Estou nu sobre a ponte. O vento contorna todas as curvas do meu corpo, insinuando um balé suave e espiralado. A noite, caída como um mar de escuridão, transforma meus sonhos em nuvens e meus desejos em dejetos. Estou sozinho, pois assim escolhi estar. Foi assim que encontrei os espaços do meu corpo, o limite gradual entre o que é meu e o que é do outro. Por que sempre me confundo com todos? Fujo das pessoas com a necessidade de me encontrar e as pessoas me procuram para apoiarem suas dores nos meus ombros. Nunca fui nada além do que todos desejaram. Não é culpa deles… Eu me fiz assim e agora estou nu sobre a ponte e quero pular. Cansei…

Aprisionado em grades que eu mesmo construí, luto por burlá-las, libertar-me para depois me enjaular novamente. Aprendi, a vida toda, que estar preso é a única forma de estar vivo, de não desaparecer para sempre nas águas viscosas de um rio em fluxo. Liberdade é morte. A prisão é meu destino. Despido, com os pés firmes sobre essa ponte imóvel, observo o horizonte com o silêncio marcante da solidão. A solidão, essa tragédia que consome, também desponta como a única forma de fuga, a única forma de sair, por alguns minutos que seja, da prisão de mim mesmo.

A ponte não tem grades, as grades são desenhadas pela minha mente. Ela circunda meu corpo e me deixa ver e desejar o que tem lá fora. Quando penso em sair, uma força, quase uma mão que me abraça despoticamente, impede-me. Eu quero, mas não vou. Eu quero, mas sei que é inútil e que saindo dali vou construir mais um de tantos cárceres que me sufocam. Por isso, continuo parado, nu sobre a ponte. E pelo visto, de novo, não vou pular. Ficarei aqui, exposto como uma estátua de cera, aguardando o dia amanhecer e o meu amor por você passar. Estou nu sobre a ponte e preciso pular.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Não faz muito tempo, comemoramos nosso primeiro ano de Sete Doses com uma festa deliciosa. Na ocasião, lembro de ter definido o blog como o pagador do meu “salário motivacional”, conceito que retomo vaidosamente pela acuidade da definição. 

Desde que incursionamos nessa nau do nosso próprio redescobrimento, reconheço no André Toso um grande chefe. Sem querer editar o ineditável, ele nos incitou a recuperar um compromisso com as nossas virtudes – aniquiladas pela rotina e os dissabores todos. E o melhor: extraímos matéria-prima excelente dessas nossas próprias mazelas. Nestes quase 1000 posts, nunca recebemos nenhuma intervenção ou sugestão prévia, com o que saíram pedaços de ouro e alguns pedaços de merda. 

E este é o melhor cenário que poderíamos esperar. Temos um espaço livre para desenvolver aptidões – muitas vezes incompletas, ingênuas, mas normalmente apaixonadas. Sem nem sempre saber o que fazer com tanta liberdade, conquistamos alguns admiradores, críticos e agora colaboradores. Como se isso já não fosse muito, nosso primeiro livro está a caminho.

Isso me prova que as Sete Doses são bons exemplos de como se pode saciar a sede por criar, a várias mãos, algo de que nos orgulhamos.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses


Ela voava todas as noites. O ritual se repetia. Esperava impacientemente que o mundo silenciasse; que apenas um e outro carro desafiassem a escuridão; que todos dormissem. A partir de então, sentia-se livre para viver.

Levantava-se da cama com o cuidado de não amassar o lençol rendado. Caminhava até a beira da janela na ponta dos pés. Destravava a vidraça, subia as persianas e olhava sete andares para baixo. Inspirava fundo (sentia o ar percorrer todo o corpo, como um combustível) e fechava os olhos.

De repente, lá estava ela entre as estrelas. Sua face corava diante do brilho dos astros. E, se houvesse algum homem de altivez aguçada, certamente poderia avistar aquela mulher iluminada nesse instante. Mas crer que alguém deixasse de se preocupar com o chão para sonhar com o céu era utopia. Sempre haveria um teto sobre as casas, até para aqueles que não possuíam uma. E todos dormiam.

Ela não. Deixara o peso da existência sobre a cama para flutuar como uma pluma. Estava nua. Abria os braços em 180 graus e sentia o vento conduzir uma pessoa que já não se prendia à aparência. Os cabelos grisalhos, agora esvoaçantes, revoltavam-se contra qualquer penteado. As rugas enrijeciam com o frio da noite. Os ouvidos, mesmo tapados por tamanha plenitude do espírito, recobravam a sensibilidade para escutar os mais distantes sussurros. Sim, era uma jovem mulher quem voava. E como ela sorria.

Também havia tristeza entre as nuvens. O conjunto de prédios da metrópole se apresentava perturbador e misterioso em meio ao breu. Ela sabia que milhares de corpos estavam depositados naquelas construções. Amontoavam-se, distribuídos em andares, até ficar à altura da metade do céu. Sem jamais experimentarem os prazeres de voar. As paredes, o cimento, o tijolo e o concreto impediam que o vento atraísse novos passageiros.

Uma lágrima costumava escorrer pelo rosto dela naqueles momentos, e não raro a gota que descia para a terra era um prenúncio de chuva. Transformava o choro em riso quando a natureza a acompanhava no derramamento de água. Via os raios subirem, dançava com a música dos trovões e supunha que tudo aquilo era planejado por alguém. Gritava de felicidade. Fazia acrobacias. Esquecia-se de tudo e de todos.

Quando os primeiros raios de sol lhe embaçavam a vista, no entanto, era chegada a hora de retornar. Já começava a fazer mais barulho entre os homens do que longe deles. O dia derrotava a noite.

Ela expirava raso (devolvia o ar que tomara emprestado à realidade) e abria os olhos. Descia as persianas, travava a vidraça e sentia-se novamente sete andares acima, como mais um corpo amontoado. Caminhava até a cama na ponta dos pés, amarrotando o lençol rendado. Chegara a vez de ela dormir, saciada, enquanto vocês pensavam que acordavam.


Helder Júnior escreve (em tempos recordes) às quintas-feiras para o Sete Doses


A minha jaula fede a mofo.

Talvez as grades enferrujadas expliquem o odor de decomposição. Ou seria a mistura de urina com a tinta dos jornais sem data que forram o chão? Pouco importa. De tanto inalar o ar poluído, a podridão passou a ser oxigênio vital para o corpo.

Permanecer em estado constante de ebriedade me fez suportar – e desejar – a sujeira que me invade pelo nariz. Quando eu devolvo o mofo ao expirar, o ar ganha também um pouco de mim. E mesmo aquela brisa, com liberdade para entrar e sair da clausura, prefere soprar para dentro. Deve saber que não há lá fora.

Ao menos eu já não me lembro de outros cheiros. Também me esqueci das imagens externas. Da minha cela, só consigo enxergar aquilo que querem que eu veja. Assisto principalmente à felicidade passar diante das grades. Acompanho a vida com as mãos pendendo entre as barras de ferro, incapazes de tocar o abstrato.

O que foge à vista se torna ainda mais inalcançável para mente. A consciência, quando bem treinada, aprisiona a inconsciência. Controlo os meus sonhos ao libertá-los à noite, para serem falsamente apresentados ao desconhecido que me ensinaram a temer durante o dia. Acordo com a impressão de que a jaula ficara maior, embora o meu tamanho ainda me impeça de deitar com o corpo esticado.

Houve um tempo, no entanto, em que o recinto era espaçoso. Na época em que fui trancafiado, as ilusões ainda podiam enganar o espírito. As crianças possuem o dom de fugir de qualquer prisão sem sair do lugar. Era assim comigo. Não me recordo mais de quem ou por que me prenderam aqui, mas eu acreditava que sempre escaparia. Ria dos meus guardiões, então jovens, como se a existência fosse uma mera brincadeira.

Mas eles eram carcereiros competentes. Cumpriram o seu ofício ao me ensinar, à base de castigos e ameaças, as duas palavras que nortearam o meu destino: “sim” e “não”. Premiaram-me com mantimentos (não queira saber o que se come nesta cadeia, pois não sei responder) e cobertas, apesar de eu não me interessar por comida nem pelo frio. Hoje, ao contrário, a sobrevivência é o único motivo para eu ser adulto – velho, talvez? Fui um aluno compenetrado, e não sei quanto tempo passou. A minha barba, branca nas extremidades, já é maior do que o cabelo. Os músculos deram lugar aos ossos. E o riso é uma lembrança.

O que me aterroriza, agora, deixou de ser a possibilidade de não sair da prisão. É o oposto. Faz uma semana que eu durmo e acordo sem que ninguém apareça diante de mim. Na última vez em que a carceragem estava lá fora, deixaram-me comida suficiente para os dias que se seguiram. Dei as minhas últimas garfadas há pouco. Acabou. Ninguém virá me buscar?

Quer saber um segredo? Eu me recostei na porta da minha jaula certa vez, e percebi que ela nunca fora trancada. Vou esperar, porém. É possível que alguém chegue mais tarde, mesmo que seja a morte.

 

Estou só.

Empurro as barras enferrujadas com as pontas dos dedos, e observo a porta abrir com um rangido estridente. Respiro fundo, preenchendo o vazio do meu corpo com o mofo que paira no ar. Ouço um “não” que ninguém pronunciou. E, derrotado, volto a me deitar, em busca dos sonhos que já não possuo.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses



Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses


Leia antes:
A Missa de Sétimo Dia – Parte um
A Missa de Sétimo Dia – Parte dois
A Missa de Sétimo Dia – Parte três

(*)
Sexta madrugada

Judas repousava novamente em posição de defunto sobre o sofá. Tentou dormir com os dedos entrelaçados sobre a barriga, esquecendo-se de fechar os olhos. A consciência vazia de sonhos logo foi preenchida pela imagem fixa do ventilador de teto, que girava sem ritmo desde o início da semana. O morto tossiu a poeira que inalava com o vento, dobrou as pernas unidas e curvou-se para a direita. Depois para a esquerda. E finalmente de bruços.

Derrotado pela insônia, começou a ziguezaguear pelo apartamento. Pulou. Caiu. Ligou a televisão. Desligou a televisão. Acendeu um cigarro. Apagou um cigarro. Socou a parede enfurecidamente. Como se ocupar nas poucas horas restantes para a Missa de Sétimo Dia? Voltou a procurar soluções no jornal que, consumido por urina, anunciara a sua morte em primeira mão e agora servia de cama para o cachorro. Em sono profundo, o animal não se incomodou quando Judas tomou a folha de Classificados para si. As palavras cruzadas estavam preenchidas, o horóscopo lido e já não havia dinheiro suficiente para doações mirabolantes ou para comprar carros ou apartamentos. Mas o bastante para contratar uma companhia.

Seios Fartos chegou à casa de Judas em menos de meia hora, conforme prometera pelo telefone. Seu busto, acentuado pelo decote da blusa vermelha, fazia jus ao nome de trabalho. Assim como a barriga, que pendia para fora da saia jeans em curiosas ondulações, e as pelancas dos braços e pernas mal depilados. Não era possível distinguir onde terminavam as coxas, estavam os joelhos e começavam as canelas. Da cintura para baixo, era uniformemente arredondada.

– Como vai ser, garanhão? – Seios Fartos perguntou, roubando um cigarro de cima da mesa e descendo dos saltos dos sapatos brilhosos.

– Preciso conversar com alguém, entende? Não sei se o meu estado atual permite muito mais do que isso – disse Judas, em tom melancólico.

– Tanta pressa para nada, meu amor? A vida foi feita para ser vivida – sorriu Seios Fartos, ignorante, mas segura. Ela estufou ainda mais o peito. A amargura do interlocutor a enchia de confiança para se fazer de psicóloga, filósofa ou o que fosse necessário para consumar o negócio.

– Não me fale em pressa, por favor. Quisera eu gozar da velocidade da vida.

– Disso eu entendo. Venha já aqui.

Seios Fartos tirou a blusa e a saia com rapidez. Nua, lançou um sorriso mórbido para o seu cliente.

Judas não se encantou com a nudez da mulher, mas se sentiu intrigantemente excitado por aquele sorriso. Desviou os olhos do corpo flácido de Seios Fartos para a boca tão carnuda quanto. Necessitava partilhar das experiências de sua conselheira. Despiu-se.

– Quer que eu coloque em você? – indagou Seios Fartos, com um preservativo em mãos.

– Não será preciso, senhora. Seguramente não sou capaz de te contaminar com nenhum mal.

– Como não? E não me chame de senhora, benzinho.

– Asseguro que não. Também não se assuste com a minha palidez – esbravejou Judas, que se recusava a revelar seu motivo.

– Você sabe que pode morrer por essa atitude, não é?

Judas gargalhou. Sua excitação aumentou.

– Não ria – retrucou Seios Fartos, entristecendo-se.

Judas não conseguiu se conter.

– Pois bem! Você lamenta a falta de prazeres e certamente me julga cheia de vida! Quem me dera… Mas, por mais que me ria, agradeço aos céus por encontrar alguém bem apessoado nesta madrugada. Uma de minhas últimas, é bom que se diga. Se faço questão do preservativo, é por mera preocupação com o próximo. Sou portadora de Aids e não demorarei muito para morrer. Quer que eu me retire agora?

– Pelo contrário. Se não faço questão do preservativo, é porque já estou morto – disse Judas, devolvendo à mulher aquele sorriso mórbido. Seios Fartos também se sentiu intrigantemente atraída.

Atracaram-se. Iniciaram o ato sexual. Judas mudou de posição uma vez, duas, três e quatro. Sua excitação se transformou em frustração. A morte lhe roubara o prazer daquele momento. O sexo para ele era agora como calçar freneticamente uma meia. Resumia-se à sensação tátil.

– Qual é o problema, meu anjo? – preocupou-se Seios Fartos.

– Estou morto.

Seios Fartos acomodou Judas no peito, como se fosse uma mãe, e fez cafuné. Acalmou o falecido com discursos sobre as mazelas da vida. Fez com que ele se julgasse um felizardo, e ela também acreditou na oratória.

Judas molhou os seios de Seios Fartos com lágrimas. Não se lembrava mais que não podia chorar. Dividiu com ela uma garrafa de refrigerante barato, e ele saboreou a bebida. Não se lembrava mais que não possuía paladar. Conversaram até adormecer. Não se lembravam mais que eram infelizes.

Sétimo dia
Os sentidos de Judas nunca estiveram tão apurados. Visões, audições, cheiros, paladares e sensações táteis da realidade confundiam-se em seus sonhos rasos.

Os primeiros raios solares do sábado driblaram com facilidade as cortinas da sala e as pálpebras cerradas do morto. Não era preciso abri-las para enxergar todas as nuances do dia.

O ronco de Seios Fartos e os incontroláveis latidos do cachorro soavam como música para os ouvidos. Ditava o compasso o ponteiro dos segundos do relógio de parede, que resistia à bateria fraca e alternava-se entre os números 12 e 13.

A parede mofada onde o relógio fora pendurado, a louça suja sobre a pia da cozinha e o perfume barato de sua companheira inebriavam-lhe as narinas.

Os sabores que provara durante a semana repousavam em cima da língua. As pupilas gustativas divertiam-se com doces, salgados, amargos, picantes e azedos.

Judas sentia o toque e o abraço de tudo que o cercava. Seres, objetos, pensamentos, alegrias, tristezas, esperanças e frustrações ninavam o seu sono.

Era como se fosse, pela primeira vez depois de falecido, um expectador onisciente da vida. Sentia-se um recém-nascido, para quem qualquer experiência sensorial seria a primeira. Começava a acreditar que receberia uma nova oportunidade ao despertar. Que acordaria uma semana atrás. Que estava vivo.

Abriu primeiro o olho direito. O choque com o realismo foi imediato. Sua vista ficara embaçada. Agora escutava apenas zumbidos. O interior de sua boca secara. Os membros foram acometidos por um formigamento insuportável. No apartamento, quase tudo permanecera como fora deixado na última madrugada. Seios Fartos ainda ressonava sobre o chão da sala. O cachorro não parara de se incomodar com a presença da mulher. O jornal com a notícia de sua Missa de Sétimo Dia continuava aberto entre os dois.

O relógio de parede, no entanto, milagrosamente funcionava. Marcava 9h30. Judas estava atrasado para a sua própria despedida da vida.

O morto se vestiu apressadamente com o seu melhor terno preto, penteou os poucos cabelos que lhe restavam e correu para a porta. Saiu. Retornou assim que ouviu vagamente, da entrada do elevador, os latidos do cachorro. Carregou o animal no colo e tentou soltá-lo pelo prédio. O poodle cinza recusou a liberdade. Arranhou o antigo dono com um uivo e retornou manso para o apartamento, fazendo dos braços dormentes de Seios Fartos uma coleira.

Não havia tempo para se preocupar com quem ficara. Judas pegou o primeiro táxi para a Igreja da Libertação, pagou o chofer com uma envelhecida nota de $ 100 e acomodou-se na antepenúltima fileira do templo. Sob a imagem de Jesus Cristo crucificado e ao lado de um casal de idosos.

Seus poucos conhecidos no local estavam posicionados muitos metros à frente. O colega de trabalho de quem não se lembrava do nome amansava o choro desesperado da mãe de Judas. Menos de uma dezena de familiares se juntaram aos dois.

A missa começou e prosseguiu com variadas orações, músicas ensaiadas por alguns fiéis, diversas ordens para o público se sentar e levantar-se. Madalena H., a mãe do morto, era uma das poucas fiéis que não precisava escutar as instruções do padre para saber como proceder. Ela se adiantava à cada frase pregada. Benzia-se antes de todos. E fazia questão que notassem a sua dedicação. O colega de Judas, por sua vez, aproveitava-se da sapiência da senhora para agir corretamente. Não fazia feio, embora apenas repetisse os versos das rezas. Como a maioria das pessoas.

Sem se importar com o ar de reprovação do par de idosos ao lado, Judas parou de seguir a cartilha da missa. Preferiu se portar como um expectador onisciente do evento.

O padre endireitou a batina e fez menção de desferir uma reprimenda a Judas, quando o viu sentado enquanto todos estavam de pé.

– Volto a salientar que a Missa de Sétimo Dia tem como principal objetivo a expiação das penas dos defuntos que, porventura, estejam no purgatório! – bradou o padre.

Judas saiu da Igreja da Libertação antes que os presentes respondessem ao pároco com um uníssono “amém”. Sentiu-se plenamente realizado pela primeira vez desde que falecera. Aprendeu em sua expiação que estava livre dos deveres e direitos dos vivos.

Seios Fartos estava do lado de fora do templo, com o jornal que divulgara a Missa de Sétimo Dia debaixo do braço carnudo. Judas arremessou a página de Classificados em uma lixeira e agarrou as mãos da mulher com força.

– Para onde você vai me levar? – ela perguntou.

Judas lançou-lhe o sorriso mórbido e encantador. Começaram a trilhar o caminho das incertezas em silêncio. Mas com a maior dúvida da humanidade dirimida pelo defunto. Só havia vida após a morte.

(*) Conto concluído às 19h22 do último dia de julho de 2009.

Helder Júnior escreve às quintas e às sextas para o Sete Doses

"Um Sonho de Liberdade"Leia antes:
A Missa de Sétimo Dia – Parte um
A Missa de Sétimo Dia – Parte dois

(*)
Quinto dia
Teria se suicidado se soubesse que era o caminho mais rápido para enriquecer, pensou Judas. Sua evolução natural àquele momento de felicidade, ao contrário, pressupunha um longo e regrado planejamento. Iniciava-se no berço, com o aprendizado em família das normas de convivência social. Prosseguia com seis horas diárias sentado em carteiras escolares, durante 17 anos, onde se exercitavam também as condições básicas para o relacionamento humano. Quem melhor respeitasse ambas as cartilhas, então, era premiado com outras quatro horas diárias de estudo e mais cinco de trabalho. A carga aumentava para os competidores que se destacassem nessa nova etapa. Os poucos que resistissem por mais de seis décadas poderiam desfrutar da mais próxima sensação de liberdade até o fim de seus dias. Seus corpos, no entanto, não eram mais suficientemente ágeis para suportar muito prazer. Precisavam enfrentar uma série de privações para prolongar o curto tempo que lhes restava para viver.

Judas já estava morto. Não havia limitações físicas para ele. A quinta-feira, portanto, seria de celebração. Comprou 5 kg de carne vermelha gordurosa no açougue, três oleosos pastéis de queijo em uma feira próxima à sua casa, dois churros lambuzados de doce de leite de um vendedor de esquina e uma espiga de milho encoberta por manteiga ao atravessar a rua. Não se deu ao trabalho de receber os trocos. Repetiu a displicência no supermercado, ao escolher três potes de sorvete de creme da melhor marca disponível, quatro barras de chocolate amargo, uma caixa de cervejas alemãs e cinco garrafas de vinho cabernet sauvignon. Tirou o dia para satisfazer o seu paladar com iguarias de certa forma socialmente proibidas.

Judas fatiou a picanha com delicadeza sobre a churrasqueira elétrica assim que chegou ao apartamento. Com um avental amarrado ao redor do pescoço, ele passou a arrumar cuidadosamente a mesa farta. Abriu um sorriso, e achou que a ocasião merecia mais uma afronta social. Não comeria da maneira como fora ensinado em vida. Arremessou os talheres pela janela. Agarrou o prato de porcelana com truculência e o lançou como um disco. O objeto espatifou na parede, e seus pedaços ricochetearam no corpo de Judas. O cadáver não sangrava. Também não havia dor. Eram as benesses da morte.

Judas sapateou sobre os cacos do prato quebrado, sorridente. Ao ver o seu reflexo na porcelana partida, ele se perguntou em voz alta:

– Por que estou vestido?

Tirou o avental, a camisa xadrez, a calça jeans e os sapatos mocassins. O morto estava nu. E não sentia frio. Não ficara com um pelo sequer arrepiado.

Hora de comer. A primeira mordida em um dos pastéis não foi saborosa. A segunda tampouco. Passou à espiga de milho. Nem o gosto da manteiga ele sentiu. Desesperou-se em direção à carne. Pegou uma fatia da churrasqueira sem se importar em queimar as mãos e empurrou goela abaixo. Agora não havia mais dúvidas. A morte afetara também seu paladar.

Judas tentou chorar. Seu terror apenas aumentou ao lembrar que as lágrimas haviam sido esvaziadas dois dias antes. Será que atingira o auge do estado de putrefação? Como um defunto poderia se divertir? Precisava amarguradamente de normas e cartilhas para se alcançar a felicidade no mundo dos mortos. Aceitaria cumprir 24 horas diárias de obrigações por quantas décadas fossem necessárias para saber como encontrar o divertimento. Era até melhor ocupar a mente com os estudos, ele sabia. Assim não lhe sobraria tempo para pensar.

Melancólico, Judas reuniu toda a comida que comprara em pratos de porcelana. Colocou-os no lugar onde o seu cachorro poodle cinza sempre fizera as refeições. Assistiu ao animal se alimentar, abanando o rabo alegremente, tomou um porre de vinho sem sabor e adormeceu no chão da sala.

Sexto dia
Judas acordou de ressaca, mas não sentia azia ou dor de cabeça. Causava-lhe maior incômodo o vazio no interior de seu cadáver. Sofria a sua primeira crise inexistencial. Em silêncio absoluto, olhou para cima, para a direita, para a esquerda e para baixo à procura de algum passatempo. Com o que gastaria o seu dinheiro? O que lhe traria felicidade?

Repousou a vista no jornal de domingo, que continuava jogado sobre o assoalho. “Missa de Sétimo Dia. Familiares e amigos de Judas H. convidam a quem interessar possa para uma última homenagem. A liturgia será realizada às 10 horas do dia 11 de julho de 2009, na Igreja da Libertação.” Sua derradeira despedida da vida seria amanhã. Havia quase uma semana que recebera o convite e ainda não sabia como proceder como falecido. Ficou de cócoras diante da página envelhecida, que fedia o bastante para inebriar o olfato insensível de Judas, como se buscasse novas respostas para o futuro através das notícias de cinco dias atrás. Preencheu as palavras cruzadas no verso da folha com caneta azul, leu o horóscopo de todos os signos do zodíaco e finalmente julgou achar um sentido para a sua morte. Em letras apagadas no canto esquerdo do papel, um asilo solicitava encarecidamente contribuições financeiras. Sob o risco de falir se não as recebesse.

A um defunto, nada parecia mais justo do que proporcionar conforto a quem logo também morreria. Judas ergueu o indicador na direção do telefone, resoluto. Discou pausadamente 0, x, x, 1, 1, 3, 5, 4, 9, 4, 4, 9, 9.

– Asilo Missionários do Amanhã, bom dia? – atendeu uma mulher, com voz rouca e desinteressada.

– Bom dia. Tudo bem? Quero fazer uma boa ação. Ou melhor, uma doação – anunciou Judas.

– Muito bem. Quanto será?

“Quanto?”. Não havia pensado nisso. Deveria dar todo o seu dinheiro para aquele centro de concentração de idosos ou apenas uma parte?

– Alô? – insistiu a mulher.

Era melhor economizar, sem dúvida. Afinal, alguma situação emergencial poderia acontecer em sua morte adulta. E que destino aqueles missionários dariam ao dinheiro? Certamente investiriam apenas em remédios, verduras e legumes. Não comprariam carne vermelha, pastéis, espiga de milho, sorvetes, vinhos e cervejas.

– Alô?

– Será uma quantia considerável, minha senhora. Portanto, prefiro não revelar valores por telefone. Diga-me os números da agência bancária e da conta corrente, e eu mesmo faço o depósito.

– Como queira. Mantemos em sigilo o nome do doador?

“Sigilo?”. Não havia pensado nisso. Deveria gozar do status de benfeitor ou apenas morrer em paz e longe dos holofotes?

– Alô?

Claro que não sofreria nenhuma represália por descobrirem que era um homem rico. Qual seria a ameaça de um assaltante ou sequestrador a Judas? Já não estava morto?

– Alô?

Judas, então, largou o telefone no gancho com violência. O que estava fazendo? Entre os vivos, a caridade se justificava somente por ser uma forma para o doador alcançar a felicidade. Ainda que fosse travestida de reconhecimento ou de mera paz de espírito. Mas Judas estava morto. Sua boa ação seria realmente direcionada para o próximo, e não para o seu próprio bem-estar.

Ligou para o gerente do banco no qual trabalhou em vida e aplicou seu dinheiro em ações na bolsa de valores.

(*) Recém-chegado de Montevidéu, o autor decidiu poupá-los de mais caracteres e tranformar a trilogia em uma quadrilogia. A Missa de Sétimo Dia enfim será celebrada na próxima semana.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses