“Viver alegre hoje é preciso // Conserva sempre o teu sorriso // Mesmo que a vida esteja feia // E que vivas na pinimba // Passando a pirão de areia.”

Noel Rosa foi o grande poeta musical do Brasil. Um jovem de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, uniu o samba do morro ao do asfalto, mudando para sempre a música popular brasileira.


 

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

Anúncios

Em cena, o embaixador do samba, criador das Escolas de Samba. Com vocês, o mestre Ismael Silva aqui no podcast do Grito.

Ismael Silva. Divulgação

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

 

Cada recuo de maré é um refugo do mar em ir adiante.

A vida de Aguiar seguia e desseguia assim. Todas suas relações, não só humanas, eram um bololô de valentia e covardia. Pareciam as ondas que agigantavam-se para depois desintegrarem-se em espumas.

Os ponteiros de seu relógio nunca saiam dos eixos. Era um lacaio da rotina, um servo da obediência pessoal. Acordava às 5h30 da manhã e caminhava até o banheiro. Lá, o ritual mesmava dia sim, dia sim. Um bocado de espuma de barbear no pincel espalhando-se por toda a cabeça e pelo rosto. Despelava-se inteiro, preservando apenas o vasto bigode, mais preto que piche.

Era um peso-pesado da retórica. Da mesma maneira que imaginava o que seria de um massagista sem tato, um fotógrafo sem visão, um chef de cozinha sem paladar, um cão farejador sem olfato e uma mulher sem sexto sentido, descabelava-se com a possibilidade de um dia perder a voz. O único ofício que sabia operar com destreza era o de provocar os outros, mas com uma peculiaridade indesejável: arregão como um bumerangue, esgrimava pessoas com palavras para testar seus limites. Quando elas retrucavam trovejando, Aguiar batia em retirada. Feito criança com cachorro bravo, atiçava e corria.

No trabalho, cutucava o chefe elogiando a concorrência de forma ostensiva. Quando o patrão ameaçava cortar seu salário e até mesmo a demiti-lo, o subalterno comportava-se como tal, faltando apenas desejar saúde ao superior caso ele pensasse em espirrar.

No botequim com os amigos que lhe aturavam, fanáticos por Noel Rosa, insultava a todos com ofensas banais contra a Unidos de Vila Isabel. Parecia disposto a sustentar sua opinião até as últimas consequências. Mas, não. Recuava quando os colegas começavam a pagar a conta contribuindo com valores abaixo da honestidade, ameaçando deixar Aguiar arcar com mais da metade da fatura astronômica do bar.

Em casa, impedia sua mulher de ver a novela só para ver a TV Senado, largava meias e cuecas por todos os cômodos e urinava pra fora da latrina. Só amansava quado a esposa coçava o dedo para convocar o sogro de Aguiar a aparecer com sua terrível carabina de sal grosso.

Até o dia em que acordou sem seu canhão de guerra, a voz. Achou que era apenas uma rouquidão avançada e resultado de uma noitada regada a cigarro e cervejas congelantes. Após vários dias recluso em casa, constatou que estava mudo. Para sempre. Saiu de casa direto para o médico. Com anotações em um papel, descreveu ao doutor o lodaçal em que se metera. Passaram-se dias de exames e análises, mas os médicos não diagnosticaram a razão para a mudez de Aguiar, e muito menos encontraram uma cura para seu silêncio involuntário.

Preso em seu quarto, evitava sair para que ninguém descobrisse seu mais novo mal. Agora não era mais só ele, suas palavras também transformaram-se em covardes. Sabia que quando desse as caras ao convívio social novamente, seria mais humilhado que time pequeno.

Pra não correr o risco de ser achincalhado em praça pública, foi à desforra por antecipação. Saiu ao encontro de todos que um dia ousaram lhe levantar a voz. Com uma navalha no bolso do jaquetão, Aguiar queria pares idênticos e calados. Com Palpite Infeliz, de Noel Rosa e Vadico, pulsando no iPod, arrancava a língua dos desafetos e as guardava em pequenos frascos com gelo. Em casa, postava-se diante do espelho e brincava de mímica com as línguas como se fosse uma matraca.

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses, e passa o aniversário sozinho no dia 3 de fevereiro, em silêncio



Um nobre pedido:

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

 

O cabaré da Rua Riachuelo estava lotado como sempre. Todas as noites, boêmios, sambistas e chorões desciam as escadarias do imenso salão do Clube dos Democráticos e atravessavam a rua para estender a conversa pela madrugada e ter um particular com as madames presentes. Nada descaradamente ostensivo. Mas naquela época o flerte já era uma instituição no bairro da Lapa.

A assiduidade dos frequentadores era tamanha que todos os homens conheciam de cor as mãos das mulheres, de tanto tateá-las nos cumprimentos e afagos diários. Há tempos a vida dos integrantes daquele círculo social já não era mais particular. Entre o burburinho de vozes exaltadas, o tilintar dos copos e a densa fumaça dos cigarros, cachimbos e charutos, cotovelos se apoiavam nos balcões devassando currículos com a propagação de fofocas.

Amelinha estava muito à frente dos pares do seu tempo. Era uma boêmia profissional. Incrível pensar que cinco anos depois, em novembro de 1941, Ataulpho Alves eternizaria o nome daquela dama como sinônimo de mulher prendada e exclusivamente dedicada ao lar, com Ai, que Saudade da Amélia.

Embora Amelinha e Noel fossem figurinhas carimbadas no ambiente, os dois nunca haviam se cruzado. Corria o boato de que o dia em que ambos se encontrassem existia o sério risco de aquele cabaré ser incendiado de tanta faísca que sairia do embate entre os dois tótemes da boemia. Com toda fama que carregavam no métier, um nunca havia ouvido falar do outro.

Numa noite daquele verão de 1936, porém, foi o coração de Noel que ardeu em chamas. Ao ver Amelinha transboradar seu charme com aquelas luvas negras, tragando sua piteira e entornando champagne, Noel tirou a verdadeira Dama do Cabaré para dançar um samba. Sob olhares ansiosos dos habitués, os dois confirmaram as previsões com um entrosamento inédito. Trocaram um tango por uma palestra, deixando o salão meia hora depois de descer a orquestra.

O que Noel não tinha de queixo, sobrava-lhe em galanteios e confiança. Dava por certo que conquistaria Amelinha. Atordoado pela resposta negativa que recebera após oferecer uma carona para seu mais novo alvo, escorou-se na lateral do carro e viu Amelinha partir para casa a pé. Não era mulher de se abrigar nas asas da soberba de um gavião daqueles.

Após a noite mais mal dormida de sua vida, Noel acordou no dia seguinte e tocou direto para os Arcos da Lapa. Desesperado, procurava sem resposta por aquela dama, que nem o nome havia revelado. Ao entardecer, diante dos amigos – traidores por não desvendarem a graça da moça – Noel sentia o baque da escolástica do sereno. Como criança, chorava ao ler as últimas palavras da carta enviada por Amelinha: “quem é da boemia usa e abusa da diplomacia, mas não gosta de ninguém”.

Dama do Cabaré

(Noel Rosa)

Foi num cabaré na Lapa
Que eu conheci você
Fumando cigarro,
Entornando champanhe no seu soirée

Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra
Só saímos de lá meia hora
Depois de descer a orquestra

Em frente à porta um bom carro nos esperava
Mas você se despediu e foi pra casa a pé
No outro dia lá nos Arcos eu andava
À procura da Dama do Cabaré

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que recebi, não me lembro de quem
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia
Mas não gosta de ninguém

Do botequim, Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses