O pecado entorta os pés. Por isso peregrinos, pecadores natos, tanto caminham. Para endireitá-los. Na vida de Querente, apontaram-se desapontamentos tantos que ele decidiu abreviar os sofreres e palmilhar a vida com as mãos.

Dicotômico que parecesse, por mais sujismundo que estivesse fisicamente, aquele era o momento de sua vida em que ele almamente estava completamente limpo. Encolhido em estilhaços naquele cubículo odorento, sentado sobre o chão frio e emporcalhado, foi quando quase ensurdeceu ao ouvir o estampido provocado pelas batidas do cacetete contra a pesada porta de ferro.

– Querente, você está livre. Não me pergunte por que, apenas passe no “purgatório”, pegue suas coisas e volte pra rua.

A determinação do carcereiro soava como um desatino dos mais absurdos. Que diabos de “coisas” materiais Querente teria para pegar se tudo o que tinha na vida lhe fora tomado? Além do mais, aquela era a primeira vez na história em que um preso que estava havia 26 anos na solitária saía direto para a rua.

A verdade é que, pouco mais de duas décadas e meia depois, Querente descobrira que o autoencontro não passa de um autoengano. E a única exigência que fez antes de deixar a cela e a penitenciária foi que lhe dessem uma faixa para vendar os olhos.

Não de despediu de ninguém. Ao cruzar o portão principal da cadeia e alcançar a calçada, sucederam-se mulheres em ofertas para guiá-lo. Vinham todas cordialmente lhe pedindo licença, ao que Querente prontamente as solapava tirando as mãos delas de si. Propalavam chuvas de insultos e impropérios contra aquele recém-voltado ao caos das relações humanas.

Em rota de fuga dos contatos, ele cambaleou mais alguns metros pela calçada, sem ir muito longe. Até que, sem explicação qualquer, Querente surpreendeu-se tomado pela aproximação daquela moça de nome Benta.

– Para onde quer ir comigo?

– Me leve para a estação. Vamos embarcar no primeiro trem. Não me faça perguntas, apenas quando estivermos perto do fim do último túnel do caminho, você me avise.

Diretrizes seguidas, ambos chegaram à plataforma e subiram no vagão. Ao longo do caminho, por diversas vezes Benta desobedeceu um dos pedidos de Querente, que não desgrudava a cabeça da janela.

– E então, o que você tanto vê lá fora?

– Você.

Para Benta, aquela resposta era como se sua alma fosse sentada em uma cadeira de balanço e o sentir, por mais que jogado de um lado para o outro, respousasse nos braços da leveza.

À chegança do fim do túnel, o lembrete solicitado.

– Estamos chegando onde você pediu.

Querente tirou a venda sem esboçar reações efusivas diante do clarão que se via no horizonte.

– E agora, o que tanto vê?

– Você.

Era, enfim, com o peito nos trilhos, que Querente atestava que a cegueira não se deflagra na penumbra tampouco na luz. É pelas mãos do amar que se abrem e se fecham as cortinas dos olhos em alumbramentos.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e agradece a foto tirada por seu tio Divaldo Rodrigues Jr. e “Flor da Vida”, de Hamilton de Holanda, para acender o rastilho não só deste texto, mas da benquerência em seu viver

 

O amor pronuncia-se em raios de Sol. Cada rajada de luz é um cegar de retina que, inconscientemente, já havia brotado por dentro. Colheitas da incandescência da paixão. Era ali, quando os ponteiros marcavam duas horas e trinta e oito minutos da tarde daquele sábado que todo e qualquer sentido de Batista se desvaneceu. A cabeça espiralava perdida. O peito labirinteava desencontrado.

Em plena Praça das Camélias, local de fuga habitual de Batista diante daquela cidade massacrante, ele não esperava encontrar tamanha tormenta no lugar que o abraçava cotidianamente para lhe dar a maciez da paz. Talvez ainda não fosse o caso de sentimentos. Ele havia escutado em algum lugar que todos são banais. Era apenas questão de não poder negar o que os olhos lhe escancaravam.

Até então, de tão esparramado em relaxamento no banco da praça, dava-se a impressão de que Batista iria se desintegrar e escorrer por entre os vãos dos assentos de mogno. A brisa batia de frente e amortizava-se em sua barba. Dos fones de ouvido cantarolava-se algo bonitinho e reconfortante a valer. No pulso, o relógio ia enguiçando, revelando o enferrujar do tempo. No jornal, as notícias sempre ultra-irrelevantes eram repentinamente ignoradas.

– Tenho saudade de mim. Tenho saudade de tudo.

Batista balbuciou a frase enquanto os olhos espiavam por sobre o periódico. Pulavam o muro da timidez para mirar tamanha miragem. Sabia que dali em diante não haveria mais amanhã. Perdia os pés como se pisasse em cimento fresco. Mesmo a cerca de 10 metros de distância, bastava pousar a vista na nuca desnuda daquela miríade de beleza para Batista se desprumar. Em silêncio gritante, repetia a si: “moça, dobre as mangas do tempo, jogue o teu sentimento todo em minhas mãos”.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

Dedos entrelaçados, mãos pequenas próximas à boca. Fábio, de joelhos no beiral da cama, quase não a alcançando, sussurra o “Pai Nosso” de olhos fechados. Nunca soubera ao certo porque fazia aquilo. Aprendera com a mãe e agora nem precisava mais dela para cumprir o ritual. Tinha seis anos. Naquela noite decidiu pensar com quem conversava. Parou de sussurrar, abriu os olhos e fez cara de interrogação. Aquela seria uma dúvida que o atormentaria para o resto da vida.

A primeira vez que tomou a hóstia, no dia de sua primeira eucaristia, Fábio sentiu um gosto de nada em sua boca. Perguntou-se, apesar de cumprir o ritual, qual era a razão daquela bolacha sem gosto ser considerada sagrada pelos homens. Aos doze anos, continuava sem entender os motivos que o levavam a comparecer todos os domingos à missa. Aqueles santos, o homem fantasiado que dizia sermões, os coroinhas com cara de sono, as pessoas que cantavam a plenos pulmões os cantos. Sempre fora, no contexto eclesiástico, um peixe fora d’água.

Aos dezesseis anos, quando sua mãe já havia o inscrito para a crisma, resolveu se posicionar.

– Mãe eu não vou fazer crisma. Eu tenho dúvidas sobre a existência de Deus.

– O que você está me dizendo? Desde quando você não acredita em Deus?

– Não disse que não acredito, só tenho dúvidas. Desde os seis anos penso nisso, quando percebi que minhas preces não eram atendidas. Você não percebeu que parece que estamos rezando para ninguém? Que Deus pode ser tipo Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa?

– Como assim? Você não acredita em nada superior? Então pra que tudo isso? Qual a razão do mundo e da vida se não tiver um ser superior nos olhando?

– Sei lá, mãe. Eu gosto de jogar fliperama, de ficar na Internet. Não sei. Gosto de batata frita, por exemplo. E não disse que não acredito, só tenho minhas dúvidas. Não é saudável?

– Você está fora de si! Vai fazer crisma, sim! Você não consegue casar se não fizer. Depois, você segue o que quiser, mas a crisma vai fazer.

– Mas eu não sei se eu quero casar, mãe.

– Deus existe e acabou! Vai fazer crisma, sim senhor.

Contrariado, Fábio frequentava a crisma com má vontade e sem nenhum compromisso. Matava as aulas e era tido como o menino malvado da classe. Tomou gosto por duvidar de Deus e resolveu estudar. Foi à biblioteca municipal e aprendeu com Friedrich Nietzsche que Deus estava morto, leu “O Ser e o Nada”, de Jean-Paul Sartre, e percebeu que Deus tapava os buracos existenciais humanos. Aprendeu com Freud que a crença em Deus era provavelmente uma ilusão infantil do pai ideal e que a religião não passava de uma neurose universal. Entendeu que o homem crê em Deus para não enlouquecer diante do absurdo. Leu os livros da moda que negam com veemência a existência de Deus e percebeu que a fé no ateísmo pode ser tão religiosa quanto a própria crença que os autores atacam. Sentiu-se triste, mas ainda não estava convencido. No fim, tomou a decisão de investigar Deus por sua conta e risco.

Como surpreender Deus? Como encontrá-lo e provar ao mundo a sua existência? Onde estaria o criador do céu e da terra? Ele era mesmo invisível? Fábio decidira que descobriria tudo e não pouparia Deus no caso de sua inexistência. Queria descobrir, queria tirar a sua dúvida. Mas suas ferramentas eram poucas, resolveu se contentar com um trabalho de pesquisa. O primeiro homem que procurou foi o padre da igreja de seu bairro.

– Padre, tenho tido dúvidas sobre a existência de Deus. Existe alguma prova irrefutável que ateste que Ele criou o mundo.

– Você está duvidando da existência de Deus, meu jovem? Você está bem? Isso me parece uma loucura de sua parte. Você nunca leu a Bíblia? Deus criou tudo e isso é impossível de negar. Se não fosse ele, quem seria?

– Eu já li a Bíblia sim, padre, me parece um romance muito sábio e bem escrito, com histórias fascinantes. Mas lá não existem provas, é só uma história.

– Você está louco! A Bíblia é o livro sagrado, não pode ser contestada. É pecado!

– Mas por quais motivos não posso duvidar?

– Pare de pensar sobre isso, menino! Deus existe e acabou!

Fábio anotou a conclusão de seu primeiro interrogatório e resolver ir conversar com um professor da faculdade de seu bairro, famoso e desdenhado por se proclamar ateu.

– Professor, tenho dúvidas sobre a existência de Deus. O senhor tem alguma prova irrefutável de que Ele não existe?

– É óbvio que Ele não existe. A ciência avançou, sabemos que o universo foi criado a partir de uma explosão e de que o homem é originário dos macacos.

– Mas existem muitas coisas na vida sem explicação. O que faz uma planta crescer? O que faz a natureza agir? Quem comanda tudo isso?

– Garoto, leia os clássicos, os filósofos.

– Já li todos eles, mas nenhum tem uma prova. Os argumentos são geniais, mas preciso de provas, entende?

– Escuta uma coisa: Deus não existe e acabou!

Sua última entrevista seria com um filósofo famoso que negava a existência de Deus e que dizia ter provas disso.

– O senhor pode me apresentar essas tais provas?

– Claro, eu explico. O sistema epistemológico da existência, crucial para o entendimento endocompartimentado de uma sociedade em crise pós-moderna, tange o ser humano para um vazio de compreensão de seu processo meta histórico e de seu papel usurpador da razão. Todavia, o fato da religiosidade se pretender um resultado das partes pseudomencionadas nos obrigam a crer que a existência de Deus é uma invenção parapsicológica da mentalidade clássica, contemporânea e materialista.

– Desculpe, mas eu não entendi.  O que eu quero é uma prova.

– Garoto, Deus não existe e acabou.

Fábio compilou os dados levantados nas entrevistas e percebeu que todos os entrevistados afirmaram a mesma coisa, apenas com a mudança do ponto de vista. “Deus não existe e acabou”, do filósofo e do professor, contra “Deus existe e acabou”, afirmado por sua mãe e pelo padre. Eram essas as conclusões de seu estudo teórico. Terminada a segunda parte decidira: visitaria o Vaticano para um trabalho de campo. Por milagre, como se Deus o estivesse auxiliando, conseguiu uma conversa particular com o Papa. Tinha certeza que frente a frente com a maior autoridade religiosa do mundo obteria respostas para suas indagações.

– Senhor, Papa, tenho dúvidas da existência de Deus e estou realizando uma pesquisa sobre isso. Os especialistas ouvidos apontam dois pontos de vista: “Deus existe e acabou” e “Deus não existe e acabou”. Gostaria de um parecer mais detalhado.

– Leia a Bíblia. Está lá tudo que você precisa saber. Só isso?

– Mas eu acho que a Bíblia é só uma história maravilhosa. Alguns gênios do pensamento humano escreveram livros muito bons com argumentos sólidos duvidando do Deus que sua religião crê. O que tem a dizer sobre isso?

– Que o homem tenta explicar as coisas por meio de filosofias e ciências, mas sempre vai precisar de Deus.

– O senhor já leu esses pensadores? Eles parecem ter razão. Eles têm argumentos.

– Já li todos eles sim, são pessoas com conhecimento, mas sem fé. Quem não tem fé não tem nada.

– Por quê?

– Por que a fé move montanhas.

– Mas o senhor tem uma prova irrefutável da existência de Deus?

– Garoto, Deus existe e acabou!

– Muito obrigado pela ajuda, senhor Papa.

– Chegou a uma conclusão, meu filho?

– Cheguei, sim. Não sei se Deus existe e acabou!

André Toso escreve religiosamente para o Sete Doses aos domingos

 

Não matutava muito. Com o facão abria clarões no matagal para chegar nem sabia onde. A cada passada de lâmina nos caules, a cada seiva jorrada, era como se aproximasse a chegança a um lugar desconhecido e desejado. Era descoração danado. Era peito a vácuo de tão oco. Era Judião.

Tinha dia que cruzava tanto o rio de lá pra cá que o azul do céu virava preto. Por mais que vez ou outra passasse por sua cabeça a vontade de dormir embaixo da terra, refugava. Nos dias de banha-lágrima, era tanta enchente nos olhos, que Judião buscava a beleza das pequenas coisas para alimentar a alma. Era o que restava, pois o corpo já tinha desencarnado havia tempos.

Furta-cor de asa de borboleta, pêlo eriçado de filhote indefeso, salto de peixe enxerido que mete cabeça pra fora do ribeirão, peregrinação de folhas em formigas, e uivos noturnos de fazer arrepiar careca. Era disso que Judião subsistia. Era caboclo de viver com pouco e encher o peito com leveza de ar-de-pluma.

Só sabia daquele labirinto de bicho e planta. Vivia naquela prisão por puro consentimento. Ir dali por quê? Talvez fosse hora mesmo. Era a primeira vez em um infindar de décadas que Judião deparava com pegadas que não as suas ou dos animais. Seguiu os passos como carta de navegação em primeiríssima viagem.

Quando chegou ao fim da rota, a cena e o som de deixar camareira no chinelo e arrumar a cama perfeita além de sete palmos. Aos contrapontos de “muito prazer” para A Lenda do Caboclo, de Heitor Villa-Lobos, Judião congelou a vista de nunca mais piscar. Era clarão de olho monumental. Foi um embaralhar de palavras de aprendiz de francês. É um enevoar de morrer de amor.

 

Lucas Nobile escreve todas às sextas para o Sete Doses com a convicção de que se Heitor Villa-Lobos tivesse composto apenas “A Lenda do Caboclo” já seria um gênio completo

 

Havia 72 anos que Seu Aristides não sabia o que era enxergar. Pelo menos não da maneira convencional, com os olhos. Dispensava bengala branca, cães-guias e as bênçãos de Santa Luzia. Viúvo por fatalidade e solteiro por convicção, não abandonava seu ambiente de trabalho por nada, nem para dormir. Pudera. Lá, tinha tudo o que precisava. Morava em sua própria barbearia.

No amplo salão, daqueles à moda antiga, sobriedade era palavra de ordem. Pela falta de mobília, todo e qualquer tipo de som ecoava em alto volume. Até o corte da tesoura reverberava com o mesmo destaque de um bombardino solista na Sala São Paulo.

Com o piso preto, paredes e teto brancos, havia apenas uma cadeira para lavar a cabeça da clientela, outra para os cortes, um pequeno aparador sobre o qual repousavam as ferramentas de trabalho de Seu Aristides, e dois espelhos, um pregado na parede e outro ovalzinho para os fregueses darem aquela conferida no pé da nuca.

A reação de todos que chegavam ao salão pela primeira vez era de perplexidade e descrença. Via de regra, os novatos eram levados à barbearia de Seu Aristides pela curiosidade e pela aventura. Decidiam tirar a teima quando algum amigo chegado dizia que tosava as madeixas com um cabeleireiro cego.

Na porta, a primeira explicação, que, na verdade, só aumentava a ansiedade da freguesia. Uma placa com o seguinte recado: “Corto por música”. Diante do aviso, homens e mulheres adentravam o salão se apresentando a Seu Aristides e, de antemão, descarrilhando suas justificativas:

– Bom dia, o senhor deve ser o Seu Aristides, não? Vim por recomendação de um amigo. Mas, logo de cara, preciso avisar o senhor que não sei como faremos. Como o senhor corta por música, temos um impasse, pois eu não sei tocar nada.

A que Seu Aristides respondia:

– Não se preocupe, não precisa saber tocar mesmo. Só é preciso escolher. Um instante, por gentileza, volto já.

Em um misto de calma e ligeireza, Seu Aristides dirigia-se ao quartinho dos fundos de sua barbearia. Rapidamente, voltava ao salão empurrando caixas de papelão. Da primeira, tirava um gramofone portentoso. Das outras quatro, apenas abria as tampas, revelando centenas de discos raros e sortidos.

– Pois bem. É só escolher o álbum de seu agrado. Não precisa rezar, confie. Quem clama aos céus, naturalmente, é mais cego do que eu, que sei onde piso. Antes de mais nada, quero lembrar que a escolha deve ser certeira, pois o corte será um mero retrato fiel e emotivo da música. Só peço que feche os olhos e sinta os sons como eu.

Ao som de Vivaldi, moças deixavam o salão com permanentes-rococó. As mais jovens, que optavam por Kelly Key, iam embora parecendo um poodle toy, depois do Corte Cachorrinho. Os senhores classudos, com poucos fios de cabelo, pediam Nelson Gonçalves e voltavam para casa com as pontas aparadas e o famoso Corte Pega Emprestado, quando Seu Aristides esborrotava no gel e puxava os fios da lateral para cobrir o cocuruto. As senhoras de meia idade que optavam por Chico Buarque ganhavam o Corte Escafandrista. Os adolescentes revoltados atacavam com discografia punk e saíam com a cabeça raspada ou com cabelos espetados.

Há décadas funcionava assim. Nunca houve relatos de alguém que tenha deixado pedaços da orelha no fio da navalha de Seu Aristides. Com olhos de breu e tesouradas sonoras, ele transferia sua alma às cabeças alheias. Tudo estava em seu lugar, mas ao mesmo tempo, fora da ordem.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

 

Era mais uma manhã preguiçosa de sexta-feira e ninguém havia previsto que o Sol se imporia com tamanha firmeza. Dentro da sala vazia e abafada do número 107 da Rua do Ouvidor, olhando contra os raios o que se via era uma nuvem densa de poeira e serragem. Para qualquer um, permanecer ali sem óculos de proteção poderia representar a perda total da visão. Para quem não enxergava nada e havia perdido completamente a sensibilidade dos olhos, as lentes não passavam de uma tremenda bobagem, artigos de luxo. Naquela fabriqueta de violões, por obra do acaso, o luthier cego Magno não tinha a vista enevoada, mas via o inferno em maravilhas.

 

Antes de o glaucoma lhe fechar as cortinas da janela da alma, aquele artesão da música era um dos mais respeitados do País. Havia confeccionado com perfeição os violões dos maiores instrumentistas brasileiros ao longo de diferentes gerações. Muitos chegavam a creditar grande parte da genialidade de Heitor Villa-Lobos, Dilermando Reis, Paulinho Nogueira, Baden Powell e Raphael Rabello ao talento incontestável daquele luthier, justamente apelidado de Magno, “o Rei do Mogno”.

 

Quando se viu sem visão, chegou a cogitar a aposentadoria, mas logo desistiu da ideia. A clientela, ressabiada e relutante em depositar a confiança em um artesão cego, minguava a cada dia. Para Magno não bastava ouvir o som de um violão bem tocado. Seu único prazer era escutar uma música e reconhecer que determinado instrumento havia sido feito por ele.

 

Sem a mesma demanda de outrora por seu serviço, decidiu que só retornaria a seu “ateliê” quando houvesse alguma encomenda. Tendo perdido a credibilidade do passado, esperava receber, quando muito, pedidos de instrumentistas anônimos e iniciantes. Para seu espanto, quase perdeu os outros sentidos quando atendeu ao telefone na noite de quinta-feira. Do outro lado da linha, a voz rouca de Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar, conhecido por todos como Guinga.

 

– Grande Magno! Eu quero que você faça o melhor instrumento que puder. E olha que nem é para mim, é para o “Pelé do Violão”…

 

Incrédulo e confuso, o luthier se perguntava: “Como vou conseguir agradar esse compositor genial, que representa a junção perfeita e original entre Villa-Lobos e Tom Jobim? Será que vou desapontar o autor que une Charles Mingus a Pixinguinha e a Claude Debussy com a maior naturalidade do planeta? E para quem será a bendita encomenda que ele deseja”?

 

– O Marcus Tardelli vai gravar um disco só de composições minhas, vai se chamar “Unha e Carne”. Como quero que a sonoridade de todas as faixas seja irretocável, gostaria de presentear meu amigo com um belo instrumento. Eu mesmo ia compilar as músicas de minha autoria para lançar, mas encontrei alguém que interpreta minha obra melhor do que eu.

 

Magno debruçou-se sobre a encomenda durante exatos quatro meses. A pressão que sofria sobre suas pálpebras de ferro era descomunal. Era o primeiro instrumento que fazia depois da cegueira, e justo para quem? Para o maior violonista de todos os tempos, Marcus Tardelli, segundo Guinga, o maior compositor mundial ainda vivo, que havia revirado a vida de Magno, da maneira mais emotiva possível.

 

Com o violão pronto, os três se reuniram na Rua do Ouvidor, n°. 107 para o teste de fogo. Ao ouvir aquele jovem tocar “Mingus Samba”, de Guinga e Aldir Blanc, Magno escancarou o peito e descosturou os olhos para se banhar em lágrimas. Era a prova mais sincera de que não conseguia guardar para si o dom de transformar a escuridão das trevas na luminosidade das trovas.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses