Quando trocou a Turquia pelo Atlético Paranaense, Washington não imaginava as reviravoltas que passaria na sua vida por conta de um exame médico. Artilheiro da Copa do Brasil e do Campeonato Paulista de 2001, o atacante viu seu futebol ultrapassar as barreiras locais. Foi chamado por Emerson Leão para defender a seleção brasileira e se transferiu para o Fenerbahçe.

Durou pouco, porém, a passagem de Washington pelo futebol turco. E no começo de 2003 ele já estava de volta ao Brasil para defender o Atlético-PR. Mas a sua carreira foi paralisada por um exame cardiovascular. Reprovado, precisou passar por um cateterismo. Nesse momento extremo, uma das características que marcaram a carreira do atacante apareceu.

Contrariando prognósticos e a cautela natural, Washington foi corajoso e, acima de tudo, conseguiu se superar. Voltou ao futebol em 2004 e jogou como nunca no Campeonato Brasileiro daquele ano. Se tornou o maior artilheiro de uma edição do torneio ao marcar 34 gols. Mas viu o título nacional escapar. Não seria a primeira vez na sua carreira que ficaria distante das conquistas.

Deixou o Brasil novamente, dessa vez para defender o Tokyo Verdy e posteriormente o Urawa Red Diamonds, ambos no Japão. Fez muitos gols, foi artilheiro de várias competições e até levantou troféus. E foi contratado pelo Fluminense no início de 2008, chegando com sua fama de artilheiro.

Status que foi ameaçado na Libertadores. O matador começou a ser chamado de caneleiro por alguns torcedores ao completar oito partidas sem gols. E tratou de chutar a fama para longe ao classificar o Fluminense para as semifinais da Libertadores com atuação inesquecível e brilhante contra o São Paulo. E repetiu o desempenho diante do Boca Juniors, nas semifinais.

Mas o final (e a final) da história não foi feliz e consagrador para Washington. O atacante teve desempenho pífio na decisão contra a LDU e perdeu o pênalti que selou o título do time equatoriano no Maracanã. E, assim, voltou a jogar sob a desconfiança do torcedor do Fluminense. Mas conseguiu terminar 2008 como um dos artilheiros do Campeonato Brasileiro. Novamente, no entanto, sem títulos.

Trocou de tricolor em 2009, assumiu a camisa 9 do São Paulo, com a pressão de trocar a fama de algoz pela de benfeitor. Tropeçou na bola, fez muitos gols, mas não conseguiu superar a desconfiança do torcedor. E nem ser campeão. Assim, em 2010, durante o Brasileirão, voltou ao Fluminense, também com a torcida em alerta.

Fez muitos gols nas primeiras partidas, mas ao declarar que não queria ser artilheiro novamente, mas campeão pela primeira vez de uma competição importante, parece ter se rogado uma auto-imolação. Entrou em inimaginável jejum de 15 partidas sem gols, mas enfim foi campeão nacional.

Na semana passada, anunciou a sua aposentadoria do futebol. Mais do que o artilheiro que foi campeão apenas uma vez ou um matador com pouca habilidade, ficará marcado como o jogador da superação e, por isso, como um exemplo, que começou a mudar a própria vida quando foi reprovado em um exame de rotina no Atlético-PR. Afinal, driblou dificuldades dentro e fora de campo, e mostrou que não só de talento se faz um bom jogador, mesmo nunca tendo sido uma unanimidade. Nada que assustasse o  Coração Valente.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

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Versões repetidas dezenas de vezes se tornam fatos consumados. Em um mundo como o do futebol, com o eterno vício de simplificá-lo, essa versão também parece ser um fato. Assim como o modo como os torcedores e a imprensa observam o trabalho de Muricy Ramalho.

Quando se fala no treinador, algumas características colam ao seu nome como se fossem fatos. As de que Muricy é o melhor técnico para torneios de pontos corridos, que é um dos poucos sujeitos éticos do futebol brasileiro e que seus times vencem, mas jogam feio.

Realidade ou não, todas elas fizeram parte da campanha que deu ao Fluminense o seu segundo título do Campeonato Brasileiro em 2010.  Conca foi o principal herói do título do Fluminense, mas a conquista provavelmente não ocorreria se Muricy não fosse o comandante. Afinal, ninguém no futebol brasileiro venceu 50% dos Campeonatos Brasileiros disputados em pontos corridos.

A presença de Muricy é certeza de boa campanha porque o treinador sabe montar um time e estrutura-lo. Foi assim no Fluminense. Ele chegou em abril para substituir Cuca e encontrou um time desequilibrado e eliminado nas semifinais da Taça Guanabara e da Taça Rio – os dois turnos do Campeonato Carioca.

No ataque não havia problemas, já que o Fluminense contava com o talento indiscutível de Conca e Fred. Além de Emerson, que chegou durante o Brasileirão. O problema crônico estava na defesa. Muricy tratou de resolvê-lo, mesmo que para isso faltasse ao clube carioca o futebol vistoso.

Descobriu o volante Fernando Bob e tornou Leandro Euzébio um dos melhores zagueiros do futebol brasileiro. Além disso, na reta final do Brasileirão, fez a aposta certeira no quase sempre relegado Ricardo Berna para o gol. O Fluminense se tornou o time mais equilibrado do País e foi premiado com o título nacional.

Meses antes da conquista, porém, o Fluminense esteve próximo de perder o seu comandante. Muricy recebeu proposta da CBF para assumir a seleção brasileira, mas depois recuou por não ter se liberado pela diretoria da equipe carioca, em uma história ainda a ser completamente esclarecida. Ainda assim, mais uma história foi acrescida ao perfil ético de Muricy.

O que está difícil pegar é a versão de que Muricy é o sucessor de Telê Santana, mesmo que tenha surgido como técnico sob os olhares e conselhos do Mestre. Ou mesmo tecendo loas ao criador após cada conquista. Afinal, o futebol dos times de Muricy não tem a qualidade das equipes dirigidas por Telê.

Mas é indiscutivelmente um futebol vencedor. O que atualmente é suficiente para colocar Muricy Ramalho no panteão dos maiores técnicos da história do futebol brasileiro. Aqui é trabalho, meu filho!

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O Fluminense não é mais o maior campeão estadual do Rio. Em 2009, o time das Laranjeiras perdeu a sua supremacia no Campeonato Carioca com a conquista do 31º título pelo Flamengo. A força do Fluminense no futebol do Rio, porém, é inquestionável, afinal, são 30 conquistas estaduais em pouco mais de 100 anos de história.

O sucesso do clube nacionalmente, porém, nem sempre foi o mesmo. O primeiro título nacional veio em 1970, com a conquista do Robertão. Depois, porém, com a criação do Campeonato Brasileiro, o Fluminense não conseguiu levantar troféus nacionais até 1984.

Nem a Máquina Tricolor foi capaz de dar um título nacional ao Fluminense. Em 1976, no Maracanã, a equipe parou nos pênaltis no Corinthians. Azar do Tricolor Carioca. Azar do Brasileirão. E o seu torcedor precisou esperar até 1984.

E foi um título com gosto de vingança. Afinal, em um duelo que repetiu a semifinal de 1976, o Fluminense eliminou o Corinthians, inclusive com uma vitória incontestável por 2 a 0 no Morumbi, e garantiu presença na sua primeira final do Brasileirão.

Fruto da qualidade e entrosamento da dupla Assis e Washington, imortalizada como “Casal 20”, que marcou 18 gols na competição. Além deles, ainda havia a segurança de Paulo Victor, a elegância de Ricardo Gomes, a força de Branco, a inteligência de Delei e o comando de Parreira.

E o craque do time nasceu no Paraguai. Misturando raça e uma qualidade técnica afiada, Romerito conquistou o seu espaço no Fluminense e foi o principal responsável pela criação das jogadas ofensivas. Fez cinco gols e o único das duas finais contra o Vasco e colocou seu nome na história do clube das Laranjeiras.

Depois do título de 1984 e de Romerito, o Fluminense sonhou com nova conquista em 1995, liderado por Renato Gaúcho, mas parou no Santos. Amargou três rebaixamentos, foi campeão da Copa do Brasil em 2007 e em 2010 teve outro gringo decisivo no elenco – Conca – para conquistar o seu segundo título do Brasileirão.

 

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O Campeonato Brasileiro tem a mesma fórmula de disputa desde 2003. Mas definitivamente ainda não existe uma fórmula pronta para se construir um campeão nacional. O Fluminense de 2010 mostrou isso ao não emplacar uma arrancada no segundo turno ou nas rodadas finais e acumular tropeços em confrontos diretos. Assim, a conquista do Brasileirão veio principalmente por conta da regularidade da equipe.

O início da campanha do Fluminense, porém, foi marcada por dificuldades. O elenco ainda parecia se adaptar ao estilo do técnico Muricy Ramalho, que assumiu o comando da equipe em abril. Assim, o time acumulou duas derrotas nos três primeiros jogos, sendo uma delas para o Corinthians, concorrente direto na luta pelo título até a rodada final.

A chegada de reforços, como o lateral-esquerdo Carlinhos e os atacantes Emerson e Washington, fortaleceu o Fluminense. Tanto que a equipe emplacou a sua melhor fase no Brasileirão logo após o início irregular. Em 15 partidas, foram nove vitórias e seis empates.

Nesse período, que serviu também como uma despedida do Maracanã, o Fluminense mostrou força ao conseguir vitórias consistentes no Rio. A equipe passou, por exemplo, pelo Cruzeiro, com gol da surpresa Leandro Euzébio. E também atropelou Atlético Paranaense e Internacional, com atuações brilhantes dos atacantes Emerson e Washington. Também empatou com os rivais Botafogo e Vasco em clássicos tão eletrizantes como o 2 a 2 com o São Paulo.

Apesar do elenco reforçado, o Fluminense enfrentou dificuldades no segundo turno do Brasileirão. Por conta de lesões, o time perdeu jogadores importantes e renomados, como Deco, Emerson e Fred. E ainda teve desempenho pífio nos confrontos diretos ao perder para Corinthians, por 2 a 1, no Engenhão, e Cruzeiro, por 1 a 0, no Parque do Sabiá.

O Fluminense, mesmo assim, sobreviveu. Mas deu uma derrapada quase fatal na 35ª rodada. Sob pressão, apenas empatou com o Goiás, em casa, por 1 a 1. Chegou a perder a liderança do Brasileirão para o Corinthians, mas a retomou logo na partida seguinte.

Na rodada final, novamente no Engenhão, a pressão era ainda maior do que a de algumas rodadas antes. Dessa vez, porém, mesmo com dificuldades, o Fluminense conseguiu vencer o Guarani por 1 a 0 e fazer a festa do seu torcedor com a conquista do seu segundo título do Campeonato Brasileiro.

 

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Ao lado do Corinthians, o Vasco dominou o futebol brasileiro entre 1997 e 2001. Nesse período, a equipe foi campeã da Libertadores (1998), bicampeã nacional (1997 e 2000) e campeã da Mercosul (2000). Porém, enfrentou dificuldades para confirmar o seu poderio no Campeonato Carioca.

Campeão estadual em 1998, o Vasco amargou quatro segundas colocações neste período, em 1997, 1999, 2000 e 2001. Nascia neste período de bonança nacional e internacional a fama de vice-campeão do clube de São Januário.

Assim, quando chegou à final do Campeonato Carioca de 2003, a equipe tinha esse peso em contraponto ao seu favoritismo diante do Fluminense. Além disso, a equipe não contava mais com craques como Edmundo, Felipe e Romário. Seus astros eram Petkovic e Marcelinho Carioca, mais identificados com outros rivais. E ainda existiam as promessas Souza e Léo Lima, oriundos das categorias de base.

Cada um fez a sua parte nas finais contra o Fluminense para que o jejum estadual vascaíno terminasse. No primeiro confronto, Marcelinho foi decisivo e a equipe abriu vantagem com um triunfo por 2 a 1, no Maracanã, em partida disputada numa noite de quarta-feira.

Em um domingo, o dia criado para que o futebol fosse disputado, o Maracanã lotou de vascaínos e tricolores. A final foi tensa, cheia de jogadas ríspidas e polêmicas. E o árbitro Samir Yarak tentou assumir a condição de personagem principal ao cometer erros e trapalhadas em sequência.

Autor do primeiro gol da partida, Léo Lima, porém, frustrou os planos do juiz nos minutos finais da decisão. Da ponta esquerda, fez um cruzamento de letra que terminou com gol de Souza, que definiu mais uma vitória por 2 a 1. O Vasco voltava a ser o dono do Rio. E um passe magistral se mostrou mais importante e inesquecível do que um gol de título.

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Todo grande time precisa de um grande goleiro. A frase é batida, antiga, já foi repetida inúmeras vezes, mas é verdadeira, principalmente pela tranquilidade transmitida ao sistema defensivo por um bom arqueiro. Clube com enorme tradição na revelação de goleiros, o Atlético-MG foi buscar em Campinas a solução para uma carência que carrega desde 2007, quando Diego foi vendido durante o Campeonato Brasileiro ao Almería, da Espanha.

Aranha chegou ao Atlético-MG no final de maio credenciado por passagem irretocável na Ponte Preta, onde foi destaque no vice-campeonato paulista de 2008 e na conquista do Título do Interior, em 2009. Em Belo Horizonte, ganhou, porém, sua primeira chance em um time grande.

Em um clube com a força do Atlético, as qualidades e defeitos aparecem com mais facilidade. Negativamente, acompanhamos a falha grosseira cometida na derrota por 4 a 2 para o Barueri. Outros erros também apareceram em algumas partidas, mas sem afetar o desempenho da equipe.

As virtudes, porém, já apareceram nas primeiras partidas com o goleiro. E foram abundantes na vitória por 2 a 1 sobre o Fluminense, sob os olhos de 56 mil atleticanos que, mais uma vez, fizeram uma festa que apenas uma torcida sabe realizar, sendo fundamentais para o triunfo.

Um jogo em que o Atlético teve mais uma boa atuação, mas sofreu, principalmente nos minutos finais, com uma arbitragem tendenciosa e um adversário motivado (e bem organizado) por conta da estreia de um novo técnico.

Nos momentos difíceis, foi a vez de Aranha mostrar que o investimento feito para tirá-lo da Ponte Preta foi correto e promete render frutos. O goleiro teve uma atuação estupenda, que compensou algumas de suas deficiências com força, posicionamento perfeito e agilidade, em defesas improváveis e saídas precisas do gol.

O excelente goleiro é aquele que pega as bolas que todos acham que vai entrar no gol. Contra o Fluminense, foi isso que Aranha fez ao evitar dois gols do time das Laranjeiras.  Assim, junto com Welton Felipe, Thiago Feltri, Serginho e Diego Tardelli, foi decisivo para mais uma vitória do Atlético.

Ainda é cedo para cravar que os problemas enfrentados pelo Atlético em sua meta, tão comuns em tempos de Juninho e Edson, estejam superados. Mas, ao que parece, o fantasma e os pesadelos da Massa começaram a ficar no passado.

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