Era quarta. Não, não era quarta, era quinta. Em pé, estancado na calçada, aguardava o ônibus com a impaciência de quem não tem tempo a perder. No asfalto quente, caminhões e carros rasgavam o silêncio. Distante, pensava em nada. Só aguardava. No momento em que o tédio ameaçou me abraçar, acendi um cigarro e passei a andar de um lado para o outro, observando meio sem atenção as pessoas que compartilhavam minha angústia de espera. Foi então que vi um casal.

Talvez tenha perdido o ônibus, pois me fixei de maneira obcecada na imagem daqueles dois, oferecendo as costas ao tráfego e me ensurdecendo diante daquela bonita cena. Tinham, sei lá, entre quinze e dezoito anos, jovens, com aquele brilho nos olhos que se apaga lentamente conforme são ultrapassados os obstáculos da vida. Beijavam-se com um gosto que me parecia desconhecido, abraçavam-se firmemente, uniam-se empolgadamente. Entre beijos, risos e abraços, pulavam, gargalhavam alto e chamavam a atenção. Eram únicos, eram belos, eram felizes como se ninguém mais tivesse o direito de sê-lo.

No dia seguinte, diante da mesma espera, do mesmo cigarro e do mesmo barulho de buzinas e motores, me vi diante da cena novamente. Ainda mais empolgados, ainda mais felizes, ainda mais fortes. O casal era incontrolavelmente feliz, perfeito, irretocável. Era um escândalo de alegria, daquelas que lhe fazem sentir inveja, que lhe fazem repensar nas cores que compõe sua vida. O momento mais alegre do meu dia era me deixar contagiar pela felicidade daquelas duas crianças que nem imaginavam o que de fato era o amor – melhor mesmo que não soubessem. E foi assim por meses, por quase um ano. Vivia cego e surdo pela felicidade dos dois. Vivia com mais intensidade aquela cena a qual nunca participaria do que o próprio transcorrer de meus dias.

Até que uma vez o casal demonstrou mais reserva e menos intimidade. Percebi que ela estava triste. Ele, com os braços envoltos no pescoço dela, a consolava com carinho tímido e com pequenos beijos na testa que não queriam dizer nada. Ela chorava, quase imperceptível, com vergonha de não estar feliz. Como todos os dias, despediram-se, dessa vez com muito menos entusiasmo. Ela subiu no ônibus e ele foi embora. Diferente de outros dias, ele não acompanhou os primeiros metros do veículo para vê-la mais uma vez, para abanar a mão e mandar beijos como num ensaio de adeus. Ela, sentada e amuada, continuava com as lágrimas. Ele, incomodado, saiu de cabeça baixa.

No outro dia, surpreendi-me ao ver apenas ela no ponto. Sozinha, totalmente murcha, esperando tediosamente, como eu, o ônibus que nunca chegava. Esperei, imaginei que o menino atrasara, mas nada aconteceu. Ela estava só, como eu, perdida a esperar por qualquer coisa. Com os olhos baixos, sem saber o que fazer com as mãos e sem condições de sequer ensaiar um sorriso. Naquela tarde, quente como o inferno, os carros voltaram a ter som, as buzinas e os motores voltaram a incomodar, a poluição voltou a invadir sem licença meus pulmões e os tons cinza da Marginal voltaram a me sufocar. Acendi um cigarro, pronto para esperar. A menina, com voz quase sumida, postou-se ao meu lado e pediu educadamente por um cigarro.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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José Carlos

Em frente ao espelho, passou o pente fino entre os poucos cabelos brancos que lhe restavam. Com calma, repartiu-os ao meio, abriu a torneira e acertou as pontas desgrenhadas com a mão úmida de água. Fechou os botões da camisa, observou seu rosto magro e beijou a corrente de ouro que repousava em seu peito.

Maria Helena

Fechou a torneira do chuveiro e, ainda dentro do boxe, colocou o braço para fora e puxou a toalha branca pendurada no gabinete. Enxugou-se sem pressa. Primeiro os cabelos curtos e brancos, depois o rosto cansado e, por fim, o restante do corpo. Vestiu-se com uma calça de moletom cinza e uma blusa de alças cor da pele. Tateou embaixo da cama e encontrou as sandálias de couro que procurava.

José Carlos

Saiu do banheiro e dirigiu-se até a sala. Ao procurar sua carteira, deparou-se mais uma vez com a foto de sua mulher exposta no porta-retratos de plástico em cima da escrivaninha. Olhou para a imagem, seus olhos marejaram e o aperto no peito foi o mesmo que sentira na noite em que sua esposa falecera. Já se completavam quinze anos de ausência. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

Maria Helena

O vapor do banheiro ainda não se dissipara quando ela retornou para apanhar as roupas intimas que havia esquecido em cima do vaso sanitário. Jogou-as no cesto de roupas sujas e retornou para o seu quarto. Era o único cômodo de uma casa minúscula que comprara com seus investimentos de toda uma vida. Era mais do que suficiente, já que jamais casara ou dividira o teto com alguém. Vivia sem ser vista. E sua morte, que lentamente se aproximava, não seria notada. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

José Carlos

Estava na fila do caixa à espera de sua vez quando percebeu a dificuldade de uma senhora para pagar sua conta. Notou que ela não tinha dinheiro suficiente e foi cavalheiro ao intervir:

– A senhora precisa de ajuda com a conta?

Maria Helena

Colocou os óculos e, com as mãos enrugadas, abriu o pequeno zíper do porta-moeda em busca de alguns centavos para pagar a conta do supermercado. A atendente insistia que faltavam 80 centavos para o débito ser liquidado. Nervosa, não conseguia encontrar mais do que 35 centavos na bolsinha. De repente, ouviu uma gentil pergunta de um senhor que estava logo atrás na fila. Virou-se, olhou para os olhos dele e sentiu uma gratidão inexplicável:

– Desculpe, está faltando 50 centavos, o senhor pode me emprestar?

José Carlos

Ao ouvir a voz daquela senhora, lembrou-se imediatamente de sua esposa. Era inevitável. O som da voz era absolutamente o mesmo, apesar das características físicas não se assemelharem em quesito algum. Procurou na carteira e encontrou uma única moeda de 50 centavos. Sorriu ao entregar a moeda e questionou, em tom informal, se naquela noite ela iria cozinhar para a família.

Maria Helena

Pagou a conta do supermercado com a ajuda daquele senhor e percebeu de pronto a ligação ocasionada por olhares e palavras. Respondeu a pergunta emendando outra:

– Vou jantar sozinha, como faço todas as noites. E o senhor?

José Carlos

A frase da senhora lhe pareceu, de primeira, muito ousada. Ficou um tempo em silêncio e resolveu que deveria ir até o final daquele diálogo sem criar resistências. Pensou – lembrando-se do dia em que conheceu sua falecida esposa – que sonhos de uma noite marcam mais do que séculos de realidade:

– Eu também, janto todo o dia sozinho. Há 15 anos…

Maria Helena

Olhou novamente nos olhos daquele senhor e percebeu um marejar eterno de lágrimas nas pálpebras envelhecidas de seu rosto. Pensou sobre a loucura que estava por cometer, mas constatou que o infortúnio de passar pela vida em branco poderia ser corrigido a qualquer momento antes do prenúncio fatal de sua morte – sabia que só depois do fim é que não existiria mais retorno. Após 70 anos de indiferença, sua hora havia chegado.

– Jantemos juntos, então, oras. Reunimos o que o senhor comprou com o que eu comprei e teremos uma noite diferente de todas as outras…

José Carlos

Foi inevitável para ele pensar em outra coisa que não em sua esposa. Lembrou-se do último jantar que tiveram juntos e julgou aquela situação decisiva. O que responder? Refletiu e pensou que a vida é busca e aquele era o momento de se reencontrar. Como qualquer ser humano, valorizava o existir conforme os passos lentos da vida indicavam o abismo inevitável do desaparecer.

– Tudo bem. Vamos pra minha casa?

Maria Helena

O sorriso escapou-lhe quase como um arroto fora de hora. Percebeu ali a chance de enfim encontrar-se com alguém. Sabia que era aquele o homem destinado a lhe fazer feliz. Na premência da morte encontrava a vida que nunca fora vista. Afobada, quase desesperada de excitação e ansiosa pelo destino que lhe batia a porta, disparou sem pensar ou raciocinar:

– Depois do jantar, quer morrer em paz comigo?

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Suzana e Paulo eram casados. Viviam no mesmo lar. Uniram-se na certeza de que se amavam e se amariam para sempre. Suzana e Paulo destruíram um relacionamento bonito e não perceberam. Repare:

Suzana e Paulo se conheceram no dia 08 de novembro de 1999. Três dias depois, combinaram um primeiro jantar. Após a refeição, saíram do restaurante e ficaram na porta conversando. Paulo acendeu um cigarro:

Pensamento de Suzana: “Eu não sabia que ele fumava, droga. Detesto”.

– Você se incomoda que eu fume? – perguntou Paulo.

– Não imagina. Não tem problema nenhum, pode fumar. Eu não ligo – respondeu a moça.

Pensamento de Paulo: “Ela é perfeita, minha ex detestava que eu fumava”.

Suzana – Ressentimento 1 (R1)

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Após cinco meses de namoro, Paulo e Suzana conversam sobre assuntos diversos em um piquenique no parque. O domingo está ensolarado:

– Tenho saudades da época em que eu morava no Rio de Janeiro. Aqueles bares na calçada, bater papos incríveis com o meu amigo Fernando (um amigo gay de Suzana) – conta a moça.

Pensamento de Paulo: Por que ela sempre lembra desse Fernando (Paulo não sabe que ele é gay). Por que esse cara é tão importante?

– Devia ser ótimo mesmo, eu tenho vontade de morar no Rio – responde Paulo com um sorriso.

– Acho que precisamos passar as férias lá. Saudades das minhas amigas, do Fer…

Pensamento de Suzana: Seria um sonho passar as férias com o Paulo no Rio.

Pensamento de Paulo: Eu quero que o Fer vá a merda!

Paulo – Ressentimento 1 (R1)

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Já noivos, Paulo e Suzana participam de um churrasco da família dele. Animados, bebem um pouco além da conta e se agarram nos cantos da casa. Suzana colocava a mão trêmula de Paulo por baixo da sua saia e pede encarecidamente por prazer. Paulo, nervoso, recua:

– Minha mãe pode aparecer, pára…

– Larga mão, Paulo. Não tem ninguém. Vem cá…

– Não! Não dá! Minha mãe…

Pensamento de Suzana: Frouxo. Eu não acredito que ele não vai me comer. Puta tesão. Não acredito nisso.

– Ta bom, ta bom. Vamos voltar – diz Suzana, resignada.

Pensamento de Paulo: A Suzana ficou louca, quer sexo toda hora agora. Fico preocupado, a impressão é que ela daria pra qualquer um. Será? E aquele Fernando? (R1 rememora-se)

– Isso, vamos, amor. Em casa te pego de jeito – fala Paulo, ensaiando um sorriso.

Suzana (R1 + R2)

Paulo (R1 + R2)

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Após três anos de casados, Suzana acorda pela manhã, vai ao banheiro e encontra uma cueca de Paulo jogada no chão (R1 + R2 rememoram-se). Absolutamente transtornada, Suzana engole seco e joga a cueca no cesto de roupas sujas.

Suzana – (R1 + R2 + R3)

No mesmo dia, Paulo chega cansado e estressado do trabalho. Pega sua garrafa de uísque e procura por gelo no congelador. As forminhas estão vazias. Deitada no sofá, Suzana se delicia com um suco de laranja com três pedras de gelo. O inconsciente egoísta de Paulo, com a necessidade de encontrar culpados, vê a cena como uma demonstração de preguiça e descaso da mulher (R1 + R2 rememoram-se). Sente raiva dela, mas não sabe bem os motivos. Coloca o uísque no copo e toma-o quente em um gole só. Diz boa noite para a mulher e se tranca no quarto, batendo a porta com violência.

Pensamento de Suzana: vai entender.

Paulo – (R1 + R2 + R3)

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No sexto ano de casados, Paulo e Suzana saem do cinema e discutem sobre o filme que acabaram de assistir:

– Ai, adorei amor – diz Suzana.

– Achei uma porcaria, sinceramente – retruca Paulo.

– Como assim? Você não gostou do que?

– Não sei. O roteiro é um lixo.

– Você só não gostou porque eu disse que eu gostei. Por que sempre me contraria? (R1 + R2 + R3 rememoram-se e resultam em R4)

– Ta louca, tirou isso de onde? (R1 + R2 +R3 rememoram-se e resultam em R4)

– Tudo que você faz é pra me provocar. Vive deixando cuecas (R3) no chão do banheiro e eu sou obrigada a ficar recolhendo!  Bagunça a casa toda! (o exagero de R3 – já que Paulo deixou cuecas raras vezes no chão do banheiro –, somado aos outros ressentimentos, resulta em R5)

– Você é doida! Nunca deixei cueca no chão (sincero, pois não se lembrava). E limpar o que? Nossa empregada que faz faxina. Você sabe que é preguiçosa, vive no sofá tomando suquinho gelado (R3) enquanto a casa está de pernas pro ar (o exagero de R3 – já que Suzana trabalha duro e só toma suco no sofá uma vez ou outra –, somado aos outros ressentimentos, resulta em R5).

– É o único prazer que eu tenho. Se for esperar por você… (R2). Não dá conta não, meu bem… (O exagero de R2 – já que Paulo é sexualmente ativo e só brochou duas vezes –, somado aos outros ressentimentos, resulta em R6)

– Ta insinuando o que, sua vadia (R2)? Eu não acredito. É sempre sobre sexo, sempre!!! (R2 exacerbado – já que Suzana não é nenhuma louca tarada –, somado aos outros ressentimentos, cria R6)

– Não acredito que você me chamou de vadia! Eu não aguento mais isso!! (R1+R2+R3+R4+R5+R6 = R7)

Paulo, no calor do momento, acende um cigarro.

– Você fuma pra me provocar (R1). Tudo é pra me provocar. Por que você faz isso? Por quê? Você sabe que eu odeio que você fume, odeio! (R1+R2+R3+R4+R5+R6+R7=R8)

– Você é louca! Nunca ligou para o fato de eu fumar! Eu vou embora! (R1+R2+R3+R4+R5+R6 = R7)

Paulo dá as costas, já chorando. Suzana fica parada em frente ao cinema. Coloca a mão na cabeça e não entende o que aconteceu. Começa a chorar e se sente mais sozinha do que nunca. Em pouco tempo, os ressentimentos desaparecem, mas continuam lá, prontos para despertar.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos e sabe que essa expressão possui infinitas variáveis e acontece com todos os casais do mundo. O segredo é prestar atenção e não permitir que os ressentimentos se acumulem e resultem em uma relação de merda

Estado inicial
A vista ficou embaçada de repente. Foi o prenúncio do fim?

Da cama que fez de jazigo, já quase nada podia enxergar. O pescoço era movido poucos centímetros para a esquerda. Nenhum para a direita. Conformou-se em avistar o alto. A intensidade da lâmpada incandescente, pendendo do teto por dois fios corroídos, cegava-lhe os olhos.

A voz foi a primeira a esvair. Enrouqueceu durante um berro desesperado por auxílio. Julgava-se falando, embora afônico, porém descobriu que os seus sons não passavam de devaneios. Imaginava arrastar de pés no corredor, poucos metros à frente da cama. Nunca soube se alguém realmente caminhara ali.

Não se lembrava sequer da última pessoa que viu. Costumava fingir que não precisava de ajuda ao perceber a expressão de nojo alheia, mas a solidão sempre venceu o orgulho. Chegava a lacrimejar um choro silencioso para mendigar atenção. Sentia as lágrimas escorrerem pelas bochechas sem carne, orelhas pontudas e costas raquíticas antes de morrerem separadas no colchão mofado e sem lençol. Terminavam como ele próprio.

Chorar lhe causava calafrios e cócegas dolorosos. Ninguém jamais lhe enxugou o corpo. Suas mãos também não eram mais hábeis para a tarefa. Perdeu primeiro os movimentos dos membros superiores, depois os dos inferiores. A mente, contudo, permanecera viva e inquieta.

Passava todo o pouco muito tempo que lhe faltava com o cérebro em atividade. Pensava mais nos outros do que em si mesmo. Sabiam que o seu interior continuava imaculado? Que a sua imagem putrefata não condizia com o mau bem-estar de sua cabeça? Que permanecera vivo?

Não importava mais. Estava conscientemente sozinho. Restou-lhe indagar se alguém, mesmo que ao acaso, lembraria de sua existência. De quanto tempo precisamos para esquecer uma pessoa? Há quanto tempo ele jazia ali, afinal? Não sabia responder. Sua memória fora subitamente apagada.

Esforçou-se para idealizar alguém. Tentou familiares e amigos antes. Ele próprio em seguida. Em vão. Incomodado, criou cabelos, olhos, jeitos e cores para uma mulher que nunca conhecera. Ou já a havia visto?

Achava que estava sorrindo para ela, com a boca pálida e ressecada. Acreditou que substituíra o odor podre à sua volta por um doce perfume. Lábios e narinas falharam havia muito tempo. Foi então que a visão finalmente apagou.

Sentiu dois dedos delicados fecharem-lhe as pálpebras, do modo como procedem com os mortos. Os fios que sustentavam a lâmpada no teto cederam. Esperara ansiosamente pelo dia em que seria outra vez tocado por quem fosse. E mais ainda pelo sinal do fim.

 

Mas os pensamentos resistiram ao alerta. De quanto tempo precisamos para esquecer de nós mesmos? Para nos darmos conta da nossa inexistência?

Abriu os olhos de repente.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

*Baseado em um diálogo real

Sentada na cadeira, contava histórias com a voz desgastada e oscilante. Atrapalhava-se em alguns devaneios, perdia o fio da meada, mas sempre retornava ao enredo com a memória fresca. As costas de suas mãos, enrugadas pelo tempo, movimentavam-se freneticamente enquanto ela narrava. Seus olhos, pequenos, quase fechados, permaneciam com uma umidade constante nos cantos, como uma lágrima prestes a ser formada e derramada. Vestia-se com um terno mostarda – incrivelmente moderno para seus 90 anos -, calçava uma sandália com tiras grossas e gabava-se de seus colares e pulseiras brilhantes.

Todos em volta da mesa prestavam atenção em cada minúcia de sua fala. Ali, compenetrada, contava seu fascínio perante o último suspiro da morte. Contava como seus pais morreram em seus braços e ela ouvira o mesmo e irremediável suspiro. “Precisa ver, o suspiro dos dois foi igualzinho”, repetia. Contava como fora duro testemunhar aqueles suspiros e como ela, a partir de então, passara a persegui-los. Tornara-se uma viciada. Era reconfortante estar presente no momento crucial.

Cada vez mais emocionada, narrava a vez em que passara por um acidente de moto e aproximara-se da vítima à beira da morte. Ficou próxima dele, pegou em suas mãos e ouviu mais uma vez aquele mesmo suspiro. Não importava se homem, mulher, voz grave ou aguda: o som, doce, era sempre o mesmo. Consolador, reconfortante, libertador. Certa vez, um vizinho solitário ficara muito doente. Fez questão de cuidar dele até o último momento.

Mas não era apenas ela quem perseguia o último suspiro. Ele também começou a persegui-la. Seu filho caíra de joelhos em seus pés após um ataque cardíaco. Sabia que o destino seria fatal, colocou o ouvido próximo dos lábios dele e ouviu mais uma vez aquele som encantador. Só depois sofria, e sofria muito, com todas aquelas perdas. Antes, porém, nada lhe importava: apenas o som etéreo e encantador. Perdera avós, pais, alguns filhos, primos, amigos. Ouvira o último suspiro de muitos e sentia-se privilegiada por isso.

Sua grande frustração era perder aquele momento. A irmã morrera sentada na cadeira de balanço, totalmente só, e demoraram horas para descobrir. “Morreu de velha, desligou”, lembra. Ela estava na cozinha, passando o café, e não ouviu o suspiro solitário da irmã. “Da mesma forma que nascemos e vivemos, morremos: sozinhos”. Hoje, a morte que mais a intriga é a dela mesma. “Será que ouvirei meu último suspiro?”.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

ATO I

Quando a conheci, todas as suas palavras me fascinaram. Meu desejo era o de passar horas a ouvir todas as suas histórias, envolver-me em seus segredos e pensar no quanto sua intimidade seria ainda mais misteriosa e inacreditável do que eu supunha. Encantei-me. Você era perfeita e eu estava, instantaneamente, apaixonado.

ATO II

Após conhecê-la de fato, apaixonei-me por todos os seus defeitos. Passei a ver em suas fraquezas todos os sentimentos que eu teimava esconder em meus mais íntimos segredos. Tudo era tão humano, tão inconcluso e tão verdadeiro que imaginei por um segundo que não precisaria encenar absolutamente mais nada. Eu te amava.

ATO III

Anos depois, quando estava seguro de que o amor era inabalável, passei a perceber que suas qualidades e defeitos eram, única e exclusivamente, de sua propriedade. Existia uma barreira instransponível entre os seus sentimentos e os meus pensamentos. Éramos duas pessoas solitárias buscando, em conversas estéreis, uma maneira de não nos privarmos um do outro. As palavras já não faziam sentido. Nós já não existíamos.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Olhe, não tenha medo

Relacionamentos são como espelhos. Ou melhor, a pessoa com quem você se relaciona se transforma em seu espelho. Através dela é possível se enxergar e se conhecer um pouco melhor. Quem tem medo de se envolver com alguém está fadado ao desconhecimento completo de si próprio. A questão não é namorar, noivar ou casar: a questão é o entregar-se. Quanta gente se casa e nunca se envolve de verdade com a pessoa que vive ao seu lado? Em uma relação de verdade, você olha para a pessoa e enxerga as suas próprias fraquezas, seus próprios defeitos, anseios e qualidades. É ao olhar para esse espelho, que é o outro, que realmente temos uma vaga noção de quem somos. E, dessa forma, o relacionamento proporciona crescer anos em apenas algumas horas.

Já tive relações de três meses suficientes para me fazerem mudar do avesso. Já tive namoros de mais de um ano que me proporcionaram enxergar e me transformar no que sou hoje. Por mais sofrido, por mais triste, o fim de um relacionamento é como um recomeço. Você se torna uma cobra com a capacidade de trocar de pele. Acho que existe uma essência em todos nós que é impossível de ser alterada, mas tudo que sobra dessa essência é totalmente modificada com o fim…

Acho engraçado quando um namoro termina e o casal nunca mais se fala, os dois passam a se odiar e simplesmente apagam aquele passado como se ele não existisse. Pessoas que diziam ser imprescindíveis uma para as outras e que, de repente e simplesmente, deletam-se mutuamente. Tudo bem, o afastar-se é mesmo inevitável. A questão não é se apegar ao passado, mas sim não mudar tão radicalmente de opinião sobre pessoas importantes. Antes a pessoa era maravilhosa, genial, sensacional: depois do fim ela se torna uma merda. Isso não entra na minha cabeça. Parece mais um indício de bipolaridade grave do que qualquer outra coisa. Isso é fuga, é não querer olhar para o espelho.

Antes de falar mal de um ex-namorado, caso, marido, ou qualquer coisa, pense bem… Você foi tão estúpido a ponto de apostar suas fichas naquela pessoa tão escrota? Tudo bem, a pessoa pode ter se tornado uma decepção, mas não se esqueça de que ela foi a coisa mais importante de sua vida, nem que tenha sido por um mês. Não quer mais vê-la? Ótimo, recolha suas coisas e cale sua boca. Claro que, aqui, não cabem como exemplos relacionamentos com finais trágicos, infiéis ou traumáticos. Mas os que acabam por desgaste, por incompatibilidade de gênios, por esgotamento da paixão ou sem explicações… esses sim são espelhos que não podem ser ignorados.

Lembro uma vez que passei uma madrugada inteira conversando com uma ex-namorada. Quando percebemos, já tinha amanhecido, estávamos completamente compenetrados naquele diálogo que não acabava e terminamos constatando que tínhamos nos tornado pessoas totalmente diferentes após o início de nossa relação. Em pouco mais de oito meses, tínhamos aprendido a gostar de músicas que antes não gostávamos, tínhamos conhecido coisas que só conheceríamos um com o outro, tínhamos enxergado nossos reflexos um no outro. Quatro meses depois, o pai dela foi transferido para trabalhar em Curitiba e ela se foi. “Namoramos” à distância por um tempo e depois nunca mais falei com ela. O final forçado foi terrível, mas ela sempre vai viver dentro de mim de alguma forma. A verdade é que somos formados pelas relações que temos ao longo da vida, por mais rápidas e malucas que tenham sido. Mas se existe intensidade sempre é possível enxergar-se no outro. Não tenha medo de se olhar no espelho.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos e acaba de trocar de pele mais uma vez