A entrevista publicada abaixo foi uma exclusiva que Edu Lobo me deu no dia de meu aniversário, 3 de fevereiro, em sua casa, no Rio de Janeiro, e foi publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 5 de fevereiro de 2010.

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Aos 66 anos, oito após Cambaio, o novo disco de Edu Lobo, 25º da carreira, tem o registro de quatro parcerias antigas dele com Chico Buarque, além de seis composições feitas por ele no passado e que ganharam agora letras de Paulo César Pinheiro. Na entrevista abaixo, dada pelo compositor anteontem, em sua casa em São Conrado, zona sul do Rio, ele fala do aneurisma que quase o matou há seis anos, do acidente que o impediu de compor em setembro de 2009 para o novo trabalho e de seu envolvimento com as canções mais tristes.

 

Oito anos após Cambaio, como surgiu este disco?
Saindo do estúdio eu perdi o equilíbrio e caí da escada. Quebrei o cotovelo e um osso chamado escafoide. Toco piano, mas violão ainda não porque preciso de força. Exceto o meu primeiro disco, para quase todos os outros eu faço 3, 4, às vezes 5 músicas porque o disco pede. Esse eu não pude sequer tocar violão, e quando eu não toco, eu não faço música. Ao contrário do Ennio Morricone, que é um cara que admiro muito, mas ouvi uma bobagem que ele disse, que você só pode ser chamado de compositor quando escreve direto na partitura como ele. É uma coisa absurda. Deve ser ótimo você escrever direto na partitura, mas isso não faz de você melhor ou pior.

Por conta disso, então, você não pôde compor para esse disco…
Exatamente. O repertório que está nesse disco não entrou pra substituir nenhuma música, o que ia acontecer é que em vez de ter 12, talvez tivesse 16 ou 17 faixas. Esse aí foi escolhido porque eu queria que essas músicas estivessem aí.

Sua queda influenciou no resultado final do disco?
No sentido de ter mais músicas, sim. Tenho certeza que teria feito mais 3 ou 4, pelo menos. Mas não influiu no canto. Acho que é o disco em que estou mais próximo das pessoas, por isso que fiz questão de que, na capa, aproximasse mais minha figura, que estava meio distante, combina mais com outros discos que eu fiz, não com esse.

Pensando nesse distanciamento que vem lá de trás, por que você decidiu estudar no exterior depois de despontar nos festivais?
Porque eu queria muito estudar. No início da minha carreira, eu tinha vida de cantor. Na época era complicado fazer show porque o equipamento era muito pobre, eu não gostava daquilo, queria ter minha profissão. Eu sou compositor, mas não sei fazer música em hotel, em guardanapo, adoraria saber. Preciso ter meu canto, minhas coisas, é assim que produzo. O que faço é escutar muita música e sempre lendo a partitura. Eu tenho uma super coleção de partituras. Quando fui para os EUA estudar orquestração, criei esse hábito que pra mim hoje é, primeiro, um divertimento, e segundo, uma forma ótima de você estar sempre em contato com a música.

Após tantas marés, do que mais você sente saudade?
Do Rio de Janeiro que não existe mais. Eu me lembro das coisas que eu fazia. Tinha a época daquelas formaturas. Eu me lembro que a gente constantemente saía da festa e ia pra praia, às 5h da manhã, deitava e dormia, acordava com o barulho das crianças chegando com as babás. Imagina hoje em dia se alguém pode fazer isso? Se você acordasse já estava no lucro, se acordasse com a carteira seria um milagre.

Hoje você tem medo da morte?

Passei por ela há pouco tempo, com pouca chance de sobreviver. Mudou minha vida, algumas coisas ficaram diferentes. Uma doença dessas não tem lógica. Um acidente de carro, por exemplo, você pode lembrar da freada do caminhão, pode tentar reconstituir. Eu estava sentado aqui em casa, pedi comida japonesa e fiquei achando que eu estava passando mal por causa daquilo. Aí tive uma dor de cabeça que não dá pra explicar porque tinha rompido algo aqui dentro da cabeça. Depois de um tempo você tenta reconstituir a história, mas a vida não é lógica. Se eu tivesse alguma crença, que não tenho mais, talvez teria uma relação diferente com as coisas, mas acho que a gente acaba, quando morre. Você deixa um trabalho, é o que fica, porque, de maneira geral, é tudo pó.

Em relação a esse trabalho que fica, qual a função da música?
Tenho uma tendência a gostar mais das baladas, das canções mais tristes. Porque acho que elas duram mais tempo. Lembro que me diziam: “você vai gravar essa música? Não toca no rádio, é muito pra baixo, tem que botar uma mais pra cima”. Não concordo, acho uma bobagem. As tristes ficam mais, você precisa ouvir mais pra poder aproveitar.

E hoje em dia, as pessoas baixam muitas músicas e mal escutam…
Eu conheço esses sites, e não acho que seja uma coisa espetacular ficar baixando música. Isso vai ter que ser resolvido em algum momento. A Internet vai ter que existir, mas vão ter que pagar ao baixar música. Eu baixo porque tem milhões de músicas minhas lá. Mas não parei de comprar disco.

Sobre as músicas mais tristes, Tantas Marés é cheio de baladas, de músicas dolentes…
Mas não acho que seja um disco triste. O anterior, Meia Noite, era. Em Tantas Marés eu não sinto isso mesmo. É um disco de vários sentimentos.

Você acha que o artista tem de ir pra mídia e falar de tudo como se fosse especialista? Falar de sucessão presidencial, por exemplo?
Já achei isso, me envolvi numa época da minha vida, achava que uma canção podia mudar o mundo, o que é ilusão.

Mas naquela época você fez as músicas de cunho social…
Era o momento. O Arena conta Zumbi foi uma experiência espetacular, foi meu primeiro contato real com o teatro.

Hoje seria bobagem?
O que eu sempre achei muito chato era o que se chamava de “música de protesto”. Eu me lembro do pessoal de teatro que tinha uma letra, tal, mas a música era uma merda. A primeira turnê que eu fiz, pela Alemanha, cheguei lá e me apresentavam como o “Bob Dylan brasileiro”, esse negócio me incomodava muito. Nunca foi isso. Eu sempre gostei do Bob Dylan escrevendo as letras, não sou apaixonado pelas músicas, nem pelo canto dele, nem pelo violão, mas “Bob Dylan brasileiro”? Esses rótulos me incomodavam, não sou compositor de protesto, sou compositor e ponto.

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses, e brada por todos os ventos que Eduardo de Góis Lobo é  um dos maiores revolucionários da música brasileira

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Marquei o encontro com o Ser Inexistente às 22 horas da última quinta-feira em minha casa. Resolvi procurá-lo após ler notícias de que ele havia começado a fazer terapia. Fiquei intrigado com o fato de um senhor como ele ainda ter fôlego para conhecer a si mesmo e se confrontar com suas mazelas e fantasias.

Após um atraso de meia hora, sentou-se ao meu lado no sofá e, espaçoso, pediu prontamente uma garrafa de conhaque e um copo americano. Mais sereno do que em nosso último encontro – ainda sóbrio –, o Ser Inexistente aparentava estar mais saudável e afável. Desculpou-se pelo atraso e disse novamente que não se lembrava de já ter me concedido entrevista antes. Dessa vez fui precavido, lhe mostrei as duas conversas impressas e lhe provei com uma foto que já havíamos nos encontrado. Olhou com calma e confirmou: “Tem razão, não sou eu mesmo. Admito que já nos encontramos antes”.

Contraditório como sempre, o Ser Inexistente comentou os motivos que o levaram a fazer análise e revelou um pouco de sua vida, desde a infância até os dias atuais. Citou até mesmo a única mulher que um dia amou, falando sobre a diferença entre paixão e amor. Analisou a violência urbana que atinge o Brasil nos últimos anos e comentou algumas das mudanças que a Internet irá proporcionar às futuras gerações.

Recebido em minha casa, o Ser Inexistente reclamou do conhaque barato que lhe ofereci e da decoração do apartamento: "Me parece o buraco de um homem fudido e frustrado"

Por que o senhor resolveu fazer análise depois de velho?

Porque há sempre algo de ausente que me atormenta. Porque sonhar cansa. Esperar pela materialização, mais ainda. Dá um trabalho hercúleo domar as vontades e expectativas. Vez por outra, elas insistem na rebeldia e tentam se desvencilhar de uma lógica racional que as reprime. Neste árduo conflito entre o que se deseja e o que se pode conseguir, a pessoa vai minguando. Perde paulatinamente suas células e impulsos. E corre o risco de se apagar. Quero evitar que isso aconteça comigo e me entender melhor. Hoje, já não sei se tenho desejos ou se criaram os desejos em mim. Além disso, o lápis do tempo é tão obstinado quanto impreciso, coloca-nos rugas em torno da boca, como contrapesos de um sorriso. Não me resta mais nada, só mesmo tentar descobrir quem sou eu.

Mas porque buscar um psicanalista e não uma religião, por exemplo?

É uma opção. Cada um que faça a sua. Mas resolvi fazer depois que li em um livro que quando Freud desembarcou na América para fazer uma série de conferências sobre psicanálise, se eu não me engano em 1909, virou-se para Jung, que o acompanhava, e disse: “Venho trazer-lhes a peste”. Freud disse que o objetivo da psicanálise era fazer com que o sujeito saísse da sua miséria neurótica para entrar na infelicidade do mundo. Achei isso perfeito. Comecei as sessões e percebi que, num certo sentido, a psicanálise é mesmo a peste; ou melhor, ela representa a antiutopia mais radical até hoje concebida pelo espírito humano, chegando mesmo a constituir-se como uma utopia às avessas. A psicanálise pretende curar o ser humano de suas ilusões. Ela não acredita na bondade fundamental do homem, nem parte do princípio de que o processo civilizatório é uma rampa ascendente, de sucessivas vitórias, que chegarão necessariamente à plenitude do amor de todos por todos. A luta entre Eros e Thanatos – vida e morte – se decide dentro de nós, a cada instante. Por nascermos prematurados, incompletos, sem equipamento instintivo capaz de nos costurar com solidez ao mundo, sofremos a permanente saudade de ser pedra, a nostalgia de um sono sem retorno, regido por estatuto que nos transcenda e que não possamos desobedecer ou transgredir. Escolhi esse caminho, pois o psicanalista é o contrário do burocrata ou do especialista. Ele escuta o desejo, debruçado sobre o coração selvagem da vida e, a partir desse pólo, se esgalha, ampliadamente, em todas as direções. O bom psicanalista é um centro pessoal de transformação do mundo. Só sua prática nesse sentido é que dirá a você o que fazer e o que mudar, inclusive na sua vida e na própria profissão. Mas tem quer ser um profissional competente, senão ele só te estraga.

O senhor não consegue resolver isso sozinho? Se um pensador como o senhor não consegue, quem um dia conseguirá?

Não sei se você sabe, mas o conceito de inconsciente pode ser traduzido por uma ideia muito simples, garoto: quando alguém fala, não sabe o que diz. E é isso que acontece com todos nós, não importa o quanto você leu, pensou ou aprendeu. Em verdade, lhe digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas. E é duro caminhar sem saber de fato o que se está dizendo. É doloroso sentir o toque do cansaço nos últimos lances de escada. Vislumbrar e não chegar. Caminhar e tremer com a evidente perspectiva da desistência. É por isso que a gente senta e acende um cigarro. Porque é necessário recuperar-se da luta e aplacar a ardência dos arranhões. Para poder respirar fundo e reiniciar a batalha. Com a certeza de que silêncio e apatia não são a mesma coisa. Apatia seria não procurar ajuda. Ando pensando muita bobagem ultimamente e preciso caminhar até o meu inconsciente para saber os motivos desses pensamentos.

E um grande amor, não resolveria?

Sorte no jogo, azar no amor. De que me serve sorte no amor se o amor é um jogo e o jogo não é meu forte?

O senhor é muito romântico para isso. Nunca teve um grande amor?

Já tive. Tínhamos conversas e risadas em comum, trocávamos afetuosas gentilezas, fazíamos leitura simultânea de livros agradáveis, desempenhávamos tarefas em conjunto, ora insignificantes, ora importantes. Tínhamos contradições passageiras, sem rancor, como acontece a cada um de nós até consigo próprio. Mesmo tais contradições, que eram bastante raras, tornavam mais prazerosa e habitual a concordância de nossos pontos de vista, o ensino recíproco das novidades, o sentir imensamente a nostalgia das ausências e o alegre acolhimento do retorno. Era tudo perfeito, até ela desaparecer.

Eu sei que parece meio clichê, mas o senhor acha que as pessoas ainda valorizam esse tipo de amor?

Óbvio que não. Uma das maiores realizações que se espera da vida é a paixão, um encontro amoroso intenso e pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão, do grego pathos, designa a situação em que sou passivo – em oposição à ação. Minha razão, assim, fica inibida, não é boa juíza de caráter ou de relações. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu “eixo”) sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. A mídia fala muito em paixão e pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Só aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que “foram felizes para sempre” só é possível com o amor, não com o fulgor passional. Mas o triste é que quando há o amor entre duas pessoas, a sociedade obriga que elas ajoelhem diante de um altar e jurem que vão permanecer para sempre nesse estado cansativo, deprimente e anormal. Minha conclusão é de que o amor ainda nem existe para vocês.

Após o desaparecimento de sua mulher, o senhor pensou em suicídio?

Não, só pensei em desaparecer como ela. Se for a mesma coisa… sim pensei em me suicidar. Aliás, penso diariamente e eternamente. Aí do ser humano que não pensa em evaporar. Para esse sim a vida já morreu. E ainda pior que a morte é desviver. Desviver, jamais; sofrer, quando necessário; sorrir, quando for realmente sincero e de boa vontade.

Sou relativamente jovem e penso nisso constantemente também. Às vezes sumir parece a solução mais correta diante de uma realidade incompreensível.

Vou te falar um negócio, garoto. Foi meu pai quem me ensinou. O homem, quando jovem como você, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, que é pelo qual você está passando hoje, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome. Continue assim que você se tornará um homem. A sua dor é a dor de tomar consciência de que o mundo é imundo e de que você contribui inconscientemente para essa imundice.

Mas isso é muito doloroso…

Sim, mas conscientizar isso é a única chance que nos é dada de participar da comunidade humana, com a qual temos um único compromisso: o de não fazê-la pequena, mesquinha, covarde. Não desperdiçar a vida, não desperdiçar o manancial de amor que existe em cada um de nós.

Como você era na sua infância e na sua juventude? Já passava por isso?

Comecei a sentir isso aos oito anos de idade. Voltei da escola certa manhã fingindo que estava muito doente. Mamãe foi condescendente comigo. Fez-me vestir o pijama, levou-me para o sofá na sala de visitas e cobriu-me com uma manta. Sabia que eu tinha voltado para monopolizar sua atenção na ausência de papai e de minhas duas irmãs. Talvez tivesse ficado feliz de ter alguém lhe fazendo companhia durante o dia. Fiquei lá deitado até o fim da tarde e a observei enquanto trabalhava, apurando os ouvidos quando ela ia para outras partes da casa. Impressionou-me o fato óbvio de sua vida independente. Ela continuava a existir mesmo quando eu estava na escola. Percebi que estava sozinho a partir daquele dia.

E depois, quando jovem?

Na sua idade eu ainda era noite e já sonhava madrugadas. Eu ainda era inverno e já sonhava primaveras. Eu ainda era botão e já sonhava flores. Este era todo o meu drama! E se hoje eu me perdi foi porque de mim me parti à procura de mais-além. E penso, agora, de que vale então viver, se indo com os outros me atraso e se buscando ir mais além me perco? Com os olhos da velhice, finalmente olho para dentro. Mas aí o estrago já está feito.

É mesmo difícil se encontrar de verdade com as pessoas…

É… Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa – e olhe que sabemos pouco da nossa própria. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.

Em determinado momento da conversa, o senhor diz que eu contribuo para a construção de um mundo imundo. Como assim? Não tenho culpa da violência absurda que eu vejo lá fora.

Não é diretamente. A criminalidade dos miseráveis, dos famintos, dos desesperados, dos revoltados, exprime uma forma perversa de protesto social, que não conduz a nada, e sem dúvida piora tudo. O delinquente, ao cometer seu crime, não pretende nenhuma transformação da sociedade. Ao contrário, busca identificar-se imaginariamente com o seu inimigo de classe, copiando-lhe caricatamente os defeitos e deformidades. Defeitos e deformidades que, com maior ou menor grau, todos temos.

Existe alguma esperança para a minha ou para as próximas gerações?

A esperança é importante, mas pode tornar-se um demônio, uma planta daninha que come o lugar de outras plantas melhores. A esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto. Mas existe uma mudança importante, não uma esperança, que a Internet proporciona e a sua geração nem percebe. A televisão por programação horária é herdeira do rádio, que foi o primeiro meio que começou a nos organizar a vida cotidiana. Na Idade Média, o campanário era que dizia qual era a hora de levantar, de comer, de trabalhar, de dormir. A rádio foi isso. A rádio nos foi pautando a vida cotidiana. O noticiário, a radionovela, os espaços de publicidade… Nas próximas gerações, essa relação que os meios tiveram com a vida cotidiana, organizada em função do tempo, a manhã, a tarde, a noite, o fim de semana, as férias, isso vai acabar. Teremos uma oferta de conteúdos. A internet vai reconfigurar a TV imitadora da rádio e a rádio imitadora da imprensa escrita. Creio que vamos para uma mudança muito profunda, porque o que entra em crise é o papel de organização da temporalidade.

Interessante… Uma coisa meio besta agora. Como sabe, não consigo enxergar o senhor, mas acho que o senhor usa barba. Por quê?

Imagine um filósofo. Pronto? Agora, me diga uma coisa: por que ele está de barba aí em seus pensamentos? Como eu sei? Ora, eu sei, você sabe, todos sabem: os filósofos usam barba, por várias razões. Primeiro: tanto a barba quanto o conhecimento têm de ser cultivados, numa relação dialética. Enquanto o filósofo filosofa, a barba cresce e enquanto a barba cresce, o filósofo filosofa. Houve um filósofo, inclusive, que de tanto filosofar chegou à conclusão de que não era a barba que crescia a partir de seu rosto, mas sim o contrário: o rosto é que brotava das raízes de sua barba. Desde então, nunca mais chegou perto de uma gillette, com medo de que seus pêlos ficassem pairando no ar, diante do espelho, enquanto seu corpo escorreria pelo ralo da pia.

Para finalizar, qual é a grande verdade que o senhor já encontrou na vida?

Não existe verdade, garoto. Existe convencimento

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui.

Compuseram o Ser Inexistente nesta terceira entrevista: Antonio Prata, Hélio Pellegrino, Camille Claudel, Paulo Leminski, Ovídio Martins, Ian McEwan, Machado de Assis, Cleci Silveira, Santo Agostinho, Renato Janine Ribeiro, Chico Buarque, George Bernard Shaw, Aldir Blanc, Elizabeth Roudinesco, Jesus Martín-Barbero, Fernando Pessoa, José Henrique Lopes, André Toso, Aforismos da Grécia Antiga (autores desconhecidos)

Agradeço a Yu pela foto.

Para ler a primeira Entrevista com o Ser Inexistente CLIQUE AQUI

Para ler a segunda Entrevista com o Ser Inexistente CLIQUE AQUI

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Marquei o encontro com o Ser Inexistente às 22 horas da última quinta-feira no Bar do Bahia, na Rua Augusta. Resolvi procurá-lo após ler notícias de que ele havia começado a fazer terapia. Fiquei intrigado com o fato de um senhor como ele ainda ter fôlego para conhecer a si mesmo e se confrontar com suas mazelas e fantasias.

Após um atraso de meia hora, sentou-se na mesma mesa que eu e pediu prontamente uma garrafa de conhaque e dois copos americanos. Mais sereno do que em nosso último encontro – ainda sóbrio –, o Ser Inexistente aparentava estar mais saudável e afável. Desculpou-se pelo atraso e disse novamente que não se lembrava de já ter me concedido entrevista antes. Dessa vez fui precavido, levei as duas conversas impressas e lhe provei com uma foto que já havíamos nos encontrado. Olhou com calma e confirmou: “Tem razão, não sou eu mesmo. Admito que já nos encontramos antes”.

Contraditório como sempre, o Ser Inexistente comentou os motivos que o levaram a fazer análise e revelou um pouco de sua vida, desde a infância até os dias atuais. Citou até mesmo a única mulher que um dia amou, falando sobre a diferença entre paixão e amor. Analisou a violência urbana que atinge o Brasil nos últimos anos e comentou algumas das mudanças que a Internet irá proporcionar para as futuras gerações.

Por que o senhor resolveu fazer análise depois de velho?

Porque há sempre algo de ausente que me atormenta. Porque sonhar cansa. Esperar pela materialização, mais ainda. Dá um trabalho hercúleo domar as vontades e expectativas. Vez por outra, elas insistem na rebeldia e tentam se desvencilhar de uma lógica racional que as reprime. Neste árduo conflito entre o que se deseja e o que se pode conseguir, a pessoa vai minguando. Perde paulatinamente suas células e impulsos. E corre o risco de se apagar. Quero evitar que isso aconteça comigo e me entender melhor. Hoje, já não sei se tenho desejos ou se criaram os desejos em mim. Além disso, o lápis do tempo é tão obstinado quanto impreciso, coloca-nos rugas em torno da boca, como contrapesos de um sorriso. Não me resta mais nada, só mesmo tentar descobrir quem sou eu.

Mas porque buscar um psicanalista e não uma religião, por exemplo?

É uma opção. Cada um que faça a sua. Mas resolvi fazer depois que li em um livro que quando Freud desembarcou na América para fazer uma série de conferências sobre psicanálise, se eu não me engano em 1909, virou-se para Jung, que o acompanhava, e disse: “Venho trazer-lhes a peste”. Freud disse que o objetivo da psicanálise era fazer com que o sujeito saísse da sua miséria neurótica para entrar na infelicidade do mundo. Achei isso perfeito. Comecei as sessões e percebi que, num certo sentido, a psicanálise é mesmo a peste; ou melhor, ela representa a antiutopia mais radical até hoje concebida pelo espírito humano, chegando mesmo a constituir-se como uma utopia às avessas. A psicanálise pretende curar o ser humano de suas ilusões. Ela não acredita na bondade fundamental do homem, nem parte do princípio de que o processo civilizatório é uma rampa ascendente, de sucessivas vitórias, que chegarão necessariamente à plenitude do amor de todos por todos. A luta entre Eros e Thanatos – vida e morte – se decide dentro de nós, a cada instante. Por nascermos prematurados, incompletos, sem equipamento instintivo capaz de nos costurar com solidez ao mundo, sofremos a permanente saudade de ser pedra, a nostalgia de um sono sem retorno, regido por estatuto que nos transcenda e que não possamos desobedecer ou transgredir. Escolhi esse caminho, pois o psicanalista é o contrário do burocrata ou do especialista. Ele escuta o desejo, debruçado sobre o coração selvagem da vida e, a partir desse pólo, se esgalha, ampliadamente, em todas as direções. O bom psicanalista é um centro pessoal de transformação do mundo. Só sua prática nesse sentido é que dirá a você o que fazer e o que mudar, inclusive na sua vida e na própria profissão. Mas tem quer ser um profissional competente, senão ele só te estraga.

O senhor não consegue resolver isso sozinho? Se um pensador como o senhor não consegue, quem um dia conseguirá?

Não sei se você sabe, mas o conceito de inconsciente pode ser traduzido por uma ideia muito simples, garoto: quando alguém fala, não sabe o que diz. E é isso que acontece com todos nós, não importa o quanto você leu, pensou ou aprendeu. Em verdade, lhe digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas. E é duro caminhar sem saber de fato o que se está dizendo. É doloroso sentir o toque do cansaço nos últimos lances de escada. Vislumbrar e não chegar. Caminhar e tremer com a evidente perspectiva da desistência. É por isso que a gente senta e acende um cigarro. Porque é necessário recuperar-se da luta e aplacar a ardência dos arranhões. Para poder respirar fundo e reiniciar a batalha. Com a certeza de que silêncio e apatia não são a mesma coisa. Apatia seria não procurar ajuda. Ando pensando muita bobagem ultimamente e preciso caminhar até o meu inconsciente para saber os motivos desses pensamentos.

E um grande amor, não resolveria?

Sorte no jogo, azar no amor. De que me serve sorte no amor se o amor é um jogo e o jogo não é meu forte?

O senhor é muito romântico para isso. Nunca teve um grande amor?

Já tive. Tínhamos conversas e risadas em comum, trocávamos afetuosas gentilezas, fazíamos leitura simultânea de livros agradáveis, desempenhávamos tarefas em conjunto, ora insignificantes, ora importantes. Tínhamos contradições passageiras, sem rancor, como acontece a cada um de nós até consigo próprio. Mesmo tais contradições, que eram bastante raras, tornavam mais prazerosa e habitual a concordância de nossos pontos de vista, o ensino recíproco das novidades, o sentir imensamente a nostalgia das ausências e o alegre acolhimento do retorno. Era tudo perfeito, até ela desaparecer.

Eu sei que parece meio clichê, mas o senhor acha que as pessoas ainda valorizam esse tipo de amor?

Óbvio que não. Uma das maiores realizações que se espera da vida é a paixão, um encontro amoroso intenso e pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão, do grego pathos, designa a situação em que sou passivo – em oposição à ação. Minha razão, assim, fica inibida, não é boa juíza de caráter ou de relações. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu “eixo”) sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. A mídia fala muito em paixão e pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Só aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que “foram felizes para sempre” só é possível com o amor, não com o fulgor passional. Mas o triste é que quando há o amor entre duas pessoas, a sociedade obriga que elas ajoelhem diante de um altar e jurem que vão permanecer para sempre nesse estado cansativo, deprimente e anormal. Minha conclusão é de que o amor ainda nem existe para vocês.

Após o desaparecimento de sua mulher, o senhor pensou em suicídio?

Não, só pensei em desaparecer como ela. Se for a mesma coisa… sim pensei em me suicidar. Aliás, penso diariamente e eternamente. Aí do ser humano que não pensa em evaporar. Para esse sim a vida já morreu. E ainda pior que a morte é desviver. Desviver, jamais; sofrer, quando necessário; sorrir, quando for realmente sincero e de boa vontade.

Sou relativamente jovem e penso nisso constantemente também. Às vezes sumir parece a solução mais correta diante de uma realidade incompreensível.

Vou te falar um negócio, garoto. Foi meu pai quem me ensinou. O homem, quando jovem como você, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, que é pelo qual você está passando hoje, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome. Continue assim que você se tornará um homem. A sua dor é a dor de tomar consciência de que o mundo é imundo e de que você contribui inconscientemente para essa imundice.

Mas isso é muito doloroso…

Sim, mas conscientizar isso é a única chance que nos é dada de participar da comunidade humana, com a qual temos um único compromisso: o de não fazê-la pequena, mesquinha, covarde. Não desperdiçar a vida, não desperdiçar o manancial de amor que existe em cada um de nós.

Como você era na sua infância e na sua juventude? Já passava por isso?

Comecei a sentir isso aos oito anos de idade. Voltei da escola certa manhã fingindo que estava muito doente. Mamãe foi condescendente comigo. Fez-me vestir o pijama, levou-me para o sofá na sala de visitas e cobriu-me com uma manta. Sabia que eu tinha voltado para monopolizar sua atenção na ausência de papai e de minhas duas irmãs. Talvez tivesse ficado feliz de ter alguém lhe fazendo companhia durante o dia. Fiquei lá deitado até o fim da tarde e a observei enquanto trabalhava, apurando os ouvidos quando ela ia para outras partes da casa. Impressionou-me o fato óbvio de sua vida independente. Ela continuava a existir mesmo quando eu estava na escola. Percebi que estava sozinho a partir daquele dia.

E depois, quando jovem?

Na sua idade eu ainda era noite e já sonhava madrugadas. Eu ainda era inverno e já sonhava primaveras. Eu ainda era botão e já sonhava flores. Este era todo o meu drama! E se hoje eu me perdi foi porque de mim me parti à procura de mais-além. E penso, agora, de que vale então viver, se indo com os outros me atraso e se buscando ir mais além me perco? Com os olhos da velhice, finalmente olho para dentro. Mas aí o estrago já está feito.

É mesmo difícil se encontrar de verdade com as pessoas…

É… Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa – e olhe que sabemos pouco da nossa própria. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.

Em determinado momento da conversa, o senhor diz que eu contribuo para a construção de um mundo imundo. Como assim? Não tenho culpa da violência absurda que eu vejo lá fora.

Não é diretamente. A criminalidade dos miseráveis, dos famintos, dos desesperados, dos revoltados, exprime uma forma perversa de protesto social, que não conduz a nada, e sem dúvida piora tudo. O delinquente, ao cometer seu crime, não pretende nenhuma transformação da sociedade. Ao contrário, busca identificar-se imaginariamente com o seu inimigo de classe, copiando-lhe caricatamente os defeitos e deformidades. Defeitos e deformidades que, com maior ou menor grau, todos temos.

Existe alguma esperança para a minha ou para as próximas gerações?

A esperança é importante, mas pode tornar-se um demônio, uma planta daninha que come o lugar de outras plantas melhores. A esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto. Mas existe uma mudança, não uma esperança, importante aí que a Internet proporciona e a sua geração nem percebe. A televisão por programação horária é herdeira do rádio, que foi o primeiro meio que começou a nos organizar a vida cotidiana. Na Idade Média, o campanário era que dizia qual era a hora de levantar, de comer, de trabalhar, de dormir. A rádio foi isso. A rádio nos foi pautando a vida cotidiana. O noticiário, a radionovela, os espaços de publicidade… Nas próximas gerações, essa relação que os meios tiveram com a vida cotidiana, organizada em função do tempo, a manhã, a tarde, a noite, o fim de semana, as férias, isso vai acabar. Teremos uma oferta de conteúdos. A internet vai reconfigurar a TV imitadora da rádio e a rádio imitadora da imprensa escrita. Creio que vamos para uma mudança muito profunda, porque o que entra em crise é o papel de organização da temporalidade.

Interessante… Uma coisa meio besta agora. Como sabe, não consigo enxergar o senhor, mas acho que o senhor usa barba. Por quê?

Imagine um filósofo. Pronto? Agora, me diga uma coisa: por que ele está de barba aí em seus pensamentos? Como eu sei? Ora, eu sei, você sabe, todos sabem: os filósofos usam barba, por várias razões. Primeiro: tanto a barba quanto o conhecimento têm de ser cultivados, numa relação dialética. Enquanto o filósofo filosofa, a barba cresce e enquanto a barba cresce, o filósofo filosofa. Houve um filósofo, inclusive, que de tanto filosofar chegou à conclusão de que não era a barba que crescia a partir de seu rosto, mas sim o contrário: o rosto é que brotava das raízes de sua barba. Desde então, nunca mais chegou perto de uma gillette, com medo de que seus pêlos ficassem pairando no ar, diante do espelho, enquanto seu corpo escorreria pelo ralo da pia.

Para finalizar, qual é a grande verdade que o senhor já encontrou na vida?

Não existe verdade, garoto. Existe convencimento

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui.

Compuseram o Ser Inexistente nesta terceira entrevista: Antonio Prata, José Henrique Lopes, Hélio Pellegrino, André Toso, Camille Claudel, Paulo Leminski, Ovídio Martins, Ian McEwan, Machado de Assis, Cleci Silveira, Santo Agostinho, Renato Janine Ribeiro, Aforismos da Grécia Antiga (autores desconhecidos), Chico Buarque,

Bernard Shaw, Aldir Blanc, Elizabeth Roudinesco, Jesus Martín-Barbero, Fernando Pessoa

O Ser Inexistente andava meio sumido, até que por acaso o encontrei em um bar de esquina na Rua Augusta semana passada. Percebi que ele estava completamente alterado logo de cara. Parecia ainda mais deprimido e decadente do que em nosso último encontro. Na verdade, era completamente diferente daquele ser inexistente que encontrei no Rio de Janeiro no último mês de março. Para minha surpresa, ele não se lembrava de mim, nem de nossa primeira entrevista e do nosso encontro casual na Itália. Não se lembrava de ter ligado para meu colega de blog Lucas Nobile reclamando que nossa primeira entrevista fora inventada. No início fiquei triste ao perceber suas condições, temi por sua desistência da inexistência, mas logo percebi que na verdade ele nunca estivera tão apaixonado pela vida. Mal humorado, mas com os olhos brilhantes, conversou empolgadamente comigo durante algumas horas. Sua única exigência dessa vez foi não ser fotografado. “Não estou com trajes apropriados para sair em fotos hoje”, disse. Eis mais uma entrevista exclusiva para o Sete Doses com o maior especialista sobre o nada que não existiu.

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Minha impressão é que o senhor está embriagado…

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirmos o fardo horrível do tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que nos embriaguemos sem descanso. Com quê? Com álcool, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se. E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com álcool, poesia ou virtude, a escolher. Eu priorizo o álcool e o cigarro.

O senhor sabe que isso pode lhe matar?

Garoto, a vida vai te matar. Aqui temos uma garrafa de uísque, dois copos e um cinzeiro. Você toma uísque? Vamos nos embriagar?

Vou te acompanhar… Essa sua intensidade e voracidade de engolir a vida… Sua primeira resposta me parece quase um poema. As pessoas se assustam com isso, não é?

Não me importa. O que importa é que só acredito nessa loucura. A intensidade faz o homem, a indiferença o dilacera. Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões (levanta-se da cadeira), mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso (torna a se sentar). Pra mim, são essas pessoas que enxergam a beleza…

E qual a importância dessa beleza?

Nossa! Puta merda! Que pergunta mais estúpida! Que saudade dos jornalistas de verdade! Mas vamos lá, garoto. Eu confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

E como fazer para enxergar essa tal beleza?

Garoto, essas merdas não têm receitas prontas. Que mania! Vamos dizer que a vida é composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito para fazer disso um tema que, em seguida, fará parte da partitura de sua vida. Voltará ao tema, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o e transpondo-o, como faz um compositor com os temas de sua sonata. O homem inconscientemente compõe sua vida segundo as leis da beleza mesmo nos instantes do mais profundo desespero.

Mas seu vazio com a vida é óbvio… Desculpe, mas o senhor não é feliz nem alegre…

Tenho preguiça de gente feliz. A falsidade me deprime. Você não entende? A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida.  Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas, quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar.  Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade…

O que mais aborrece o senhor nos dias de hoje?

O fato de as pessoas estarem ficando cada vez mais burras. Sabe, temos toda essa tecnologia e os computadores se tornaram máquinas de masturbação. A Internet era para nos libertar, democratizar, mas só deu acesso 24 horas à pornografia infantil. As pessoas não escrevem mais, fazem blogs. Em vez de conversar, teclam. Sem pontuação, sem gramática. Parece-me um monte de gente burra que acha que se comunica com mais um monte de burros em uma língua que parece a das cavernas.

Mas o senhor sabe que essa entrevista é para um blog, não é?

Não, nem sabia. Provavelmente é um blog de merda…

Não é bem assim…

Ah, outra coisa que me irrita é que o mundo está ficando cada vez mais chato. Você não pode mais beber, não pode mais fumar, não pode mais fazer porra nenhuma. Não posso nem criticar a porcaria do seu blog. Daqui a pouco vão proibir e fiscalizar o sexo sem camisinha. Que puta mundo chato. Vi na revista Rolling Stone um anúncio a favor da lei antifumo. Que porra é essa? Rock e cigarro são inseparáveis. Como podem fazer isso? Até a Rolling Stone está chata e chapa branca. Aí tem aquelas mulheres que só comem coisas light, moram em academias, não bebem, não fumam, vivem com um sorriso postiço e no fim de semana trepam com o melhor amigo do marido. O mundo está cada vez mais parecido com um conto rodriguiano, tudo tem que ser feito por baixo dos panos: é o mundo photoshopado. O mal do século XX foi a solidão, o mal do século XXI, além da solidão, é a hipocrisia mascarada por uma pretensa modernidade. Estamos fodidos! Nossa, ainda tem outra coisa: esse papo de sustentabilidade e proteção à natureza. Que merda! O próprio discurso está errado. “Vamos salvar a natureza!”. Outra hipocrisia. Salvar a natureza é o caralho, queremos salvar nossa espécie, nossa pele. Será que o homem não percebeu ainda que ele não tem poderes sobre a natureza? Que ele é só uma pequena parte dela? A natureza quer que a gente se foda. Daqui milhares de anos, se o ser humano não existir mais, a natureza criará outro tipo de vida. A natureza se adapta e passa por cima de tudo. A natureza não precisa ser salva, somos nós que precisamos. Ambientalistas deveriam ser chamados de humanistas. Preservar a natureza é o básico para sobrevivermos, é só isso. A natureza vai continuar se adaptando de qualquer maneira. Percebe? O discurso já é errado, imagina a ação. Estamos realmente fodidos!

O senhor já disse tudo o que o aborrece. Vamos deixar isso mais leve: o que acha ser a coisa mais importante do mundo?

A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo. O amor ao outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo. Mas esse é um tipo de amor que não estamos nem perto de alcançar.

Achei isso meio incompatível com a sua personalidade inexistente…

Foda-se.

Você disse que detesta a felicidade falsificada. Concordo com isso, a maioria das pessoas empolgadas e felizes que eu conheço, no fundo, não passam de seres patéticos e tristes… Mas a felicidade é impossível?

Acho que a felicidade só pode ser conquistada depois de se passar por momentos de muita dor. O homem mais feliz que já vi foi um jardineiro. Sentei-me em um banco e comecei a observá-lo. Ele, indiferente, aparava a grama do jardim. Ele, sim, sabia viver. Nenhuma pressa, nenhuma aflição: obedecia ao ritmo que lhe era imposto, harmonizava-se à ordem das coisas ao redor. Era como se eu, excedendo a mim mesmo, num movimento brusco, saltasse fora da engrenagem e, desgovernado, pudesse ver de longe o mundo pacífico e feliz de que não sabia participar.

Li que alguns jovens criaram um grupo para seguir os seus pensamentos. O senhor está virando uma espécie de messias para eles… Eles até usam frases do senhor em manifestações, passeatas e greves…

Quem for meu discípulo, que não me siga. Sigam seus caminhos, caminhos de cada um. Quando nos perdemos uns dos outros, aí sim, estaremos juntos. Ninguém tem obrigações ou deveres com o grupo. Nem eu nem você. O grupo é o caminho pelo qual um homem tem que passar para individualizar-se. E quando sai do outro lado, quer queira ou não queira, ele é o líder do seu próprio grupo. Gosto de andar em dupla, no máximo em trio.

Eu mesmo às vezes tenho vontade de ser um completo anarquista e construir novas possibilidades. Aí penso: merda, não dá!

Garoto, eu acho que você está certo. O anarquista que há em mim se junta com o ingênuo que há em você e propõe: “vamos fazer uma república utópica?”. O princípio da realidade passa com a sirene aberta, pára e nos autua em flagrante. E assim o é.

Mas o senhor sempre foi um fervoroso defensor da liberdade. Como conquistá-la sem ação? Esses jovens acreditam e saem às ruas. É tão inútil assim?

Liberdade é ação, é coisa encarnada, inserida no real com objetivo de transformá-lo, modelando-o com o tempo. Não é do dia pra noite. São necessários séculos e séculos de desenvolvimento humano. Não há liberdade abstrata, nobre princípio apenas retórico, a ser festejado e exaltado em manifestações. A liberdade é centro da condição humana. A liberdade deve ser tão natural quanto o ato de cagar ou mijar. Ela é individual. Quando você faz uma manifestação, não está sendo livre, está reclamando de algo que provavelmente não tem relação nenhuma com liberdade, algo do seu interesse íntimo. Você precisa se conscientizar que o ser humano é fundamentalmente egoísta: se uma pessoa luta por uma causa é pelo fato disso fazer bem para o ego dela. Por mais sincero que pareça, a coisa por trás é sempre sobre a porra dos nossos egos destroçados. Aí o cara faz uma manifestação, vira show, sai na televisão e fica bem longe da liberdade… Ele nem percebe, coitado, mas só está anestesiando uma dor própria com aquele ato. Na verdade, ele só está entrando naquele mecanismo, ele é uma peça, uma parte que faz aquele absurdo funcionar. A liberdade, repito, só pode ser conquistada individualmente. Se todos se sentirem livres interiormente, a sociedade se tornará de fato livre. Sem isso nada adianta, é só paliativo. O problema maior também é que não há nada que o homem deseje mais do que a liberdade, nem nada que lhe seja tão doloroso…

Revolução individual… Isso é utopia…

E o que não é? Eu nem sequer existo.

O senhor é maluco: conseguimos muitas coisas com pessoas que lutaram a vida inteira pela liberdade: Harvey Milk, Martin Luther King, a Revolução Francesa, as mulheres que queimaram o sutiã. Se não fosse por isso viveríamos até hoje no sistema patriarcal, no sistema de castas…

O que você tem contra as castas? Isso é cultural, seu preconceituoso! Estou com preguiça de falar disso… Que porre! Você às vezes é muito chato.

Para o senhor, como pode ser contada a vida de um homem?

Através de momentos que não significam nada pra ninguém e que, para aquele homem, resumiram o universo. A qualidade de uma vida talvez possa ser medida pela quantidade de momentos assim que um homem guarda na frágil memória.

Vou me reservar a fazer uma pergunta pessoal. Quais as dicas que o senhor pode oferecer para que eu e meus colegas de blog nos tornemos bons jornalistas?

Hoje, uma redação é essa massa de computadores e redatores. Ficam batendo o teclado no meio daquele barulho, daquela feira da fruta, daquele pessoal do departamento comercial saindo e entrando. De vez em quando alguém conta uma piada e, logo em seguida, recomeça o barulho. Ninguém pensa. Por isso, jornalista bom é jornalista tuberculoso, bêbado e louco. Jornalista que presta mesmo não passa dos 50 anos. É muita verdade para aguentar. E se o jornalista morrer de ataque cardíaco melhor: só morre do coração quem o tem. O jornalista ser infeliz e fodido é um atestado de caráter! Mas lembre-se de sempre utilizar o humor e a ironia: as pessoas graves, sérias, compostas, morrem ainda em vida, e se tornam o busto de si mesmas. Ah, e acabem com o tal do blog de merda de vocês e leiam os clássicos… O André Roston foi muito feliz no post dele da última segunda-feira…

Ah, quer dizer então que o senhor lê o blog?

Leio porra nenhuma… Esqueceu que eu não existo, imbecil?!

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui.

Compuseram o Ser Inexistente nesta segunda entrevista: Charles Baudelaire, Ana Luiza Ponciano, Gabriel Kwak, Rubem Alves, Hank Moody, André Toso, Jack Keroauc, Milan Kundera, Fernando Sabino, Domingos Oliveira, Fiodor Dostoievski, Nelson Rodrigues, Hélio Pelegrino, Marcelo Tas, Alex Polari, Helder Júnior, Cauê Vizzaccaro, Maria Rita Kehl, Friedrich Nietzsche

André Toso escreve para os Sete Doses aos domingos

* Ser Inexistente dá o empurrãozinho que faltava a Caetano Veloso

 

Há exatamente dois meses, no dia 05/04, André Toso publicou uma belíssima entrevista com o Ser Inexistente. Disse que aquele sujeito era o “maior especialista sobre o nada que a humanidade já conheceu”. Fiquei semanas matutando sobre aquilo. Sabendo da fertilidade infinda da mente de Toso, cheguei a duvidar seriamente da existência e da inexistência daquele indivíduo. Eis que ontem meu telefone tocou. Inconformado, o Ser Inexistente reclamava da entrevista que fora publicada no Sete Doses. Segundo ele, as respostas tinham sido descabidamente inventadas, configurando mais uma mostra da falta de ética da imprensa nacional. Tentei argumentar, mas fui rispidamente interrompido. Carente e verborrágico, ele queria falar sobre o que era a música popular para ele. Esbanjando seu cabotinismo, abriu um livro montanhoso sobre o cancioneiro do País. Em reprimenda ao Ser Inexistente, segue abaixo um mosaico de sua percepção musical. Uma prova cabal de que edição é tudo. Canja de galinha e manipulação não fazem mal a ninguém.

 

Vejam essa maravilha de cenário, é um episódio, um relicário. Minha alma canta. Canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar. Por isso uma força me leva a cantar. Dinheiro, pra que dinheiro, se ela não me dá bola? Dinheiro não lhe emprestei, favores nunca lhe fiz. Dinheiro na mão é vendaval. É o vento bravo. Impávido que nem Mohamed Ali. Aqui, ali, em qualquer lugar. Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. Um homem de moral não fica no chão. Apesar de você, que ostenta a fama, eu quero uma casa no campo. Uma casa muito engraçada. Quanto riso, quanta alegria. Quaquaraquaquá, quem riu? Quaquaraquaquá, fui eu. Quem me vê sorrindo, pensa que estou alegre. O meu sorriso é por consolação. Porque sei conter para ninguém ver o pranto do meu coração. Eu que já não sou assim, muito de ganhar, um dia eu acerto numa loteria. Seu garçom me empreste algum dinheiro, que eu deixei o meu bom com o bicheiro. Meu caro amigo, me perdoe, por favor. Quando o homem já está de partida, na curva da vida, ele vê que o seu caminho não foi um caminho sozinho por quê. Sei que estou no último degrau da vida. É o juízo final, a história do bem e do mal. As rugas fizeram residência no meu rosto, não choro pra ninguém me ver sofrer de desgosto. Acontece que meu coração ficou frio. A vida é essa, é um segundo que se esvai depressa. Senhora liberdade, abre as asas sobre mim. Minha romântica senhora tentação, não deixes que eu venha sucumbir nesse vendaval de paixão. De quem é esse jegue? Eu não sou cachorro, não. Sim… Deve haver o perdão para mim, senão nem sei qual será o meu fim. Quando o inverno chegar, eu vou chamar o síndico. Aliás, se isso acontecer, tanto faz, já me fiz por merecer. Vou partir, não sei se voltarei. Vou voltar, sei que ainda vou, vou voltar… Adeus, vou pra não voltar. E onde quer que eu vá, sei que vou sozinho. Não vai ser em vão que fiz tantos planos de me enganar. Como fiz enganos de me encontrar. Como fiz estradas de me perder. Fiz de tudo e nada de te esquecer. Bom dia, tristeza. Bye, bye, tristeza. Bye, bye, Brasil. Eu bato o portão sem fazer alarde, eu levo a carteira de identidade, uma saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde.

 

Lucas Nobile copia, cola, manipula e escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

Encontrei-me com o Ser Inexistente durante minha visita ao Rio de Janeiro no último mês de março. Em um café de Copacabana – na arborizada e tranquila Rua Santa Clara – entrevistei-o com exclusividade para o Sete Doses. Não vestia nada, não possuía nenhuma aparência, não respirava, nem falava: simplesmente não existia. O bate-papo durou um tempo indeterminado e incalculável. Minha pauta foi baseada em questão nenhuma. O ser inexistente é o maior especialista sobre o nada que a humanidade já conheceu. Ultimamente, infelizmente, a imprensa não tem lhe procurado como fonte. Uma ínfima parte de nossa conversa segue abaixo. Tentarei colocar todo o conteúdo aos poucos aqui neste espaço. Daqui para frente, o Ser Inexistente será figurinha carimbada aos domingos, já que posso reencontrá-lo a qualquer momento, em qualquer lugar.

Eu (de costas) e o ser inexistente (de frente) durante entrevista em Copacabana. Para ele, liberdade significa responsabilidade. “É por isso que tanta gente tem medo dela", afirma

Eu (de costas) e o Ser Inexistente (de frente) durante entrevista em Copacabana. Para ele, liberdade significa responsabilidade. “É por isso que tanta gente tem medo dela", afirma

Boa tarde, Sr. Ser Inexistente. Muito obrigado por me receber para essa entrevista. Gostando do Rio de Janeiro?

O Rio de Janeiro continua me causando o mesmo impacto de sempre. O sol ilumina de um jeito diferente aqui. 36 graus aqui são diferentes de 36 graus de outros lugares. E não é que o calor é mais intenso, é a luz que parece incidir de forma diferente, deixando tudo mais brilhante, nítido, quente. Além disso, música brasileira tem 47235 vezes mais graça se ouvida, tocada, composta, cantarolada ou assobiada aqui no Rio de Janeiro. As livrarias e os cafés cariocas conseguem ser mais simpáticos do que os paulistanos com muito menos esforço. O mérito é a localização: na calçada tudo é mais charmoso. E chega-se à conclusão: shoppings são para quem não tem praia aos finais de semana. Mas também tem seus problemas: o Rio de Janeiro é quente. Calor dá sono. Beber café acorda. Café é quente. O Rio de Janeiro é quente. Resumindo: sentir calor para acordar ou sentir sono com o calor?

Bom, para começarmos de fato, gostaria que o senhor falasse um pouco sobre como anda sua carreira e sua vida pessoal…

Para dizer a verdade, estou muito cansado. Acho que tenho que tentar descansar e dormir. Como bem sabe, a vida necessita de pausas. Tudo bem, vou ser franco de uma vez: estou perdido em todos os sentidos. Que esforço para me manter vivo! Erguer um monumento não requer um esforço tamanho. Ai, meus pobres nervos! Já percorri tantos anos e não aconteceu nada. Queria sentir uma mudança qualquer em mim. Uma ruga a mais, por exemplo. Uma coisa nova, nem que fosse de velhice. Que Deus me dê tranquilidade. Agora, quem me poderia tirar da depressão que estou sentindo? Que parente? Que amigo? E tenho a impressão de que seria fácil melhorar-me. Bastaria que alguém me garantisse uma solidariedade incondicional – assim como um pai. Alguém que fosse mais forte do que eu, entende?

Provavelmente, isso tem relação com o que ando lendo por aí. Dizem que o senhor está passando por uma crise de criatividade, que não tem mais produzido, que está desistindo. É verdade?

Sim, ando meio indiferente a tudo e não consigo criar. A cada segundo que passa percebo o quão insignificante e pequeno sou. A vida me tornou uma pessoa amarga. Cada amanhecer mais insuportável. Tenho culpa nisso, assumo. Assim como os vacilos e desgastes das relações humanas tiraram o brilho do meu cotidiano – do momento em que me levanto ao instante em que me deito -, os anos de convivência nesse atoleiro de desilusões deixaram o meu foco artístico muito mais opaco. Fiquei rabugento, ranzinza, chato mesmo. Meu olhar ficou viciado em objetividade, infelizmente. Minha cabeça pensa em podar coisas livres, lamentavelmente. Mas ainda não desisti, não desisti…

Por seu estado, o senhor acha que sua vida está se esgotando?

A vida sempre acaba, e não é uma vez só. É como se tudo que fizéssemos embolorasse logo depois, fazendo com que esquecêssemos do gosto do que comemos. Fica só a lembrança daquele cheiro de mofo e aquela aparência decrépita, de coisa passada do ponto, de oportunidade perdida, coisa mal aproveitada. Por que eu bebo a vida mesmo? Afasta de mim! A vida, no final, fica meio janta requentada, café de vó – muito doce, fraco e escaldante -, pão amanhecido. Você nunca sentiu ressaca da existência? Os dias passam e parece que a cerveja sempre acaba nas horas improváveis, quando a adega do bairro já fechou. A esperança é um engradado vazio: só decepção e inutilidade. Você está faminto, pega o pão e não há fatias o bastante de salaminho para preencher o sanduíche. Coito interrompido, motel sem cama, banheiro sem papel, festa só com vodka barata, visita da sogra. A existência é o óbvio desagradável, a surpresa de má-fé, a surpresa perversa. É despertar continuamente dos sonhos bons. Ano inteiro de quarta-feira-de-cinzas. A vida é sempre o dia anterior.

O senhor não crê ao menos em um destino para os homens?

O destino é o pensar. No fundo, a sabedoria do destino é a nossa própria. Seguimos o destino tendo consciência daquilo que no fundo nos é permitido realizar. Por mais tentações que tenhamos, nunca erramos nisso: sempre agimos de acordo com o destino. As duas coisas são uma só. Quem erra é quem não compreendeu ainda seu destino. Ou seja, não compreendeu qual é a resultante de todo o seu passado – que indica o seu futuro. Mas, compreenda-o ou não, indica-o do mesmo modo. Toda vida é exatamente aquilo que devia ser.

Então o senhor não acredita em nada?

Parece que me apaixonei pelo nada, mas acredito em mudar o pensamento dos homens sobre si mesmos e, consequentemente, seus destinos. É minha última luta e vou morrer tentando. Tenho pena da época em que vivemos. Tudo bem, o homem sempre foi bestial, mas hoje nem arriscar ele arrisca… Vivemos num mundo sem consolo, do qual Deus se retirou, e não fazemos nada para mudá-lo e nem para construirmos o nosso destino. Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos. Mesmo com todo o conhecimento que as gerações anteriores nos legaram e com as possibilidades da Internet, estamos acomodados com a situação deplorável em que nos encontramos. Anote: em uma terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo. Eu estou fugindo. E me diga uma coisa: do que adianta você ter essa alma colada aos ossos, dessa carne errada? Sem o risco a vida não vale a pena. Se você não quiser arriscar, não comece. Isso quer dizer: e se você arriscar e perder namorada, esposa, filhos, emprego, a cabeça e até a alma? Mas é sempre melhor isso do que olhar para todas essas outras pessoas que nunca acertam, porque nunca se propõem ao risco. O dono da verdade precisa é descobrir a verdade sobre si mesmo. Não tem jeito, nossas verdades são só palpites; tudo que não inventamos é falso. Precisamos descobrir o que somos e qual será o nosso destino. Afirmo: isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.

Acha que é por essas idéias que consideram o senhor um louco? O que tem a dizer a respeito dessas acusações?

Nós não podemos falar nada sobre nós e a nossa época sem começarmos por definir a loucura. Como é que se explica que nós sejamos seres dotados de razão, enquanto a nossa sociedade é tão ligada à loucura? Como pode uma pessoa que se gaba por ter toda a sua razão agir como se estivesse louca e acreditar nas ideias loucas que a sociedade lhe impõe? Nós podemos encontrar uma resposta para isso com aqueles que perderam a razão. O que é que os deixou loucos? As pessoas ficam assim quando não chegam a criar uma relação funcional e prática com a sociedade e com a realidade. O que eles fazem? Eles criam uma sociedade que é uma realidade para eles. Eles ficam loucos para não perderem a sua razão. A sua loucura é a explicação que eles dão para a loucura que eles encontram no mundo. A loucura é a saída mais viável. Essa é a minha filosofia e deveria ser a sua também. Lembre-se: nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram.

Não é incoerente o senhor desprezar a vida, afirmar que ela é sempre o óbvio desagradável, e logo depois falar dela com tamanha paixão?

Eu amo a vida! O direito à incoerência deve ser dos primeiros reivindicados pelo ser humano. Qualquer homem inteligente é incoerente. A coerência é apenas um exercício de uma inteligência essencialmente incoerente.

O senhor também é constantemente acusado de ser um vagabundo. Dizem que é escritor e poeta, mas que nunca lançou nenhum livro. Afinal de contas, qual a sua profissão? Em que horário o senhor exerce suas funções?

O escritor vive. Ninguém é escritor das oito ao meio-dia e das duas às seis. Quem é poeta é poeta sempre, e se vê continuamente assaltado pela poesia.  Assim como o pintor é assediado pelas cores e pelas formas, assim como o músico se sente procurado pelo estranho mundo dos sons, o escritor deve pensar que tudo é argila, com que fará da miserável circunstância de nossa vida alguma coisa que possa aspirar à eternidade. Não me venha falar de profissão. Escrevo quase porque não há felicidade ou dor que sejam apenas físicos, os dois sempre recebem intervenções do passado, das circunstâncias, do assombro e de outros fatos da consciência e da inconsciência. Desculpe, mas não sou um homem de frivolidades e inutilidades sem sentido metafísico.

Então, para o senhor, só a arte pode nos salvar?

Salvar? Sei lá. Só sei que as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.

Acha que as gerações futuras ouvirão sua voz algum dia? Parece-me um pouco romântico demais para um mundo cada vez mais eficiente.

Difícil. O problema é que os pais de hoje não olham para as crianças como crianças, mas como brinquedos articulados, ou pequenos animais de estimação, que servem para entreter, embaraçar ou simplesmente importunar os outros. Na Idade Média, as crianças eram erradamente tratadas como adultos. Mas o século 21 viajou até o outro extremo: permitiu que os pais se convertessem em crianças pela forma sentimental e deslumbrada como tratam das suas. Mas tudo bem, vou continuar gritando sem voz…

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui. E se alguém acha que é muita pretensão misturar “pessoas comuns” com “gênios canônicos”, eu, de coração, quero que se foda.

Compuseram o Ser Inexistente nesta primeira entrevista: Clarice Lispector, Manoel de Barros, Jorge Luis Borges, Franz Kafka, Domingos Oliveira, Edward Bond, Goethe, Antonio Maria, Carlos Drummond de Andrade, Alexandre Graham Bell, T.S. Eliot, Cesare Pavese, Rainer Maria Rilke, Paulo Roberto Pires, Malcom X, George Bernard Shaw, Mark W. Baker, André Toso, Camila Mamede, Lucas Nobile, Fábio Vanzo (http://avozdomorto.blogspot.com), Paulo Leminski, Nelson Rodrigues, João Pereira Coutinho, Tata Aeroplano e Rubem Alves.

Agradecimentos: Renato Rocha pela foto e Alessandro Ziegler pela edição da imagem

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses