O ar romântico e sincero desse poeta aqui no Podcast do Grito.


 

 

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

 

Serenata para Beth Carvalho

Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz


Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses

 

De destemperança faz-se uma vida. Como Ondino desconhecia rompantes, levava o viver como o mar. Avançava para depois recuar, dava-se para depois encolher-se por mera covardia. Entre o partir e o voltar, ficava dentro de si a palmilhar. Desancorava e soprava pessoas que se aproximavam com desapego incomum. Era andarilho sem sair do lugar. Era porto inseguro.

Fazia 36 anos que a rotina de Ondino não se alterava. Amava sua profissão. Exercia seu ofício de coveiro com devoção de brilha-olhos. Avesso à entrega, era um servo da morte. Como tapeava sua vida a enrolando como cambalhotas rocambolescas, achava justo que os outros, assim como ele, abraçassem o descanso final. Abominava seu Wilson das Neves e Mestre Marçal com aquela história de que “se a morte é um descanso eu prefiro viver é cansado”.

Valorizava mesmo o significado do termo peregrino, que dizia “aquele que caminha para desentortar os pés pecadores”. Era um peregrino da morte. Perambulava por entre as alamedas do cemitério diariamente por mais de oito horas. Carinhosa e respeitosamente, limpava a “caminha” daqueles que, sabedores da enganação que era a vida, haviam optado por conhecer a sombra e a luz do outro lado. Ondino apenas ensaiava sua partida e sabia que apenas flertar com a morte, como ele bem fazia, era para os frouxos.

Bi-viúvo, havia enterrado com pompa suas duas ex-mulheres: dona Maria Miquelina, que partira já com certa idade, e Dagmar, uma jovem voluptuosa, doze anos mais nova que ele. Havia jogado terra em cima de seus pais também, seu Juvêncio e dona Maristela, e sobre seu filho, Rubinho.

Como desconhecia outro coveiro tão ou mais comprometido com o abrir e fechar de tumbas como ele, Ondino remoía-se todos os dias só de pensar em quem o enterraria. Em um acordo velado com seu patrão, havia reservado um cantinho do cemitério para cavar e chafurdar no próprio abismo. Perdidamente apaixonado pelo escritor moçambicano Mia Couto, gelava de medo só em pensar que aquela história de tentar abrir uma sepultura e a terra intencionalmente se fechar poderia se repetir com ele.

Com o peito forrado de amarguras, finalmente Ondino conseguira bolar uma solução infalível. Todo dia de manhã, despejaria um banha-terra com o sal dos seus olhos para amaciar e afagar sua futura cama. Com a alma em redemoinho, ligava o radinho de pilha, dando voz ao saudoso e genial portelense Manacéa, sempre com os mesmo versos: “Ah, quantas lágrimas eu tenho tenho derramado, só em saber que não posso mais reviver o meu passado”.

 

 

Lucas Nobile escreve todas as sextas-feiras para o Sete Doses

Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses



Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses e sabe que estar a dever qualidade na produção dos mesmos (solução a caminho)



Fernando Macedo publica seu podcast às segundas-feiras para o Sete Doses