Disseram que saí pra jantar…. humpf. Tem jornalista que perde o amigo, mas… não perde a notícia. João Gilberto não é aquele músico excêntrico e fechado que, ao entrar no palco, mal percebe que há uma platéia a sua frente?

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

Era trepidação a valer em uma vida que iniciara-se há tão pouco. E não havia nada mais recomendável do que leves tremeliques para embalar a leveza de um sono pesado. Assim seguia o destrilhar da vida para o diminuto Gael. Esparramado em sua cadeirinha posta no banco de trás do carro, refestelava-se cotidianamente em devaneios oníricos. Sabe-se mesmo que não há nada mais belo do que o despreocupar-se com o viver e entregá-lo nas saborosas mãos do acaso.

Ali no carro, Gael banhava a pequena grande alma em amenidades. Mesmo cochilando, a cabeça girava em torno do devir, que, para ele, eram a epifania embaraçosa de encarar suas micro galochas com cara de bichinho; o mini caminhão de madeira que puxaria por uma cordinha; o chuá na banheira com atenção distraída por patinhos, peixes e baleias de borracha; a bolona colorida chutada contra as paredes brancas e as frágeis louças de casa.

Ainda projeto de um homenzinho, começava a arriscar o balbucio de algumas palavras. A bem da verdade, era apenas um amontoado de sons desgovernados, mas Gael sempre se fazia entender. A palavra é banal. A mímica, imortal.

Mesmo com a cabeça entreanuviada, o guri era decidido como poucos. Sua mãe sabia disso e dobrava-se diante dos fofos contornos e caprichos do filho. Ela, alumbrada, era sempre voto vencido. Nenhuma novidade, nada aparentemente diferente de uma relação padrão entre progenitora e rebento. Aparentemente.

Tudo há de cair por terra diante das fagulhas, rastilhos e trilhos dos pequenos gestos. E assim sucedeu com Gael no dia em que ele, por meio de sua pantomima pueril, convenceu a mãe a comprar baldes e mais baldes de tinta. E o que normalmente era visto como manha revelou-se em artimanha matreira do garoto quando ele induziu a mamãe a lhe comprar uma pilha de camisetas e calças integralmente brancas.

Escandalizada em auto-indagação, a mãe cedeu aos queixumes do pequeno e forrou o chão da sala com panos, trapos e lençóis velhos. Era meio de tarde de não se esquecer, com a réstia deitando-se por debaixo da porta da casa e os abençoados raios de sol varando a rede de proteção instalada na varanda. Era hora da criatura anunciar à criadora que ambos falavam a mesma língua, pelo acalanto da conjunção das almas.

Gael enfiou primeiro a mão direita no galão verde e esfregou as palminhas contra o peito coberto pela camiseta ex-branca. A mãe, timidamente ressabiada. Depois, o moleque mergulhou a mão esquerda no balde azul, passando desta vez na calça outrora alva. Mirando sua protetora, Gael resolveu apontar com a cabeça para a vitrola encostada no canto da sala. Recado subentendido. Som finalmente ligado, o menino rabiscou a roupa fortuitamente com todas as cores.

Foi choro incontido. Ele só queria colorir a vida da mãe. Naquela manhã de carnaval, deitado no regaço, Gael ainda teve a pachorra de entregar-lhe uma flor. Faceiro, sorria exibindo os dentinhos, e seus olhos declaravam o amor mais puro que pudera florescer. As palavras de Mia Couto novamente falavam por ele: “a vida apenas tem encontros; tudo o resto são descoincidências”.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e endereça palavras de afeto a crianças que lhe tiram do prumo

 

 

Reveses para Ismael eram tulipas, rosas, margaridas, violetas e hortênsias. O que para as massas representavam flores, para ele resumiam-se a nomes de mulheres. Era história com um ar de masoquismo. A cada abortar de arroubos, pilhérias e rompantes com perfumados pares femininos o jardineiro corria para o quintal. Ali, engodava o solo e, como terra levada pela correnteza, regava as plantas com a salina dos olhos. E lembrava como era possível um plantar verde de esperança verter-se no entardecer da desilusão.

Sendo assim, toda vez que a estrada do amalgamar-se com mulheres deparava-se com um trevo, uma encruzilhada, obrigando Ismael e a madame do momento a seguirem por caminhos distintos, ele agia em moto-contínuo e piloto-automático. Corria para sua plantação, colhia a planta homônima à ex-amada e enchia o peito com o perfume do adeus. Fora assim com Tulipa, com Rosa, com Margarida, com Violeta e com Hortência. No fundo, tudo era um emaranhado de sinceridade. Os mal-me-queres com as mulheres eram um reconciliar de Ismael consigo mesmo.

Com o ponta-cabecear da areia na ampulheta, o jardineiro aprendera que todo sofrer em berros era falso. A dor repousa no silêncio. Valendo-se disso, a cada romper de aliança afetiva, Ismael calava para abrir os ouvidos. Em vez de bradar impropérios e lamentos, serenava com o rodopiar do vinil, sabedor de que o amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses. Hoje, revenerando João Gilberto, e com um texto mais curto, sabe que mesmo com menos palavras o peito ainda dá o seu recado

 

Era uma vez uma Lagoa diferente de todas já existentes. Não havia pessoas jogando pão n’água para alimentar os habitantes aquáticos, muito menos andando de pedalinho. Naquele universo não existiam humanos. No ambiente mais harmonioso do mundo, não havia marolas. Sempre banhados pelo Sol, todos os moradores prezavam pelo bem-estar comum. Eram apenas quatro.

Tinham a mesma idade, 28 anos, mas apresentavam corpos e mentalidades de crianças. Desde 1931, nunca haviam brigado, mas a soberba – que é o mal de todos os males – faria com que tudo mudasse no inverno de 1959.

Inesperadamente, os céus escureceram, e os moradores, que nunca haviam tomado chuva na vida, de tão preocupados, começaram a se preparar para o pior, treinando mergulhos eternos. A meta era conseguir ficar o máximo de tempo possível submersos e escapar dos iminentes pingos malignos. Não adiantava. Naqueles minutos de tensão, desejavam ter nascido peixes, mas eram aves. Só sabiam aquaplanar.

Veio a tempestade e os habitantes começaram a se desentender. Leves divergências diante do que estaria por vir. Em questão de minutos, seu habitat estava desfigurado, e a Lagoa completamente congelada. O Pato começou a distribuir patadas, o Marreco ficou marrento, o Ganso passou a cantar de galo, e o Cisne Negro queria que seus ex-amigos, pejorativamente, dançassem.

A paz só voltaria a reinar naquela comunidade quando o Sol, que havia se aposentado por senilidade, trouxesse de volta a bonança. Só o sobrenatural lhes devolveria a alegria.

Ensopados de tristeza e melancolia, não conviviam mais, apenas viviam. O silêncio sepulcral só foi interrompido quando numa tarde o quarteto ouviu passos que se aproximavam de sua casa. Escandalizados, viram as nuvens negras baterem em retirada para o retorno triunfante do Sol. Mais embasbacados ainda, começaram a acompanhar em coro aquele rapaz de Juazeiro, que, matreiro, arregaçou as barras das calças e sentou-se à beira da Lagoa com seu violão.

Lucas Nobile, enviado especial a Paris, escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, e, do seu quarto, espera atender um telefonema de João Gilberto em plena madrugada

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No pipoco do trovão, Bahia!

Eu canto pela Bahia de São Salvador
O grito que desce a ladeira
No sabor do afroxé de cangerê

Vibrem ao sabor do vatapá, carurú, mungunza!

Da emoção de donga ao devagar de João Gilberto
Pois atrás do trio elétrico….

Sim, pois eu vim da Bahia e tenho saudades de lá
Ah sim, se eu escutasse o que mamãe dizia
Descansado em terra primeira de um quente astral

Meu pensamento está preso àquele carnaval
De samba de roda, de noite, no sereno da lua,
Das mais de 300 igrejas!

Eu canto e agradeço!
Não é o fim!
Nem o começo!
É pura admiração ao Senhor do Bonfim!

Busquei painho no pipoco do trovão!
Busquei mainha na derradeira do navio!

Dançei serenatas de amor para te conquistar
Levo você comigo, pequena e doce,
Para onde o mundo nos levar!

Deixo de lado o mundo para soltar na brisa
Para retirar das matas e do tempo
O que de mais belo há de cantar!

O que vamos jantar?


Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses