Era quarta. Não, não era quarta, era quinta. Em pé, estancado na calçada, aguardava o ônibus com a impaciência de quem não tem tempo a perder. No asfalto quente, caminhões e carros rasgavam o silêncio. Distante, pensava em nada. Só aguardava. No momento em que o tédio ameaçou me abraçar, acendi um cigarro e passei a andar de um lado para o outro, observando meio sem atenção as pessoas que compartilhavam minha angústia de espera. Foi então que vi um casal.

Talvez tenha perdido o ônibus, pois me fixei de maneira obcecada na imagem daqueles dois, oferecendo as costas ao tráfego e me ensurdecendo diante daquela bonita cena. Tinham, sei lá, entre quinze e dezoito anos, jovens, com aquele brilho nos olhos que se apaga lentamente conforme são ultrapassados os obstáculos da vida. Beijavam-se com um gosto que me parecia desconhecido, abraçavam-se firmemente, uniam-se empolgadamente. Entre beijos, risos e abraços, pulavam, gargalhavam alto e chamavam a atenção. Eram únicos, eram belos, eram felizes como se ninguém mais tivesse o direito de sê-lo.

No dia seguinte, diante da mesma espera, do mesmo cigarro e do mesmo barulho de buzinas e motores, me vi diante da cena novamente. Ainda mais empolgados, ainda mais felizes, ainda mais fortes. O casal era incontrolavelmente feliz, perfeito, irretocável. Era um escândalo de alegria, daquelas que lhe fazem sentir inveja, que lhe fazem repensar nas cores que compõe sua vida. O momento mais alegre do meu dia era me deixar contagiar pela felicidade daquelas duas crianças que nem imaginavam o que de fato era o amor – melhor mesmo que não soubessem. E foi assim por meses, por quase um ano. Vivia cego e surdo pela felicidade dos dois. Vivia com mais intensidade aquela cena a qual nunca participaria do que o próprio transcorrer de meus dias.

Até que uma vez o casal demonstrou mais reserva e menos intimidade. Percebi que ela estava triste. Ele, com os braços envoltos no pescoço dela, a consolava com carinho tímido e com pequenos beijos na testa que não queriam dizer nada. Ela chorava, quase imperceptível, com vergonha de não estar feliz. Como todos os dias, despediram-se, dessa vez com muito menos entusiasmo. Ela subiu no ônibus e ele foi embora. Diferente de outros dias, ele não acompanhou os primeiros metros do veículo para vê-la mais uma vez, para abanar a mão e mandar beijos como num ensaio de adeus. Ela, sentada e amuada, continuava com as lágrimas. Ele, incomodado, saiu de cabeça baixa.

No outro dia, surpreendi-me ao ver apenas ela no ponto. Sozinha, totalmente murcha, esperando tediosamente, como eu, o ônibus que nunca chegava. Esperei, imaginei que o menino atrasara, mas nada aconteceu. Ela estava só, como eu, perdida a esperar por qualquer coisa. Com os olhos baixos, sem saber o que fazer com as mãos e sem condições de sequer ensaiar um sorriso. Naquela tarde, quente como o inferno, os carros voltaram a ter som, as buzinas e os motores voltaram a incomodar, a poluição voltou a invadir sem licença meus pulmões e os tons cinza da Marginal voltaram a me sufocar. Acendi um cigarro, pronto para esperar. A menina, com voz quase sumida, postou-se ao meu lado e pediu educadamente por um cigarro.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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Edgard conheceu Helena em um bingo beneficente da zona norte de São Paulo. Entre os gritos de êxtase das mesas vencedoras e o mudar constante dos números sorteados no telão, os olhares dos dois se cruzaram e não mais se separaram. A paixão instantânea transbordou na expressão de Edgard que, de súbito, não marcou na cartela os últimos três números ditados. Ficou com o olhar fixo naquela morena alta, com as pernas cruzadas e a saia pouco abaixo das virilhas. Helena era daquelas mulheres que gostavam de ser observadas e, conforme percebia a sede de Edgard, jogava os cabelos de um lado para o outro e balançava a ponta do pé direito, calçado por uma sandália de couro desgastada pelo tempo. Seus ombros largos e os seios fartos prenunciavam uma mulher de porte firme e saudável. Seu olhar era doce e sutil e seus lábios largos indicavam traços negros oriundos de antepassados remotos. Era, como a maioria dos amigos de Edgard afirmaria, uma potranca.

Mas Edgard era um homem distinto e amante dos bons costumes. Aprendera com a mãe os dogmas do catolicismo e a importância de se respeitar uma mulher. Seu maior desejo era encontrar uma esposa séria, casar-se, ter filhos e possuir duas escovas de dente no armário do banheiro. No momento em que fixara a imagem de Helena naquela saleta empoeirada de bingo, imaginara ali sua fidelíssima amada e não uma potranca, como a maioria dos homens do bairro a julgavam. Helena era a delicada flor que Edgard procurava há tempos; a mulher que lhe daria a única forma de felicidade que ele vislumbrava ser possível: só o amor poderia salvá-lo da vida monótona e vazia.

Edgard era vendedor de seguros de vida há quase dez anos. Batia na porta de clientes por toda a cidade e poucas vezes não era humilhado por senhoras de alto-cacife dos bairros nobres. Sempre muito educado, abaixava a cabeça, pedia desculpas e jurava não incomodar mais a clientela insatisfeita com sua presença. Não era bom vendedor, ganhava uma miséria e trabalhava o dia todo, com chuva, sol, frio ou calor. Seu emprego era apenas mais uma das coisas que não suportava em sua vida. A outra, e principal, era o fato de continuar morando com a mãe aos trinta e três anos; motivo, aliás, de piadas insistentes dos colegas casados da rua.

Edgard teve certeza de que isso mudaria quando percebeu que Helena retribuíra seus olhares sedentos. Obviamente, não pensou conscientemente em sexo naquele momento. Pensava de início na mulher de avental e bob´s no cabelo, cozinhando na beira do fogão e lhe espremendo as espinhas das costas nos momentos de relaxamento. Os pensamentos eróticos lhe passavam como pequenos fragmentos indesejáveis, que ele logo descartava. Queria apenas uma esposa dedicada e fiel.

Com sua calça de pregas marrom e a camisa azul-marinho desbotada, Edgard levantou-se da mesa de bingo em que estava e aproximou-se da cadeira de Helena. A moça lhe dirigia um olhar sufocante, quase indiscreto. Mas, para Edgard, os olhos da moça eram tão ternos que não transmitiam nenhum resquício de vulgaridade. Edgard, decidido e com a fala trôpega, disse:

– Você pode me acompanhar até a padaria da esquina, quero lhe pagar um sorvete de creme.

Em poucos minutos, sentados à mesa da padaria, o casal passou a alternar colheradas de sorvete com beijos tímidos e imprecisos. Helena, então, ameaçou colocar a língua dentro da boca de Edgard, que mantinha seus lábios cerrados e rígidos feito gelo. O ímpeto de Helena aumentava conforme seu parceiro esquivava-se. Até que logo atingiu seu intento. A ponta da língua úmida de Helena tocou vagarosamente os lábios de Edgard, que sentiu um ligeiro frio na espinha. Gostou, abraçou com maior vontade a companheira e passou as mãos entre as coxas da mais nova amada. Helena reagiu com êxtase e falou sussurrante no ouvido de Edgard:

– Vamô, Vamô… não tem ninguém em casa, meus pais saíram. Vamô.

Edgar se viu tentado como nunca e não reagiu de pronto ao convite. Poucos segundos depois, porém, tirou rapidamente a mão do meio das pernas de Helena e jogou o corpo com rapidez para trás. Helena, impetuosa, agarrou os cabelos que caíam sobre a nuca de Edgar e tornou a passar a língua entre seus lábios. Não satisfeita, passou a lamber de forma descontrolada o pescoço de sua vítima. Edgard se deu por vencido, levantou e implorou, apenas com um mero olhar, que Helena o levasse para onde ela desejasse.

Após sua primeira noite febril de amor, Edgard apaixonou-se como nunca antes imaginara. Acreditava que o amor era tão forte que não resistiu aos prazeres da carne. Na cabeça dele, consumara o matrimônio com Helena, ali mesmo, na cama dos sogros que ainda nem conhecia. Pediu a amada em casamento antes mesmo de ela acender um cigarro; ainda úmida pelo calor do sexo. O susto da moça só não foi maior que a idéia fixa de casamento do companheiro. Ou se casavam na igreja o mais rápido possível ou o romance estava acabado. Helena, sem saída e encantada com a potência demonstrada na cama pelo novo companheiro, aceitou a proposta de imediato.

No sábado seguinte, casaram-se na igreja do bairro sobre os olhares atentos e atônitos dos amigos, vizinhos e familiares. Edgard alugou um pequeno sobrado na mesma rua em que moravam seus pais e passou a andar orgulhoso e com as mãos devidamente entrelaçadas com a digníssima esposa. O casal logo passou a ser respeitado nas redondezas. Todos admiravam a paixão enternecida de Edgard e a dedicação de Helena em deixar os ternos de trabalho do marido sempre impecáveis. Os amigos pararam de caçoar do pobre vendedor e passaram a enxergá-lo como um exemplo de hombridade. “Dar conta de uma mulher de tamanho porte e envergadura não é pra qualquer um”, comentavam nas mesas dos botecos da esquina.

A lua de mel, porém, não durou mais de dois meses. Ignácio, amigo íntimo de Edgard na igreja, atentava o companheiro para o fogo em demasia demonstrado pela esposa:

– Fica esperto rapaz, sua mulher faz olhar de serpente pra qualquer homem.

Edgard pouco se importava e parou de falar com Ignácio. Outros lhe repetiam as mesmas palavras, trocando serpente por víbora e mulher por vadia. Edgard continuava surdo aos alertas e repetia que sua mulher era de total confiança. Uma esposa que levanta às sete da manhã para lhe fazer café, espreme-lhe as espinhas e massageia-lhe os pés não poderia ser infiel. Mas a sexta-feira seguinte provaria o contrário.

O pobre marido chegara em casa meia hora antes do normal. Resolvera desistir das últimas vendas sabendo que, como de praxe, não obteria sucesso. Entrou pela porta da frente, subiu devagar os degraus da escada e dirigiu-se para o quarto. Ali, em sua própria cama, Helena e Ignácio rolavam nus de uma ponta a outra, riam e brincavam; mordiscavam-se e lambiam-se numa dança patética e desenfreada. Edgard entrou, guardou seu casaco no armário e tossiu para ser notado. A mulher logo se cobriu e começou a tentar explicar algo. Ignácio, vestindo apenas um colar com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, pôs-se a chorar compulsivamente e berrar:

– Eu disse, eu disse que sua mulher fazia olhar de serpente para qualquer homem. É o capeta na terra, o capeta!!!

Edgard não disse nada. Saiu do quarto em estado de choque, tropeçando nos móveis da casa e com a expressão dura e decidida. Foi até o bar da esquina, bebeu pela primeira vez um copo de cachaça. Dois, três. Chegou à quarta dose já sem saber ao certo o que se passava. Comprou um maço de cigarros e perdeu toda a esperança da felicidade e a crença no amor.

Passados dois meses, ninguém mais reconhecia Edgard. Abandonou o grupo de orações da igreja, vivia com a barba cerrada, com as roupas desleixadas, com o bafo de pinga insuportável e fumava um cigarro atrás do outro. Passou a conquistar as mulheres com uma facilidade assombrosa e a usá-las como objetos vis e descartáveis. Helena, por sua vez, perdeu-se na dor do abandono e começou a freqüentar a igreja do bairro para provar ao ex-marido que endireitara de vez. Passava dias implorando pelo amor de Edgard e recitando-lhe trechos da bíblia sagrada. Certo dia, bêbado em demasia, o pobre coitado resolveu aceitar as juras da mulher e concordou em acompanhá-la até a casa dos pais. Em poucos minutos, estavam nus sobre a cama fazendo o sexo mais selvagem que se tem notícia. Edgard estapeava a mulher com toda a vontade, mordia-lhe os seios com raiva e gritava para o bairro todo ouvir:

– Eu te amo, minha potranca!!!

Helena, enfim, tinha o homem que queria e merecia.

André Toso homenageia Nelson Rodrigues aos domingos no Sete Doses

* Baseado em fatos reais

Ela, beleza natural, de all-star vermelho, cabelo moderninho, calça social justíssima e uma camisa toda colorida. Ele, japonês, calça social marrom, sapato fora de moda e camisa de seda que nem meu avô usa mais.

Ela de um lado do vagão do metrô, sentada e compenetrada em uma edição da revista Info, que trata em todas as suas páginas do nem sempre fascinante mundo da informática. Ele do outro lado, em pé e absorto nas páginas da mesma publicação. Os dois com os olhos fixos, liam no mesmo ritmo e com o mesmo sabor – era perceptível em suas expressões e nas maneiras com que devoravam as informações. Ambos calados, olhos baixos e pouca atenção ao redor.

Observei a cena com um olhar romântico quase infantil. Pensei comigo: e se esses dois se conhecessem? Passei a imaginar e conclui que um havia nascido para o outro. Ela preenchendo as lacunas e o libertando, ele oferecendo um mundo mais racional e sereno. Duas pessoas diferentes no modo de se vestir e pensar, mas, com certeza, ansiosas para conhecer personalidades complementares. Aquela revista Info não deixava dúvidas da ligação absoluta entre ele e ela.

As estações foram ficando para trás e meu desespero aumentava. Que injustiça, os dois precisam se conhecer, trocar palavras, um olhar já bastaria. O que fazer? Dou um jeito de interferir a leitura e apresentá-los? Não, me achariam um completo maluco. Como vou apresentar duas pessoas que nem sequer conheço ou sei os nomes?

A estação em que eu desceria estava próxima. O trem foi parando lentamente, minha angústia aumentava. Quando a campainha da porta já soava, sai do vagão. Olhei mais uma vez para os dois. Ela tinha parado de ler a revista, ele já a guardava na bolsa. Sim, após aqueles atos casuais, os dois se observariam e seriam tomados pela paixão mais avassaladora de suas vidas. Ele, tímido, ela, impulsiva. O vagão sumiu da minha vista. Abri um sorriso, sai pelas calçadas da Avenida Paulista e acreditei piamente em minha fantasia.

 André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Obs: baseado em fatos reais.

O olhar define tudo. Quando se olharam pela primeira vez sabiam naturalmente que o destino lhes reservava um beijo. Mal se conheciam, pouco conversaram. Mas a profundidade dos olhares acusava a falta de controle sobre essas coisas de paixão: o beijo era inevitável. O beijo, e é isso que faz dele fascinante, é o começo de tudo. Depois dele, nunca se sabe o que virá. E este incerto após tem o incrível poder de destruir todas as certezas e planos anteriores. O início foi que os dois se olharam: um beijo de verdade é dado primeiro com os olhos.

No momento do beijo foi como se o tempo se fragmentasse em infinitas partes, desaparecendo por completo de qualquer controle de consciência. Era como se o entorno se dissolvesse sobre seus pés e tudo se resumisse à tentativa inútil de se tornarem apenas um. Não se lembrariam de nada se não acordassem juntos, lado a lado, na mesma cama. Não se lembrariam de nada se não tivessem levado o beijo até as últimas conseqüências: naquela noite se uniram até o esgotamento de suas forças, até o tênue e perfeito limite entre o prazer e a dor. Acordaram. E foi ela quem resolveu quebrar o gelo:

–  Você foi a minha melhor foda do ano.

–    E você sabe que pode ficar melhor ainda… não é normal a primeira ser tão boa assim – ele respondeu, já acendendo um cigarro.

–    É, sempre melhora com o tempo… sempre. Mas meu analista diz que eu preciso de um cara estável. Pelo que ouvi falar você é o oposto disso.

–    Quer um administrador, com empreguinho de merda, que não consegue te dar um orgasmo?

–    Que tédio!

Após o diálogo, a cama tornara-se o único espaço em que se sentiam à vontade. Todos os atos ali não mudavam ou alteravam o rumo do mundo. Essa é a questão: o sexo apenas alterava o rumo da vida dos dois, nada mais. Em meio aos orgasmos, cochiladas, copos de água e conversas – algumas profundas, outras estúpidas – construíam suas vidas alheios ao que acontecia no mundo. O isolamento daquele dia não teve duração. Incontável, impalpável, inexistente… Na manhã seguinte:

–  Eu tenho medo de você!

–   Por quê?

–   Porque você não tem medo de nada… E isso confunde as mulheres.

–   Você está confusa?

–   Estou, mas foda-se. Vou querer trepar de novo com você.

–   Preciso trabalhar.

–   Quero dormir mais.

–   Tudo bem, fica aí, depois deixa a chave na portaria. Quer água?

–   Quero você!

Ele foi embora sem olhar para trás. Ela continuou deitada por dez minutos, a cabeça rodava, as pernas tremiam… O que é que tinha acontecido? Antes de sair, pegou caneta, papel e deixou um bilhete em cima da mesa:

Ways to say good bye

Ways to say thank you

Ways to say I love you

I don´t know what I want to say to you

I just wanted to say something…

Ele chegou em casa, leu o bilhete e percebeu que também começava a morrer de medo dela…

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

“I am human and I need to be loved

Just like everybody else does”

Morrissey


“A imaginação é o único campo em que um homem é realmente livre”

Domingos de Oliveira


“Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?

A igual probabilidade dos eventos impossíveis?

A eterna troca de tudo em tudo?

A única realidade absoluta?

Seres se traduzem.

Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.

Tudo irremediavelmente metamorfose!”

Paulo Leminski


Acordou com frio. Naquela época do ano, São Paulo era brutalmente gelada e descolorida, com contornos ainda mais acentuados do cinza tosco de seu desenvolvimento eficiente. A cama tornava-se, assim, o último refúgio agradável de mais uma manhã inevitável de segunda-feira. Desligou o despertador quatro vezes antes de tomar coragem e se desembrulhar do cobertor. Sentou-se na ponta da cama e observou, com olhar fixo e prestativo, seu pé direito repousado no piso frio do quarto. Os dedos, enrugados pela baixa temperatura, pálidos e magros, encolhiam-se e relaxavam-se mecanicamente. Continuou observando aquela parte de si e, por um segundo, sentiu que o membro não fazia parte de sua constituição física e humana. Simpatizou com aquele ser estranho e patético que nunca notara, fixou-se nos detalhes e, sem explicações racionais, apaixonou-se perdidamente pelo próprio pé.

Ciente do frio que fazia, apoiou-se no seu desprezado pé esquerdo e pulou em uma perna só em direção ao boxe do banheiro. Lavou seu pé direito com tamanho cuidado que se esqueceu das outras partes: toda sua atenção estava voltada para aquela mínima parte de seu corpo. Enxugou-o com paciência, passando uma das pontas da toalha em cada espaço que sobrava entre os dedos. Depois, o cobriu por inteiro: calcanhar, peito e sola revestidos por um manto sagrado de algodão.

Ao sair do banheiro, calçou uma meia preta tradicional no pé esquerdo – que ainda estava úmido e mal lavado – e resolveu vestir uma meia de seda branca no direito com o objetivo de diferenciá-lo de seu irmão renegado. Da mesma forma, colocou um sapato velho no pé esquerdo e um mais novo no direito: era necessário demonstrar e deixar claro seus sentimentos. Levantou-se e passou a fitar obcecadamente os movimentos precisos e a graciosidade do andar leve e malandreado de seu pé direito. Na outra extremidade, era como se seu pé esquerdo não mais existisse.

No trabalho, ninguém sequer notara que andava com sapatos diferentes e meias de cores contrárias. Sentou-se no computador e não conseguia concentrar-se. Ao olhar para o teclado, sentia-se impulsionado a recuar um pouco a cadeira e visualizar seu pé direito, elegante e confiante, muito bem trajado no sapato brilhante e nas meias de seda. Olhou para os lados, percebeu que ninguém o observava. Devagar, começou a tirar o sapato. Bem devagar. Primeiro apenas mostrando o calcanhar, depois deslizando o peito do pé lentamente para fora do calçado. Era a vez da meia. Tirou-a em câmera lenta, esfregando levemente seu pé direito no carpete do chão. Suas feições se transformaram em gozo no momento em que observou os cinco dedos despidos, simetricamente alinhados e com as unhas bem cortadas, movimentando-se para cima e para baixo. O que mais queria era sair dali e aproveitar cada segundo daquela noite gelada de segunda-feira.

Às seis horas em ponto, após passar a tarde toda paquerando seu próprio pé, deixou o trabalho e resolveu jantar em um restaurante para oficializar a união. Sozinho na mesa, não tocou na comida. A paixão violenta realmente tirara sua fome. Olhava para seu pé direito com tamanha devoção que o garçom veio lhe perguntar se estava tudo certo. Qual era o motivo de estar olhando tanto para baixo da mesa? Desistiu de obter a resposta ao perceber que o pé direito do cliente estava descalço e mergulhado em um prato de ravióli. Obcecado, o homem continuou indiferente a qualquer reação diante de sua mais nova e ousada relação. A paixão era tão arrebatadora que qualquer influência externa tornara-se inatingível: absurdo era o mundo, não seus sentimentos.

Ao chegar em casa, esquentou um pouco de água e repousou seu pé direito em uma espaçosa bacia rosa. Passou o restante da noite acariciando o peito de seu pé direito enquanto assistia – ou assistiam – aos acontecimentos do telejornal. Não ligou para as notícias; logo reparou em alguns pêlos excedentes no peito de seu pé direito e resolveu tirá-los, um por um, com o auxílio de uma pinça.

Na hora de dormir, lamentava a distância entre ele e seu pé direito. Passaram o dia todo juntos e agora, deitados, não podiam se aproximar. Antes de dormir, olhou para baixo, observou o pé repousando no colchão, inalcançável às suas mãos, e sorriu sinceramente. Na manhã seguinte, tão fria e cinzenta como a anterior, pulou da cama tão logo soou o primeiro toque do despertador.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses