A geração de escritores espanhois de 1927 abarcou um notório defensor do revisionismo de alguns ícones que ajudavam a formar uma identidade local. Federico García Lorca visitou o flamenco, resgatou-o dos prostíbulos e de comunidades marginalizadas, como os ciganos, e foi um dos principais organizadores do primeiro concurso formal de cante jondo (o cantar flamenco) da Espanha. Foi fuzilado pela falange franquista.

Um dos caras que deu uma boa mão para ele nessa iniciativa tão desafiadora para a época foi Ignacio Sánchez Mejías, uma figura tão excêntrica quanto adorada. Intelectual, escrevia peças de teatro, organizava eventos culturais e festas flamencas. Tinha apelo popular, gostava de futebol e chegou a presidir o Bétis, clube do povão em Sevilha. Morreu em uma praça de touros.

Sánchez Mejías era toureiro. Com o (muito) dinheiro que ganhava nas corridas, atuava como mecenas: financiava os encontros entre intelectuais, bancava pinturas, livros e espetáculos de teatro. Essa dedicação angariou grande simpatia entre seus contemporâneos, que se converteu em um profundo lamento quando ele morreu.

Para ele, no entanto, a lenda completa de um toureiro termina com a morte. Dela, especificamente da circunstância em que Sánchez Mejías morreu, García Lorca escreveu:

¡Que no quiero verla!

Dile a la luna que venga,
que no quiero ver la sangre
de Ignacio sobre la arena.

O poeta reconhece a multidão sedenta por sangue, pelo jogo com a morte, mas se separa dela, não quer vê-la ou senti-la. A morte de um amigo é mais morte que a de um toureiro qualquer. A morte de um touro na arena é mais morte que a de um touro qualquer.

Mas García Lorca também disse, enfatizando a hora em que tradicionalmente se iniciam as touradas: 

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.

Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

 

Isso. Morte é morte. E eu não vejo espetáculo nenhum nisso.

(Não me estendo mais. O flamenco acaba de ser elevado ao posto de Patrimônio Imaterial da Humanidade e merece dedicação em próximos posts. Para quem quiser se aprofundar mais nas touradas, sugiro começar por essa compilação de artigos escritos no calor da aprovação da proibição na Catalunha. E aqui, e aqui, alguns dados sobre o tema)

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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Fica a homenagem ao músico Paulo Moura, aqui no Podcast do Grito.

Velório de Paulo Moura - foto:Helio Motta

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

Ao poeta, fica a homenagem. Há 20 anos, o nobre Cazuza nos deixou, vale a recordação aqui no Podcast do Grito.

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

José Carlos

Em frente ao espelho, passou o pente fino entre os poucos cabelos brancos que lhe restavam. Com calma, repartiu-os ao meio, abriu a torneira e acertou as pontas desgrenhadas com a mão úmida de água. Fechou os botões da camisa, observou seu rosto magro e beijou a corrente de ouro que repousava em seu peito.

Maria Helena

Fechou a torneira do chuveiro e, ainda dentro do boxe, colocou o braço para fora e puxou a toalha branca pendurada no gabinete. Enxugou-se sem pressa. Primeiro os cabelos curtos e brancos, depois o rosto cansado e, por fim, o restante do corpo. Vestiu-se com uma calça de moletom cinza e uma blusa de alças cor da pele. Tateou embaixo da cama e encontrou as sandálias de couro que procurava.

José Carlos

Saiu do banheiro e dirigiu-se até a sala. Ao procurar sua carteira, deparou-se mais uma vez com a foto de sua mulher exposta no porta-retratos de plástico em cima da escrivaninha. Olhou para a imagem, seus olhos marejaram e o aperto no peito foi o mesmo que sentira na noite em que sua esposa falecera. Já se completavam quinze anos de ausência. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

Maria Helena

O vapor do banheiro ainda não se dissipara quando ela retornou para apanhar as roupas intimas que havia esquecido em cima do vaso sanitário. Jogou-as no cesto de roupas sujas e retornou para o seu quarto. Era o único cômodo de uma casa minúscula que comprara com seus investimentos de toda uma vida. Era mais do que suficiente, já que jamais casara ou dividira o teto com alguém. Vivia sem ser vista. E sua morte, que lentamente se aproximava, não seria notada. Abriu a porta e saiu em direção ao supermercado.

José Carlos

Estava na fila do caixa à espera de sua vez quando percebeu a dificuldade de uma senhora para pagar sua conta. Notou que ela não tinha dinheiro suficiente e foi cavalheiro ao intervir:

– A senhora precisa de ajuda com a conta?

Maria Helena

Colocou os óculos e, com as mãos enrugadas, abriu o pequeno zíper do porta-moeda em busca de alguns centavos para pagar a conta do supermercado. A atendente insistia que faltavam 80 centavos para o débito ser liquidado. Nervosa, não conseguia encontrar mais do que 35 centavos na bolsinha. De repente, ouviu uma gentil pergunta de um senhor que estava logo atrás na fila. Virou-se, olhou para os olhos dele e sentiu uma gratidão inexplicável:

– Desculpe, está faltando 50 centavos, o senhor pode me emprestar?

José Carlos

Ao ouvir a voz daquela senhora, lembrou-se imediatamente de sua esposa. Era inevitável. O som da voz era absolutamente o mesmo, apesar das características físicas não se assemelharem em quesito algum. Procurou na carteira e encontrou uma única moeda de 50 centavos. Sorriu ao entregar a moeda e questionou, em tom informal, se naquela noite ela iria cozinhar para a família.

Maria Helena

Pagou a conta do supermercado com a ajuda daquele senhor e percebeu de pronto a ligação ocasionada por olhares e palavras. Respondeu a pergunta emendando outra:

– Vou jantar sozinha, como faço todas as noites. E o senhor?

José Carlos

A frase da senhora lhe pareceu, de primeira, muito ousada. Ficou um tempo em silêncio e resolveu que deveria ir até o final daquele diálogo sem criar resistências. Pensou – lembrando-se do dia em que conheceu sua falecida esposa – que sonhos de uma noite marcam mais do que séculos de realidade:

– Eu também, janto todo o dia sozinho. Há 15 anos…

Maria Helena

Olhou novamente nos olhos daquele senhor e percebeu um marejar eterno de lágrimas nas pálpebras envelhecidas de seu rosto. Pensou sobre a loucura que estava por cometer, mas constatou que o infortúnio de passar pela vida em branco poderia ser corrigido a qualquer momento antes do prenúncio fatal de sua morte – sabia que só depois do fim é que não existiria mais retorno. Após 70 anos de indiferença, sua hora havia chegado.

– Jantemos juntos, então, oras. Reunimos o que o senhor comprou com o que eu comprei e teremos uma noite diferente de todas as outras…

José Carlos

Foi inevitável para ele pensar em outra coisa que não em sua esposa. Lembrou-se do último jantar que tiveram juntos e julgou aquela situação decisiva. O que responder? Refletiu e pensou que a vida é busca e aquele era o momento de se reencontrar. Como qualquer ser humano, valorizava o existir conforme os passos lentos da vida indicavam o abismo inevitável do desaparecer.

– Tudo bem. Vamos pra minha casa?

Maria Helena

O sorriso escapou-lhe quase como um arroto fora de hora. Percebeu ali a chance de enfim encontrar-se com alguém. Sabia que era aquele o homem destinado a lhe fazer feliz. Na premência da morte encontrava a vida que nunca fora vista. Afobada, quase desesperada de excitação e ansiosa pelo destino que lhe batia a porta, disparou sem pensar ou raciocinar:

– Depois do jantar, quer morrer em paz comigo?

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Faz anos que não compreendo o que ocorre quando perco os horizontes dos meus passos e, sozinho, sinto-me perdido nos descaminhos da vida. Fechado em meu leito, louco e desesperado, faço planos de perder-me ao futuro e sentir-me preso aos pesares que nunca antes atingiram meus sonhos juvenis. Adulto, tomo para mim o remédio da desilusão, a estupidez de me sentir frágil e fraco quando as penumbras das sombras dos meus antepassados me assombram para um destino que não escolhi. Perdido, sem direção e sem prumo, esforço-me para orientar-me na direção contrária ao caminho que não planejei e que não consigo evitar; ao passo que meus pés chafurdam em um mar de lama que forma aos poucos e sem pressa o abismo de meus dias.

Devagar – como devagar é a decadência de um homem que não pensa – sinto as horas e os minutos esvaírem-se em derrocadas de futilidades e emoções que não valem um centavo. Aprendo com os erros que os erros só existem por fazerem parte das direções que na verdade queremos e não sabemos desejar. Errar, como ser humano e ser pensante, é insistir no caminho que leva ao abismo, é ser atraído pela força desconhecida que nos impregna a alma e os sonhos de fantasias soturnas e nos levam de volta às nossas verdadeiras origens de homens da caverna. O erro é a prova inconteste de que o acerto não nos interessa por inteiro. Que só marchando em direção aos negros olhares profundos da escuridão encontramos as forças que nos impulsionam a sentir-nos vivos. A morte é um norte para a vida. A vida é um norte para a morte.

Cada erro é a prova de que o acerto não faz parte da natureza e nem interessa aos sentimentos profundos que nos orientam e nos entortam. Somos tortos por natureza. Endireitar-se é quase como querer que as ondas do mar não espumem nas areias das praias ou que as cores das flores se tornem cinzas e desbotadas. Todos os caminhos tomados, direcionados e mentalmente planejados, seguem dois fluxos de consciência. Quase sempre achamos que podemos escolher entre eles, mas na encruzilhada das trilhas que se avistam à frente somos puxados misteriosamente para o trajeto indesejado.

Duvida-se do caminho que não fora optado. Pensa-se sobre como o cenário final apresenta árvores secas e tortas, água suja e mal cheirosa, um céu de cor vermelha rubra e toda a miséria e pobreza que os olhos menos atentos vislumbram como a normalidade de uma vida que não é perfeita. Do outro lado, na trilha do caminho que ficou para trás, a dúvida. O que encontraríamos por ali? É preciso sempre duvidar do caminho para se ter a quase-certeza de que ele foi o melhor a ser escolhido. É preciso duvidar sempre das escolhas com o medo e a consciência de que, na maior parte das vezes, enganamos a nós mesmos. Duvidar sempre de si porque o que você é não está nem próximo de ser descoberto. Somos mistério. Somos todos mistério. Mistério que não é e nunca será desvendado por ninguém. Nem por Deus, nem por nós mesmos. Resta-nos pensar sobre quem somos e sobre tudo aquilo que não queremos ser. Resta-nos sempre duvidar de tudo e, principalmente, de nós mesmos. As certezas só existem para aqueles que não pensam.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

*Baseado em um diálogo real

Sentada na cadeira, contava histórias com a voz desgastada e oscilante. Atrapalhava-se em alguns devaneios, perdia o fio da meada, mas sempre retornava ao enredo com a memória fresca. As costas de suas mãos, enrugadas pelo tempo, movimentavam-se freneticamente enquanto ela narrava. Seus olhos, pequenos, quase fechados, permaneciam com uma umidade constante nos cantos, como uma lágrima prestes a ser formada e derramada. Vestia-se com um terno mostarda – incrivelmente moderno para seus 90 anos -, calçava uma sandália com tiras grossas e gabava-se de seus colares e pulseiras brilhantes.

Todos em volta da mesa prestavam atenção em cada minúcia de sua fala. Ali, compenetrada, contava seu fascínio perante o último suspiro da morte. Contava como seus pais morreram em seus braços e ela ouvira o mesmo e irremediável suspiro. “Precisa ver, o suspiro dos dois foi igualzinho”, repetia. Contava como fora duro testemunhar aqueles suspiros e como ela, a partir de então, passara a persegui-los. Tornara-se uma viciada. Era reconfortante estar presente no momento crucial.

Cada vez mais emocionada, narrava a vez em que passara por um acidente de moto e aproximara-se da vítima à beira da morte. Ficou próxima dele, pegou em suas mãos e ouviu mais uma vez aquele mesmo suspiro. Não importava se homem, mulher, voz grave ou aguda: o som, doce, era sempre o mesmo. Consolador, reconfortante, libertador. Certa vez, um vizinho solitário ficara muito doente. Fez questão de cuidar dele até o último momento.

Mas não era apenas ela quem perseguia o último suspiro. Ele também começou a persegui-la. Seu filho caíra de joelhos em seus pés após um ataque cardíaco. Sabia que o destino seria fatal, colocou o ouvido próximo dos lábios dele e ouviu mais uma vez aquele som encantador. Só depois sofria, e sofria muito, com todas aquelas perdas. Antes, porém, nada lhe importava: apenas o som etéreo e encantador. Perdera avós, pais, alguns filhos, primos, amigos. Ouvira o último suspiro de muitos e sentia-se privilegiada por isso.

Sua grande frustração era perder aquele momento. A irmã morrera sentada na cadeira de balanço, totalmente só, e demoraram horas para descobrir. “Morreu de velha, desligou”, lembra. Ela estava na cozinha, passando o café, e não ouviu o suspiro solitário da irmã. “Da mesma forma que nascemos e vivemos, morremos: sozinhos”. Hoje, a morte que mais a intriga é a dela mesma. “Será que ouvirei meu último suspiro?”.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

Cemitério
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Essa semana li e conversei muito sobre mortos, e essa é a foto que me veio em mente.

Renato Rocha publica suas fotos às quartas-feiras no Sete Doses e não pretente morrer tão cedo