Havia um Ponto Cego na Rua À Esquerda – um lugar sujo e acinzentado.

Confundia-se de tal forma com o ambiente sombrio onde se escondera que ele próprio desconhecia a sua existência.

Jamais foi visto por alguém, sequer por si mesmo. Apesar de ser dotado de uma visão aguçada. Do alto do papelão que fazia de jazigo, conseguia compor uma imagem colorida e convincente ao olhar apenas para os pés dos transeuntes. Chinelos, sandálias, tênis e sapatos com ou sem saltos bastavam ao ninguém.

A obsessão pelos calçados não era sem motivo. Fez da calçada a sua morada, e já não diferia do chão onde pisamos. Sua negritude chegava a se assemelhar à do asfalto alguns metros à frente. O odor de decomposição era igual.

Ali nunca brotaria um jardim para se cuidar. Imperava somente a sobremorrência dos dias seguidos das noites, senhora absoluta daquele Ponto Cego e de onde mais ele pudesse avistar. Já que nem os seus olhos de lince alcançavam a escuridão de um corpo sem vida, ignorava qualquer sensação que não fosse meramente mecânica. Como era a fome e não era a felicidade.

O ninguém também não sabia, porém todo mundo sempre soube, que havia um sentido para Em Ponto. Embora não fosse provido de sentidos. Partilhava do mesmo solo de Ponto Cego, com a diferença de que não estava parado. Caminhava altivo, sempre em direção ao nada. Até tropeçar, e os pontos se ligarem.

A colisão com Ponto Cego foi dolorosa. Em Ponto pisou em ninguém com os dois pés. Ainda que vacilante, esforçou-se para não abaixar a cabeça. Sua cegueira, de qualquer modo, não lhe permitiria enxergar o que não existia, mas havia.

A diferença entre os dois ruíra por segundos. Mas a indiferença perdurou.

Em Ponto esfregou sistematicamente os seus mocassins no meio-fio, enojado, para se purgar das impurezas do choque com a realidade. Ponto Cego desviou o olhar para outros sapatos. E um Ponto De Vista, ao longe, cruzou a esquina da Rua À Direita para morrer atropelado naquele instante.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

Foto Anderson Schneider
O dispensário*

O Departamento de Profilaxia da Lepra criou uma legislação específica para a visitação aos asilos em 1939, o que distanciou ainda mais Rosalina da família. Seus filhos estavam proibidos de frequentar o asnatório, assim como todos os menores de 21 anos e quem não fosse parente de internos. A Rodolfo, só permitiam que visse a esposa em um domingo de cada mês e, mesmo assim, ele não fazia uso de todos. Também horas, que determinaram horários para o funcionamento do parlatório, das 9 às 11 horas ou das 13 às 15 horas, que nem sempre coincidiam com os da chegada dos trens às regiões dos leprosários. Com o crescimento da população doente, apenas 50 visitantes de cada vez podiam ficar diante dos muros. Os diretores dos sanatórios ainda possuíam o direito de interditar o local sempre que ocorressem problemas disciplinares.

Rodolfo foi fichado na “seção de contatos” da esposa em 1939. Ganhou uma carteira de identificação com seu nome, foto e as datas de exames semestrais que deveria cumprir caso desejasse retornar ao asilo, onde apresentaria a anotação “em dia” no documento. Além de distanciar ainda mais os internos do restante da sociedade, a medida ajudava o DPL a descobrir novos casos de lepra precocemente. Antes, os prontuários dos pacientes já vinham sendo utilizados com a finalidade de controlar os seus “comunicantes”, denominação que o órgão deu às pessoas com quem eles tivessem mantido contato prolongado. Registravam-se os dados diagnósticos e pessoais do enfermo em sua ficha clínica, mas também se abria um “inquérito epidemiológico”, no qual ele fornecia informações detalhadas sobre seus parentes. Dizia onde encontrá-los, inclusive.

Rodolfo, Nivaldo, Izabel, Augusta e Sebastião, todos comunicantes, deveriam realizar exames regulares em um dispensário, o segundo instrumento do aparelho antileproso montado pelo DPL. Cumpriram a norma por cinco anos após a captura de Rosalina, sob a ameaça de serem caçados. Se não comparecessem no local e dia indicados, arriscavam-se a receber a visita do “fiscal da lepra”, que poderia requerer auxílio à Polícia Civil ou Militar se assim desejasse. Havia sanções menos temidas pelo desacato, como impossibilitar a matrícula das crianças em escolas ou proibir as visitas ao parente preso no leprosário, a exemplo do que passou a ser feito com quem estava registrado na seção de contatos.

As limitações financeiras não permitiram que todos os dispensários tivessem prédios próprios como sede, vontade inicial do DPL. A maioria deles era itinerante, instalada em caráter emergencial nas cidades onde não houvesse aparelho parecido e dividia espaço com outras unidades de saúde. Ocupavam geralmente salas exclusivas, com o título “Serviço Espacial de Lepra” na porta, semelhantes àquela onde Rosalina fora diagnosticada como hanseniana. Em 1936, um ano após a mãe deixar a Seção de Elucidação e Diagnóstico em direção ao Aymorés, um plantonista de dispensário descobriu a doença em Augusta, a terceira filha dos Mercúrio.

Diferentemente do que se cogitava na época, a hanseníase não é hereditária. Ninguém nasce doente porque os pais o são, embora possa ter maior suscetibilidade genética para ser infectado. O contágio é somente inter-humano. Nenhum inseto é transmissor. As condições sanitárias constituem, sim, fator de risco à população, mas porque caracterizam miséria. Acreditava-se também que o clima tropical contribuía para a disseminação do mal, uma vez que se espalhou com facilidade no Brasil e em países africanos. Por isso, os leprosários deveriam ser construídos em regiões altas e secas. Mais um erro: a fria Noruega do doutor Hansen, por exemplo, livrou-se da endemia somente quando se desenvolveu socioeconomicamente.

A transmissão da doença se dá basicamente pelas vias áreas superiores, em virtude da grande quantidade de feridas na mucosa nasal, boca e laringe dos acometidos. Quando falam, eles expelem em torno de 10 mil bacilos de Hansen por minuto. As lesões cutâneas ulceradas também são meios de eliminação de germes, porém não justificavam a queima ou esterelização de tudo o que o doente tocasse. Já se sabe que essas feridas não são suficientes para implicar contaminação, que acontece apenas com exposição constante ao bacilo. “O que importa é que a moléstia se transmite. O como não sabemos. Mas o leproso é, ao menos, um dos depósitos do vírus. Isto está provado. Daí a necessidade de isolá-lo da comunidade”, contrariou o médico Oswaldo Cruz, em entrevista concedida ao jornal O Imparcial, em 1913.

A “filha mais velha da morte”, como o sanitarista se referiu à lepra na ocasião, é uma doença de baixa patogenicidade. Ou seja: a exemplo da tuberculose e da poliomielite, pode se alojar e multiplicar em um grande número de indivíduos, entretanto apenas uma pequena parcela vai adoecer. A proporção está relacionada à qualidade de vida da população, que favorece distúrbios protéico-calóricos quando ruim. Ainda assim, cerca de 80% das pessoas são imunes à hanseníase, segundo estimativa do Ministério da Saúde. Dois dos quatro filhos de Rodolfo e Rosalina estavam entre os 20% sem resistência.

……

Quando o médico do DPL constatou que Augusta havia sido infectada, os Mercúrio já estavam preparados para a perda. Os braços da menina foram tomados por enormes manchas brancas, como acontecera com a mãe. Aos 6 anos, ela foi levada ao Aymorés para fazer companhia para Rosalina. A família ruiu novamente, porém conseguiu superar o segundo trauma mais rapidamente do que o primeiro. Ao menos a filha ficaria sob os cuidados da mãe. E estava em melhor situação, pois desenvolvera a hanseníase tuberculóide.

Nivaldo manteve o bacilo incubado em seu organismo até completar 15 anos. Nessa idade, parecia-se cada vez mais com o pai. Ambos eram altos e magros, com olhos castanho-claros e os cabelos lisos na mesma cor. Depois que começou a sentir fraqueza, perdeu parte da sensibilidade nas mãos. Machucava-se e não percebia, e só era capaz de segurar objetos com muito esforço. O seu caso não foi identificado a tempo por um dispensário, do qual os comunicantes de Rosalina haviam se livrado dois anos antes. O doutor Moacir Porto, o mesmo que tratara sua mãe em Araraquara, confirmou o diagnóstico de hanseníase virchowiana para o garoto. Mas não o delatou. Silenciou sobre o assunto durante dois anos, desrespeitando uma lei estadual de 31 de dezembro de 1929: todo médico que soubesse de um caso de lepra era obrigado a informá-lo imediatamente, por escrito, ao Serviço Oficial; também ficava impedido de atender esse paciente, que passaria ser de competência exclusiva do DPL.

Com a evolução da doença, Rodolfo levou pessoalmente o filho ao Aymorés no dia 28 de maio de 1945. A atitude é compreensível, dada a eficácia da propaganda contra a lepra. Tratava-se de um mal incurável, que deformava, e era somente isso que se sabia com exatidão naquele tempo. Quem o contraísse se sentia mais seguro sendo tratado em um sanatório especializado, ainda que privado de sua liberdade. E, se não fosse para lá espontaneamente, precisaria viver às escondidas para não ser denunciado e internado à força.

Ao contrário da primeira vez que Nivaldo foi a Bauru, ninguém se prontificou a emprestar um carro ao pai e seu filho leproso. A viagem pela ferrovia era mais longa do que a realizada em automóvel; demorava quase seis horas. O garoto não organizou seus pensamentos durante todo aquele tempo, falou pouco e evitou trocar olhares com Rodolfo. Novamente em frente ao primeiro portão do asilo-colônia, que um dia atravessara para visitar Rosalina, ele enfim se pronunciou. Apresentou-se a um funcionário como doente, disse que precisava de tratamento e foi encaminhado para a sala do diretor do Aymorés. O pai permaneceu em frente ao parlatório.

A sentença da internação não tardou.

– Então vou para casa, arrumar as minhas coisas e já voltou – conformou-se Nivaldo.

– Não. Você fica desde já. Sua família, você não vê mais – retrucou o diretor.

Nivaldo retornou ao portal do Aymorés e tentou dar um abraço em Rodolfo, porém nem um aperto de mão seria permitido.

– Mas nunca passei a doença durante dos 17 anos em que vivi com ele e meus irmãos! Vou passar agora, só de apertar a mão? Semana que vem é meu aniversário e quero me despedir do meu pai! – implorou.

A resposta lacônica do guarda sanitário:

– É a lei.

O funcionário apontou para o muro em seguida, onde a direção do asilo pregava algumas de suas regras. Um desses textos era o seguinte:

“Edital de Prohibições:

1º – Receber diretamente qualquer visita, qualquer objeto, fructas etc, sem autorização prévia;

2º – Entregar directamente às visitas qualquer objecto, carta etc, devendo-o fazer a polícia;

3º – Apertar a mão, abraçar, ou ter qualquer contato com os visitantes;

4º – Promover algazarras ou distúrbios na hora das visitas;

5º – Permanecer no Parlatório depois de terminada a hora de visitas.”

Lacrimejando, Nivaldo deixou o local com a lembrança da visita à mãe mais clara do que nunca. A realidade dela era agora a sua própria. Contudo, ao contrário de Augusta, ele não pôde contar com o amparo de Rosalina ao cruzar o pórtico de entrada da zona doente. Na verdade, nem a menina gozou de colo materno por muito tempo em Bauru.

Nivaldo e Augusta foram os únicos Mercúrio que, dentro do leprosário, conheceram o túmulo onde outros doentes enterraram Rosalina no dia 12 de dezembro de 1940, cinco anos após a mulher ser afastada da família e quase cinco anos antes da chegada do filho ao Aymorés.

Como consta no prontuário da paciente, Rosalina não sofreu grandes deformações no corpo mesmo no estágio mais avançado da doença. Teve rarefação de cabelos e sobrancelhas, o que é normal em casos de hanseníase virchowiana, e algumas lesões na face, braços e pés. Mas provavelmente se impressionou ao ver nos demais aquilo em que poderia se transformar.

*Adaptação do quarto capítulo do livro-reportagem “Lázaros – Histórias de portadores de hanseníase no Estado de São Paulo”, escrito em 2006.


Leia também:
Lázaros – Primeiro Capítulo
Lázaros – Segundo Capítulo
Lázaros – Terceiro Capítulo


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

Aqui renasce a esperançaO parlatório. Abandonai toda a esperança, vós que entrais.

O parlatório*

Em Itápolis, a família Mercúrio tentava se reerguer. As duas filhas assumiram as tarefas domésticas, enquanto Nivaldo ajudava o pai nos trabalhos braçais. Ocupavam-se agora no sítio do avô, com os quase 60 parentes de Rodolfo que também moravam no local. Por seis meses após a internação de Rosalina, nenhum deles pôde deixar a propriedade: foi esse o período estabelecido pelo Departamento de Profilaxia da Lepra para observar quem havia mantido contato com a doente.

A lepra era assunto proibido quando estavam jantando, único momento do dia em que a família se reunia. Se, porventura, a palavra escapasse, todos se calavam. Nivaldo sentia um frio na espinha e continha as lágrimas. Não era raro ele ver alguém chorar nos cômodos da casa depois que Rosalina fora arremessada naquela ambulância.

A maioria das crianças não sentia a perda de um membro da família como os adultos. Elas se divertiam nos dois engenhos de cana-de-açúcar da fazenda, fabricando rapadura, garapa ou melaço, correndo com os cachorros e ordenhando as vacas. Nivaldo não, embora tudo o que soubesse sobre a lepra se resumisse ao dia em que levaram a sua mãe. O garoto ficara mudo a partir de então. Traumatizado, voltou a falar somente quando as primeiras cartas de Rosalina chegaram à casa do avô.

A mulher escrevia a cada dois meses em média, depositando suas correspondências em uma estufa localizada no limite da zona doente do Aymorés. Passadas as 12 horas do processo de esterelização, um funcionário levava a carta ao diretor do asilo-colônia, que avaliava o seu conteúdo. Se o texto criticasse o sanatório ou o DPL, ele tinha o direito de simplesmente anexá-lo ao prontuário do paciente. Do contrário, carimbava a palavra “Desinfectado” no envelope, rubricava e ordenava que o enviassem. Tudo que chegasse ao asilo também passava pela censura da administração.

Rodolfo lia para os filhos as cartas de Rosalina, ainda impregnadas com o cheiro de formol, chorava e as queimava. Para as crianças, o intuito era incinerar as lembranças tristes da mãe, mas a atitude ser bastante incentivada pelo imaginário da época.

O marido de Rosalina era magro, alto e carrancudo, e a visitava quase com a mesma frequência com que as correspondências chegavam a Itápolis. Não ia mais vezes porque a viagem era longa e melancólica. Conforme lhe garantia a legislação vigente, Rodolfo poderia ter se casado com outra mulher, visto que sua esposa deixara de existir no mundo sadio. No Brasil, a anulação automática de todo casamento em que um dos cônjuges fosse leproso chegou a ser sugerida com base no artigo 219 do antigo Código Civil: “erro essencial de pessoa”. A jurisprudência, no entanto, continuou a processar o cancelamento apenas quando requerido por uma das partes.

Comumente, os homens se aproveitavam da campanha contra a lepra para romper compromissos indesejáveis. Como na maioria das vezes uma denúncia valia mais para o DPL do que um exame clínico, uma mulher saudável podia ser delatada como leprosa pelo marido e isolada em um sanatório de imediato. Da mesma maneira, qualquer dermatose passou a ser tida como hanseníase pela população, fazendo com que muitos portadores de outras doenças (ou mesmo de alguns ferimentos na pele) acabassem trancados nos leprosários. Também não foram poucas as pessoas que se disseram enfermas somente para voltar a conviver com seus companheiros segregados. Rodolfo permaneceu casado e na sociedade sadia.

Quando retornava do Aymorés, o pai mentia aos filhos. Dizia-lhes que a mãe estava bem e mandara lembranças, mas não queria que eles a vissem internada. Só houve uma visita de Nivaldo, Izabel, Augusta e Sebastião a Rosalina, cerca de um ano após sua captura. Naquela terça-feira de 1936, ainda não havia amanhecido no instante em que as crianças começaram a carregar com bolos e doces um carro emprestado por um amigo do avô, escuro como aquela ambulância do DPL e como eram todos os outros automóveis particulares da época. Deixaram Itápolis de madrugada, para aproveitar cada minuto do dia que teriam pela frente.

Locomovendo-se a demorados 40 quilômetros por hora debaixo de um sol escaldante, o carro que trazia os Mercúrio levou mais de três horas para chegar ao Aymorés. A viagem aumentou a ansiedade dos filhos em rever a mãe. A expectativa, todavia, foi frustrada por dois muros paralelos, com distância média de 1,5 metro , que os separavam de Rosalina. Tinham aproximadamente 2 metros de largura e 1,5 metro de altura cada, repletos de arames farpados no alto. Entre eles, um guarda andava de um lado para outro enquanto alguém estivesse ali, advertindo às pessoas para manterem distância. Aquele era o parlatório.

Circundado por uma área cultivada com eucaliptos, o local limitava a zona intermediária da doente do asilo. Situava-se diante do pórtico atravessado por Rosalina um ano antes. Em diversos leprosários do país, lia-se ali uma Araúa inscrição que chega a parecer irônica: “Aqui renasce a esperança”. De acordo com relato de Heráclides César de Souza Araújo, partidário do regime isolacionista que dirigiu o Serviço Nacional da Lepra em 1926, o lema provém da década de 1880. O escrivão Luiz Augusto Magalhães sugerira um outro dizer para ser colocado na entrada do Imperial Hospital dos Lázaros do Rio de Janeiro na época. Lá, gravou-se em vitral, com letras de fogo, a sentença da porta do inferno da Divina Comédia, de Dante Alighieri: “Abandonai toda a esperança, vós que entrais”. O imperador Dom Pedro II visitou a instituição no ano seguinte e deparou com a frase. Desaprovou-a terminantemente, exigindo que fosse substituída por algo mais humanitário.

O DPL endossou a ideia no Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes, seu mais antigo leprosário. “Se, porém, o portão o [doente] detém, o dístico que o encima: ‘Aqui renasce a esperança’, apresentando-lhe um sabor de dizeres de lenda, estimula-o a entrar, a fim de desvendar-lhe o significado”, argumentava o órgão em um relatório que avaliava suas realizações no local entre 1934 e 1941. Rosalina e demais leprosos internados em Bauru não tiveram a mesma curiosidade despertada, porque o pórtico do Aymorés foi apenas pintado de amarelo durante longo período.

Quando chegaram à barreira, Nivaldo e seus irmãos não conseguiram enxergar muito por cima dos muros. Rodolfo levantou os filhos, um a um, e os deixou no chão em seguida, onde seus olhares não alcançavam além do arame farpado. Também não puderam conversar, impedidos pela distância e pelo acumular de vozes incessantes nas duas horas em que estiveram ali. Escutaram o pai falar que estava com saudade, viram-no corresponder-se com a mãe através de sinais e, por fim, dizer que desejava ir embora.

As crianças deixaram o bolo e os doces com os seguranças e respeitaram a vontade do homem, horrorizado pelas atrocidades que vira nos demais doentes. A maioria não possuía somente manchas brancas como Rosalina, mas também incontáveis perfurações no corpo. Todos estavam com as mãos em formas de garra (inclusive ela), em aspecto simiesco. Alguns já haviam perdido narizes; outros, amputados pés e pernas. “Verdadeiramente dantescos são os casos avançados, chamados ‘fim de lepra’, com o seu impressionante cortejo de dores”, reconhecia o próprio DPL no mesmo documento elaborado sobre o Santo Ângelo. “Nestes enfermos, tudo está alterado: não têm mais vista, nem voz, nem dedos. A sensibilidade quase nula ou, por um contraste inexplicável, dores terríveis ao simples toque de um lápis. Os órgãos internos em mau funcionamento, o corpo todo chagado. Um verdadeiro molambo humano! E, ao lado de toda essa miséria, o sentimento de reclusão, a dor da saudade, dos dias venturosos que não voltam mais, da triste e dolorosa separação de seus entes queridos, de seus lares, de seus amigos.”

Ao contrário da viagem de ida, os Mercúrio retornaram calados à fazenda do avô. Dos quatro filhos, que não conseguiram nenhum afago materno naquele dia, apenas Augusta voltaria a ver Rosalina. Em Itápolis, Nivaldo cresceu sem imaginar que ficaria novamente diante do muro do leprosário. Mas do lado de dentro.

*Adaptação do terceiro capítulo do livro-reportagem “Lázaros – Histórias de portadores de hanseníase no Estado de São Paulo”, escrito em 2006.


Leia também:

Lázaros – Primeiro Capítulo
Lázaros – Segundo Capítulo


De Porto Alegre, Helder Júnior trabalha muito, comemora o heptacampeonato nacional corintiano e escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

Vista aérea do asilo-colônia Aymorés
O Aymorés*

Uma barreira separava Rosalina dos bancos da frente da ambulância, tal qual um carro de polícia, o que a impediu de ver a guarda sanitária durante todo o percurso até a Seção de Elucidação e Diagnóstico do Serviço Médico local. Pouco se enxergava no interior do veículo. O espaço reservado à pessoa capturada, além de ter o ar carregado pelo cheiro álcool – mais tarde, o camburão seria novamente esterilizado –, era bastante escuro. A única janela da lateral traseira estava protegida por uma pesada cortina preta, que, empurrada pelo vento, batia na carroceria e chegava a competir em barulho com o motor.

Após confirmar a veracidade de outras denúncias de doentes da região, o médico encarregado da região pelo Departamento de Profilaxia da Lepra recebeu Rosalina no Serviço Médico. A mulher foi submetida a um exame essencialmente clínico, uma vez que o baciloscópico não identifica a hanseníase em suas formas benignas. Já na década de 1930, diferenciava-se a doença em quatro tipos: a indeterminada ou precoce, que pode tanto evoluir, quanto regredir ou desaparecer; a tuberculóide, não-contagiosa e que acarretas lesões bem delimitadas na pele; a virchowiana ou multibacilar, pior de todas, contagiosa e com danos cutâneos difusos; e a dimorfa, instável, tendendo por vezes a ser tuberculóide e outras, virchowiana.

Em caneta-tinteiro e letra arrastada, registrou-se em prontuário do DPL que Rosalina Mercúrio havia contraído a lepra lepromatosa, antiga nomenclatura da hanseníase virchowiana ou multibacilar. Ou seja, a doente não possuía nenhuma resistência ao bacilo de Hansen, que se multiplicava acentuadamente em seu organismo. Essa forma da enfermidade acarreta anestesia completa de pés e mãos, atrofia muscular e inchaços. Entre as partes mais comprometidas do corpo, estão a face, o tronco, os braços, cotovelos, mucosas, ossos, gânglios e órgãos como fígado, baço, testículos e olhos. À época da internação compulsória, a associação entre a perda de sensibilidade tátil dos doentes e a falta de higiene nos asilos tornava comuns infecções em machucados simples. Nas feridas e até mesmo nos olhos, que paravam de piscar em alguns casos, as moscas encontravam o lugar ideal para depositar seus ovos. Dias depois, surgiam as larvas.

Além de decretar um destino inevitável de dor, o prontuário assinado pelo médico do DPL significava também o obituário civil de Rosalina, que, a partir de então, perdeu todos os seus direitos na sociedade sadia. Esse era um mundo que não mais lhe pertencia, de onde deveria ser segregada imediatamente. E para sempre.

Arremessada novamente na ambulância negra – agora, mais parecida com um carro funerário do que de polícia –, Rosalina viajou a Bauru, na região Noroeste do Estado de São Paulo e distante 108 quilômetros de Itápolis. A cidade abrigava o asilo-colônia Aymorés, o mais próximo dos cinco sanatórios para leprosos mantidos pelo Estado depois da Revolução de 1930. Os outros quatro eram o Cocais, em Casa Branca; o Pirapitingui, em Itu; o Padre Bento, em Guarulhos; e o Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes, único construído antes de Getúlio Vargas chegar à presidência. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (também responsável pelos Hospitais da Luz e Guapira, na capital, extintos na década de 1920) ergueu o Santo Ângelo. Sua arquitetura, de Aberlardo Soares Caiuby, serviu como modelo para os demais leprosários.

A estrutura que Rosalina em breve conheceria era fruto da mente de um dos mais fervorosos seguidores dos ideais isolacionistas de Oswaldo Cruz. Apesar de não ser médico, Caiuby foi amigo e discípulo de Belisário Pena, que chegou a sugerir a segregação compulsória dos portadores de lepra em dois municípios autônomos, um no Sul e o outro no Norte do Brasil, quando comandou o Departamento Nacional de Saúde. O arquiteto julgava-se capaz de dar continuidade e aprimorar a iniciativa. Segundo ele, tratava-se de uma luta do bem contra o mal, de uma “guerra santa”, conforme definiu em discurso de 1931.

A origem do Aymorés é anterior ao engajamento do governo federal na causa do isolamento compulsório. Em 25 de setembro de 1927, as cidades do Noroeste do Estado de São Paulo firmaram o Convênio das Municipalidades, segundo o qual se comprometeram a destinar 10% de suas verbas anuais à construção de um asilo que abrigasse todos os leprosos daquela região. O problema era que ninguém se dispunha a receber o sanatório. Saber que um leprosário seria instalado próximo de suas casas fez com que moradores dos municípios envolvidos se mobilizassem para promover uma série de protestos. O mesmo ocorreu em Casa Branca e Itu.

Contrariando a população local, o então juiz de Bauru Rodrigo Romeiro determinou que uma fazenda de 400 alqueires, equivalentes a 9.680.000 metros quadrados, fosse destinada à construção do Aymorés em sua cidade, a 12 quilômetros do centro.

As obras começaram em 1928, foram entregues à organização filantrópica Liga de São Lázaro de Bauru em seguida e, em 1932, a Inspetoria de Profilaxia da Lepra tomou para si o sanatório, como já havia feito com o Santo Ângelo. O próprio Francisco de Salles Gomes Júnior, diretor que por mais tempo esteve à frente do IPL/DPL, inaugurou o asilo-colônia em 13 de abril de 1933, com a internação de dez pacientes. Outros 307 doentes foram isolados no local no mesmo ano, e a população só cresceu até a década de 1970. A capacidade inicial do sanatório era de 1.000 leitos, porém, já em maio de 1937, moravam ali 1.435 pessoas.

Rosalina entrou para as estatísticas de internados no Aymorés no mesmo dia em que foi arrancada de sua casa pela guarda sanitária. Levando a mulher naquela escura parte traseira, a ambulância cruzou o portão imenso do leprosário, ingressando na chamada “zona sã”. Essa área incluía a portaria, com uma cancela e guarita para os seguranças do lado direito, uma subestação de energia e os reservatórios de água daquela cidade de lázaros. Também comportava as residências dos funcionários das seções administrativas do local, como o diretor e seus empregados de alto escalão. O restante, mais humilde, morava no asilo propriamente dito, em casas geminadas do lado esquerdo da rua principal. Habitavam aquela área porque eram leprosos.

Uma estátua de pedra de um índio aimoré, denominação atribuída a nativos que não falavam tupi, decorava a entrada da “zona intermediária” do asilo. No monumento, ele empunhava arco e flecha em posição de ataque, parecendo advertir aos novos moradores que uma batalha pela sobrevivência estava para começar. Naquela mesma região, localizavam-se almoxarifado, garagem e a administração, setor que abrigava a diretoria do hospital e dos demais serviços necessários para manter toda a faraônica estrutura que fora ali construída.

Subindo uma íngreme ladeira de paralelepípedos, a ambulância negra chegou à segunda portaria, onde Rosalina foi despejada. O limite da zona dos sadios estava à sua frente: o parlatório. Nenhum doente poderia ultrapassá-lo. “Só um gesto violento do governo federal, amparado na força e na ditadura, instituindo em vários pontos do Brasil zonas de concentração de leprosos, guarnecidas por um cordão sanitário, (…) poderá resolver o caso. (…) As extensões territoriais fora das zonas destinadas aos doentes deverão permanecer absolutamente varridas dos portadores dessa moléstia, para que toda a população que nela transite chegue a se convencer de que não existe lepra no Brasil. Em tais municípios de leprosos, uma legislação especial será adotada, para que a vida de cada um possa seguir com a normalidade que se observa no resto do Brasil”, pregava o arquiteto Soares Caiuby.

Cabia a Rosalina o espaço além do muro, que separava as regiões sadia e doente do asilo-colônia. Ali estavam pregadas algumas das diversas leis que regiam o local, explicadas à mulher pelos seguranças que a receberam. Mais tarde, ela descobriria que eles também eram leprosos, portadores da hanseníase tuberculóide, mais branda.

A “zona doente” reunia hospital, enfermaria, refeitório, casas individuais para os casais e pavilhões coletivos. Os últimos eram imensos prédios de dois andares no máximo, com compridas e estreitas janelas, inúmeros quartos e poucos banheiros. Pareciam residências norte-americanas, porém destinadas a uma enorme quantidade de pessoas. Os pavilhões foram chamados de “carvilles”, pois sua arquitetura era inspirada nas moradias do leprosário de Carville, que passou a ser referência ao abrigar doentes do Estado da Louisiana, nos Estados Unidos, em meados de 1980.

Havia ainda uma grande praça central, um cemitério, uma igreja e, futuramente, até cadeia, cassino (que congregava cinema e teatro), coreto e estádio de futebol. Enfim, o Aymorés era uma verdadeira cidade, muito mais estruturada do que a pequena Itápolis, para onde Rosalina nunca mais voltou.


*Adaptação do segundo capítulo do livro-reportagem “Lázaros – Histórias de portadores de hanseníase no Estado de São Paulo”, escrito em 2006.

Leia também:
Lázaros – Primeiro Capítulo


Helder Júnior completou 24 anos (ui) na quarta-feira e anda ocupado demais para comemorar ou escrever (e não apenas editar) às quintas-feiras para o Sete Doses. Ele promete voltar a publicar textos inéditos em breve.

Acampamento de leprosos em Pirapora do Bom Jesus-SP
Javé falou para Moisés e Aarão: “Quando alguém tiver na pele uma inflamação, um furúnculo ou qualquer mancha que produza suspeita de lepra, será levado diante do sacerdote Aarão ou a um de seus filhos sacerdotes. O sacerdote examinará a parte afetada. Se no lugar doente o pelo se tornou branco e a doença ficou mais profunda na pele, é caso de lepra. Depois de examiná-lo, o sacerdote o declarará impuro.”

Levítico, 13 1-3.

A ambulância negra*

Nivaldo Mercúrio tinha sete anos quando uma ambulância negra estacionou em frente à sua casa, em Itápolis, interior do Estado de São Paulo, e sua vida mudou. O menino ainda não conseguia ler a sigla DPL, grafada em letras brancas e garrafais nos dois lados do enorme camburão, mas já sabia que sua presença significava a existência de um leproso nas redondezas.

Dois homens vestidos com uniformes pretos e jalecos brancos, com laços e armas de fogo em punho, desceram do veículo e ordenaram que a porta do lar da família Mercúrio fosse aberta. Era uma residência rústica, de madeira, no estilo colonial. Naquela tarde, nenhum dos quatro filhos de Rodolfo e Rosalina estava no quintal, onde Nivaldo e seus irmãos passavam a maior parte do tempo. Todos aguardavam com a mãe a chegada do pai. Ninguém se mexeu para atender os guardas. Nem foi preciso.

Em 1935, o combate à lepra no Brasil remetia à Idade Média, quando os portadores da doença eram forçados a ocupar regiões isoladas do restante da sociedade. Do século XIII ao XVI, obrigaram-nos a usar vestimentas específicas, para que fossem facilmente reconhecidos. O tecido deveria ser longo, em geral acompanhado de capuz e luvas, de maneira que as deformidades provocadas pelo mal não escandalizassem a sociedade. Os leprosos costumavam carregar consigo três objetos: uma corneta ou maracá, que anunciava aproximação; um barril, com o qual coletavam água das chuvas, pois não podiam se servir de fontes e rios; e um bastão munido de recipiente no cume, onde recebiam donativos.

A doença aportou no Brasil incubada em colonizadores europeus e escravos africanos, e o saneamento precário favoreceu sua disseminação. Em 1696, o Rio de janeiro passou a registrar “dezenas de casos de infectados por lepra”, segundo relatório do então governador Arthur de Sá Menezes. Quando o monarca português Dom João V elaborou o primeiro plano de combate ao mal para a colônia, em janeiro de 1741, os contaminados já eram centenas. Em 1928, ano em que Nivaldo Mercúrio nasceu, um censo realizado pelo Instituto Oswaldo Cruz constatou que a estatística atingira a casa dos milhares havia séculos: cerca de 50 mil dos 40 milhões de brasileiros eram leprosos.

Na rua onde residiam os Mercúrio, ninguém mais tinha dúvidas: um desses doentes habitava a casa diante da ambulância negra. Alguns vizinhos fecharam portas e janelas com a chegada do camburão, horrorizados ou temerosos. Outros espiaram, curiosos mas reservados, a ação da guarda sanitária. Ente eles, estava um delator. Talvez vários.

Como na Idade Média, os leprosos ainda se organizavam em grupos isolados da sociedade sadia naquele tempo. Os doentes do Novo Mundo também sobreviviam por meio da mendicância, ganhando o apelido de “gateiros”. Acostumaram-se a vestir capas e chapéus, para esconder suas mutilações, e portavam canecas para recolher esmolas. A associação da doença ao vício, à impureza e à podridão se perpetuou. As lendas propagadas em Itápolis e no restante do Brasil eram muitas. Às crianças como Nivaldo, os adultos diziam que seriam raptadas por seres deformados caso fossem desobedientes. Mulheres temiam estar sujeitas à contaminação se mantivessem relações sexuais nos períodos de gravidez ou menstruação. Entre os doentes, alguns acreditavam que ficariam curados se transmitissem o mal para sete pessoas.

A cavalo, os gateiros rumavam para onde o donativo fosse maior, assustando as famílias paulistas. “A situação é tétrica e deprimente para São Paulo, onde os viajantes encontram pelas estradas as caravanas de leprosos em busca de cidades em que haja festas religiosas para esmolarem com maior resultado”, acusava um relatório do governo federal de Washington Luís, datado de setembro de 1927. A mais famosa dessas romarias ocorria em agosto, na cidade de Pirapora do Bom Jesus, a 54 quilômetros da capital do Estado. O rio Tietê, que margeia o município, demarcava o limite entre católicos sadios e leprosos. Em dias e horários pré-estabelecidos, o soar de sinos anunciava que os últimos estavam autorizados a participar dos cultos, embora não tivessem acesso à igreja em hipótese alguma.

Somente dois armazéns abasteciam a população de Itápolis no final da década de 1920. Para obter sustento, os leprosos procuravam estabelecimentos comerciais como esses, afastados dos grandes centros urbanos e em horários de pouco movimento. Eles chegavam montados em seus cavalos, não desciam dos animais e jamais entravam. Aguardavam que o dono do local caminhasse até a rua e entregasse a mercadoria em um saco. Em troca, arremessavam moedas em uma lata toda lambuzada de álcool pelo vendedor, que tomava todas as precauções para não colocar sua saúde em risco. Os doentes não utilizavam cédulas, pois não seriam aceitas.

Tamanho temor da população fez com que a necessidade de isolar os portadores de lepra se tornasse quase consenso entre os sanitaristas brasileiros. O próprio cientista norueguês Gehard Henrick Amauer Hansen (que descobriu o Mycobacterium leprae, ou bacilo de Hansen, em 1872) apoiou a iniciativa em seu país, um dos maiores focos da doença no século XIX. Em São Paulo, o médico Emílio Ribas foi um dos poucos a levantar a voz contra a segregação, alegando que não solucionaria o problema do contágio. Favorável ao isolamento domiciliar, ele aconselhava a internação dos pacientes apenas em casas excepcionais; quando não tivessem quem os tratasse em casa, por exemplo.

Ribas falava com a propriedade de quem havia sido o primeiro diretor do Hospital Guapira, que combatera a lepra onde hoje se localiza o bairro do Jaçanã, na capital paulista. “Tudo o que der a ideia de degredo ou prisão deverá ser contra-indicado”, pregava em seus estudos. Carlos Chagas o apoiava, embora tenha apelado por medidas emergenciais contra a doença quando assumiu a direção do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1920. “Em referência à lepra, as providências administrativas não podem mais ser adiadas. É um problema secular”, discursou.

O maior opositor dos humanitários, denominação atribuída aos partidários de Emílio Ribas, era Oswaldo Cruz, famoso por erradicar a febre amarela do Rio de Janeiro. Em 1913, o médico chegou a sugerir o confinamento dos doentes cariocas na Ilha Grande, famosa por já abrigar um presídio, o Instituto Penal Cândido Mendes.

Na década seguinte, o governo federal criou o seu primeiro órgão especializado no mal: a Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, justamente durante a gestão de Carlos Chagas na Saúde Pública. Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas chegou à presidência do Brasil e, com ele, o grupo médico que concordava com Oswaldo Cruz galgou o poder.

A lepra, então, passou a ser prioridade nacional. Em São Paulo, os governantes levaram o combate à doença a sério como não se fez em nenhum outro lugar do país. Montaram um aparelho estadual para se encarregar do problema, independente das demais unidades de saúde e muito mais organizado do que o federal. Com o mesmo afinco com que o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) batalhava contra manifestos antiditatoriais no Estado Novo, a Inspetoria de Profilaxia da Lepra (IPL), futuro Departamento de Profilaxia da Lepra (DPL), passou a caçar leprosos em São Paulo, fazendo uso de suas temidas ambulâncias negras. Como aquela parada diante do lar dos Mercúrio.

……

Uma carta anônima enviada à Avenida Doutor Arnaldo, 87, sede do DPL na capital, ou um telefonema para o número 5-7650 acionou o veículo em Itápolis no dia 12 de abril de 1935. Rodolfo Mercúrio ainda trabalhava quando o camburão estacionou em frente à sua casa. Ele se incumbia da lavoura, do gado, dos cavalos, galinhas e porcos de um fazendeiro da região. Foi o marido quem, ao notar as manchas brancas no braço de Rosalina, encaminhou a mulher para o doutor Moacir Porto. O médico de Araraquara, cidade próxima, conhecido da família e dos moradores da região, diagnosticou o sintoma como o primeiro da hanseníase.

Rosalina falou apenas com os pais sobre a doença que contraíra. Ela, que só conhecia o mal do livro de Jô e do milagre da ressurreição de Lázaro por Jesus Cristo, escondeu-se o quanto pôde. Era uma mulher de 27 anos, pelo clara e cabelos escuros, lisos até os ombros, que os amigos e vizinhos quase não viam mais nas ruas de terra de Itápolis. As deformidades e mutilações acontecem somente anos após o contágio, porém Rosalina já havia pedido muita sensibilidade tátil e tinha o corpo cada vez mais coberto por manchas. Embora ela evitasse sair de casa, logo alguém percebeu o que o doutor Porto constatara. Naquele tempo, o DPL já espalhava cartazes sobre a doença em todo o Estado de São Paulo e contava com amplo espaço cedido por jornais e rádios para incentivar a delação dos doentes.

Os guardas sanitários arrombara a porta da casa dos Mercúrio antes que alguém pudesse abri-la. O motorista da ambulância laçou Rosalina, na época ainda amamentando o filho caçula, e a carregou nos ombros até arremessá-la na traseira do veículo. Ela foi trancada a cadeado, como se fazia para impedir possíveis fugas. Não relutou nem gritou. Uma vez caçada a doente, os homens ordenaram que as crianças saíssem de casa e derramaram galões de gasolina pelos cômodos. Besuntaram os móveis e o chão com o combustível e atearam fogo, para garantir que ninguém na vizinhança fosse contaminado.

Nivaldo, Augusta e Izabel, a irmã mais velha que amansou no colo o choro desesperado do caçula Sebastião, assistiram ao carro que levava a mãe se perder no horizonte. Permaneceram na rua até que o fogo consumisse todos os seus bens e Rodolfo retornasse. O pai recolheu as crianças, os cinco apenas com as roupas do corpo, à casa do avô.


*Adaptação do primeiro capítulo do livro-reportagem
Lázaros – Histórias de portadores de hanseníase no Estado de São Paulo” , escrito em 2006.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses