Durante a primeira Guerra Mundial, Freud parou para pensar sobre o fanatismo dos vienenses por conta do conflito. Para a população, o inimigo tinha de ser massacrado. Com o aumento do nacionalismo, as bandeiras foram colocadas nas janelas das casas e a união entre as pessoas cresceu consideravelmente. Todos estavam excitados, felizes, empolgados com a luta contra um inimigo comum. Freud não se sentia diferente dos outros, mas ao contrário da maioria, parou para pensar nos motivos de estar com aquelas sensações.

É provável que tenha sido a partir dessa percepção que o médico criou um dos fundamentos mais importantes da psicanálise: a pulsão de morte. Todo ser humano tem dentro de si, inerente e inconsciente, uma pulsão destrutiva. Seria o lado negro de todos nós. Ao pensar sobre isso – conscientizar o fato – percebeu o absurdo que é a guerra: a concretização em estado puro da pulsão de morte do ser humano. Com esta ideia, Freud tinha uma visão neutra e privilegiada do conflito. Enquanto as pessoas estavam cegas pelo nacionalismo e pela união contra o inimigo, ele desenvolvia sua teoria revolucionária.

Esse fato se repete na história incontáveis vezes. Após o atentado terrorista de 11 de setembro, os norte-americanos se uniram por conta da dor que sentiram e elegeram um inimigo para combater. Isso deu força para que eles superassem a tragédia. A pulsão de morte dos terroristas foi respondida pela pulsão de morte dos norte-americanos. Uma simples troca de destrutividade. A guerra alivia esse instinto de morte do homem e por isso ela é tão comum ao longo da história. É como uma válvula de escape.

No futebol mesmo observamos isso com facilidade. A rivalidade entre dois times, quando não se torna agressiva, pode ser extremamente saudável, pois estamos exercendo a pulsão de morte (que é fundamental para a estrutura psíquica) de forma sublimatória. Sem violência, apenas com a torcida, o ser humano pode xingar o adversário, gritar e se unir contra um “inimigo” em comum. É a mesma sensação da guerra mundial ou da guerra contra o terror, mas sem a concretização da violência. Por isso o futebol é tão apaixonante.

Muitas vezes, no entanto, mesmo sem violência, o uso de nossa pulsão de morte pode ser devastador, principalmente na política. E é exatamente isso o que acontece nas eleições presidenciais deste ano. Temos uma verdadeira guerra entre dois partidos, entre Dilma X Serra, entre o bem e o mal, entre veículos de imprensa com posições contrárias. E vejo, perplexo, pessoas bem informadas e esclarecidas defendendo com unhas e dentes um ou outro lado. E eles nem percebem o quão próximo estão do radicalismo. Por isso, resolvi pensar.

Primeiro, quero dizer que meu voto no segundo turno é para Dilma. Dessa forma, não fico em cima do muro. Resolvi pensar, mas tenho minhas opiniões e meu voto já está decidido. Segundo, que voto com certa dúvida por conta do vale tudo das eleições, por saber que tanto o PT quanto o PSDB entraram em um jogo sujo em que a imprensa e os eleitores também jogam. Na primeira eleição com a Internet totalmente difundida, estamos todos perdidos.

De um lado, blogs que fazem acusações mirabolantes, atirando para todos os lados e defendendo Dilma como se ela fosse a madre Teresa de Calcutá e Lula como um mártir sem defeitos. Do outro, uma imprensa descomprometida com a verdade, que joga sujo e priva seus jornalistas da liberdade de expressão por estarem ao lado da eterna elite patética paulistana. Um jogo de interesses que enoja meus amigos jornalistas ainda acordados e faz supor que nessas eleições a velha imprensa jogou o último punhado de terra em seu túmulo. Na Internet, informações ao sabor de interesses, desencontradas e mentirosas. Eleitores tucanos e neotucanos (esquerdistas que idealizavam o PT e agora precisam de um novo partido para veneração) demonizam o PT, enquanto eleitores de Dilma pintam José Serra como um vampiro amaldiçoado. Se pudessem, os militantes pegariam em armas para defenderem seus adorados candidatos.

A denúncia de que Lula é um possível ditador que controla as massas e quer controlar a mídia, por exemplo, é de um absurdo cego. Se assim fosse, a grande imprensa não existiria mais, pois ela, muitas vezes de forma completamente irresponsável e antiética, massacrou o governo durante oito anos sem parar. A imprensa é a grande derrotada dessa eleição: parece uma criança mimada que não pode ser contrariada de maneira alguma, que pode espernear e dizer o que quiser da forma que quiser. Confunde liberdade de expressão com vale tudo. O tema do aborto, que demonstra que o País ainda está na Idade Média, mostra como a doença religiosa ainda invade livremente a política brasileira. Uma tragédia. Os dois candidatos, dessa forma, são obrigados a se enquadrarem em posições avalizadas por pastores e padres com sérios distúrbios psicológicos. E aí deles se não se disserem contra o aborto, serão massacrados e demonizados nos templos e igrejas do País.

Isso não tem nada haver com política. Isso tem relação com a falta do pensar, do desespero pela união contra um inimigo (Deus X Diabo, Vida X Aborto, Rico X Pobre, Direita X Esquerda, Veja X Carta Capital, Paulo Henrique Amorim X Reynaldo Azevedo). Isso é destrutividade, pulsão de morte como explicado por Freud um século atrás. Mas ninguém leu Freud com atenção, porque ninguém quer pensar, todo mundo quer a comodidade de só opinar ou criar a fantasia de um Deus onipotente. Marina Silva, em quem votei no primeiro turno, está sendo exaltada por jornalões que, por seus interesses, desmatariam as florestas sem pestanejar. Tudo para conseguir o apoio dela para Serra. Esperemos que a Marina, com aquele olhar brilhante nas coletivas pós-eleições, não se perca nos elogios e no deslumbramento de sair na capa da Folha como uma nova força política. Outro perigo é o de promessas do PT de cargos para o Partido Verde. Espero que ela apóie quem ela quiser, mas por ela mesma e pelas discussões dentro do partido.

Pensei em tudo isso, pois eu mesmo quase me perdi neste furacão de sensações agradáveis de me unir contra um inimigo. Quando soube da demissão da psicanalista Maria Rita Kelh – uma das mulheres mais brilhantes deste País – por conta de um artigo ponderado e de certa forma elogioso ao governo, meu sangue subiu e minha intenção de voto em Dilma quase se transformou em militância cega, com a acusação de que Serra é um autoritário fascista. Pode ser que Serra seja mesmo tudo isso – não duvido, não o conheço –, mas tenho que pensar que esse vale tudo também está do outro lado. Assim como Freud fez na primeira guerra, parei para pensar e observei todos os pontos. Vou votar em Dilma, mas com a certeza de que não é esse sistema político que quero para o meu País. Esse esgoto só vai diminuir quando nós todos nos dermos conta de quão culpados somos pelos absurdos que escorrem das páginas dos jornais e das telas da televisão. A guerra está dentro de cada um de nós. Serra ou Dilma não vão nos salvar. Um País decente se constrói com uma população madura emocionalmente. Estamos bem longe disso.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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Dedos entrelaçados, mãos pequenas próximas à boca. Fábio, de joelhos no beiral da cama, quase não a alcançando, sussurra o “Pai Nosso” de olhos fechados. Nunca soubera ao certo porque fazia aquilo. Aprendera com a mãe e agora nem precisava mais dela para cumprir o ritual. Tinha seis anos. Naquela noite decidiu pensar com quem conversava. Parou de sussurrar, abriu os olhos e fez cara de interrogação. Aquela seria uma dúvida que o atormentaria para o resto da vida.

A primeira vez que tomou a hóstia, no dia de sua primeira eucaristia, Fábio sentiu um gosto de nada em sua boca. Perguntou-se, apesar de cumprir o ritual, qual era a razão daquela bolacha sem gosto ser considerada sagrada pelos homens. Aos doze anos, continuava sem entender os motivos que o levavam a comparecer todos os domingos à missa. Aqueles santos, o homem fantasiado que dizia sermões, os coroinhas com cara de sono, as pessoas que cantavam a plenos pulmões os cantos. Sempre fora, no contexto eclesiástico, um peixe fora d’água.

Aos dezesseis anos, quando sua mãe já havia o inscrito para a crisma, resolveu se posicionar.

– Mãe eu não vou fazer crisma. Eu tenho dúvidas sobre a existência de Deus.

– O que você está me dizendo? Desde quando você não acredita em Deus?

– Não disse que não acredito, só tenho dúvidas. Desde os seis anos penso nisso, quando percebi que minhas preces não eram atendidas. Você não percebeu que parece que estamos rezando para ninguém? Que Deus pode ser tipo Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa?

– Como assim? Você não acredita em nada superior? Então pra que tudo isso? Qual a razão do mundo e da vida se não tiver um ser superior nos olhando?

– Sei lá, mãe. Eu gosto de jogar fliperama, de ficar na Internet. Não sei. Gosto de batata frita, por exemplo. E não disse que não acredito, só tenho minhas dúvidas. Não é saudável?

– Você está fora de si! Vai fazer crisma, sim! Você não consegue casar se não fizer. Depois, você segue o que quiser, mas a crisma vai fazer.

– Mas eu não sei se eu quero casar, mãe.

– Deus existe e acabou! Vai fazer crisma, sim senhor.

Contrariado, Fábio frequentava a crisma com má vontade e sem nenhum compromisso. Matava as aulas e era tido como o menino malvado da classe. Tomou gosto por duvidar de Deus e resolveu estudar. Foi à biblioteca municipal e aprendeu com Friedrich Nietzsche que Deus estava morto, leu “O Ser e o Nada”, de Jean-Paul Sartre, e percebeu que Deus tapava os buracos existenciais humanos. Aprendeu com Freud que a crença em Deus era provavelmente uma ilusão infantil do pai ideal e que a religião não passava de uma neurose universal. Entendeu que o homem crê em Deus para não enlouquecer diante do absurdo. Leu os livros da moda que negam com veemência a existência de Deus e percebeu que a fé no ateísmo pode ser tão religiosa quanto a própria crença que os autores atacam. Sentiu-se triste, mas ainda não estava convencido. No fim, tomou a decisão de investigar Deus por sua conta e risco.

Como surpreender Deus? Como encontrá-lo e provar ao mundo a sua existência? Onde estaria o criador do céu e da terra? Ele era mesmo invisível? Fábio decidira que descobriria tudo e não pouparia Deus no caso de sua inexistência. Queria descobrir, queria tirar a sua dúvida. Mas suas ferramentas eram poucas, resolveu se contentar com um trabalho de pesquisa. O primeiro homem que procurou foi o padre da igreja de seu bairro.

– Padre, tenho tido dúvidas sobre a existência de Deus. Existe alguma prova irrefutável que ateste que Ele criou o mundo.

– Você está duvidando da existência de Deus, meu jovem? Você está bem? Isso me parece uma loucura de sua parte. Você nunca leu a Bíblia? Deus criou tudo e isso é impossível de negar. Se não fosse ele, quem seria?

– Eu já li a Bíblia sim, padre, me parece um romance muito sábio e bem escrito, com histórias fascinantes. Mas lá não existem provas, é só uma história.

– Você está louco! A Bíblia é o livro sagrado, não pode ser contestada. É pecado!

– Mas por quais motivos não posso duvidar?

– Pare de pensar sobre isso, menino! Deus existe e acabou!

Fábio anotou a conclusão de seu primeiro interrogatório e resolver ir conversar com um professor da faculdade de seu bairro, famoso e desdenhado por se proclamar ateu.

– Professor, tenho dúvidas sobre a existência de Deus. O senhor tem alguma prova irrefutável de que Ele não existe?

– É óbvio que Ele não existe. A ciência avançou, sabemos que o universo foi criado a partir de uma explosão e de que o homem é originário dos macacos.

– Mas existem muitas coisas na vida sem explicação. O que faz uma planta crescer? O que faz a natureza agir? Quem comanda tudo isso?

– Garoto, leia os clássicos, os filósofos.

– Já li todos eles, mas nenhum tem uma prova. Os argumentos são geniais, mas preciso de provas, entende?

– Escuta uma coisa: Deus não existe e acabou!

Sua última entrevista seria com um filósofo famoso que negava a existência de Deus e que dizia ter provas disso.

– O senhor pode me apresentar essas tais provas?

– Claro, eu explico. O sistema epistemológico da existência, crucial para o entendimento endocompartimentado de uma sociedade em crise pós-moderna, tange o ser humano para um vazio de compreensão de seu processo meta histórico e de seu papel usurpador da razão. Todavia, o fato da religiosidade se pretender um resultado das partes pseudomencionadas nos obrigam a crer que a existência de Deus é uma invenção parapsicológica da mentalidade clássica, contemporânea e materialista.

– Desculpe, mas eu não entendi.  O que eu quero é uma prova.

– Garoto, Deus não existe e acabou.

Fábio compilou os dados levantados nas entrevistas e percebeu que todos os entrevistados afirmaram a mesma coisa, apenas com a mudança do ponto de vista. “Deus não existe e acabou”, do filósofo e do professor, contra “Deus existe e acabou”, afirmado por sua mãe e pelo padre. Eram essas as conclusões de seu estudo teórico. Terminada a segunda parte decidira: visitaria o Vaticano para um trabalho de campo. Por milagre, como se Deus o estivesse auxiliando, conseguiu uma conversa particular com o Papa. Tinha certeza que frente a frente com a maior autoridade religiosa do mundo obteria respostas para suas indagações.

– Senhor, Papa, tenho dúvidas da existência de Deus e estou realizando uma pesquisa sobre isso. Os especialistas ouvidos apontam dois pontos de vista: “Deus existe e acabou” e “Deus não existe e acabou”. Gostaria de um parecer mais detalhado.

– Leia a Bíblia. Está lá tudo que você precisa saber. Só isso?

– Mas eu acho que a Bíblia é só uma história maravilhosa. Alguns gênios do pensamento humano escreveram livros muito bons com argumentos sólidos duvidando do Deus que sua religião crê. O que tem a dizer sobre isso?

– Que o homem tenta explicar as coisas por meio de filosofias e ciências, mas sempre vai precisar de Deus.

– O senhor já leu esses pensadores? Eles parecem ter razão. Eles têm argumentos.

– Já li todos eles sim, são pessoas com conhecimento, mas sem fé. Quem não tem fé não tem nada.

– Por quê?

– Por que a fé move montanhas.

– Mas o senhor tem uma prova irrefutável da existência de Deus?

– Garoto, Deus existe e acabou!

– Muito obrigado pela ajuda, senhor Papa.

– Chegou a uma conclusão, meu filho?

– Cheguei, sim. Não sei se Deus existe e acabou!

André Toso escreve religiosamente para o Sete Doses aos domingos

 

Aos 33 anos Samuel quase concluiu a primeira leitura de sua vida. Deitado, fechou o livro com força, e uma pequena nuvem de pó formou-se por entre os raios de sol que invadiam o quarto. Parou de ler no penúltimo parágrafo da página 1217 do Apocalipse. Faltavam apenas cinco míseras linhas para o ponto final da Bíblia, quando ele sentou-se na cama, e pensou: “Não quero saber como termina esta história”. Com a mente ziguezagueando entre dúvidas e convicções, decidiu abandonar tudo o que já tinha vivido para virar padre.

Em menos de uma semana já estava exercendo a profissão. O exame admissional foi uma barbada. Provou não ter antecedentes criminais e, no teste toxicológico, comprovou não usar nenhum tipo de droga. De fato, tornar-se um proletário da Igreja era moleza. O departamento de Recursos Humanos não estava interessado em saber se os candidatos tinham vocação, queria apenas ampliar sua massa de manobra.

Samuel estava radiante. Não era para menos, havia sido convocado para a única vaga que lhe interessava: o confessionário. Gostava de se relacionar com desconhecidos sem que eles pudessem ver seu rosto. Na penumbra do quartinho dos fundos da catedral, sentia-se pleno e seguro. Por trás daquele biombo clássico, vazado em forma de pequenos losangos, perdia a conta de quantas taças de vinho tomava de graça e das verdades absolutas que despejava nos ouvidos dos fiéis.

Estava no terceiro dia em seu novo emprego e ainda não tinha se acostumado com as privações do celibato. Sabia como ninguém que até o espaço físico da igreja era contraditório, um lugar tão frio e escuro, que, ao mesmo tempo, despertava sentimentos tão quentes. Arredio a normas e imposições, Samuel – que jamais deixaria que colocassem uma foto sua no mural do “Funcionário do Mês” da empresa – resolveu se aventurar no purgatório.

Numa tarde tediosa, com pouca visitação dos desesperados anônimos, após ouvir atenciosamente as confissões de um jovem de voz rouca e fala atropelada, abriu a portinhola e o convidou a entrar. Aos poucos, com sua oratória convicente, seduziu o rapaz, que, confuso e reticente em se entregar às carícias de Samuel, adormeceu no peito do padre.

Nos quatro dias seguintes, o garoto não saía mais da sacristia. No confessionário, que havia se transformado praticamente em uma suíte, os dois viravam do avesso os quadros de imagens sagradas pregados na parede, vivendo um romance tórrido. No sétimo dia, em vez de descansar, Samuel decidiu pedir as contas da Igreja. Só não sabia como o faria diante do Diretor Executivo Ultra Sensível.

Cheio de coragem, via agora a vida sob um ângulo inusitado, literalmente. Acostumado a ser todo ouvidos para os tortos da vida, deixou o anonimato para se expor do outro lado do confessionário. Assumiu seu amor pelo jovem confesso, alegando que não dava para comparar o compromisso que tinha com o menino com o comprometimento que tinha com Deus. Depois de assinar a papelada da recisão contratual, arrancou a batina e se despediu com um vídeo do sambista Angenor de Oliveira. Respeitosos, os sinos abriram mão de fazer alarde para sempre. Senhores das horas, dos minutos e dos segundos, por fim aprisionavam os cânones num passado sem volta.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

 

Em plena sexta-feira, 13, Deus acordara farto de tudo, até de si mesmo. A Igreja Católica andava lhe dando muitas dores de cabeça. Todas as reclamações dos fiéis e dos infiéis iam direto para seu castelo celestial, mesmo que as autoridades cristãs aqui embaixo não soubessem disso. Críticas pesadas por causa da condenação ao aborto de uma menina de nove anos; bicentenário do anticriacionista Charles Darwin; bispos negando a existência do Holocausto; igreja evangélica montando um ringue de vale-tudo para atrair mais jovens para seu rebanho minguante.

Matutou exaustivamente por seis dias. No sétimo, voltou a descansar. Estava fora de ritmo, afinal havia mais de 2009 anos que não trabalhava de verdade. De fato, todos aqueles problemas lhe perturbavam, mas nenhum o afligia tanto quanto as infinitas interpretações que surgiam dia após dia sobre a Santa Ceia. Decidido a acabar com todas as heresias que cercavam o tema, passou a mão no telefone e ligou para seu subalterno preferido, o papa Joseph Ratzinger.

– Olá, Rat. Como vai? Muitos problemas?

– Vou bem, Senhor, amém. As missões cotidianas são muitas, mas, aos poucos, o Vaticano está contornando. E seu Filho, quer dizer… meu Pai, como vai?

– É justamente sobre Ele que quero falar, Rat. Sabe a Santa Ceia? Andei pensando bem e me dei conta de que Ele sofreu uma grande injustiça naquela noite. Acho que merecia uma despedida mais digna, menos melancólica.

– Meu Deus! Amém. E o que o Senhor pensa em fazer?

– Vamos dar uma grande festa, sem apóstolos. No lugar deles, quero reunir doze sambistas, que, assim como meu Filho, não tiveram um adeus honesto.

Não tinham tempo a perder, já que a comemoração estava marcada para aquela sexta-feira, 13, mesmo. Com Deus, tudo era para ontem. Ele cuidou dos convidados e do local. Bento XVI ficou encarregado da divulgação pelo mundo e dos preparativos. Em vez de vinho, muita cerveja e cachaça, e no lugar do pão, salames, torresmos e tremoços.

Todos os sambistas responderam positivamente ao RSVP divino. Quem se atreveria a recusar uma convocação daquelas e cometer tamanha blasfêmia? Vestidos de branco, completamente espantados, eles foram chegando um a um ao altar decorado com mudas de rosas e folhas secas. Nas mãos, caixinhas de fósforo, pandeiros, violões e cavaquinhos. Aos pés do morro do Pindura Saia, passistas, baianas, freiras e cabrochas recepcionistas checavam os nomes e as fotos dos convidados, e barravam os Judas e penetras que não estavam na lista.

Os 12 apóstolos: Dorival Caymmi, Noel Rosa, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Ataulfo Alves, Argemiro Patrocínio, Sinhô, Zé Kéti, Cartola, Adoniran Barbosa e Geraldo Pereira.

Os mini-12-apóstolos: Dorival Caymmi, Noel Rosa, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Ataulfo Alves, Argemiro Patrocínio, Sinhô, Zé Kéti, Cartola, Adoniran Barbosa e Geraldo Pereira.

Como oferenda à despedida tão pomposa do Messias, eles levaram debaixo do braço canções que haviam feito muito sucesso. E, em um sistema de rodízio interpretativo, cada um daquela dúzia de gênios teve de cantar as doze músicas ali reunidas, totalizando no fim da noite 144 apresentações.

Todos seguiram o protocolo do repertório, cantando sambas que citassem pelo menos uma vez palavras como “Deus” ou “Senhor”. Porém, como haviam previsto, quebraram o decoro religioso por inúmeras vezes, ao usar palavras de baixo calão, acender um cigarro atrás do outro e fazer trocadilhos com “água-benta” e “aguardente”. Ao final de mais de sete horas de transmissão ininterrupta feita em parceria por Globo, CNN e Al Jazeera, o mundo, extremamente perplexo, aplaudia de pé aquela despedida, que chegava ao fim com os versos de “Vou partir”, interpretados pelo próprio autor: Nelson Cavaquinho, o São Francisco do Samba. O espanto do público após aquela liturgia exótica se justificava. Não era todo dia que se conseguia unir sagrado e profano com tamanha naturalidade, e ver Cristo sambando como se fosse Carlinhos de Jesus.

O purgatório acabava ali. Com uma Santa Ceia apoteótica, os doze apóstolos do samba subiam o morro para, enfim, poderem subir ao céu.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Setes Doses. Nas horas vagas, reza e se confessa.