Os passos lentos de Jairo atestavam o pesar que a gravidade adquire com o avançar da idade. Como fazia todas as tardes, flanava, cambaleante, pelas ruas arborizadas e movimentadas do Jardim Europa. Foram trinta anos de sua vida trabalhando naquela região e, depois de aposentado, andar por ali era como viver o passado, nublar o futuro e matar o presente. Observava as mansões imponentes e o entrar e sair dos carros importados das garagens. Prostrava-se, principalmente, em frente a uma casa na Rua Atlântica e ali deixava seus pensamentos nostálgicos desenrolarem-se.

Os altos portões brancos do casarão, sempre cerrados com cadeados e correntes grossas, emolduravam um jardim impecável, ornado por bromélias, lírios, cravos, margaridas e flores do campo: todas simetricamente espalhadas por uma área de mais ou menos 60 metros quadrados. Olhava para aquele jardim tão bem aparado e lembrava-se da época em que era ele quem cuidava daquele pequeno paraíso. Ao olhar com mais atenção para aquele mar de flores, observou, maravilhado, um único e solitário botão de rosa vermelha. Em destaque, balançava com o sabor do vento e anunciava a tempestade que se aproximava. Jairo abriu o guarda-chuva, olhou por mais alguns segundos e se dirigiu ao ponto de ônibus. Em pouco tempo, pingos grossos de água começaram a tingir o asfalto.

De volta à sua realidade – uma casa de um quarto na Zona Leste da cidade –, beijou a testa da mulher e ligou a televisão. A vida ociosa desmanchava-lhe o prazer pelas coisas, e o meio da tarde era o horário que mais lhe incomodava. Enquanto todos estavam ocupados com seus compromissos, ele e sua mulher se preocupavam apenas com o horário e o cardápio do jantar. A existência, desde que os filhos debandaram de casa, tornou-se enfadonha e chata. A morte, cada vez mais próxima, parecia o único objetivo concreto. Mas um simples comentário de sua mulher lhe despertou uma ideia:

– No mês que vem fazemos 45 anos de casados. Sabia?

Fingindo não prestar muita atenção para o que a mulher dizia, meneou com a cabeça em sinal de positivo e fingiu estar entretido com a televisão. Mas seus pensamentos iam longe. De súbito, lhe veio a ideia de presentear a mulher com a flor que ele vira aquela tarde na mansão da Rua Atlântica. Era o presente perfeito para fazer sua amada sorrir novamente. Uma flor como aquela iluminaria novamente seu lar e daria novo fôlego para os próximos últimos anos de matrimônio. A esperança encheu-lhe o peito de coragem.

No dia seguinte, ao conversar com o motorista de táxi que trabalhava em frente à sua casa – um velho conhecido que lhe prestava uma amizade quase terapêutica -, Jairo contou dos planos de roubar a “Flor dos Jardins”, como a apelidou carinhosamente.

– Que é isso, rapaz, virou moleque de novo? Vai roubar flor pra dar pra namorada? Bate na porta e pede a flor pro seus antigos patrões. Você mesmo diz que eles sempre foram gente boa.

– Você não entende – disse Jairo, saindo sem nem se despedir do amigo.

Os planos de Jairo eram bem claros. Na calada da noite, pularia o portão da mansão, arrancaria a rosa que se destacava no meio do jardim e iria embora. Entregaria a flor para a mulher no dia do aniversário de casamento com uma fita branca enrolada no cabo. Ele tinha um mês para arquitetar toda a operação, que apesar de simples era considerada por ele de alto risco. Comprou um caderno na papelaria e escreveu com letras vacilantes na capa vermelha: “PROJETO FLOR DOS JARDINS”. Descreveu ali os propósitos de sua missão, os motivos de se arriscar em tal empreitada e aproveitou para declarar seu amor pela esposa com um pequeno poema:

A Missão:

Romanticamente, como os bons e velhos amantes faziam, irei usurpar a rosa vermelha mais linda que já vi para presentear minha esposa. Farei isso um dia antes de nosso aniversário de matrimônio. Após Sofia dormir, sairei de casa portando dinheiro para o táxi, este caderninho e meu documento de identidade. Pularei o portão, arrancarei a flor e retornarei para minha casa. Acordarei Sofia, pois presumo que já terá passado de meia-noite, e entregarei a flor para ela com uma fita branca enrolada na base da copa com a seguinte montagem do texto “Para Uma Menina com uma Flor”, do poeta brasileiro Vinicius de Moraes:

“Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”

Os Motivos

Provarei meu amor por Sofia invadindo humildemente uma mansão de ricos para demonstrar a ela que o amor pode tudo. Vou provar a ela que o amor resiste ao tempo e a todos os descaminhos da vida. Não é pelo fato de viver apenas com uma aposentadoria tão pequena que não tenho o direito de entrar na mansão que um dia trabalhei e dar à minha esposa a flor mais linda da cidade. Não quero pedir mais nada a meus antigos patrões, não dependo deles, sou um homem livre que pode conseguir as coisas pelos próprios esforços. E vou conseguir aquela rosa. Sou um homem pobre, mas conheço de flores e sei que aquela é especial. Darei a rosa à minha menina e nossa relação voltará a ter fulgor como outrora. Creio nisso como creio no bom Deus.

Pequeno poema à Sofia

“Encontra-me no Paraíso, Oh Sofia

Seus cabelos me inebriam

Sua pele me fascina

Todos os dias eu insisto, Oh Sofia

Sua beleza é um desatino

E essa rosa eu lhe dedico”

Obs: Só entregarei o poema à Sofia se tiver coragem. Ainda não decidi.

Os escritos no caderninho passaram a ser rotina na vida de Jairo. Passava horas construindo frases e poemas de amor para Sofia, embrenhando-se em parques da cidade para ganhar inspiração da natureza. Visitava todos os dias a mansão do Jardim Europa, observando a rosa de longe, fascinado. Escrevia no caderninho tudo que sentia durante aqueles encontros.

Na noite do roubo, Jairo estava apreensivo. Após a mulher pegar no sono, vestiu um sobretudo negro da época de juventude, colocou um chapéu na cabeça e um cachecol pendurado no pescoço. Foi na ponta dos pés até o armário do quarto, pegou as poucas economias para pagar o táxi, colocou o caderninho de capa vermelha debaixo do braço e saiu.

Nervoso, pediu para o taxista lhe deixar na esquina da Rua Groelândia com a Colômbia, uma quadra antes da Atlântica. Com passos lentos e decididos, dobrou a esquina e chegou à porta da mansão. Tranquilamente, colocou o caderninho no bolso, observou a escuridão silenciosa do jardim e sem pensar muito pulou o portão com toda a dificuldade que sua idade avançada requeria. Devagar, com pés de algodão, caminhou pelo trilho de concreto que circundava as flores. Só ouvia o som do vento frio e forte que soprava. Observou a flor, que, solitária, pendia de um lado para o outro ao sabor do vento. Estava derramada em escuridão. Com cuidado, embrenhou-se no meio das flores e arrancou o cabo da rosa com um puxão seco e certeiro. Parou por um instante, hipnotizado por sua beleza. A olhava, enternecido, como um jovem que observa pela primeira vez a nudez muda de uma mulher. Minutos se passaram e Jairo prosseguia estancado feito uma estátua no centro do jardim, olhos úmidos e vidrados. Vozes surgiram de dentro da casa e se somaram a latidos de cães. Apesar das luzes que se acenderam no interior da mansão, o breu ainda dificultava a visão e o olfato se tornava o sentido mais aguçado, atingido em cheio pelo perfume das flores. Passos apressados chocavam-se contra a grama úmida pelo orvalho da noite. Dois estampidos, sobrepondo-se um sobre o outro, ressoaram no ar. O segurança, ofegante, observou um vulto se inclinando em direção ao colchão de flores que os cercavam. O vento, furioso, folheava enlouquecidamente as páginas de um caderninho vermelho caído ao lado do suposto ladrão. No ar, pétalas de rosa levantavam vôo e bailavam desesperadas pelos arredores do jardim. A lua cheia – romântica e melancólica – iluminava tudo.

Título em homenagem à canção “O Velho e a Flor”, de Vinicius de Moraes, Toquinho e Bacalov. A música e a letra:


Por céus e mares eu andei

Vi um poeta e vi um rei

Na esperança de saber o que é o amor

Ninguém sabia me dizer

E eu já queria até morrer

Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho

É o espinho que não se vê em cada flor

É a vida quando

Chega sangrando

Aberta em pétalas de amor

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

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A história a seguir é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade é uma pura constatação do óbvio sem valor de veracidade e sem possibilidade de processo.


Acorda no momento em que abre os olhos, sem despertador e sem pressa, coloca o terno de 20 mil dólares e pede um cappuccino para a empregada, que está com a cara costumas de incomodada por se sentir ridícula vestindo sua fantasia em branco e preto. Ele toma seu café, passa o olho na capa do jornal Valor Econômico e pede para o motorista esperá-lo. Já no carro oficial que um Presidente do Senado de seu porte tem direito, troca algumas palavras com seu condutor, um velho amigo de sua filha, e tira uma pequena pestana. Acorda com o veículo parado em frente ao seu local de trabalho. Ajeita o bigode e os óculos, desamarrota a camisa e respira fundo. Ao sair do carro, olha fixamente para a bunda de uma secretária que passa distraída. Sabe que será mais um dia duro de trabalho.

Ao entrar no Senado, passa pelas salas de todos os parentes que nomeara após ser eleito o presidente da casa: era a única forma de contato que mantinha com a família, não poderia deixá-los longe de seu olhar. Abraça-os fervorosamente, beija-os e demonstra um carinho exagerado e quase meloso. Conversa cerca de 10 minutos com cada um até chegar à sua própria sala. Senta-se na poltrona de veludo vermelho, ornada com pingentes dourados, e sente-se bem. Desde que assumira o Senado, era uma prática comum prostrar-se naquela cadeira e pensar em sua trajetória política. Fecha os olhos, morde os lábios e demonstra em suas feições o mesmo prazer que sentira ao observar a bunda da secretária.

Seu ritual só é interrompido pelo tilintar frenético do telefone. Do outro lado da linha, seu sobrinho e assessor tranquilamente lhe passa as últimas questões sobre a maré de denúncias contra ele:

– Olha, excelentíssimo, a oposição está pedindo sua cabeça, a imprensa está fechando o cerco também, mas o governo já declarou apoio. Só peço pra você não dar entrevista e continuar tocando sua vida normalmente. Deixa que a gente blinda o senhor aqui. Ah, duas boas notícias: arranjamos um protesto no Maranhão contra as acusações que o senhor sofre e a Academia Brasileira de Letras convida o senhor para homenageá-lo em uma tentativa de aliviar essa pressão. Já acertamos tudo, ficou até barato. Vai ser na próxima sexta, com ampla cobertura da sua emissora de televisão e tudo. O presidente da Academia, aliás, lhe mandou um abraço e perguntou quando vocês vão jogar squash juntos novamente.

Desliga, olha para o relógio e sai apressado para um almoço marcado com alguns empresários. Enquanto fartam-se, cercados por vinhos e massas, conversam sobre a estratégia política para evitar um possível afastamento. O Presidente, quieto, pensa na bunda da secretária. Enquanto escuta os murmúrios ditos pelos seus bajuladores, pede licença e se dirige ao banheiro. Tranca-se em uma das cabines, abre a braguilha da calça e, lentamente, começa a se masturbar. Cerra os olhos, fixa-se na bunda da secretária, e esboça a mesma expressão de prazer de quando se refestelara em sua cadeira dourada horas atrás. O processo é rápido. Se limpa com o papel higiênico, dá a descarga e olha para o relógio: 15h30min. Com os grossos bigodes impregnados de gotículas de suor, ajeita a gravata, observa-se no espelho, sai do toalete sem lavar as mãos e resolve que o melhor é ir para casa descansar e pensar sobre suas próximas estratégias políticas. Fora, como ele mesmo imaginara, mais um dia duro de trabalho.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

O texto dessa semana foi publicado na revista Bravo! no ano passado. Trata-se de uma análise do conto Judas Iscariotes, de Leonid Andreiev. É um dos contos mais geniais que já tive a oportunidade de ler, por reconstruir a figura bíblica de Judas de forma humana e profunda. Realmente essa semana não tive tempo para sequer pensar em algum texto inédito.

Em “Judas Iscariotes”, o autor russo Leonid Andreiev (1871-1919) se utiliza de uma famosa história bíblica para tratar das contradições humanas. A traição de Judas a Jesus Cristo é recontada por meio de uma narrativa elegante e inteligente que analisa quase psicanaliticamente os personagens envolvidos. Contemporâneo ao nascimento da psicanálise e ao início da teorização sobre as vontades do inconsciente, Andreiev levanta questões existenciais sobre as reais motivações do ato de Judas e o porque de suas consequências.

No conto, Judas aparece como um homem contraditório, ora visto como um mau caráter mentiroso, ora enaltecido pela sua inteligência e visão realista do mundo. O próprio leitor, em seu julgamento, engana-se sobre as verdadeiras motivações do traidor. Para o Judas de Andreiev, não existem pessoas bondosas, mas sim homens aduladores e astutos que conseguem ocultar seus atos vis. Para ele, como para o pai da psicanálise, Sigmund Freud, é preciso enxergar toda a escuridão dos homens para só depois iniciar uma busca pela verdade.

A traição de Judas, na história do contista russo, é resultado de um destino que não poderia ser desfeito; uma força estranha que, pela visão simplista dos apóstolos, é vista como uma manifestação do diabo. Mas o demônio, aqui, necessita existir: sem o mal não existiria o bem. Judas sabe disso e Jesus, que não reage, mas parece saber de tudo, deixa-se levar por essa força incontrolável e necessária.

As contradições se acentuam ainda mais na figura do próprio Judas, que após a traição espera ansioso por uma reviravolta. Ou que os soldados que o prenderam compreendam que se trata do messias e beijem os seus pés ou que seus seguidores o defendam no momento final. Para seu desespero, porém, nada acontece e Jesus é crucificado. Sua lógica parecia estar certa: a linha entre o certo e o errado – ou entre o bem e o mal – é tênue e quase sempre se cruzam. Judas conclui que os verdadeiros traidores foram os apóstolos, que não se sacarificaram por aquele que acreditavam ser o Salvador. A verdade disseminada pelo messias, dessa forma, estava morta: “E que é a verdade nos lábios dos traidores? Não se convertem em mentiras?”, indaga Judas pouco antes de se suicidar.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010. 16 horas.

Não ando sentindo mais nada. Meus impulsos não existem mais, meus sentimentos estão cinzas, mortos e acabados. Sou uma pessoa que não sente mais nada, que não quer mais nada, que não se emociona, que não se constrange, que não fica triste nem feliz. A indiferença bate em minha porta de forma assustadora e eu não consigo pensar em nada a não ser em não fazer nada. Pra mim, felicidade e tristeza se assemelham e não significam mais nada. Estou absolutamente indiferente, esperando a vida ou a morte como quem espera um café. É como se, devagar, estivesse prestes a sair de um lugar escuro para chegar a um lugar iluminado, onde eu conseguisse enxergar tudo e a todos, onde conseguisse enxergar a mim mesmo, sem fantasias, sem máscaras. Isso dói, mas me dá a perspectiva de que saberei qual o meu futuro e o que eu realmente desejo da vida.

Meu medo é perder o desejo, é não conseguir mais saber o que eu realmente quero e não saber nunca mais. Meu medo é que mude muitas coisas em mim que eu aceitava como verdades absolutas, que minhas crenças passem a ser diferentes. Meu medo é crescer e perceber que a realidade é isso mesmo, cinza e sem graça, e que o máximo que posso fazer é temperá-la com alguns livros e filmes que me dêem alguma emoção. É perceber que a vida é essa coisa chata mesmo e que sentir é diferente de ter emoções. Que a graça de ter emoções, apesar de intensa, é falsa. Perceber que o sentir, coisa que ainda desconheço, possa vir a ser algo mais profundo e intenso do que o simples emocionar-se.

Mas hoje não sinto nada. Quando todos os meus amigos me deixaram eu não senti nada: não senti tristeza por eles. Quando ganhei minha última promoção no trabalho eu não senti nada: não senti alegria por mim. Não senti nada, é como se eu não quisesse aquilo, mas também é como não quisesse nada, tanto fazia. Vou visitar meus parentes e não sinto nada por eles. Fico um mês sem visitar meus pais e não sinto saudade. Chego em casa, encontro minha esposa e não sinto mais nada. Vejo uma mulher gostosa na rua e não sinto mais tesão, não sinto mais nada. Estou absolutamente sem vontade de fazer sexo ou de fazer qualquer coisa. Dormir tem sido a minha melhor saída. Tudo que faço parece sem gosto e sem graça. Não tenho vontade nem de sair com meus amigos, nem mais de beber e fumar. Perdi a vontade de tudo. Não estou triste, mas também não estou feliz. É pior: estou indiferente. Se o mundo cair na minha cabeça, vou continuar parado no mesmo lugar, não vou me mover. Cansei, cansei até de pensar. Estou me sentindo nada. Não estou sentindo nada. Não estou triste, não estou de saco cheio das pessoas e do meu trabalho, não estou deprimido. Acordo na segunda, me troco e vou trabalhar, sem reclamar, sem bradar aos céus que a vida é injusta, sem precisar de um uísque para encarar meu dia. Mas também não saio feliz. Eu simplesmente não sinto nada. Como eu queria uma depressãozinha agora.

O sexo me parece cada vez mais uma obrigação. Só preciso gozar, não quero mais estar com alguém e dividir caricias e amores. Só tenho vontade, como um animal selvagem, de esporrar meu sêmen em qualquer buraco para satisfazer meus impulsos e instintos quando necessário. Poderia muito bem viver em uma ilha, isolado do mundo, apenas me masturbando quando necessário, bebendo quando tenho sede e comendo quando tenho fome. Sinto-me apenas movido por instintos e eles estão em meio a uma névoa: não consigo sequer alcançá-los. O sexo não me parece nojento, não me parece sacanagem, mas também não me parece ser algo sagrado. Não estou mais atrás de simbiose, não estou mais atrás de uma ligação espiritual. Só quero, quando preciso, gozar e pronto, sem nenhuma vontade diferente. Mas na verdade nem de gozar tenho mais vontade, me perco em um turbilhão branco e sem sentido, onde tudo que faço e penso é inútil. Não concordo com o mundo, não concordo com as pessoas e não concordo comigo mesmo. Perdi a minha personalidade, talvez nunca tenha tido uma e agora precisarei construí-la do zero. Estou perdido e as pessoas que me amam percebem e ficam perdidas também. Não sinto mais as pessoas próximas de mim, é como se eu as estivesse afastando. Tornei-me chato, sem graça, sem sal, sem malícia, sem ingenuidade. Tornei-me um bicho frio e que só pensa na inutilidade das coisas. Perdi completamente a esperança de ser feliz com alguma coisa, seja ela maravilhosa ou não. Perdi a vontade de viver, mas também não tenho vontade de morrer. Não sei mais do que tenho vontade, não sei mais o que é ter vontade. Não estou triste com isso, não me sinto deprimido, só me sinto menos humano e menos eu mesmo. Sinto que uma mudança brusca levará para sempre o que eu fui um dia. Aguardo ansiosamente por sentir alguma coisa de novo. Nunca pensei que o maior castigo possível para um ser humano é deixar de sentir, de amar, de sofrer, de arrepiar-se. Quedar-se em depressão profunda é melhor do que esse cinza sem graça que se tornou minha existência. A realidade me sufoca por não ter espaço para sentimentos. A realidade é cinza e só nos podemos colori-la. Eu juro que eu queria uma depressãozinha agora.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e sabe que , no fundo, todo homem  é um pouco patético

“As paredes e as ruas não guardam nada da gente. É como se nada tivesse acontecido! Está tudo em minha cabeça. É tudo memória minha. As paredes, os prédios, as ruas são indiferentes ao que a gente faz, ao que a gente pensou, sofreu e chorou. Tudo se apaga” Ferreira Gullar, em entrevista ao Globo News

O silêncio noturno postava-se absoluto. Do lado de fora, apenas a chuva fina pingava pontualmente nos vincos das telhas. Fred abriu uma fresta da janela. Alternava goles de uísque com tragadas profundas em um cigarro de maconha. Seus pensamentos variavam conforme as luzes do semáforo mudavam de cor: verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho. Fixou seus olhos ali e deixou seu pensamento vaguear sem direção, feito um novelo desenrolando-se sem fim. Uma idéia levava a outra, que levava a outra, que se perdia em outra. Tudo era confuso. Nada fazia sentido.

Diante da noite morta e silenciosa, escutava sons esparsos que lhe faziam lembrar não estar sozinho. Os grunhidos de cães abandonados, os pneus dos raros carros que passavam deslizando sobre o asfalto molhado, o apito distante do guarda noturno. Os olhos ardiam pelo incômodo da fumaça e a garganta era castigada por doses cada vez mais volumosas de álcool. Observava a rua vazia, como que procurando por algo ou alguém que em breve apareceria para salvá-lo. Diante do sono, apertava os olhos e esforçava-se para prosseguir em vigilância constante. Esperava com impaciente angústia.

Há três anos ansiava pelo encontro. Em uma noite exatamente igual àquela – em que a garoa embalava o sono dos indiferentes e incomodava a insônia dos culpados -, Fred prometera a si mesmo que três anos mais tarde se prostraria sobre a janela daquela mesma sala e esperaria. Esperaria o encontro até que ele se sucedesse, não importava o quanto demorasse. Aprendera, após correr atrás de suas vontades, que um homem em busca de objetivos termina com as mãos cheias de sonhos não concretizados. Percebera que alcançar metas é como chegar à beira de um precipício: ou recua-se, executando um passo para trás, ou se segue em frente, pisando firmemente no nada. Era preciso esperar, deixar de caminhar, para encontrar.

Os primeiros raios refletiam sobre o rosto cansado de Fred, ainda espiando pela fresta o movimento das pessoas e dos carros apressados em busca de objetivos. Riu-se de si mesmo, pensando em como era ridícula aquela situação. Enquanto as pessoas se dirigiam aos seus trabalhos, ele continuaria ali parado, inerte, à espera do encontro. De súbito, sentiu-se digno, sentiu-se superior, descolado daquela realidade porcamente emoldurada pelo parapeito de sua janela. Era um homem elevado. Observava a tudo e a todos de cima.

Já no início da tarde, a ressaca e a fome começavam a lhe incomodar. A boca seca ainda guardava o gosto amargo do uísque e o cheiro de maconha impregnara suas roupas e seu cabelo. Caminhando de costas, sem deixar de olhar para a janela, chegou até a mesa e pegou a garrafa de água e um pacote de biscoitos. Estava determinado: aguardaria até o fim. Não sairia dali para nada. Mas não precisaria esperar tanto, já que naquela mesma noite o encontro se concretizaria.

Quando a lua surgiu, imponente, Fred já havia tomado três copos de uísque e já acendia seu segundo baseado. As luzes do semáforo se duplicavam diante de sua visão turvada. Observava a rua vazia com os olhos vivos e excitados de quem se vê diante de um milagre. Sentia que o encontro estava próximo. Em transe, procurava por todos os lados. Até que encontrou.

Observou-o parado no meio-fio. Quieto, congelado, sem formas definidas. Era impossível identificá-lo. Fred agitava-se, passando as mãos desesperadamente nos cabelos e mordendo os lábios. As lágrimas brotavam-lhe dos olhos, arrepiou-se e sentiu uma paz nunca antes alcançada. Abriu mais a janela, afastou a cortina de rendas que o atrapalhava e apoiou-se no parapeito para enxergar melhor.

Chamou-o. Uma, duas, três vezes. Sem resposta. Tirou o chinelo dos pés, largou o copo de uísque no chão e mergulhou do quarto andar do prédio ao encontro do que procurava. O silêncio, entrecortado pelos grunhidos de cães, pneus de carros e apitos distantes, foi bruscamente interrompido pelo estrondo do corpo de Fred em choque contra o asfalto. As luzes se acendiam, pouco a pouco, e gritos horrorizados explodiam no ar vazio. O barulho da sirene aproximava-se. Ninguém entendia o que havia acontecido. A ambulância, eficiente, recolheu o corpo e se afastara. Lentamente, as pessoas apagavam as luzes de suas casas e voltavam para a cama. Na rua deserta, sobraram apenas os silêncios dos cães que grunhiam, dos poucos carros que passavam e dos guardas distantes que apitavam.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Quando tive a ideia de criar o Sete Doses pensei em uma forma de reunir meus amigos em torno de algo prazeroso. O plano inicial era criar uma espécie de laço com pessoas que conheci em diferentes fases da minha vida para não perder contato com elas. Fiz o site com esse intuito e não tinha nenhuma pretensão sobre ele. Estava enganado. Nos três primeiros dias de Sete Doses tivemos uma média de 1.500 acessos diários. Recebi dezenas de e-mails de amigos e desconhecidos elogiando a ideia. Claro que esse número era uma loucura muito grande para ser real, ainda mais porque nunca divulgamos o site de maneira decente, simplesmente publicávamos o conteúdo e esperávamos o resultado.

Com o passar do tempo, os acessos se estabilizaram em uma média de 300 por dia. Número pelo menos cinco vezes maior do que eu esperava. Aliás, eu jamais apostaria que o Sete Doses completaria um ano, ainda mais atingindo os 80 mil acessos. E-mails de alguns Estados do Brasil, elogios e mais elogios. Mas os acessos não significaram nada se comparado ao que foi produzido neste site. Até aqui, contabilizamos cerca de 650 posts, com mais de 3.500 comentários. Mas nem é a quantidade que impressiona e sim a qualidade e diversidade.

Cada um dos 14 integrantes que aqui estão já escreveram bobagens homéricas e medíocres, mas a maioria dos posts são muito bons. Muitos deles, na minha opinião pessoal, beiram a genialidade. O acervo cultural que criamos em menos de um ano é inestimável e um reflexo de cada um dos meus amigos. Passei a conhecê-los de verdade. A liberdade conferida no Sete Doses possibilitou que as pessoas depositassem suas almas no site, sendo francas e, muitas vezes, desabafando claramente. O Sete Doses passou a servir como uma espécie de terapia semanal, como bem disse o Lex uma vez.

Bom, passado 2009, com a chegada de 2010, o Sete Doses está prestes a completar um ano de vida. No fim do ano passado, cheguei a desanimar do blog e pensei em encerrá-lo enquanto ainda existia qualidade. Meu medo era que os posts ruins superassem os bons. Mas na sexta-feira resolvi que o site deve continuar. E mais, devo investir mais tempo e energia nele. Por isso, quando completarmos um ano, planejo uma reformulação total. O layout, com certeza, será alterado. O projeto editorial ainda estou pensando, mas também deve passar por uma reestruturação. Tudo isso, claro, será discutido com todos os integrantes. A ideia é renovar para voltarmos a ter o mesmo pique que tínhamos um ano atrás (se bem que muitos estão até mais animados hoje do que antes).

Outro objetivo é ter um contato maior com o leitor. Sei que muita gente é tímida ou acha que não tem muito que dizer e não comenta os textos, mas nos lê diariamente. Você, que entra aqui e não comenta, peço que envie um e-mail para setedoses@gmail.com com seu nome. Só isso: mande um e-mail com o seu nome para criarmos uma lista de leitores. Com essa lista, podemos saber quem são nossos leitores fiéis. Além de nos estimular, deixaremos vocês atualizados sobre o que vai rolar. Em 2010, a exemplo do que aconteceu com a exposição de tirinhas do Yuri e com a festa de sete meses do Sete Doses, o objetivo será levar o conteúdo virtual para o real. O leitor que me mandar esse e-mail pode ganhar convite de graça para esses eventos, a camiseta do Sete Doses e coisas do tipo. Não sei como vou fazer isso ainda, mas provavelmente por meio de sorteio. Mesmo você que é amigo de alguém que escreve e gosta do site, mande seu nome.

Do mais, queria agradecer aos outros 13 integrantes do Sete Doses. Cada um deles sabe que é especial pra mim e que marcou a minha vida de alguma forma. Conheci alguns ao acaso, já estudei e já trabalhei com outros, já até dividi o mesmo teto com dois.

E só para explicar, sexta-feira foi um dia marcante, pois perdi contato diário com dois dos caras que participam do Sete Doses. Eram os dois últimos que eu ainda tinha contato diário. Agora, estou separado de vez dos 13. Como sabemos, a vida vai nos levando por caminhos inesperados e a convivência com os amigos vai ficando difícil. O Sete Doses, neste sentido, é o fio que me liga a cada uma dessas pessoas especiais. Deixei de publicar meu texto essa semana para usar o Sete Doses como terapia. O impacto da perda de contato com esses dois amigos foi forte, mas espero que possamos nos encontrar lá na frente de novo. Por enquanto, temos o site.

Pra terminar, acho que aos 25 anos estou em uma idade decisiva. É aqui que um homem ou uma mulher começa a definir algumas coisas que serão levadas pelo resto de sua vida. É aqui que vai começar a determinar se daqui a dez anos estará sentado em um bar com seus velhos amigos no domingo a tarde – conversando amenamente e tomando uma cerveja – ou se estará no sofá engordando e assistindo Faustão. Um ser humano medíocre começa a ser fabricado a partir dos 25 anos de idade. O Sete Doses, de alguma maneira, dificulta essa tendência natural que temos à mediocridade. Mas é muito difícil lutar contra ela e eu gostaria que todos os meus amigos de site e os que estão me lendo agora se conscientizassem disso e lutassem para não se transformarem em pessoas nulas ou escrotas. Quanto mais os anos passam, mais a pessoa se torna amarga. Isso é inevitável. O mundo é tão absurdo que é difícil não se tornar mais triste do que feliz. O que nos resta é aproveitar a felicidade que temos e tomarmos cuidado pra não deixarmos a tristeza se transformar em passividade.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

José Carlos

Em frente ao espelho, passou o pente fino entre os poucos cabelos brancos que lhe restavam. Com calma, repartiu-os ao meio, abriu a torneira e acertou as pontas desgrenhadas com a mão úmida de água. Fechou os botões da camisa, observou seu rosto magro e beijou a corrente de ouro que repousava em seu peito.

Maria Helena

Fechou a torneira do chuveiro e, ainda dentro do boxe, colocou o braço para fora e puxou a toalha branca pendurada no gabinete. Enxugou-se sem pressa. Primeiro os cabelos curtos e brancos, depois o rosto cansado e, por fim, o restante do corpo. Vestiu-se com uma calça de moletom cinza e uma blusa de alças cor da pele. Tateou embaixo da cama e encontrou as sandálias de couro que procurava.

José Carlos

Saiu do banheiro e dirigiu-se até a sala. Ao procurar sua carteira, deparou-se mais uma vez com a foto de sua mulher exposta no porta-retratos de plástico em cima da escrivaninha. Olhou para a imagem, seus olhos marejaram e o aperto no peito foi o mesmo que sentira na noite em que sua esposa falecera. Já se completavam quinze anos de ausência. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

Maria Helena

O vapor do banheiro ainda não se dissipara quando ela retornou para apanhar as roupas intimas que havia esquecido em cima do vaso sanitário. Jogou-as no cesto de roupas sujas e retornou para o seu quarto. Era o único cômodo de uma casa minúscula que comprara com seus investimentos de toda uma vida. Era mais do que suficiente, já que jamais casara ou dividira o teto com alguém. Vivia sem ser vista. E sua morte, que lentamente se aproximava, não seria notada. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

José Carlos

Estava na fila do caixa à espera de sua vez quando percebeu a dificuldade de uma senhora para pagar sua conta. Notou que ela não tinha dinheiro suficiente e foi cavalheiro ao intervir:

– A senhora precisa de ajuda com a conta?

Maria Helena

Colocou os óculos e, com as mãos enrugadas, abriu o pequeno zíper do porta-moeda em busca de alguns centavos para pagar a conta do supermercado. A atendente insistia que faltavam 80 centavos para o débito ser liquidado. Nervosa, não conseguia encontrar mais do que 35 centavos na bolsinha. De repente, ouviu uma gentil pergunta de um senhor que estava logo atrás na fila. Virou-se, olhou para os olhos dele e sentiu uma gratidão inexplicável:

– Desculpe, está faltando 50 centavos, o senhor pode me emprestar?

José Carlos

Ao ouvir a voz daquela senhora, lembrou-se imediatamente de sua esposa. Era inevitável. O som da voz era absolutamente o mesmo, apesar das características físicas não se assemelharem em quesito algum. Procurou na carteira e encontrou uma única moeda de 50 centavos. Sorriu ao entregar a moeda e questionou, em tom informal, se naquela noite ela iria cozinhar para a família.

Maria Helena

Pagou a conta do supermercado com a ajuda daquele senhor e percebeu de pronto a ligação ocasionada por olhares e palavras. Respondeu a pergunta emendando outra:

– Vou jantar sozinha, como faço todas as noites. E o senhor?

José Carlos

A frase da senhora lhe pareceu, de primeira, muito ousada. Ficou um tempo em silêncio e resolveu que deveria ir até o final daquele diálogo sem criar resistências. Pensou – lembrando-se do dia em que conheceu sua falecida esposa – que sonhos de uma noite marcam mais do que séculos de realidade:

– Eu também, janto todo o dia sozinho. Há 15 anos…

Maria Helena

Olhou novamente nos olhos daquele senhor e percebeu um marejar eterno de lágrimas nas pálpebras envelhecidas de seu rosto. Pensou sobre a loucura que estava por cometer, mas constatou que o infortúnio de passar pela vida em branco poderia ser corrigido a qualquer momento antes do prenúncio fatal de sua morte – sabia que só depois do fim é que não existiria mais retorno. Após 70 anos de indiferença, sua hora havia chegado.

– Jantemos juntos, então, oras. Reunimos o que o senhor comprou com o que eu comprei e teremos uma noite diferente de todas as outras…

José Carlos

Foi inevitável para ele pensar em outra coisa que não em sua esposa. Lembrou-se do último jantar que tiveram juntos e julgou aquela situação decisiva. O que responder? Refletiu e pensou que a vida é busca e aquele era o momento de se reencontrar. Como qualquer ser humano, valorizava o existir conforme os passos lentos da vida indicavam o abismo inevitável do desaparecer.

– Tudo bem. Vamos pra minha casa?

Maria Helena

O sorriso escapou-lhe quase como um arroto fora de hora. Percebeu ali a chance de enfim encontrar-se com alguém. Sabia que era aquele o homem destinado a lhe fazer feliz. Na premência da morte encontrava a vida que nunca fora vista. Afobada, quase desesperada de excitação e ansiosa pelo destino que lhe batia a porta, disparou sem pensar ou raciocinar:

– Depois do jantar, quer morrer em paz comigo?

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses