Gérson era em casa o coronel que não fora no Exército. Dispensado dos serviços oficiais por problemas nas articulações, passou a tratar a mulher com a dureza e o rigor de um homem fardado. Todos os dias chegava às 19h00min, estafado pela rotina mecânica de seu trabalho público. A subserviência ao seu chefe de escritório era descontada na impavidez aplicada à esposa. Chegava aos berros, chamando a mulher de “estorvo” e a obrigando a lhe tirar os sapatos e preparar-lhe os acessórios de banho. Ordenava Madalena a cozinhar os mesmos quitutes que sua mãe lhe fazia na infância e não se envergonhava de depender inteiramente da esposa. Madalena lhe cortava as unhas, lhe engomava as roupas e até lhe calçava os sapatos. A mulher, com cara de névoa, realizava as tarefas com afinco e de cabeça baixa: uma paciência tibetana.

A rotina do casal Fonseca era mesmo semelhante ao cotidiano militar. Gérson exigia horário para tudo. Até mesmo os banhos da mulher, suas saídas para ir à padaria e ao supermercado eram controladas. Gérson, o avesso da antipatia da porta para fora, era querido no bairro e pedia verdadeiros relatórios aos conhecidos sobre o cotidiano de Madalena. O padeiro, o açougueiro e o entregador de gás eram unânimes ao exaltar a disciplina e esforço inconteste da esposa do coronel. Gérson, lambendo os bigodes negros e grossos, olhava com ar distraído e soltava: “é o mínimo que ela pode fazer; quem bota dinheiro na casa sou eu”.

A manhã de Madalena, por sua vez, era mais previsível do que desfile de escola de samba. Saltava da cama às cinco da manhã, preparava torradas e café para o marido e separava para ele a cueca, o terno, as meias e os sapatos. O acordava carinhosamente e lhe levava o café na cama. Trocava o marido, que como um boneco articulado, apenas encaixava braços e pernas na manga da camisa e na barra da calça. Penteava os cabelos e o bigode do amado, preparava sua marmita e o levava até a porta. Gérson não dizia uma palavra pela manhã. Estranhamente, seu humor não existia naquele horário: ele simplesmente ficava com cara de marido, nem satisfeito, nem insatisfeito.

Quando o esposo saia, Madalena colocava as roupas na máquina, passava as peças que estavam secas e fazia a faxina. No horário marcado, ia à padaria e ao supermercado. Depois de terminar tudo, dirigia-se ao armário do marido e dobrava, milimetricamente, cada meia e cueca, as ordenando por cor. No fim da tarde, ia até o sofá e refestelava-se. Todos os dias realizava o mesmo ritual: fechava os olhos e começava a se despir. Tirava as roupas de Amélia, soltava os cabelos e passava a mão em uma agenda telefônica. Escolhia uma letra do alfabeto e fazia a ligação. Em menos de 10 minutos o escolhido estava em sua porta. Trancavam-se no quarto e de lá só saiam às 18h40min, vinte minutos antes do pontual Gérson chegar.

Madalena colocara em seu cronograma rígido aquele pequeno capricho após conhecer Rafaelo, um entregador de gás que lhe mostrou que tamanho era sim documento e que, na cama, uma mulher precisava de um homem e não de um general com problemas de articulação. Passara, assim, a convidar todos os prestadores de serviço do bairro para contribuírem com suas necessidades físicas e emocionais. De vez em quando, dois, três e até quatro funcionários do comércio local compareciam ao mesmo tempo na cama do coronel. Madalena foi se profissionalizando, comprou fantasias, filmes pornográficos e fazia questão de que o retrato do marido estivesse presente no cenário do  adultério. Achava digno que seu marido, como um guardião, vigiasse suas atividades extracurriculares.

Certo dia, Gérson foi obrigado a sair mais cedo do trabalho e chegou em casa enquanto João, o caixa da Padaria, e Genésio, o  office-boy dos Correios, ainda se encontravam nus, enrolados com Madalena entre os lençóis brancos da cama. Em silêncio, Gérson ouviu nos corredores o som do pecado e o seguiu com os ouvidos abertos, os olhos arregalados e a garganta presa. Abriu a porta devagar, observou Madalena vestida com uma das roupas de sua falecida mãe – que ele guardava, intocável, há mais de 20 anos –, rebolando descontrolada em cima de Genésio. Gérson fechou a porta e saiu de casa. Olhou o relógio e, exatamente às 19h00min, retornou ao seu lar. Abriu a porta aos berros, gritando para que a mulher lhe preparasse logo o banho. Madalena, obediente, lhe deu um beijo na testa e o acalmou: “já está tudo pronto, meu amor”. A disciplina voltava a reinar na casa dos Fonseca. Só era preciso obedecer aos horários.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Foto: Helder Jr.
Ficou na ponta dos pés para se espreguiçar. Sentiu um frio na espinha, e bocejou em voz alta sem perceber. As pessoas que passavam por ali não deixaram de escutar. Mas se surpreenderam, na verdade, com a pose do homem.

Ele não voltara a pisar as solas dos pés no chão. Achou que era uma cãibra passageira, porém não havia dor alguma. Estava enviesado, mesmo. Jogou todo o peso do corpo para trás. E foi então que flutuou.

Sim, o homem planava no ar.

Quem assistiu à cena conta que todos se mostraram sem reação. Boquiabertos, pararam o tempo. Deixaram cair o que comiam. Soltaram alças de bolsas e malas. Largaram suas crianças de colo. Quase tudo não resistiu à gravidade. Restou o sujeito que, perplexos, rodeavam.

Ele próprio era o mais sereno. Girou o pescoço e observou o público presente. Um a um, desviaram-lhe os rostos. Preferiram se entreolhar, em busca de explicações para o irracional. Haviam secretamente desejado um encontro com o esdrúxulo desde sempre, contudo mantiveram a expectativa de recobrar a normalidade do nunca.

O mais altaneiro dos homens foi o primeiro a esfregar os olhos. A escuridão acabou preenchida pela claridade em segundos, e nada mudara. Arremessou-se, desta vez com ímpeto maior, para frente. E subiu mais alguns metros em direção às nuvens.

As crianças que foram jogadas no solo, naquele exato instante, cessaram o choro. Gargalharam como se testemunhassem um espetáculo. Não eram risadas ingênuas. Havia um sarcasmo de adultos nos sons graves emitidos por aqueles meninos e meninas.

Ninguém, no entanto, prestou atenção nas crianças sem colo. Talvez porque uma gorda senhora acompanhou o  movimento seguinte do homem voador. Na mesma hora em que ele pulou novamente, ela se jogou no asfalto. Ficou ajoelhada, brandindo os braços no ar, em gesto de reverência. Seus joelhos sangravam em cortes rasos.

“Amém!”, alguém berrou ao fundo. Lá atrás, todavia, uma agitação superava qualquer louvação. Acontece que um senhor, com pesados óculos pendendo do nariz, queria enfrentar a multidão para atravessar a rua. Trocou xingamentos e até tapas com alguns jovens que se debruçavam em outros para tentar descobrir o motivo da aglomeração. Por sorte, um deles apontou o indicador para cima.

O homem já estava a muitos metros de distância do chão, conforme se espantaram os jovens e o senhor. Esgoelou-se por socorro finalmente, mas, assim como naquele bocejo inicial, não tivera noção do seu ato.

O grito não foi capaz de competir com as vozes dos que se firmaram no solo. Havia quem saltasse na esperança de também voar. Outros acenavam (as crianças e o senhor entre eles) para o homem. Muitos sorriam de felicidade. Chegavam a lacrimejar diante do milagre inalcançado.

Ele olhava para aquilo com desprezo. Decidiu nunca mais abaixar a cabeça. O fato é que não demoraria muito para que, de tão pequeno, o maior dos seres sumisse do alcance de sua vista. Em cerca de cinco minutos, o homem desapareceu no céu azul-poeira. Começou a chover.

As pessoas permaneceram impassíveis até que suas roupas molhadas grudassem nos corpos. Foi o sinal para recolherem bolsas, malas e crianças de colo do chão.

Retomaram os mesmos caminhos de outrora. Um jovem ainda tropeçou na senhora ajoelhada. O senhor discutiu um pouco mais antes de cruzar a rua. E todos estavam em suas casas ao anoitecer.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

Pois é. Para os fãs umas canções de um homem trabalhador:

Clique aqui para fazer o download em mp3.

Vida dura

Despertador, calor, ventilação, torrada, café, banheiro, chuveiro, chave, chove, carro, trânsito, demora, trabalho, patrão, chão, vassoura, loira, cadeira, prato, rato, alho, trabalho, trapo, rua, esmola, cola, roubo, doido, arma, cadeia, tristeza, solidão, explosão, moça, ambulância, hospital, fila, chão, pobreza, riqueza, ladrão, político, propina, avião, Noronha, sombra, água fresca, povo, tristeza, pobreza, feliz nação brasileira.

“Essa é a vida de Sebastião, essa é a vida que me traz a inspiração…”

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses.

Dois amigos no bar:

– Resolvi ficar três meses sem trepar. Quero encontrar meu eu interior.

– Azar o seu.

– Quando encontrar a plenitude eu digo.

– Não, nem me avise.

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Dois amigos no sofá:

– Então você ta saindo com a Paula?

– Teoricamente, sim

– Como assim?

– Inventei a Paula pra lhe fazer ciúme.

– Do que você tá falando?

– Estou falando de nós dois…

– Céus…

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Duas amigas no banheiro de um restaurante:

– Karina, eu traí o Sérgio!

– Meu Deus, por quê?

– Não tenho mais certeza se o amo.

– E agora, como vou olhar nos olhos dele na mesa?

– É.. bem que você anda olhando muito pro meu namorado…

– Loca!

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Dois amigos no metrô:

– Corra atrás dela, rasgue a roupa, peça pra ela voltar.

– Não, eu valorizo muito o livre-arbítrio. Ela que decida.

– E se decidir que não?

– Tenho o livre-arbítrio de matá-la.

– Deus…

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Dois amigos em casa

– Sua relação com a Raquel é engraçada…

– Por quê?

– Vocês nem se vêem muito. Parecem não fazer esforço nenhum…

– Você já teve um grande amor?

– Ainda não.

– Pois saiba que um grande amor é aquele em que você curte, inclusive, a ausência da pessoa amada.

-Você é veado?

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Casal após o sexo:

– O pudor masculino é muito maior que o feminino.

– Do que você ta falando?

– Nós mulheres ficamos de quatro na frente da esteticista pra nos depilarmos. Imaginem vocês, homens, tirando o saco pra fora para o barbeiro dar uma aparadinha…

– Nem fudendo!

– Viu! Vocês são todos uns inseguros com a sexualidade. Um bando de veado enrustido!

– Vem aqui me fazer um fio terra pra você ver.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses, anda muito bem humorado e não deixa ninguém lhe fazer um fio terra

Paulo

Paulo chegara bêbado e perdido em casa mais uma vez. A camisa social amarrotada pulava para fora da calça e os sapatos, muito bem engraxados, apresentavam os cadarços soltos e flutuantes: balançavam pelo ar conforme  os passos tortos e indecisos de Paulo se atrapalhavam com a força da gravidade. O drama durava meses. Os familiares afastavam-se, as pessoas comentavam e as críticas vinham de todos os lados. Apesar do alto cargo que ocupava no emprego, era visto como um lixo de homem e motivo de vergonha da família.

Caio, o filho, espantava-se em ver o pai sair de casa impecável para gerir a multinacional em que trabalhava e retornar desnorteado para o teto da família. Perguntava-se sobre os motivos e decidiu que o diálogo poderia ser o começo de um entendimento.

Em um dos raros momentos de sobriedade de Paulo em casa, Caio puxou uma cadeira da mesa da sala de jantar e o intimou para uma conversa. Pai e filho acenderam um cigarro – como era de praxe durante seus diálogos – e começaram a trocar ideias. Paulo, um homem inteligente e equilibrado quando livre da bebida, foi direto ao perceber as intenções do filho:

– Não precisa falar mais nada, meu egoísmo é um absurdo e eu vou parar de beber. Chega, filho, eu sei que vocês não aguentam mais.

Caio acreditou na palavra do pai, até pela firmeza da voz, pela certeza nos olhos e por não se lembrar de nenhuma promessa não cumprida por ele. No dia seguinte, Paulo saiu de casa vestindo um terno italiano impecável e retornou ainda mais alinhado. Passou a chamar amigos para reuniões, conversava por mais tempo com a esposa, tratava melhor o filho. Voltou a frequentar as festas familiares e se esforçava para agradar a todos. Novamente era respeitado como modelo de homem perfeito: gerente de uma multinacional, pai exemplar, homem de caráter, feliz por suas vitórias.

Em uma noite, poucos meses após parar de beber, Paulo estava sentado com Caio na mesma mesa da sala de jantar. O pai pediu ao filho um cigarro. Ao acendê-lo disse:

– Vou aproveitar, pois esse é o meu último cigarro…

Caio, apesar de espantado, ficou feliz com o fato de o pai tomar a difícil decisão de também parar de fumar. Paulo desconversou e não prometeu nada. Terminou seu cigarro, deu um abraço no filho, dirigiu-se ao seu quarto e enfiou uma bala na cabeça.

A decisão

Resumo do fluxo de consciência de Paulo do momento em que estava no pior estado do alcoolismo até a decisão do suicídio.

Talvez o suicídio. É! Suicídio! Me livro de todo esse vazio de merda, esse emprego que não gosto, essa realidade patética, essa babaquice de ter que vencer na porra da minha vida e deixo meu filho em paz. Não quero desapontá-lo. Não quero viver, não quero! Mas que caralho, todo mundo acha que sou um merda, mas só bebo pra ter que agüentar o fardo de não ter uma puta que o pariu de uma coragem para fazer aquilo que quero, assim como todos eles, todos eles, todos eles. Todos são uns merdas. Vida de bosta, vida de bosta. É tudo um embuste, um grande e escroto embuste, uma mentira atrás da outra. Odeio essa cidade, odeio esse trânsito, essa falsidade, esse teatro, esse medo das pessoas de serem felizes. O meu medo. A porra do meu medo. Eu sou um merda mesmo. Eu vou enfiar uma porra de uma bala na merda da minha cabeça e acabar com isso. Mas vou morrer e não vou provar nada. E estou bêbado demais para decidir. Parar. Isso! Vou parar de beber pra ver se eu tiro essa idéia de bosta da cabeça. Meu filho preocupado e eu aqui fugindo do caralho da minha consciência com essa merda desse uísque barato. Parei! Não dá mais, o Caio tem razão, ele tem. Chega de beber. É só mais um dia nessa merda dessa empresa e vou sair daqui no fim do expediente e não vou beber porra nenhuma. Não vou. Preciso provar a todos que a bebida não é o meu problema. Toda essa merda é meu problema. É ter que usar essa droga desse terno de bosta pra parecer sério. Não quero ser sério, não quero ser sério, não quero! Hipocrisia de bosta, falsidade de merda, preciso sorrir, preciso sorrir, preciso sorrir. Não sou feliz, porra, não sou, não quero ser. Quero mandar todo mundo à merda, todo mundo. Tá tudo errado, tudo errado. Estou perdido nesse caos dessa cidade de bosta. Esse rio fede, essa porra desse rio fede pra caralho. Quero reclamar do rio, quero reclamar. Ninguém me ouve, todo mundo sorrindo para o presidente dessa merda de empresa de bosta. Que calor infernal, esse terno do caralho! Não gosto daqui, quero desaparecer, o presidente quer desaparecer. Ninguém gosta disso, é todo mundo um bando de boneco de madeira. Caralho, caralho, caralho!!! A sobriedade só me deixa mais puto com essa porcaria dessa vida, eu não escolhi isso, eu não escolhi. Eu tenho medo! Eu tenho medo! Por que não fujo? Sumo? Mudo? Por que sou covarde e tenho medo, porra! A bebida não me faz falta, não preciso dela, nada mudou. Todo mundo me respeita agora e eu quero que se foda, é só teatro, é só teatro, tudo é só teatro. Te amo Caio. Eles não me entendem. Ninguém me entende. Você me entende, Caio? Esse cigarro talvez me entenda. Só resta a indiferença; pra mim essa merda não vale nada. Já provei a todos que eu podia me recuperar, que a bebida não era meu problema. Te amo Caio. Será que as pessoas vão perceber que meu problema é o mesmo que o delas? Será que elas pensam como eu? Ninguém gosta dessa merda, ninguém gosta dessa bosta, eu sei, eu sinto, eu sei, sei sim. A vida é cinza! Vou me matar agora!

Obs.: De acordo com pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), 60 mil pessoas tentam se matar por dia no mundo. Dessas, aproximadamente três mil conseguem. Os dados estão abaixo da realidade, já que muitas famílias escondem a causa da morte por vergonha e o continente africano não é contabilizado. O número de suicídios aumentou assustadores 60% nos últimos 45 anos. Por ano, mais de 1 milhão de pessoas se cansam da realidade e tiram suas próprias vidas. Paulo foi só mais um. O assunto ainda é tabu pelo fato das pessoas terem medo de pensar e falar sobre ele.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e pede para que as pessoas não se deprimam com seus textos, apenas pensem. E não, ele não pretende se suicidar e nem está incitando o ato