção está dentro de campo. Foi assim em 1982, quando Brasil e Argentina duelaram na segunda fase da Copa do Mundo da Espanha.

Os argentinos reuniram o melhor de duas gerações: campeões da Copa de 1978, como Fillol, Passarela, Ardiles e Kempes, com os campeões do Mundial Sub-20 de 1979, como Maradona e Ramón Diaz. O Brasil não fez por menos, com um meio-de-campo brilhante, formado por Falcão, Toninho Cerezo, Sócrates e Zico, além de outros craques, como Éder Aleixo e Júnior.

Na cidade de Barcelona, no Estádio Sarriá, o Brasil impôs seu estilo de jogo. Acelerou o ritmo da partida, trocou passes em velocidade, foi preciso, incisivo e ousado. Apostou tudo na qualidade dos seus meio-campistas e construiu a sua melhor atuação na Copa do Mundo de 1982.

Fez três gols com a força e precisão de Éder Aleixo, a criatividade de Zico, a maestria de Falcão e a explosão de Júnior. E escreveu um capítulo do histórico clássico sul-americano em que a Argentina ficou, infelizmente, marcada pela violência de Passarela e Maradona. Fato é que nem todos conseguem perder um jogo desse naipe. E vencer como o Brasil fez na Copa de 1982 é para poucos.

 

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Carisma e oportunismo explicam bem a carreira de sucesso de Túlio Maravilha. Foi assim que o atacante se consagrou como um dos atacantes mais perigosos do futebol brasileiro na década de 1990. E se tornou ídolo das torcidas de Botafogo e Goiás, além da consagração como artilheiro em quase todos os mais de 20 clubes que defendeu.

Túlio, porém, teve poucas oportunidades de vestir a camisa da seleção brasileira, diante da concorrência com atacantes consagrados mundialmente, como Bebeto, Romário e Ronaldo. Nem por isso, ele deixou de marcar o seu nome com a camisa mais famosa do futebol mundial.

Não perdeu nenhum dos 15 jogos que disputou e marcou 13 gols. E se consagrou de vez no principal clássico sul-americano. Na Copa América de 1995, marcou o gol que levou o eletrizante confronto entre Brasil e Argentina, pelas quartas de final, para a disputa de pênaltis. E de modo inusitado e ilegal.

Nos minutos finais do confronto, recebeu lançamento na grande área, dominou a bola com o braço esquerdo e finalizou com precisão. Apenas o árbitro não percebeu a ilegalidade da jogada. Túlio abusou das ironias ao compará-lo com o gol de mão feito por Diego Maradona contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986 ao classificar o seu como o “gol de Nossa Senhora”.

Túlio aproveitou sua rara noite de herói da seleção brasileira e ainda conseguiu evitar que Taffarel fosse o vilão da vez, já que falhou nos dois gols da Argentina. O goleiro repetiu a sua rotina de ser decisivo em uma disputa de pênaltis em mais um registro da sua consagrada história na seleção brasileira. Dessa vez, com o raro auxílio de um dos maiores artilheiros da história do futebol no Brasil.

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A seleção brasileira feminina de vôlei chegou aos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004 com o objetivo de repetir o que a equipe masculina fez em 1992, quando faturou a sua primeira medalha de ouro. Com o mesmo técnico do feito de Barcelona – José Roberto Guimarães –, a conquista parecia ser palpável.

O Brasil iniciou o torneio olímpico fortalecido pela conquista do título do Grand Prix. E, amparada pela então revelação Mari, chegou invicto e com facilidade às semifinais em Atenas. Mas havia um tabu a se quebrar. Em 1996 e 2000, dirigida por Bernardinho, a seleção brasileira parou nas semifinais da Olimpíada.  E a adversária da vez era a poderosa Rússia.

A vitória, porém, começou a ser construída com extrema facilidade. O primeiro set foi vencido por 25/18. Na segunda parcial, as russas chegaram a abrir 21/16. Mas o Brasil, com uma reação impressionante, fez nove pontos seguidos e ficou a um set de disputar a sua primeira final olímpica.

No terceiro set, extremamente equilibrado, as russas reagiram e venceram por 25/22. Um revés que pareceu apenas um susto quando o Brasil abriu 24/19 no quarto set. A primeira final olímpica era questão apenas de tempo. Foi quando algo classificado como inexplicável por José Roberto Guimarães aconteceu. O Brasil cometeu cinco erros seguidos, sendo dois de Mari, permitiu a reação russa e perdeu a parcial.

Situação parecida se repetiu no tie-break. O Brasil abriu 12/9, mas o 24/19 ainda estava na memória e nos braços das jogadoras e a equipe perdeu. Foi eliminada na semifinal, viu o placar de 24/19 virar um sinônimo de fracasso e precisou de quatro anos para expurgar a derrota mais improvável da história do vôlei brasileiro. Chance que ícones como Fernanda Venturini e Virna nunca mais tiveram.

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Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses

Carnificina também existe em grandes jogos, em partidas decisivas de Copa do Mundo, que envolvem seleções talentosas. Foi assim na terceira rodada de um dos quadrangulares que definiu um dos finalistas da Copa do Mundo de 1974, disputada na Alemanha.

A Holanda, que comoveu o mundo com o seu futebol total, recheado de talento e que lhe rendeu o apelido de Laranja Mecânica e representava o novo, só precisava de um empate diante de um envelhecido Brasil, temidos pela histórica conquista de 1970 no México.

O Brasil, porém, não era mais o mesmo. Não tinha Gérson, Pelé, Tostão, o estilo ofensivo e ousado, além da preparação física que espantou os adversários. Ainda havia Zagallo, Jairzinho e Rivellino, mas não foi suficiente para ser brilhante na Alemanha.

A força da história tricampeã mundial deixou o confronto equilibrado em seu início. Com mais qualidade, porém, a Holanda passou a dominar a partida contra um Brasil que apostou demais na velocidade de Valdomiro e Jairzinho. O fair-play sumiu de campo e a pancadaria passou a dominá-la.

Inferiorizados tecnicamente, os brasileiros bateram sem dó, principalmente com Zé Maria e Luís Pereira, que chegou a agarrar Cruyff com os braços. Para Leão, sobrou a tarefa de fazer a defesa que Cruyff classificou como a mais bonita que já viu, em finalização sua, aos sete minutos, de esquerda, da marca do pênalti, e evitar uma goleada.

O Brasil também tentou jogar, perdeu gols, mas teve enorme dificuldade para entender o estilo holandês e, por isso, ficou impedido diversas vezes. E a defesa sofreu com a volúpia ofensiva dos adversários. Mas a pancadaria estragou a partida. Além de Luís Pereira, que foi expulso, Van Hanengen e até Rivellino abusaram da violência.

Os gols holandeses saíram no segundo tempo. Cruyff fez cruzamento da direita, Neeskens, que finalizou de bico após ganhar dividida com Luís Pereira e encobriu Leão aos cinco minutos.

O segundo gol saiu aos 19 minutos. Marinho Chagas e Marinho Peres erraram a linha de impedimento, Krol cruzou e Cruyff com um voleio de direita definiu a vitória holandesa, a classificação para a final da Copa do Mundo e o sonho de que o futebol total podia dar certo.

Uma vitória indiscutível sobre uma seleção não tão brasileira de uma Holanda que disputava seu primeiro Mundial desde 1938, mas, liderada por Cruyff e Neeskens, que mostrou maturidade e qualidade ofensiva impressionante. Só não precisava ter batido tanto.

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A Copa do Mundo de 1970 reservou ao Brasil um dos grupos mais complicados da história da competição. A equipe dirigida por Zagallo tinha o desafio de passar por Checoslováquia, vice-campeã mundial de 1962, Inglaterra, campeã de 1966, e Romênia.

Depois de uma estreia acachapante, com vitória por 4 a 1 sobre a Checoslováquia, o Brasil, dono do indiscutível melhor ataque do mundo, encarou em seguida a Inglaterra em partida que logo foi apelidada de Jogo do Século.

Não era para menos. De um lado, craques indiscutíveis, como Carlos Alberto Torres, Rivelino, Jairzinho, Tostão e Ele, Pelé. Do lado inglês, Banks, Bobby Moore, Bobby Charlton e Hurst, dirigidos por Alf Ramsey. Um clássico com tantos craques que foi muito mais truncado do que se podia imaginar.

Truncado e equilibrado, com raras chances de gol. Na principal delas, aos dez minutos do primeiro tempo, Jairzinho avançou pela direita e fez cruzamento para Pelé. O Rei deu uma cabeçada potente e perfeita. Tão perfeita quanto o reflexo e a defesa de Banks, imortalizada na história do futebol.

Ali ficou claro que não era nada simples superar a defesa da Inglaterra. No segundo tempo, Tostão fintou um, dois, três marcadores. Desequilibrado, cruzou para Pelé. Ele apenas ajeitou para Jairzinho fuzilar, ser eternamente lembrado como o Furacão da Copa e mostrar, mais uma vez, que o talento faz a diferença e supera qualquer barreira.

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O soldado Dunga, que faz do campo de futebol um front de batalha

Sempre simpatizei mais com drogados do que com guerreiros. Sei lá o motivo, mas prefiro o que é torto e fora do lugar. Nada que é comum me agrada. Prefiro me ligar a pessoas e causas que saem do politicamente correto. Se os guerreiros são celebrados como heróis, prefiro ficar ao lado dos drogados decadentes. É da minha natureza. Por isso, esse ano estou com a Argentina de Maradona e torço contra o Brasil de Dunga.

Escrevo isso antes da estreia do Brasil e essa opinião não mudará de forma alguma. Se o time de Dunga golear todos os adversários e conquistar o hexa, continuarei achando a postura do time e do treinador uma merda. Os discursos e o isolamento da torcida e da imprensa mostram que temos um treinador de ego inacreditável, beirando o patológico. Maradona tapou seus vazios existenciais com cocaína, Dunga tapa os dele querendo ser o líder de um Exército. Enquanto Maradona fuma charutos, brinca com os jogadores, libera o sexo e a cachaça, Dunga fica de cara amarrada repetindo a palavra comprometimento como um papagaio mecânico programado para falar bosta. Prefiro a subversão, prefiro o não levar a sério, a anarquia, o caos. É disso que somos feitos.

Comprometimento é o caralho. Futebol é uma brincadeira. A bola é um brinquedo. Os jogadores precisam brincar em campo para dar alegria para quem assiste e quer se divertir. Diabos, futebol é diversão! Quando um babaca como Dunga fica repetindo as merdas que fala, o esporte vira a mesma coisa que a política ou o mundo corporativo. A visão de nosso técnico do que é uma partida de futebol beira o fascismo. É assim que as ideias conservadoras e babacas que regem nossa política nascem. Se o Brasil ganhar a Copa com esse modelo belicoso será tido como modelo de sucesso. Assim como uma empresa que fode com seus funcionários para obter lucro. A seriedade em excesso, na maior parte das vezes, é terrível. Assim como a anarquia excessiva faz mal, como ficou claro na Copa passada. O meio termo, sempre o melhor caminho, nunca é lembrado.

Dunga, quando faz seu discurso, pensa que está defendendo uma pátria. O caralho! Ele quer, com sua filosofia barata, rígida e cega, formar uma seleção dele e de mais ninguém. Ele quer ganhar a Copa não para dar um presente para os brasileiros. Ele quer ganhar para calar a boca de todo mundo e provar que ele estava certo e que ele é o fodão. Dunga é o típico homem dos nossos tempos. Acha que o sucesso eficaz é o que importa. Esquece-se a paixão, esquece-se a arte, a subjetividade, esquece-se o sentido do futebol. A eficiência acima de qualquer coisa. A mecânica em detrimento da imperfeição humana. Dunga forma um Exército que vai para uma batalha cujo objetivo é vencer e não entreter ou encantar. A vitória pela vitória, danem-se as consequências. Tem coisa mais sem sentido que isso? Tem coisa mais insossa que essa seleção brasileira?

Do outro lado, vejo o imperfeito Maradona falando o que pensa nas coletivas, levando a Copa do jeito que tem que ser levada, como um grande evento, uma grande festa. Trabalha-se sério, sim, mas na medida certa, com piada, com alegria, com verdade. Ele pode não entender nada de tática, mas sabe dar uma boa festa. Dizem que Maradona é louco, um cara que só arranja confusão e tal. Ele é imperfeito e não tem vergonha de mostrar. Dunga, com seu discurso falso e indigesto, não consegue enxergar suas próprias imperfeições, de tão focado em sue próprio umbigo, em sua vitória pessoal, em seu cala boca para os que o cornetam.  Maradona é arte, Dunga é brutalidade. Maradona cheira cocaína, Dunga come merda. Qual você prefere? Seja lá quem ganhe, eu fico com uma bela carreira de cocaína no lugar de um punhado fedido de merda.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos e torcerá contra o Brasil se a seleção jogar contra a Argentina