Disseram que saí pra jantar…. humpf. Tem jornalista que perde o amigo, mas… não perde a notícia. João Gilberto não é aquele músico excêntrico e fechado que, ao entrar no palco, mal percebe que há uma platéia a sua frente?

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

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Um torresmo e um chorinho. A história dos melhores choros em apresentação no podcast do grito.

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Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

Essa história se passa em uma cidadezinha remota, planejada e quadriculada, chamada Orlândia. Toda semana a mãe da menina ia até a vila, nos arredores da cidade, comprar pé-de-moleque e macarrão preparados e vendidos por preços modestos pela Dona Alberice.

Dona Alberice era uma senhora daquelas que sabia de muita coisa da vida: banho de sal grosso espanta olho gordo, benzer com galhinho de arruda atrás da orelha faz milagre e jabuti cura sinusite. Jurou de pé junto para a mãe da menina que tartaruga era a melhor coisa para desentupir as vias respiratórias, e mais, disse que Joana se arranjaria para encontrar um animal e dar jeito naquelas enxaquecas. A mãe agradeceu, disse educadamente que era desnecessário e saiu portão afora com o doce e a massa para a janta nas mãos.

Na semana seguinte, enquanto pesava o ravióli na balancinha verde-água, Dona Alberice lembrou-se do presente vagaroso da menina. Foi ao quintal e, junto com um maço de manjericões, trouxe um jabuti, batizado Onofre.

A menina era uma criança brincalhona, voltava todo dia da escola com um ralado novo, joelho roxo e sem a tampa do dedão, era mais moleca do que menina. Gostava de dependurar-se em árvores, dormir sem tomar banho e nadar em dias de chuva.

Quando era bem pequenininha, o Tio Pitico – ortopedista de Orlândia – descobriu na menina que lhe faltava uma voltinha na sola do pé, o popular pé chato. O tratamento consistia em duas alternativas: bota ortopédica especial, feia, pesada e desconfortável, ou então, não calçar sapato algum. A mãe até tentou, comprou uma bota preta para o dia-a-dia e uma branquinha para festas, mas ninguém deu jeito, ela preferia ir descalça.

Todo dia de manhã, a mãe trançava os longos cabelos da filha, vestia-lhe o uniforme verde da Escolinha-do-Faz-de-Conta, preparava um achocolatado como desjejum e ajudava a colocar os livros escolares dentro do vagão.

No natal anterior, o pai da menina deu como lembrança um vagão, feito caixote de madeira, com quatro rodas bonitas e vermelhas e um braço para puxar a engenhoca. Daquele dia em diante ela ia para escola a pé, descalça e arrastando seu vagão recheado de livros e com a merenda do dia.

Certo dia depois da aula, em uma tarde em que a cozinha cheirava a manjericão, a menina conheceu Onofre. Ela o ensinou a nadar em caso de emergência, jabuti normalmente não nada, tentou explicar que o hábito de entrar na sala e mastigar o fio do telefone não era correto, mas nisso Onofre se mostrou incorrigível. Descobriu, também, a comida favorita dele, a única coisa que fazia a tartaruga correr.

E a partir daquela tarde em que a cozinha cheirava a manjericão, Onofre ia dentro do vagão para a escola com a menina. Enquanto Dona Edna dava aula, o jabuti comia com gosto seu lanche predileto: tomate meio verde e lesmas gorduchas que a menina procurava embaixo de pedras no jardim.

Carolina Amprino contou a história real desta menininha notável em uma roda de bar cheia de gente esquisita. Gentilmente cumpriu a promessa feita naquela noite ao nosso colunista de segunda-feira e a escreveu para ser publicada no Sete Doses