O Internacional tinha pouco a comemorar no final de 2002. A equipe evitou o rebaixamento para a Série B apenas na última rodada do Brasileirão, com uma vitória sobre o Paysandu, na cidade de Belém, em jogo definido por Mahicon Liberelato. Poucos dias depois do jogo, porém, o atacante morreu em um acidente de carro em Santa Catarina.

Depois do susto no Brasileirão, e da fatalidade com um de seus jogadores, o Internacional se reinventou. Voltou a dominar o futebol gaúcho, montou elencos competitivos, lutou seguidamente pelo título do Campeonato Brasileiro e acabou com sua sina de fracassos internacionais em grande estilo ao ser campeão da Libertadores e mundial em 2006.

Títulos e campanhas amparados por investimentos precisos, com recursos advindos, entre outras fontes de receita, do programa de sócios-torcedores mais bem sucedido do futebol brasileiro. Um programa de marketing alavancado pela paixão dos torcedores e a rotina de sucesso do clube.

Fase de conquistas que ajuda no surgimento de novas campanhas de marketing. Como em 2008, quando o Internacional tratou de valorizar a pouco atrativa Copa Sul-Americana com a idéia de que faltava apenas esse título para o time gaúcho ser “campeão de tudo”.

De acordo com o clube, só faltaria a Sul-Americana para o tricampeão brasileiro, campeão da Copa do Brasil, da Libertadores, mundial e da Recopa se tornar “campeão de tudo”. A torcida abraçou a ideia, o Inter, com aplicação tática e o talento de D’Alessandro foi à final da Sul-Americana.

Contra o Estudiantes, a equipe ganhou na Argentina por 1 a 0. Na grande decisão, o Beira-Rio lotou, mas o Estudiantes conseguiu levar a disputa para a prorrogação ao vencer por 1 a 0. No momento decisivo, Nilmar se consagrou (em uma história que mereceria outro post), definiu e deu o título ao Internacional. Agora, então, “campeão de tudo”. Jogada de marketing ou não, este foi o coroamento de uma fase de sucesso do clube. E com uma faixa de Mahicon Librelato sempre exposta no Beira-Rio.

Leandro Augusto publica vídeos sobre esportes aos sábados no Sete Doses.

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A década de 70 foi mágica para o Internacional. Com o recém-inaugurado Beira-Rio, a equipe conquistou o Campeonato Gaúcho de 1974 com 100% de aproveitamento – 18 vitórias em 18 partidas. Em seguida, foi campeão brasileiro em 1975 e 1976. E no ano do bicampeonato nacional faturou um incrível octacampeonato gaúcho. A maior glória, porém, ainda estaria por vir.

Dirigido por Ênio Andrade, o Internacional de 1979 contava com a experiência de atletas que já haviam sido campeões nacionais, como o ponta Valdomiro, então com 33 anos, e grandes promessas, como o zagueiro Mauro Galvão, de apenas 18 anos. A mistura deu muito certo e se classificou com facilidade às semifinais.

Na luta por uma vaga na decisão, Falcão brilhou no Morumbi e deixou o Inter em vantagem com um triunfo por 3 a 2. Em Porto Alegre, empate por 1 a 1 garantiu a equipe na decisão, disputada contra o Vasco, do goleiro Leão e do atacante Roberto Dinamite.

O Maracanã não intimidou o Internacional, que venceu a primeira decisão por 2 a 0, com dois gols do atacante reserva Chico Spina. A conquista do título ficou para o Beira-Rio. E com um triunfo por 2 a 1, a equipe conquistou o tricampeonato brasileiro e se consolidou como melhor equipe do futebol brasileiro da década de 70.

O feito foi atingido com uma campanha impecável, com 16 vitórias, sete empates e nenhuma derrota. Isso muito por causa de um meio-de-campo completo, formado por Batista, que sabia desarmar e impunha velocidade ao setor, Falcão, o craque e organizador do Internacional, Jair, que foi o artilheiro da campanha com nove gols, e Mário Sérgio, que esbanjava habilidade. Não à toa, os gols da final foram marcados por dois jogadores do meio-de-campo: Jair e Falcão.

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Jogador talentoso não deveria ser escondido, independentemente de idade. O Internacional fez o contrário em 2006. Com apenas 16 anos, Alexandre Pato brilhou no Campeonato Brasileiro Sub-20, foi o artilheiro do torneio em junho e deu o título ao time gaúcho. Os meses seguintes foram de um ostracismo planejado.

Alexandre Pato assinou novo contrato, com uma multa milionária, e fez a sua estreia oficial em goleada por 4 a 1 sobre o Palmeiras. Seu segundo jogo foi um dos mais importantes da história do Internacional: a semifinal do Mundial de Clubes, no Japão, contra o Al-Ahly, do Egito.

O Internacional sofreu para vencer por 2 a 1 e foi pressionado pelos egípcios no final do primeiro tempo e no começo do segundo. Pato não se intimidou e marcou o seu gol na etapa inicial em lance de sorte. Criou outras chances, esbanjou habilidade e deixou o jogo contundido.

Assim, fez história ao superar um recorde de 48 anos de Pelé. Com o gol marcado no primeiro tempo, Alexandre Pato se tornou o jogador mais jovem a marcar um gol em uma competição oficial da Fifa.  E o segredo do Internacional começou a ser tornar uma estrela mundial.

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O futebol é esporte onde as frases feitas, ao lado dos julgamentos pré-concebidos, quase sempre imperam. Por isso, é tão difícil mudar um rótulo. Mas o técnico Abel Braga conseguiu modificar um deles, depois de quase 20 anos de questionamentos sobre sua competência à beira do gramado. Assim como o Internacional, depois de mais de 90 anos de uma história digna de um grande clube brasileiro.

Depois de uma atuação brilhante no Morumbi, com vitória por 2 a 1 sobre o São Paulo, atual campeão mundial e sul-americano, o Internacional precisava de um “simples” empate no Beira-Rio para conquistar o título da Libertadores de 2006 e encerrar o estigma, sempre levantado por gremistas, de ser um time apenas nacional (ou simplesmente regional como os gremistas gostavam de provocar), sem conquistas internacionais.

Para isso, contava no seu banco com Abel Braga, técnico criticado pelo desempenho de suas equipes em momentos decisivos, em sua terceira passagem pelo Internacional. A primeiras delas, com a lembrança de uma dolorosa eliminação na Libertadores.

Em 1989, o Internacional venceu a primeira partida da semifinal contra o Olímpia, no Paraguai, por 1 a 0, com um golaço de bicicleta marcado por Luís Fernando. O jogo de volta foi dramático. O time paraguaio esteve duas vezes à frente do placar, mas os gaúchos conseguiram o empate. Porém, Nilson perdeu a chance de sacramentar o triunfo ao perder um pênalti. E o Olímpia chegou ao terceiro gol. Nos pênaltis, Leomir e Nilson desperdiçaram suas cobranças e o sonho do título da Libertadores teve que ser adiado.

Depois, Abelão rodou e teve outros dois fracassos retumbantes em finais da Copa do Brasil. Em 2005, dirigindo o Flamengo, foi derrotado pelo Santo André no Maracanã. No ano seguinte, mas em São Januário, viu o Fluminense parar no Paulista de Jundiaí. Em 2006, de volta ao Inter, perdeu a final do Campeonato Gaúcho para o Grêmio, que voltava à elite do futebol brasileiro.

Se a primeira final da Libertadores de 2006 foi dominada pelo Inter, que até poderia ter saído do Morumbi com uma vantagem, o segundo confronto foi diferente, dramático e uma das melhores decisões dos últimos anos. Tarimbado, o São Paulo não sentiu a pressão de jogar diante de um Beira-Rio hostil e fez uma bela apresentação diante de um Internacional organizado, forte, porém tenso pela importância do confronto.

Mas uma falha de Rogério Ceni, maior ícone dos últimos anos do Morumbi, tratou de desequilibrar o confronto e presentear Fernandão com um gol. O São Paulo igualaria o jogo no segundo tempo, com Fabão. Mas a final parecia definida aos 20 minutos, quando Tinga marcou o segundo gol gaúcho. A injusta expulsão do meio-campista, a segunda em uma partida decisiva em menos de um ano, tratou de recolocar o São Paulo na final.

O empate aconteceu, mas não a virada nos dez minutos finais em que o goleiro Clemer foi protagonista por defesas e falhas memoráveis. Mas a cena que marcou a conquista do título e o fim dos estigmas de Abel e Internacional ocorria fora do gramado, um pouco afastada da delimitada área técnica. Abelão, desesperado, pelo enésimo escanteio seguido para o São Paulo, aos prantos pedia o fim da partida e rezava.

Campeão continental, Abel mostrou que já era um vencedor há muito tempo ao se abrir na entrevista coletiva. “Tem horas que a gente se questiona, e eu cheguei a pensar: ‘será que eu nunca vou ser o cara?’, mas minha hora chegou”. O homem revelava suas fraquezas no momento de maior glória. Isso não é pra qualquer um.

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O Internacional formou um dos grandes esquadrões do futebol brasileiro na década 70, quando sobravam times fortes, que encantavam torcedores por serem recheados de jogadores talentosos (artigo em falta nos últimos anos). Não é preciso listá-los, até pelo risco de deixar algum de fora, mas é imperativo afirmar que nenhum foi tão vencedor em âmbito nacional quanto o Inter.

Foram três títulos nacionais, o último deles invicto. O time do Internacional é também o principal responsável por um traço injusto na história da Máquina do Fluminense, que jamais conseguiu conquistar um Campeonato Brasileiro.

A dinastia do Internacional começou em 1975 e em grande estilo. Depois de tropeçar na reta final dos últimos quatro nacionais (sempre ficando entre os cinco primeiros), lá estava o Colorado na primeira final do Brasileirão sem clubes paulistas e cariocas. Inter x Cruzeiro, um confronto que se repetiria em outros momentos e, quase sempre, de modo histórico.

O Cruzeiro, na época, tinha um time mais tarimbado, campeão da Taça Brasil em 1966 e vice do Campeonato Brasileiro de 1974. Mas o título ficou no Rio Grande do Sul e iniciou a dinastia do Inter.

A escalação dos dois times dá uma noção da qualidade do confronto.

Internacional: Manga; Valdir, Figueroa, Hermínio e Chico Fraga; Caçapava, Falcão e Paulo César Carpegiani; Valdomiro (Jair), Flávio Minuano e Lula. Técnico: Rubens Minelli.

Cruzeiro: Raul; Nelinho, Morais, Darci Menezes e Isidoro; Piazza, Zé Carlos e Eduardo Amorim (Souza); Roberto Batata (Eli Mendes), Palhinha e Joãozinho. Técnico: Zezé Moreira.

Não faltaram, portanto, craques. Mas, pelo lado do Internacional, não foi o meio-de-campo formado por Caçapava, Falcão e Carpegiani que definiu o duelo. Nem o ataque com Valdomiro, Flávio Minuano (artilheiro do Inter na conquista) e Lula fez a diferença. Os homens que decidiram o Campeonato Brasileiro de 1975 estavam na defesa: Figueroa e Manga.

Manga, um dos melhores goleiros da história do futebol brasileiro, que adorava uma roleta e gastava o dinheiro dos bichos do Inter em cassinos de Montevidéu, registrou na decisão mais uma história para o seu folclore. O goleiro teria passado a semana da final se recuperando de uma lesão na coxa esquerda. Mas antes do encerramento do primeiro tempo voltou a sentir um incômodo (está na moda tal termo).

No intervalo, o goleiro de 38 anos nem cogitou ser substituído. Depois, fez três defesas que não precisam de adjetivos. Nelinho, principal jogador do Cruzeiro na final e desafiante de Manga, merecia chance melhor em suas duas cobranças de falta cheias de veneno (a outra defesa aconteceu após finalização de Palhinha).

Porém, antes de Manga evitar os gols do adversário, existiu Figueroa. O chileno que foi contratado pelo Internacional em 1971 em contraponto ao gremista Ancheta, foi um dos principais responsáveis por arrumar o sistema defensivo da equipe e em transformar o Colorado em um gigante.

11 minutos do segundo tempo e um raio de sol furou as nuvens sobre o Beira-Rio exatamente na grande área do cruzeirense. Figueroa estava lá. O cruzamento de Valdomiro passou por lá e Raul nada pode fazer (em entrevista para a edição 299 da Revista Placar, Raul disse que Figueroa errou o cabeceiro. Mas “se ele acerta, furava a rede”).

A agonia que durou quatro anos estava encerrada. O título brasileiro era do Internacional que, definitivamente, colocava o Rio Grande do Sul no mapa do futebol brasileiro. E o Gol Iluminado (como passou a ser chamado logo depois) estava eternizado.

Este post (não tem um termo melhor, não?) é uma homenagem ao centenário do Internacional. Clube de Batista, Carlitos, Claudiomiro, Falcão, Fernandão, Figueroa, Larry, Manga, Taffarel, Tesourinha, Valdomiro. Octacampeão gaúcho, tricampeão brasileiro, campeão da Copa do Brasil, Mundial, da Libertadores, da Copa Sul-Americana. O Internacional que passou por momentos terríveis nas duas últimas décadas, se livrou de rebaixamentos, se reconstruiu e parece ainda mais perto de novos momentos históricos.

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