O amor é sobremesa posta em prato fundo.

Sabedor disso, Agnelo cruzava os mezaninos etéreos do país anuviando em céus de brigadeiro. Flechava os ares diariamente para abraçar o acaso. Laureado com a melhor profissão do mundo, gabava-se por vestir os farrapos do desconhecido e a cada dia encarar uma missão diferente.

Absolutamente farto dos policarpos da vida, estufava o peito com humildade de formiga por ter um ofício mecânico, mas essencial. Simples, porém absurdo. Sendo assim, todos os dias pela manhã Agnelo girava a roleta do peito a fim de fazer algo distinto de seus concorrentes. Timoneiro do sentir, não era nem super herói como Clark Kent, tampouco um anti-herói como Macunaíma. Hasteando a híbrida bandeira do amor, Agnelo era um Super Anti-Herói.

Sabia que os sortilégios do sentimento mais nobre do mundo só exerciam tamanha magia pela mescla entre benquerência e mau-caratismo.

Espécie de justiceiro das causas de peitos alheios, Agnelo descia das nuvens todo santo dia para solucionar querelas e queixumes conjugais. Era de um anti-egoísmo contumaz. Acostumado a desatar nós cegos sentimentais dos outros, ele jamais havia parado para pensar no porquê de seu viver afetivo ser tão vazio. Era como se a incandescência de sua alma e a de outra mulher fossem isoladas por fitas listradas em amarelo e preto, como um afastar em cena de crime.

Até o dia em que sua capa de Super Anti-Herói involuntariamente escapou de suas costas e serpenteou em queda livre espiralada beijando a aspereza de um asfalto fumegante. Disparando em conexão nuvens —> terra, agachou-se para recuperar seu manto da benevolência. Ao agarrar o pano, inesperadamente suas mãos se amalgamaram com a delicadeza inédita de outras duas. Foi o bastante para o paladino da felicidade alheia abdicar da profissão para cuidar dos pulsares e apelos de seu próprio inteior. Com os ouvidos acalantados por Edu Lobo e Chico Buarque, em arroubos e rompantes Agnelo cochichava à moça: “abre o seu coração ou eu arrombo a janela”.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

Canções de protesto em diversas épocas, jeitos e trejeitos.

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

 

Saiu do consultório com um diagnóstico, no mínimo, curioso.

– Vai ter que trocar mesmo, não tem jeito; vaticinou o médico.

– Como assim, trocar, doutor Venceslau? Não tem como fazer algum reparo mais brando?

– Não, o mecanismo está todo pifado. Fique tranquilo, a operação será indolor, você mesmo pode fazer.

Marcelino baixou a cabeça para o doutor Venceslau. Aquela careca lustrosa carregava mais de meio século de experiência medicinal. Era curandeiro que não diagnosticava. Veredictava.

Sendo assim, desmiolado, Marcelino saiu da sala de consultas obediente, em direção ao endereço apontado pelo doutor. Ainda preferia prontuários a obituários. Arrancou de lá angustiado, com o peso de elefante em corpo de formiga, insuportável.

Ao chegar no destino apontado, deu-se com um terreno sem fim. Uma montanha empilhava-se ao fundo aterrando ilusões dos desenganados que ali aportavam. De onde Marcelino estava, o mundaréu de troços amontoados longeava tanto que não dava para distinguir seu conteúdo. Tudo era borrão de gente.

– Porque cargas d’água o doutor Venceslau me mandou para esta porra de lixão?

Era questão de se chegar. Já de pé firme, Marcelino andarilhou pelo descampado. Perto do monte, a surpresa em desvarios. A pirâmide formava-se por cabeças abandonadas. O rapaz pensou: “Como um lugar desse ainda não foi decoberto? Isso é genial. É só vir aqui e servir-se da cabeça que precisar!”.

Pelo celular, decidiu oracular com Venceslau.

– Doutor, posso escolher qualquer uma? Como faço pra arrancar a minha?

– Meu caro, fique à vontade, esbalde-se. Pense bem, a primeira “segunda-cabeça” a gente nunca esquece. Você é um insensível mesmo… Nunca passou a mão no pé da nunca? É só desrosquear, Marcelininho.

O celular despencou da mão esquerda quando o homem passou a outra nos trilhos que rodeavam o pescoço. A atual e futura antiga cabeça encheu-se de pensamentos e intenções em seus últimos respiros de vida. “Poderei roubar bancos e sair ileso”. “Me envolver com quantas mulheres quiser sem ser surpreendido pelas garras de mamãe”. “Poderei escolher em embonitar e enfeiar quando me for conveniente”.

Era opção a dar com o pau. Marcelino não sabia se era mais afoito que criança em loja de doce ou ninfomaníaca em sex shop.

Depois de horas escalando a montanha cabeçuda, escolheu seu modelo. Desrosqueou o antigo e encaixou o novo. Ainda meio troncho e mambembe nos instantes iniciais, foi morro abaixo, cambaleante.

Inegavelmente, ficara esquisito pra caramba. Precisava de um espelho de corpo inteiro para ver tamanho descalabro. Estranheza apenas nas primeiras horas. Com o passar delas, o corpo foi proporcionalmente acompanhando as formas da nova cabeça e harmonizando aquela criatura.

Marcelino não era bobo. Escolheu o novo modelo para agradar a esposa. Há tempos ela vivia lhe sondando sobre a possbilidade de se relacionar com outra mulher. Por isso, o rapaz optou por aquela cabeça ostentando um rosto feminino deslumbrante. Por consequência, tomou o corpo de uma puta gostosa.

Ligou para a cônjuge no caminho a fim de evitar enfartes. Mil maravilhas. Em casa, fez a festa da esposa em um bacanal lesbiano insaciável. Banhou-se, colocou um vestido emprestado de sua mulher, o mais agarrado possível, e partiu para o retorno com o médico pistoleiro. Enfim, com a antiga cabeça pelas tabelas, conheceu a faceta suíte do consultório do doutor Venceslau.

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança

(Chico Buarque)

Alessandro Ziegler publica suas ilustrações às quintas-feiras no setedoses

O texto abaixo, a exemplo do da semana passada, também foi escrito com base em pesquisas para outro Especial da revista Bravo!. Fiz três textos para a edição que tratou apenas da obra literária de Chico Buarque. Uma das pautas que me foi passada pedia uma análise da construção dos personagens. Fiz um artigo falando um pouco sobre o lado psicológico, mas descobri depois que na verdade o que a editora queria era uma explicação de como o Chico se inspirou para construir os personagens de seus romances. Para o artigo que escrevi – que deu um trabalho do cão – não ficar na gaveta, coloco aqui neste fim de ano preguiçoso do Sete Doses.

Espelhos que não refletem

Perdidos em si mesmos e deslocados da realidade que os cerca, os personagens de Chico Buarque perdem suas identidades até não conseguirem mais se enxergar

O personagem do filme Estorvo, baseado no livro de Chico Buarque: um homem sem nome, sem referências e sem rumo

“Estou só e não há ninguém no espelho”. A frase, de autoria do escritor argentino Jorge Luis Borges, ajuda a entender um pouco a essência dos personagens principais dos romances de Chico Buarque: homens que se sentem deslocados diante do meio em que vivem, perdidos diante da fragmentação de suas próprias personalidades e com dificuldades de entenderem com clareza quem eles realmente são. Na criação de seus livros, o escritor brasileiro constrói personagens que não conseguem compreender a si mesmos e se sentem invisíveis diante da sociedade que os cercam. Sozinhos, olham para um espelho sem reflexo.

O carioca José Costa, personagem principal de Budapeste, por exemplo, tem por profissão ser a sombra de outros autores. Em sua atividade de ghost-writer, produz textos, artigos e obras completas para terceiros. Como escritor anônimo, seus fracassos e sucessos nunca são reconhecidos. Quando ele chega à cidade de Budapeste ao acaso – após um pouso imprevisto quando voava de Istambul a Frankfurt – se vê em uma cidade onde nada faz parte de sua realidade. De volta ao Rio de Janeiro, mesmo com a língua e as pessoas que lhe são familiares, sente-se ainda mais desconhecido.

Budapeste é um livro que fala de como as palavras formam a realidade e de como ela pode ser simbolicamente modificada por meio de um novo conjunto de signos. A vida concreta do Rio de Janeiro, que intimida e sufoca o personagem, é trocada por uma cidade inteligível e abstrata, onde ainda não existem palavras que formem frases que construam uma noção de realidade. Tudo é fragmentado, sem definições: o personagem busca a desconstrução daquilo que ele não deseja mais ser.

Em busca de um novo mundo, José Costa aprende o idioma húngaro e passa a alternar temporadas no Rio de Janeiro e em Budapeste. Na cidade européia, volta a exercer a mesma profissão de ghost-writer que o relega às sombras no Brasil. Seu ofício é um instrumento para receber aprovação sem correr o risco de ser criticado. Se o livro desagradar não há problemas, já que ninguém o reconhece como o autor do fracasso. Com o sucesso, porém, sente-se privado dos aplausos e tem a necessidade de quebrar o silêncio e se proclamar o autor. É José Costa no Brasil e Kószta Zsozé na Hungria. Divide-se entre dois países, duas mulheres e duas realidades, mas não consegue se encontrar em nenhuma delas. O personagem carrega o peso de seus problemas internos e se torna uma sombra de si mesmo, não conseguindo se enxergar em lugar nenhum.

Em seus romances, Chico Buarque cria homens em pedaços, fragmentados na realidade que os absorve. A narrativa em primeira pessoa de seu primeiro romance, Estorvo, caracteriza um personagem que não se enquadra no tempo ou no espaço. Um arremedo humano que conta suas sensações e seus dilemas enquanto se perde diante do que de concreto ocorre à sua volta.

Sem nome, sem definições e contando sua história sem linearidade e sem um sentido lógico, o personagem se isola dos que o cercam na tentativa de fugir de algo que nem ele sabe ao certo o que é. Em determinado momento, afirma: “estou entrando em lugar nenhum e saindo de todos os outros”. Em um transe onírico e absurdo, toma para si uma trajetória que não existe. Suas contradições e seus pensamentos confusos fazem com que ele se torne um problema para todos aqueles com quem tenta algum tipo de convivência, deixando rastros de sua destrutividade por onde passa. Torna-se um estorvo que vaga sem caminhos ou direções.

Caracterizando o homem moderno, Chico Buarque constrói um personagem perdido diante de um mundo cruel e descompassado. Sem dinheiro para pagar o aluguel, o personagem concretiza a perda de sua identidade e mergulha no medo, em um mar de pensamentos vagos e imprecisos. O frenesi dos grandes centros urbanos, com a violência crescente, e o confronto com seu próprio passado se misturam entre pesadelos e fantasias pouco concretas. Sem reflexo e sem caminho, o personagem de Estorvo é um ser que não possui mais recursos para existir.

Já a narrativa em terceira pessoa de Benjamim, diferente do que ocorre em Estorvo, constrói um personagem principal menos fragmentado. Benjamim Zambraia, porém, também vive deslocado de noções de tempo, mesclando passado, presente e projeções do futuro em seus pensamentos. Ao conhecer a jovem Ariela Masé, idêntica ao grande amor de sua juventude, Benjamim vê a chance de retornar ao seu passado glorioso de modelo fotográfico. Projeta na moça as mesmas idealizações fantasiosas de décadas atrás e busca se redimir da vida que já foi. Ao olhar para o espelho, se vê preso ao passado por conta de toda a culpa que carrega por ter sido o responsável pela morte de seu antigo amor. Ancorado em uma espécie de atemporalidade, onde passado e presente se dissolvem e se confundem, orienta seu futuro com o objetivo de pagar pelos seus erros.

O sentimento nostálgico de Benjamim Zambraia e seu acerto de contas com o passado se configura de maneira ainda mais marcante na construção do personagem de Leite Derramado. O velho Eulálio d’Assumpção, à beira da morte no leito de um pobre hospital, conta a trajetória de sua vida para quem tiver interesse em ouvir. Sua narrativa é confusa, imprecisa e se perde em devaneios, derrapando na senilidade de seus anos vividos e nas fantasias que o impossibilitam de enxergar algumas verdades esquecidas por conveniência.

Chico Buarque cria um personagem que se esmera para não se desprender do passado e de suas raízes burguesas. Um homem que não consegue mais se identificar no tempo em que vive. A luta de Eulálio é contra o presente, em direção oposta ao resultado irreversível do final de sua vida. Por meio de sua memória cambaleante, conta a história de um Brasil remoto e retrógrado utilizando para isso um vocabulário antiquadro e bolorento. A narrativa em primeira pessoa mistura fatos da vida presente com acontecimentos que retratam os antepassados de Eulálio. Forma-se, assim, um mosaico sem unidade de tempo. Eulálio não consegue aceitar e enxergar objetivamente que está no leito de morte e que toda a nobreza de seu passado só existe em suas memórias fragmentadas. Alimenta-se do passado para conseguir se enxergar no presente.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses



Um nobre pedido:

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

 

O mundo é vadio e matreiro por natureza. Em todas as partes do globo, os vagabundos não perdem a oportunidade de se esbaldar em folgas. Corroborando com essa ode ao ócio, os parlamentares do planeta poderiam ampliar infinitamente a quantidade de datas festivas, mas deveriam rever os critérios utilizados. Em vez de perderem tempo com a importância de marcos históricos ou religiosos, passariam a estipular feriados com base na genialidade de alguns imortais. Tomemos como exemplo um país digno de aplausos, a Irlanda, que todo dia 16 de junho comemora o Bloomsday, o único feriado no mundo que homenageia um livro, Ulisses, de James Joyce.

Seguindo esse caso notável, o Sete Doses proclama que, a partir de hoje, em todo dia 19 de junho o mundo entra em recesso de 24 horas para reverenciar o nascimento do maior letrista brasileiro de todos os tempos. Os auto-falantes, incluindo os do metrô, dos aeroportos, dos motéis e dos ambientes corporativos mais sóbrios e sisudos, devem tocar ininterruptamente as mais de 300 canções (espantosamente diferentes umas das outras) do gênio.

De forma lamentável, alertamos que nesse dia algumas extremistas perderão os pudores, substituindo as imagens de São Francisco de Assis pelas de São Francisco Buarque, desfilarão com cartazes, camisetas, faixas na cabeça, e exibirão orgulhosas miniaturas de bonecos articulados à imagem e semelhança do mito. Passíveis de punição, elas serão advertidas de que o artista nunca é maior do que sua obra, sendo devidamente despidas e execradas pelos machados dos nossos censores Bossonaros.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e abre o dia fazendo um minuto de silêncio em respeito à obra de Chico Buarque.