O peixe sabe o valor da água porque já se engasgou na areia.

Para Adolfo, a vida dobrava sombria como fase azul de Picasso. O seguir em moto-contínuo não só ululava, mas pululava em seu cotidiano.  De fiado em fiado, confinava o amor em sua reforçada casamata. Para ele, o gostar lembrava a etimologia do cegar. Assim como o verbo “to blind”, cerrava o peito como carro blindado a fim de que nele não adentrasse luz.

Há 26 anos dono daquela espelunca, sempre fora um mão aberta no que dizia respeito às despesas do botequim. O ordenado que destinava à condução de seu fiel funcionário daria para ele comprar um barraco à vista. Generosidade não dá em prateleiras. Geralmente se ganha nas sobras da água benta do batismo.

Por mais que tivesse sido laureado havia décadas com a pecha de benevolente para seus fregueses, Adolfo viu a clientela minguar desavisadamente. Sucedeu-se que o lorotear do bairro mancheteou que, por trás do balcão, nem isso, lá nos rincões dos quintais do boteco, ele fomentava um criadouro de cobras. A repulsa serviu até para os amigos dos tempos em que o único peso que se carregava era o da fralda. O medo de que a lingueta de alguma serpente escapasse das entre-grades era tanto que até o bar desmosqueou. Nem zumbido nem zunido mais havia.

Como não tinha mais quem quisesse comprar, Adolfo meio que perdera a vontade de vender. O único porém é que o não comerciar implicava em alimentar a barriga de vento. Mais que em progressão geométrica, desde que correra a notícia dos ofídeos, reinavam e abundavam transeuntes e pés-inchados naquele botequim. Não coragear é cair em desalma. Misturando alhos com frangalhos, Adolfo optou por aplicar a mesma sistemática para o gostar. Assim como não dava sopa ao mel financeiro, passaria a recusar o crediário das entregas sentimentais. É então que se descobre que o amor não se parcela, é à vista.

Ultra mão fechada, mais do que uma vaca judia, Adolfo viu-se de ponta cabeça no dia em que aquela miragem, mais lisa do que cobra criada, invadiu seu bar e roubou-lhe o existir. Sem promessa de devolução, partiu e o dono da pocilga baixou as portas. Deixou apenas uma mísera fresta. Por onde o amor haveria de reentrar um dia.

 

Lucas Nobile escreve às sextas para o Sete Doses e clama para que os leitores vejam esse vídeo. A maior cantora de todos os tempos, Elis Regina, aparece a partir da metade, mas vale a pena esperar

Esse podcast está em festa! Ouça uma seleção de canções de todos os tempos e gostos! Dançe, Dançe, Dançe!


Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

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Gabriel Kwak, o Senador,  publica seu podcast às terças-feiras no Sete Doses

ELISPELÉ

 

Imagine Salvador Dalí como empacotador de um supermercado. Sophia Loren como vendedora de churros. Mohamed Ali como regente da Filarmônica de Berlim. Ary Toledo como presidente dos Estados Unidos. Mallu Magalhães como reitora de Harvard. Chet Baker como amolador de facas Ginsu. Derci Gonçalves como superintendente do Vaticano. Hermeto Pascoal como piloto de Fórmula 1. Rita Hayworth como mulher-barbada do Circo Garcia. Roberto Carlos como corredor dos 100 metros em Londres-2012. Pina Bausch como atendente de telemarketing do Speedy. Nelson Ned como pivô de basquete. Greta Garbo como caminhoneira. Pixinguinha como cabeleireiro. Tarsila do Amaral como garçonete no Texas. Frank Sinatra como garimpeiro em Serra Pelada. José Serra como vendedor de charutos em Havana. Ella Fitzgerald como bailarina do Bolshoi. George Michael como desafiante no Ultimate Fight. Fernanda Montenegro como despachante. Oswaldo Montenegro como centroavante do Real Madrid. Tonia Carrero como domadora de leões. Beto Carrero como protagonista de Laranja Mecânica. Aretha Franklin como carimbadora do arquivo do Poupatempo. Paulo Autran como tocador de realejo. Aracy de Almeida como representante brasileira no Miss Mundo. Bruce Lee como confeiteiro. Elis Regina como atacante do Santos. Pelé como cantor e compositor.

Ainda bem que tudo não passou de uma grande brincadeira. Ou não?

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e concorda com o gênio Romário. Se, em relação a declarações esdrúxulas, Pelé calado já era um poeta, imagine cantando.

 

O Brasil sempre foi pródigo em revelar grandes cantoras e, injustamente, nos roubá-las de forma prematura. E o silenciar das grandes vozes femininas, da noite para o dia, só ajudou a torná-las ainda maiores e a transformá-las em verdadeiros mitos. De tempos em tempos, era como se uma delas fosse pinçada a dedo para chocar o País. Por que partiam tão cedo? Sem motivo aparente, a Morte as intimava para um passeio sem volta.

 

Em 1955, a escolhida foi Carmen Miranda, que, aos 46 anos, sofreu um ataque cardíaco fulminante. Depois de muitas noites de sucessos, drogas, bebidas e cigarros, o obituário foi entregue na casa da Pequena Notável, em Beverly Hills, nos Estados Unidos.

Atestado: Maria do Carmo Miranda da Cunha sugou a vida como poucos, deixando como legado a interpretação antológica de “Taí”, e ajudando a abrir as portas para a música brasileira no exterior.

 

Quatro anos mais tarde, foi a vez de Dolores Duran, que, aos 29, após um show na boate Little Club, no Beco das Garrafas, sofreu também uma parada cardíaca, possivelmente causada por uma overdose de barbitúricos, os populares calmantes. Na noite da despedida, em sua casa, teria dito à empregada doméstica: “Estou cansada, não me acorde. Vou dormir até morrer”.

Atestado: Adileia Silva da Rocha pediu para descansar eternamente e teve seu desejo atendido. Não se pode recusar uma exigência de uma exímia melodista, que compôs uma pérola como “Estrada do Sol”, com Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

 

Em 1966, os holofotes do estrelato se apagaram para Sylvinha Telles. Aos 32 anos, teve sua brilhante carreira interrompida após um acidente de carro decorrente de um cochilo de seu namorado ao volante.

Atestado: Sylvia Telles abusou da sorte, do talento e da beleza. Namorou João Gilberto, casou-se com Aloysio de Oliveira e ajudou a profissionalizar o amadorismo da Bossa-Nova. Teve a audácia de fazer um registro singular de “Manhã de Carnaval”, dos gênios Luiz Bonfá e Antônio Maria.

 

Outra a ficar, literalmente, no meio da estrada foi Maysa, que, em 1977, após 40 conturbados anos de vida, morreu também em um acidente automobilístico, na Ponte Rio-Niterói.

Atestado: Maysa Figueira Monjardim viveu à frente de seu tempo, cantando em versos suas incompletudes e incongruências cotidianas.

 

No dia 19 de janeiro de 1982, a sorteada da vez foi Elis Regina. Depois de uma combinação infeliz de drogas, bebidas e remédios, a Pimentinha chocou o País com sua overdose estampada na capa de todos os jornais brasileiros. Ela tinha apenas 37 anos.

Atestado: Elis Regina Carvalho Costa imortalizou composições de Tom Jobim, João Bosco, Aldir Blanc, Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Belchior e Renato Teixeira. Na sua voz, os versos de Milton Nascimento pareciam ser um campo minado. Foi e será para sempre a melhor cantora de todos os tempos.

 

Um ano depois, a medicina depôs contra Clara Nunes. Em uma simples cirurgia de varizes, a cantora teve complicações e morreu de parada cardíaca, aos 39 anos.

Atestado: Clara Francisca Gonçalves Pinheiro uniu Iemanjá ao samba. Representante feminina da linhagem esplêndida de Dorival Caymmi, cantou o mar como ninguém.

 

E, por fim, na manhã de 7 de junho de 1989, o Brasil perdeu a voz e o charme de Nara Leão. Aos 47 anos, a moradora do famoso apartamento da Avenida Atlântida – que obviamente não foi a manjedoura da Bossa-Nova, como muitos insistem em propagar – sucumbiu a um tumor no cérebro.

Atestado: Nara Lofego Leão deixou como herança joelhos esbeltos, um jeito manso e matreiro de interpretar Barquinhos e Bandas, e  a primazia feminina de empunhar um violão recheado de harmonias invocadas e acordes dissonantes.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e lamenta que em 1982 seu irmão não tenha tido uma festa de primeiro aniversário por causa da morte de Elis Regina.